Skip to main content

Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

See other formats


wÈÊm 







'-''■KBK 



- HaHÍ 



111111 
wSSSm 



■■Kl 



■•■■■•".■■'■.■ 
■■PS 

. \ ••' - ir';- ■ . . 



&Hg^ 



•&m 



mm 



msmm 
HHHÉ 

wêBESè 






I 



gw 






/ò 



D A ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS, QUE OS PORTUGUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA, E DESCUBRIMENTO 

DAS TERRAS, E MARES DO ORIENTE. 

DÉCADA DUODÉCIMA 

PARTE ULTIMA. 




LISBOA 
Na Regia Officina Typografica. 

anno m.dcc.lxxxviii. 

Com Licença da Real Meza Cenforia , e Privilegio Real. 



U-ií 

•1 

17. 



ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contem 

NESTA PARTE ULTIMA 

DA DÉCADA XII. 



LIVRO I. 

CAP. I. De como o Conde Almirante 
D. Francifco da Gama foi eleito 
pêra Vifo-Rey da índia : e da Ar- 
mada com que par tio a dez de Abril do 
anno 1596. e do que lhe aconteceo até 
chegar a Mombaça. Pag. 1. 

CAP. II. Do que o Conde fez na Fortale- 
za de Mombaça : e das coufas que orde- 
nou até fe partir pêra a índia. 9. 

CAP. III. Das coufas que o Conde Almi- 
rante proveo , depois de tomar pojfe da 
governança da Índia. 16* 

CÀP. IV. De como hum Capitão do Grão 
Mogor , chamado Manacinga Gentio , foi 
contra os Patanes 5 e os desbaratou , e 
ganhou o Reyno de Orixá ? e Benga- 
la-, e da deferipção da jornada que fez. 
24. 

CAP. V. De como o Manacinga fe apode- 
rou dos Reynos de Patane , e Orixá : e 
dosprincipaes braços com que o rioGan- 



Índice 

ge Ce efpalhou por todos aquelles Rey nos i 
e das Gangas que nelle ha, 33. 

CAP. VI. Do que fuccedeo na conquijia da 
Ilha Ceilão ejle verão: e das grandes vi- 
torias que os nojf os alcançaram do Tyr an- 
no D. João , que fe intitulava Rey de 
Candea : e da morte de EIRey da Cota 
D. João Perea Pandar : e de como dei- 
xou nomeado por herdeiro do feu Rey no 
a EIRey de Portugal , que logo foi jura- 
do por ejfe. 39. 

CAP. VIL Das eleições que o Conde Al- 
mirante fez de Capitães : e das Arma- 
das que ordenou : e das novas que lhe vie- 
ram de Moçambique , de como eram paf- 
fadas pêra a índia duas nãos Hollande- 
zas : e do que fobre ijjo fez : e da Arma- 
da que veio do Rey no , de que era Capi- 
tão Mor D. Ajfonfo de Noronha : toca- 
Je a caufa das diferenças que houve en- 
tre o Conde > e Matinas de Albuquerque. 

47- 

CAP. VIIT. Como Gonfalo de Tavares , Capi- 
tão de Dio , mandou Simão de Abreu com 
dous navios á cofia de Cache : e do encon- 
tro que teve com oito Paraos de Mala- 
vares , onde os nojf os foram mortos 5 e des- 
baratadas : e das mais coufas em que o 
( 'onde Almirante proveo. 5 8. 

CAP. IX. Do que fuccedeo d Armada do 

Ma- 



dos Capítulos. 

Malavar : e do que o Capitão Geral tra- 
tou com EIRey de Cananor , e Çamorim y 
de que avifou ao Conde : e do que f obre 
ijfo ajfentou em Confelho : e de como a 
não , em que Mathias de Albuquerque ha- 
via de ir , fe queimou na barra de Co- 
chim. 66. 

CAP. X. Do que fuccedeo d Armada do Nor- 
te: e do encontro que teve com alguns Fa- 
raós de Malavares que tomou , e desba- 
ratou: e do que mais fuccedeo á Armada 
do Ma lavar até fe recolher. 75-. 

CAP. XI. De como o Conde Vifo-Rey rece- 
beo hum Embaixador que o Xá lhe man- 
dou , e apparato com que foi recebido. 86. 

CAP. XII. Do que acontece o as nãos Hol- 
landezas na derrota até Bengala : e af- 
Jirn do que fuccedeo a Lourenço de Bri- 
to , e d Armada , em que o Conde Vifo- 
Rey o mandou a Malaca. 89. 

CAP. XIII. Das c ou f as quenejie verão fuc- 
cedêram na Ilha de Ceilão : e da grande 
vitoria que os noffos alcançaram de EI- 
Rey de Uva : e dos Capitães do Tyranno 
de Candea D. João. 94. 

CAP. XIV. De outra grande vitoria que 
os nojfos alcançaram em Ceilão. 10 1. 

CAP. XV. De como os Vereadores de Goa 
puzeram na Camará delia o retrato do 
Conde Almirante D. Vafco da Gama y 

que 



Índice 

que defcubrio a índia : e da Oração que 

fiz aquelle dia em feu louvor a rogo da. 

Cidade. in. 

CAP. XVI. De como as nãos Hollandezas , 
que andavam pela cofia de Malaca j pe- 
leijdram com as náos que hiam daquella 
Fortaleza pêra a índia : e do fim que ef- 
tas nãos tiveram , e de outras coufas. 
121. 

CAP. XVII. Do que fez D. Luiz da Ga- 
ma no Malavar o rejlo do verão : e de co- 
mo D. Diogo Coutinho Capitão Mor do 
Cabo Çamorim recolheo as náos da Chi- 
na , e levou a Goa : e dos Capitães que o 
Conde dejpachou pêra fora : e do que pro- 
veo fobre a feira de Cantão na China. 
12Ó. 

CAP. XVIIL Das razoes que o C^amorim 
teve pêra fazer guerra ao Cunhale : e das 
preparações que pêra ijfo fez : e das Ar- 
madas que o Conde ordenou : e do que fuc- 
cedeo a D. Fernando de 'Noronha , efian- 
do em Cananor : e das intelligencias que 
teve com o Clamor im fobre o que queria 
fazer ao Cunhale : e da defcripção da 
cofia do Malavar de Cananor até Cochim : 
e do fitio da Fortaleza do Cunhale. 132. 

CAP. XIX. De como o Bifpo da China D. 

Luiz de Sir queira , da Companhia de Je- 

fus y e o Padre Alexandre de Valignano 



dos Capítulos. 

foram a Japão : e de como aquelle Em- 
per a dor falece o : e do que lhe fuccedeo por 
fua morte. - 145'. 

LIVRO II. 

CAP. I. De como efe anno de noventa e 
oito não partiram nãos do Reyno : e 
do Forte que o Conde Almirante ordenou 
fobre a barra de Goa : e do que proveo 
fobre o governo do Reyno de Ormuz. 157. 

CAP. II. Das Armadas que o Conde Almi- 
rante defpachou pêra fora : e do que fuc- 
ceãeo a D. Fernando de Noronha na bar- 
ra de Cunhale , e a Sebafião Botelho, 
Capitão dos Sanguiceis , na cofia do Nor- 
te : e de como D. Álvaro de Abranches 
foi entrar nas Fortalezas de Çofala , e 
Moçambique. 163. 

CAP. III. De como o Arcebifpo D. Fr. Alei- 
xo de Menezçs , da Ordem do Padre San- 
to Agofiinho , par tio de Goa pêra ir vi- 
fitar os Chrifiãos das ferras do Ma la- 
var : e do que fez na barra do Cunhale : 
e do ajfento que tomou com o Capitão 
Mor 3 e mais Capitães fobre o ?nodo de 
como fe commetteria aquella Fortaleza. 
171. 

CAP. IV. Do que o Arcebifpo fez em Co- 
chim com aquelle Rey : e do foccorro que 

aquel- 



Índice 

aquella Cidade mandou a D. Luiz da 
Gama. 179. 

CAP. V. Do confelho que o Capitão Mor 
tomou fobre o modo de como fe commet- 
teria a Fortaleza : e das preparações que 
pêra i/f o fez : e de como alguns Fidal- 
gos feus amigos lhe fizer ão mudar o pa- 
recer. 186. 

CAP. VI. De hum maravilhofo final que 
appareceo no Ceo : e de como os nojfos 
commettêram a defembarcação : e de co- 
mo Luiz da Silva foi morto ao chegar 
da terra. 193. 

CAP. VIL Do que fuccedeo aos que defem- 
barcáram em Cunhale : e de alguns cafos 
notáveis que alli pajfdram até fe desba- 
ratarem por fi mefmos. 204. 

CAP. VIII. Da gente que de ambas as par- 
tes morreo nefia defembarcação : e de co- 
mo o Capitão Mor fe foi pêra Cochim , e 
deixou D. Fr an cif co de Soufa fobre a bar- 
ra de Cunhale. 218. 

CAP. IX. Do que aconteceo a D. Francif 
co de Soufa fobre Cunhale : e de como 
chegaram a Goa as novas defia perdição : 
e do que fez o Conde Almirante. 227. 

CAP. X. Do contrato das pazes que fe fi- 
zeram com o Camorim : e do que fucce- 
deo a D. Fernando de Noronha fobre Cu- 
nhale y e D. Luiz da Gama chegou a 

Goa: 



dos Capítulos. 

Goa : e dos provimentos que o Conde man- 
dou a Maluco , e Embaixadores do Achem 
que defp achou. 236. 

ÇAP XI. De huma fragata de Hefpanhoes 
de Manilha , que foi ter d China pêra 
ajfentar pazes com os Chins , e fazer fei- 
toria em hum de feus portos : e do que 
D. Paulo de Portugal fobre ijjo fez. 243. 

L I V R O III. 

CAP. I. Do que nefte verão aconteceu 
na conquijla da Ilha Ceilão : e das 
vitorias que os nojjos alcançaram do Ty- 
ranno de Candea : e dafermofa tranquei- 
ra que D.Jeronymo mandou fazer no lu- 
gar de Manter avaré. 25'L 

CAP, II. De huma alteração que houve en- 
tre os foldados da conquijla fobre fuás 
pagas : e dofoccorro que o Conde lhe man- 
dou por D. Francifco de Noronha : e do 
que lhe fuecedeo na viagem. 257. 

CAP. III. De outras vitorias que os 7io]fos 
alcançaram em Ceilão em diferentes par- 
tes. 264. 

CAP. IV. Das razoes que moveram ao Ar- 
cebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes a ir 
vifltar os Chrijlãos de S. Thomé : e de 
huma breve relação das coufas defie San- 
to Apoftolo. 270. 

CAP. 



Índice 

CAP. V. T>as coufas que mais aconteceram 
a ejies Chriftãos : e dos Prelados que ti- 
veram até ejie tempo : e dos Rey nos' em 
que hoje moram. 281. 

CAP. VI. Dos erros em que viviam ejles 
Chriftãos : e de como o Arcebifpo D. Fr. 
Aleixo de Menezes os reduzia d obediên- 
cia da Santa Igreja Romana : e do Sy- 
nodo Diocefano que celebrou , em que ti- 
rou muitos erros , e abufos. 298. 

CAP. VII. De como EIRey de Portugal 
mandou paffar Carta de Irmão em Ar- 
mas a EIRey da Gundra , que lhe o Ar- 
cebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes paffou , 
conforme á ordem que lhe deo o Conde Al- 
mirante Vifo-Rey : e das obrigações que 
lhe poz : e de como renunciou feus Rey- 
nos nas mãos do Arcebifpo , que lha ac- 
ceitou em nome do Conde Vif^o-Rey. 305'. 

CAP. VIU. Da Fortaleza que o Rey de 
Travancor foi alevantando com dijfimu- 
laçao : e do que paffou em humas viftas 
que teve com o Arcebifpo D. Fr. Aleixo 
de Menezes. 317. 

CAP. IX. De como o Arcebifpo D. Fr. Alei- 
xo de Menezes fe paffou a Cochim , e en- 
tregou o governo do Rey no da Gundra a 
EIRey de Porca : e dos contratos que com 
e He fez. 324. 

CAP. X. Das Armadas que partiram do 

Rey- 



dos Capítulos. 

Reyno ejie anno cie 15:99. : dos Capitães 
que o Conde defp achou pêra fora : e de 
outras coufas em que proveo. 330. 

CAP. XI. Do que aconteceo a D. Fernando 
de Noronha f obre Cunha le : e de como o 
Arcebifpo fe vio com o Camorim : e das 
coufas que paffdram. 338. 

LIVRO IV. 

CAP. I. De como André Furtado de 
Mendoça chegou d barra de Cunha- 
le , e fe vio com o C^amorim: e das cou- 
fas em que ajfentdram. 348. 

CAP. II. Das capitulações que o Capitão 
Mor fez com o C^amorim : e dos reféns 
que lhe entregou : e dos foccorros que lhe 
chegaram de Goa. 3 J 7. 

CAP. III. Do confelho que o Conde tomou 
fobre ir a Cunhale ? em que foi contra- 
riado : e dofoccorro que mandou , e mais 
coufas que paffdram. 363. 

CAP. IV. De como o Çamorim tratou de 
ir a huma fefta chamada Mamanga : e 
donde ejia fefta teve origem. 373. 

CAP. V. Das coufas , em que o Capitão 
Mor proveo pêra dar principio aofitiar 
aquella Fortaleza. 379, 

CAP. VI. Do que mais fuçcedeo nas tran- 
queiras : e dos fortes que o Capitão Mor 

man- 



Índice 

mandou fazer : e de como ganhou as tran- 
queiras , e povoação. 385'. 

CAP. VIL De como o Capitão Mar pran- 
tou fua artilberia fobre a Fortaleza : e 
das def confianças que houve da parte do 
C,amorim. 39 o. 

CAP. VIII. De como o Cunhale fe entre- 
gou ao Çamorim : e de outras coujas que 
fuccedêram. 40 3 . 

CAP. IX. Do que mais paffou o Capitão 
Mor André Furtado de Mendoça com o 
Çamorim , e fe partio pêra Goa : e do 
que lhe fuccedeo com o Conde Almiran- 
te Vifo-Key. 412. 

CAP. X. Da procifsão que o Conde fez em 
fazimento de graças a Deos nojfo Senhor 
pela vitoria que alcançou do Cunhale. 
421. 

CAP. XI. De como foram fent enteados por 
jujliça o Cunhale Marca , eChinale. 423. 

CAP. XII. Do que fuccedeo em todo efle ve- 
rão â Armada do Norte : e das coujas 
cm que o Conde Vifo-Key provêo : e Ar- 
madas que foram pêra fora : e das pa- 
zes que concedeo ao Rey de Travancor. 
426. 

CAP. XIII. Dos Capitães , e foccorros que 
o Conde Almirante mandou per a fora : 
e do que fuccedieo a D. Jeronymo Couti- 
nho, e ásndos de fua companhia comaU 

gu- 



dos Capítulos. 

gumas nãos Hollandezas na Ilha de Santa 
Hellena. 433. 

livro v. 

CAP. I. Das coufas que efle anno fuc- 
ccàêram em Ceilão : e das vitorias 
que os nojfos alcançaram , e tranqueiras 
que fizeram contra os inimigos. 442. 

CAP. II. De hunia não Hollandeza , que foi 
ter ás Ilhas de Japão : e da derrota que 
levou , e do que lhe fuccedeo: e de huns 
coffairos Japões , que foram ter ás Fi- 
lippinas. 447 . 

CAP. III. Do principio do Reyno Pegú , e 
dos Reys que teve : e dos revezes que a 
fortuna lhe deo. 454. 

CAP. IV. Da grande riqueza , e potencia 
dejle Reyno , è defte Rey Brama Talanha 
Ginoco , que conquijlou efle Reyno Pegú. 
464. 

CAP. V. Do cruel , e miferavel fim que te- 
ve efle Reyno de Pegú no anno de mil e 
feiscentos em que andamos. 473. 

CAP. VI. De quem era o Príncipe de Aba- 
daxam , que efle anno defeiscentos fefez 
Chrifião , e veio ter a ejla Cidade de Goa. 

483. 

CAP. VII. Que trata da parte a que jaz 
efle Reyno Abaâaxam ; e da defcripção 

def 



Índice dos Capítulos. 

ãejla Província de Laor até ejla Cida- 
de , e delia até o Cathayo : e de como ef- 
ta Provinda não he a China , como al- 
guns cuidaram : e a que parte jaz. 492. 

CAP. VIII. Da Armada que o Conde Al- 
mirante mandou a Malaca , e foccorro 
a Ceilão : e das náos do Reyno , que che- 
garam a Goa da companhia de Ayres de 
Saldanha , que era partido por Vifo-Rey 
da índia : e de como D. Pedro Manoel 
foi por Capitão Mor ao Malavar , e do 
que lhe fuccedeo. 505. 

CAP. IX. Do que Juccedeo na viagem ao 
galeão de Luiz Boto Machado: e de co- 
vão os Embaixadores do Achem foram pê- 
ra fua terra : e de como aquelle Rey man- 
dou matar os Hollandezes , que andavam 
em terra , de duas náos que alli ejlavam : 
e do que fuccedeo a eftas náos. 5 12. 



DE- 



Pd 



g-1 



<<! | © * #* © I #^ t ® *i § ® i » 

<jj ######*##### #*######$##* jj> 
^^^^^^^^ =^= ^^^^^^^^ 

DÉCADA DUODÉCIMA 

Da Hiftoria da índia* 

LIVRO l 



CAPITULO L 

De como o Conde Almirante D. Francifco 

da Gama foi eleito peva Kifo-Rey da 

índia : e da Armada com que par- 

tio a dez de Abril do &nno 15 96. 

e do que lhe aconteceo até 

chegar a Mombaça. 




O principio do anno de no- 
venta e íinco tratou EIRey 
de mandar íuccefíbr a Ma- 
thias de Alboquerque , que 
havia féis annos governava a 
índia \ pêra iílo nomeou em fegredo ao 
Conde de Linhares D. Fernando de No- 
Couto. Tom. ult. A ro- 



3 A S I A de Diogo de Couto 

ronha , fazendo-lhe muitas , e mui avanta- 
jadas mercês , que por adoecer fe não de- 
clarou a fua eleição , nem o tempo deo 
lugar pêra fe tratar de outra peflba , por 
fer junto á partida das náos , e por S. Ma- 
geílade atalhar a outro femelhante incon- 
veniente. 

Paliada a Pafcoa , mandou EIRey aos 
Governadores do Reyno que logo lhe fi- 
zeílem confulta de pelfoas pêra efte cargo, 
que por ventura defpacharia em Outubro. 
Em refpofta defta confulta nomeou em fe- 
gredo no principio de Julho o Conde da 
Vidigueira. ( coufa até hoje nunca vifta 
nefte cafo) Mas eíteve a eleição em fe- 
gredo até o fim de Agoílo , em que fe 
publicou com a vinda das náos , que por 
trazerem boas novas do Eftado da índia , 
elcufou EIRey mandar em Setembro. Mas 
mandou aos Governadores que o Conde 
Almirante affiftiffe com elles no Governo, 
quando íe trataílem matérias da índia, 
aflim do eftado , como de defpachos , até 
fe o Conde embarcar em dez de Abril do 
anno de noventa e íeis , e affim fe fez por 
concorrerem neíle as partes que EIRey 
queria tiveíTe quem havia de governar 
aquelle Eftado, que feu Bifavô tinha def- 
cuberto , que por tal trabalharia o Conde 
pelo dilatar , íiiílentar , e governar com 

dif- 



Década XII. Cap. I. 3 

differentes , e avantajadas obrigações de 
outros. 

Eha-fe de conííderar aqui huma coufa, 
que deite appellido dos Gamas , e deita 
cala de Vidigueira por linha direita foi 
efte o terceiro que governou a índia \ cou- 
fa que em nenhum outro appellido do 
Reyno aconteceo. Porque o primeiro foi 
feu bilavô que o defcubrio ; o fegundo 
feu filho ; fegundo D. Eftevão da Gama ; e 
o terceiro efte Conde Vifo-Rey , que te- 
mos entre mãos , herdeiro da cafa do ap- 
pellido , e ainda do titulo. E não fora 
muito fora de razão que efte Governo não 
fahíra defta geração , pois a ella (e ao 
grande Afonfo de Alboquerque ) podemos 
dizer que fe deve efta conquiíla , pelos 
muitos , e bons Capitães que fempre nella 
houve. Mas porque era também neceíTario 
partir com todos, os que ajudaram a con- 
quiftar , fe interpolou ifto ; porém conce- 
deo-fe-lhe logo, ao que defcubrio efte Ef- 
tado , e a todos os feus fucceffores , o titulo 
de Conde , que foi o primeiro , e até ago- 
ra o derradeiro , que fe alcançou pelos 
ferviços da índia. Porque fe fe concedeo 
a D. Luiz de Ataíde Conde de Atoiiguia , 
e a D. Francifco Maícarenhas Conde de 
Santa Cruz, foi porque aquelle era Senhor 
da cafa da Atouguia , e herdeiro delia , e 
A ii vi- 



4 A S I A de Diogo de Couto 

vinha fegunda vez á índia a fervir ; e o 
outro com declaração > que não ufaria do 
titulo de Conde, fenao depois que EIRey 
foííe jurado por Rey nella. 

Em fim foi eleito o Conde Almirante 
pêra Vifo-Rey da índia de idade de trinta 
e hum annos , havendo pouco que viuvara 
de huma filha de D. Duarte de Menezes > 
Senhor da cafa de Tarouca , de quem lhe 
ficaram hum filho , e huma filha , que dei- 
xou entregues á Condeffa íua mãi , que 
eftava recolhida no Moíleiro das freiras da 
Caftanheira. Pêra efta jornada fe lhe apref- 
táram finco náos ; e tanto que foi nomea- 
do , logo affiftio a todos os Confelhos , 
porque fabia EIRey que tinha o Conde 
talento pêra dar nelles muito bom parecer. 
E como teve o tempo largo , foi fazendo 
feus negócios muito á fua vontade ; e das 
coufas que apontou 5 todas , ou quaíi todas 
fe lhe concederão. E pofto que fe deo 
muita prefira á Armada , não fe pode fazer 
á vela fenão quarta feira de Trevas 5 que 
foi a dez de Abril deite anno de i^ó. 
com que continuamos. O Conde Almiran- 
te fe embarcou na náo N. Senhora de Gua- 
dalupe , de que veio por Capitão feu ir- 
mão D. Luiz da Gama , defpachado com a 
Capitania de Ormuz pelos ferviços que já 
na índia tinha feitos. As mais náos eram 

a 



Década XII. Cap. I. # 5- 

a Conceição , em que vinha João Gomes 
da Silva , Capitão IVlór das náos. Da náo 
N. Senhora do Vencimento era Capitão 
Pêro Tavares , provido com a Capitania de 
Dio , e da náo S. Francifco era Capitão 
Vafco d^Afonfeca Coutinho. 

Com o Conde , e por toda a fua Ar- 
mada vinham embarcados muitos Fidalgos , 
aílim defpachados , como outros que hiam 
a merecer : e os que nos lembrão são os 
feguintes : Lourenço de Brito , que hia def- 
pachado com a Capitania de Sofala , e 
Moçambique ? que já íervio por algum 
tempo , e foi delápoííado , e mandado pê- 
ra o Reyno por algumas culpas 5 onde fe 
livrou , e EIRey o defpachou com três 
annos da mefma Fortaleza por encheio. 
Diogo Moniz Barreto , filho de António 
Moniz Barreto , que foi Governador da 
índia , defpachado com a Fortaleza de 
Ormuz , que feu pai tinha. Goterre de Mon- 
roi de Beja , e D. Luiz Lobo providos 
ambos da Fortaleza de Dio. D. Paulo de 
Portugal , filho de D. Francifco de Portu- 
gal , Eftribeiro Mor de EIRey D. Sebaftião. 
D. Fernando , e D. Chriílovão de Noro- 
nha , filhos de D. Pedro de Noronha, Se- 
nhor de Viilaverde , primos com irmãos 
do Conde Almirante. D. António de Caf- 
tro , filho de D. Pedro de Caílro. D. Ber~ 

nar^ 



6 * A S I A de Diogo de Couto 

nardo de Noronha , filho de D. Tomás 
de Noronha. D. Álvaro da Coita , filho de 
D. João da Coíta , Capitão que foi da For- 
taleza de Malaca. D. Pedro de Noronha , 
filho de D. Aífbníb de Noronha. D. João 
de Menezes , filho de D. Duarte de Mene- 
zes. D. Jeronymo de Noronha , filho de 
D. António de Menezes. D.João Tello de 
Menezes , filho do Alferes Mor D.Jorge 
de Menezes. D. Lopo , e D. Duarte Henri- 
ques , fiihos de D. Garcia Henriques. Lou- 
renço Guedes 5 filho de Pêro Guedes , Vea- 
dor da fazenda. Diogo Botelho , filho de 
Manoel Botelho. Jeronymo Telles Barre- 
to , filho de Manoel Telles Barreto , que 
foi Governador do Brazil. Mem Rodrigues 
de Vafconcellos d 5 Elvas. João da Gama de 
Vafconcellos d 5 Elvas. D. Lopo d 5 Almei- 
da , filho de D. António , Veador que foi 
da Rainha D. Catharina. O Doutor Pêro 
da Silva i que vinha por Chancelier da Re- 
lação de Goa. João d 5 Abreu por Secreta- 
rio. Júlio Simões por Engenheiro Mor; e 
outros muitos Cavalleiros honrados. 

E feguindo efta Armada fua viagem, 
foi em conferva até á coíta de Guiné, on- 
de acharam tão grandes calmarias , que a 
detiveram muitos dias , e com algumas 
trovoadas que lhe deram fe apartaram* 
E porque das quatro de fua companhia 

dé- 



Década XII. Cap. I. 7 

demos já razão no fim da onzena Década , 
nao trataremos delias, porque alli feverá» 
Só continuaremos com a do Conde Almi- 
rante , que deixámos na coita de Guiné 
ás voltas com as calmarias , e com as tro- 
voadas. E tanto que lhe entrou o tempo, 
foi Jeguindo íua viagem com os geraes , e 
paliou o Cabo de Boa Efperança aos dous 
dias do mez de Agoílo ; e teve tão bom 
tempo , que aos vinte e fete chegou ás 
Ilhas de Angoxa , e por ellas andou até 
fete de Setembro , que chegou a Moçam- 
bique , onde fe deteve fó vinte e quatro 
horas , em quanto fe via com o Capitão , 
que era Nuno da Cunfya , com quem aífen- 
tou profeguiíTe na obra que faltava á For- 
taleza. E dalli fe Fez- a vela ao outro dia, 
e Foi feguindo fua viagem até dez gráos 
e meio da parte do Norte, fendo já vinte 
e nove de Setembro , levando ainda o vento 
ponente taò rijo , que pareceo ao Piloto 
que andara aquelle dia trinta léguas ; mas 
enganou-fe , porque as correntes das aguas 
eram naquella paragem contra a náo ta- 
manhas , que defandou perto de quarenta ; 
porque ao outro dia tornando o Sol , fe 
achou o Piloto em fete gráos. E com eftas 
aguagens andou ora accrefcentando , ora 
diminuindo até vinte de Outubro, que ti- 
veram viíla da Ilha Sacotorá , que traba- 
lha- 



8 ÁSIA de Diogo de Couto 

lháram por tomar ; mas não pode fcr 
pelo vento fer Noroefte , que os obri- 
gou a arribarem , e irem pela coita a- 
baixo. 

Com aquelle vento governaram quatro 
dias , e aos finco fe tornou ao Suduefte , 
que também durou pouco, e ficou calma, 
e logo começou a ventar o Ponente. Mas 
era tão grande a força das aguas , que ti- 
ravam ao Sul , que cauíava efpanto , pelo 
que furgíram huma noite , e logo fe tor- 
naram a levar , e governar huma quarta 
mais largo do rumo , a que corriam por 
fe affaftarem da terra \ e no fim de quator- 
ze dias fe acharam á vrfta delia no lugar 
de Quitindini doze léguas da Cidade Am- 
paza , onde furgíram, O Conde mandou 
recado a terra ; e fabendo^fe delle , acudi- 
ram logo á náo os principaes da Cidade , 
e das de Patê , e Lamo , que o Conde re- 
cebeo com grande demonftraçao 3 e aparato 
por fer naturalmente aparatofo , e alli ra- 
tificaram em fuás mãos as homenagens , que 
tinham dado de vaílalíos de EIRey de 
Portugal , e o Conde os compoz , e fez 
amidos com os Mercadores Portusaiezes 
da coíla de Melinde com quem tinham 
havido algumas paixões \ porque eíte géne- 
ro de mercadores aonde chega, fempre ou 
quafi fempre efeandaliza. Alli fizeram 

a- 



Década XII. Cap. I. 9 

aguada, que he bem ruim a agua que alli 
ha, e tão doce, que parece xarope, 

E deixando o Conde provido em mui- 
tas coufas , conforme á brevidade do tem- 
po , fe fez á vela pêra a Forteleza de 
Mombaça , aonde chegou a quatro de De- 
zembro , e foi bem recebido de António 
Godinho de Andrade Capitão delia; e por 
fer já paílada a monção pêra a índia , 
defembarcou o Conde em terra , onde af- 
fentou de eiperar até fer tempo de tornar 
á fua viagem. 

CAPITULO II. 

Do que o Conde fez na Fortaleza âe Mom- 
baça : e das coufas que ordenou até fe 
partir pêra a Índia. 

VEndo o Conde Almirante que efta- 
va alli devagar , tratou de algumas 
coufas neceífarias a fortificação daquella 
Fortaleza. E porque hum poço de agua ? 
de que todos bebiam , eílava cento e íin- 
coenta paíTos da Fortaleza , mandou-lhe 
fazer hum caminho encuberto até elle 2 
porque em algum tempo de aperto lho 
não pudeílem tomar. Aqui veio EIRey de 
Melinde, que he diítancia de doze léguas > 
ao viíitar , a quem o Conde fez muito 

gran~ 



io ÁSIA de Diogo de Couto 

grandes gazalhados pelas obrigações em 
que o Eítado da índia lhe eílava , e elle 
Conde por fua parte mais 5 pelos muitos 
que EIRey feu Avô fez ao Conde da Vi- 
digueira feu Bifavó , quando por alli paf- 
íou a defcubrir a índia ; de maneira, que 
ambos fe tinham bem de obrigações , e a 
eíla conta lhe fez o Conde muitos mimos , 
e deo peças , e brincos , de que EIRey fi- 
cou bem contente, e fatisfeito ; e aíTentou 
com elle muitas coufas fobre o negocio 
da Alfandega , pêra que aquelle Rey fe 
obrigou a dar todas as ajudas de fervido- 
res , que foíTem neceffarios. Aqui veio ter 
com o Conde hum Príncipe da Ilha de 
Pemba , a quem hum tyranno tinha toma- 
do o Reyno , e Eítado , que elle recebeo 
bem ? e o confolou , promettendo-ihe de o 
reftituir a feu Eítado , e Senhorio , como 
folíe á índia , que por então não x podia 
fer , oíferecendo-fe ao levar comfigo ( co- 
mo levou) e de lá o tornar a mandar com 
huma Armada , pêra que fe reftituiíTe ao 
feu. 

Alli foi o Conde dando expediente a 
muitas coufas até lhe chegarem da índia 
os dous navios , que di fie mos Mathias de 
Alboquerque defpedíra a faber por toda 
aquella cofia novas delie , de que eram 
Capitães Manoel de Almeida . hum foi- 

da- 



Década XII. Cap. II. n 

dado velho muito bom cavalleiro , e Gas- 
par Rodrigues Meltre de Galés , e Piloto 
daquella coita , pêra que íe achaiTem o 
'Conde Almirante , o acompanhaíTem até 
Goa. 

Eítes navios eílimou elle muito por 
muitas razoes ; e a principal foi , porque 
lhe deram novas de terem chegado a lai- 
vamento as outras náos de fua Armada ; 
e por outra parte fe entriíleceo pelo re- 
ceio que no Reyno fe havia de ter delle , 
quando eítas náos chegaffem a elle fem 
feu recado , e pelo grande abalo que havia 
de fazer na Condena fua mai , filhos , e 
parentes. Mas em fim com eftes defcontos 
da vida de bens , e males, fe foi o Conde 
fazendo preítes pêra partir pêra Goa , co- 
mo foífe tempo , deixando primeiro feito 
hum Mofteiro n ? huma Ermida, que eítava 
fobre a barra, de Religiofos da Ordem do 
Gloriofo Padre Santo Agoftinho , que até 
agora dura ; e antes que partiíle , defp achou 
pêra Ormuz Miguel de Macedo cavalleiro 
honrado , que já tinha militado naquelie 
Eftado muitos annos , e por elle efcreveo 
aos Capitães de Mafcate , e Ormuz , avi- 
fando-os de algumas coufas importantes 
ao ferviço de EIRey ; e por elle mandou 
cartas a S. Mageítade , em que lhe dava 
conta do que lhe tinha acontecido na via- 
gem, 



12 ÁSIA de Diogo de Couto 

gem , que logo o Capitão de Ormuz man- 
dou por terra por hum Arménio , que che- 
gou com eiias á Corte de Caítella em 
principio de Dezembro do mefmo anno : 
e aos doze de Abril de noventa e fete fez 
o Conde a fua não á vela, mandando por 
Capitão delia Manoel de Almeida , que 
viera com elle do Reyno deípachado com 
a Capitania de Barcelíor , com regimento 
que fofle tomar Bombaim por fer menos 
rifco , que ir demandar Goa. E elle Al- 
mirante fe embarcou em navios de remo , 
que alli ajuntou , elle em hum Galeoto > 
de que hia por Capitão D. Fernando de 
Noronha. D. Luiz da Gama feu irmão foi 
em huma Galeota de cuberta, que o Con- 
de mandou fazer em Mombaça. Nos ou- 
tros navios foram por Capitães Goterre 
de Monroy de Beja ; D. Paulo de Portu- 
gal ; D. Jeronymo de Noronha ; Manoel 
de Almeida , que foi de Goa ; e D. Luiz 
Lobo em hum fuítarrao , que o Capitão 
de Sofala Nuno da Cunha mandou de 
Moçambique ao Conde Vifo-Rey , que le- 
vou comfigo Manoel Monteiro Piloto da 
fua náo , e Gafpar Rodrigues , que tinha 
ido de Goa por Piloto de huma fufta. 

Com efta Armada foi o Conde feguin- 
do fua derrota , levando comfigo Gafpar 
Rodrigues \ que hia fazendo o officio de 

Pi- 



Década XII. Cap. II. 13 

Piloto mor ; e chegando a Sacotorá , toma- 
ram ambos os Bandeis , onde fe proveram 
de todo o neceífario , e alii fe paliou o 
Conde á fuíta de Manoel de Almeida por 
fer navio mais ligeiro , em que fe achou 
melhor , ainda que menos accommodado. 
E de Sacotorá defamarrou o Conde a fete 
de Maio , e tornou á fua viagem , onde, 
peito que achou contrafres , e calmarias 
ordinárias nefta traveífa , nao houve coufa de 
perigo \ e quando foram vinte e dous do 
mefmo mez de Maio chegou á barra de Goa 
com todos os navios de remo : e Manoel de 
Almeida , que em Sacotorá fe tinha palia- 
do ao Galeoto do Conde , e o Vifo-Rey 
á fua fuíta , entrou também em Goa aos 
vinte e fete do mez, finco dias depois do 
Conde. Só o navio de D. Luiz Lobo não 
entrou , porque fe perdeo com tempo rijo 
na cofta de Por Mangalor, e elle com to- 
da a gente de fua companhia foi por terra 
até á Fortaleza de Dio , onde invernou , e 
a náo do Conde foi em trinta de Maio 
tomar Bombaim. 

O Conde defembarcou na cafa dos 
Reys Magos , aonde acudiram logo paren- 
tes , e amigos , porque as novas chegaram 
a Goa de noite , em que toda a Cidade 
fe alvoraçou ; e foi tanto o regozijo, que 
toda ella parecia huma viva reprefentaçao 

de 



^14 A S I A de Dio go de Couto 

de alegria, e contentamento , porque toda 
fe gaitou em tomarem embarcações pêra 
o irem viíítar; e todos tinham razão de o 
fazer , porque efte Conde Vifo-Rey era 
bifneto do que defcubrio efte Eftado , que 
a tantos tinha feito ricos , e honrados : e 
iílo acontece geralmente na chegada dos 
Vifo-Rey s , porque huns são de fuás obri- 
gações , outros parentes , e amigos , e ou- 
tros por outras razões , porque todos efpe- 
ram ièmpre alguma coufa , e a índia pêra 
todos tem : e o contrario acontece nos da 
valia, e obrigação dosVifo-Reys que aca- 
bão , porque eftes s^o os brincos do mun- 
do não dar bens a huns , fem os tirar a 
outros ; e algumas vezes fuccede, os que 
mais feftejão a vinda dehum Vifo-Rey , fe- 
rem os que depois mais praguejão, emur- 
murão delle , e defejarem o anno feguinte 
já outro : ao menos na foldadefca , que 
por efta razão, ou fem razão cia noíía má 
natureza , que toda a coufa nova apraz, 
tomaram os foldados cada anno hum Vifo- 
Rey , como coftumavam os Romanos com 
feus Confuíes. 

Mathias de Alboquerque foi logo ao 
outro dia , que foram vinte e três de 
Maio , viíítar o Conde Almirante com to- 
dos es Officiaes da juftiça , e fazenda ; e 
querendo logo neíía vifita fazer entrega 

da 



Década XII. Cap. II. ijf 

da governança da índia , a não quiz o 
Conde aceitar, fenão aos vinte e finco do 
mefmo mez , que foi dia do Efpirito San- 
to , donde a fez na forma coftumada. Os 
Vereadores foram logo viíítar o Conde, 
e pedíram-lhe que fe detiveíTe aili alguns 
dias até lhe prepararem feu recebimento, 
o que lhe elle concedeo ate o primeiro de 
Junho , dia da Santiffima Trindade , em 
que fez fua entrada com grande pompa , e 
apparato 5 e regozijo de todo o povo 3 de 
que as ruas por onde havia de paliar efta- 
vam toldadas , e com muitas invenções. 
Foi recebido com falia de parabéns de 
1 fua vinda , e levado de baixo do Pallio 
até a Sé , paliando por baixo de muitos, 
e mui fermofos arcos ornados com muitas 
riquezas \ e galantarias , indo á fua ilharga 
o Arcebifpo Primaz D. Fr. Aleixo de Me- 
nezes ; e depois de fazer fua oração , fe 
recolheo aos PafTos \ em cujo terreiro lhe 
correram muitas carreiras , e fizeram mui- 
tas feitas , e regozijes 5 em que o dia fe 
gaitou. E ha-fe aqui denotar, que no mez 
de Junho , em que o Conde Almirante to- 
mou poíle da índia , fe cumpriram cem 
annos que feu bifavô a defeubrio. 



CA- 



ã6 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO. III. 

Das coufas que o Conde Almirante prove a 

depois de tomar pojfe da governança 

da Indáa* 

TAnto que o Conde Almirante tomou 
pofle do Eítado da índia , logo avifou 
a todas as Fortalezas de fua chegada , e 
aos Capitães , e Officiaes da fazenda man- 
dou que na entrada de Setembro o pro- 
veflem de preffa com o mais dinheiro que 
pudeííem , porque determinava de fazer 
Armadas , e prover Ceilão, Malaca, e as 
Fortalezas de Maluco , e Amboino. E co- 
mo pairaram alguns dias , foi viíitar os 
Tribunaes da Relação , e Contos , e nellas 
tomou informação do eílado das coufas, 
de que elle não vinha bifonho , fenão mui 
prático ? e refoluto em todos os negócios , 
de que começou a dar aos Officiaes gran- 
de fatisfaçao de fua fufficiencia. E aílim 
vi fitou os armazéns das munições , cafa da 
pólvora , e as ribeiras das Armadas , e 
Galés , e em todas tomou informação do 
modo de como eftavam , e deo ordem a 
fe prepararem todos os navios grandes, e 
pequenos , porque determinava de mandar 
Armadas pêra todas as partes , a que fo£ 
fem neceííarias , e com ifíb foi dando ex- 

pe- 



Década XII. Cap. III. 17 

pediente ás partes , entrando nefte negocio 
com grande feveridade , e authoridade 
quanta requeria o lugar de Viíb-Rey , que 
de VaíTallo he o maior que ha na Chriftan- 
dade, pelo achar hum pouco devaífo , cou- 
fa que dá muitas vezes oufadia a fe atre- 
verem os homens y e defmandarem ; e por 
lhe não dar eííe atrevimento , nunca ouvio 
partes fenão fó , e apartado ; porque como 
eííava informado da foltura dos foldados 
da índia , queria que fe algum fe deitem- 

})eraíle, foíTeíó com elle, por lhe não ficar 
ugar de os caftigar : pelo que tomou efte 
termo pêra os ouvir , e foíFrer , o que fe 
lhe notou a prudência ; porque também os 
foldados andam tão desfavorecidos , e fof- 
írem tantas neceífidades, que fe lhes não pode 
pôr culpa a alguma hora fe deílemperarem. 
Alguns quizeram eftranhar ao Conde 
Almirante aquella fua feveridade , e autho- 
ridade, e ufar nas Igrejas de cortina como 
Príncipe , dizendo que não era trajo de 
Capitão geral da milicia ; porque o feu 
oroprio lugar era moftrar-fe fempre em 
público , e muito fácil , e familiar aos 
homens, o que lhe a elle não faltava, por- 
que o não vimos nunca defcompôr em pa- 
lavras com os foldados , como outros fi- 
zeram* Em fim deixemos eftas coufas , e 
paliemos a outras. 
Couto. Tom. ult. B q 



18 ÁSIA de Diogo de Couto 

O Conde Almirante 5 como hiamos di- 
zendo , foi dando prefía ás Armadas y e 
grande expediente aos negócios , e pro- 
vendo cargos que vagarão, que eram mui- 
tos , e miúdos , que são datas dos Vifo- 
Reys que fuccedem , ainda que ha alguns 
deites officios , que poíto que a data delles 
feja fua , por juftiça 3 e razão não fe po- 
dem dar fenáo a homens de fervicos , e 
merecimentos , que ha muitos na índia , 
com quem EIRey quer que fe repartam 
eftes cargos, que de ordinário dam a feus 
criados , ou por fua intercefsão a outras 
peííbas a quem os vendem. 

E porque aqui aconteceo iíto , não dei- 
xarei de o contar por moítrar a pureza 
com que efte Vifo-Rey entrou : e o cafo 
fuccedeo deita maneira. Indo eu hum a vez 
viíltar o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Me- 
nezes , achei-o com hum , ou dous Officiaes 
dos 'Contos 3 e finco , ou feus homens da 
terra , a que elle tomava algumas Provisões 
deites cargos que o Conde tinha provido > 
e lhe tornava certa quantia de dinheiro de 
huns caixões que alli eftavam. Então me 
contou o Arcebifpo que aqúelles cargos 
dera o Vifo-Rey áquelles por intercefsão 
de feus criados , e que depois foubera que 
lhe deram por cada hum certa quantia de 
dinheiro , que lhe mandara tornar ; e 

na- 



Década XII. Cap. III. x? 

xiaquelle caixão em que o via, o tinha man- 
dado ao Afcebiípo com o rol dos homens 
a quem fe dera , pêra que lhes tomaíTem 
as Provisões , e lhes tornaííem feu dinhei- 
ro , porque quiz caíligar a todos , a huns 
em lhes tomar o dinheiro , porque vende- 
ram os cargos , e aos outros em lhos man- 
dar tornar, e romper as Previsões: elem- 
bra-me que ao tornar o dinheiro a hum , 
fe poz a chorar. Ao que me diíTe o Arce- 
bifpo , que nunca vira chprar ninguém por 
lhe darem dinheiro, fenão aquelle homem* 
Pez o Conde Almirante efta diligencia, 
porque começou a haver murmurações y e 
não quiz que feus criados cuidaflem que 
haviam de enriquecer por aquelle modo , 
nem que parente, ou homem de íua obri- 
gação o havia de governar; efoi neíle par- 
ticular tão inteiro , que em quanto gover- 
nou o Eítado da índia , não teve valido ; 
e o criado que fe fingio fello , não fez ne- 
nhuma coufa por elle ; porque o contrario 
diílo não ferve de mais que de aíFrontar 
aos Vifo-Reys ; porque como elles correm 
por eftes termos , fempre ficam culpados , 
ou ao menos dão occaíião de fe murmurar 
delles, como fizeram de alguns Vifo-Reys , 
oue claramente fizeram por eftas mãos 
ieus negócios , e engroífáram bem ? não 
deixando de commetter algumas injuítiças 

B ii em 



20 ÁSIA de Diogo de Couto 

em coufas de muita importância , que eu 
direi em feu lugar, quando me couber. 

E porque o Conde Almirante achou 
os armazéns faltos de artilheria , negociou 
muito cobre que comprou , de que mandou 
fazer com muita preíTa algumas fundições , 
em que fe fizeram oito peças grofía.s , e 
trinta falcões , e berços , e quatrocentos 
pelouros de cadeia , que logo foram bem 
necefifarios , como fe verá pelas certidões 
que os Officiaes dos armazéns difto paíTá- 
ram. E porque os moradores de Goa fize- 
ram grandes queixas do Vilo-Rey Mathias 
de Alboquerque, que p afiara huma Provi- 
são , pêra que toda a pefioa que quizefle 
mandar trazer cobre da China por íiia con- 
ta , o pudeíle fazer : com declaração que 
todo viria a Goa 3 onde pagariam os direi- 
tos em cobre pêra fe fazer artilheria : e o 
mefmo fariam de todas as mais fazendas , 
que defpachaflem na Fortaleza de Malaca - y 
e que depois dos direitos pagos em cobre, 
todo o mais poderiam levar pêra fuás ca- 
fas ; e que tendo EIRey neceílldade de 
mais algum , lho comprariam pelo preço 
da terra : e efta Previsão fenao guardara , 
antes todo o cobre que trouxeram por 
virtude delia fe mettêra na Alfandega ; e 
que pêra pagarem os direitos fe avaliara 
a trinta e finco xerafins o quintal > e a trin- 
ta 



Década XII. Cap. III. ar 

ta e oito o melhor ; e que por ííma difto 
dera o Viíb-Rey Mathias de Alboquerque 
ordem que fe tomaííe o cobre pêra EIRey 
a trinta e dous Xerafins ; no que foram 
muito a vexados , e enganados , que pediam 
a elle Conde Almirante lhe mandafle cum- 
prir a dita Provisão , pois á conta delia 
trouxeram fuás fazendas em cobre , e que 
mandafle que na Alfandega fe tiveífe igual- 
dade nos direitos , e no preço do cobre 
que fe tomafle pêra EIRey. O que vifto 
pelo Conde Almirante , ajuntou Theologos , 
Defembargadores , e Officiaes da fazenda 
a confelho , e entre todos fe aífentou , que 
lhe não podiam fazer tamanha injuftiça , 
que fe puzeíTe daili em diante o .cobre 
pêra fe pagar, a trinta e finco, e que por 
eífe mefmo preço fe tomafle pêra EIRey 
o que fe houveíte mifter, e que fe lhe pa- 
gaite logo , porque os vaflallos não fe po- 
diam enganar com a fé de EIRey , que são 
luas Provisões 5 pois á conta delias empre- 
garam feu cabedal ern cobre , no que tam- 
bém faziam ferviço a EIRey em o traze- 
rem da China , e lho darem pelo preço 
por que o defpacháram. 

E certo que fe pode pedir conta aos 
Vifo-Reys de tamanha injuftiça contra os 
homens , e tão grande deferviço contra o 
Rey , em rão guardarem eílas Provisões , 



az ÁSIA de Diogo de Couro 

antes á conta delias tomarem as fazendas 
aos vaífallos. O que foi caufa de não que- 
rerem mais trazer cobre , e faltar muitas 
vezes em Goa aííim pêra a artiiheria , co- 
mo pêra a moeda de Bazarucos com que 
os povos fe meneao. E com ifto fe deo 
occaíiao aos Mouros doBalagate aos faze- 
rem de menos pezo , e os metterem neíta 
Cidade, com o que ganhão hum poço de 
curo , fem a iílo fe ter refguardo , porque 
fempre efta moeda lhes falta por fer de 
menos pezo. A ifto atalhou o Conde Al- 
mirante com ordenar, que pelo preço cer- 
to que poz nos direitos que o cobre havia 
de pagar na Alfandega , foífe o mefmo 
por que fe tomaíle pêra EIRey , e fe pa- 
gaífe logo a feus donos , como fe fez em 
todo o tempo que o Conde governou. 
Difto refultou haver fempre em todo elle 
tanto cobre em Goa , que ganhou EIRey , 
no que bateo na cafa dos Bazarucos , feí- 
fenta mil Xerafins , a fora o que fe fundio 
em muita quantidade de peças de artiiheria 
que fez , e outras coufas neceífarias ao fer- 
viço de EIRey 5 como me confiou das cer- 
tidões que vi , allim dos armazéns , como 
de outros Officiaes das outras cafas , por 
que eílas coufas correm, 

E tornando ao damno que a falta d efta 
moçda fazia em Goa , que foi occafião dos 

Mou- 



Década XII. Cap. III. 23 

Mouros do Balagate metterem nefta Cida- 
de muito grande fomma de bazarucos de 
menos pezo , com que fe enriqueciam a íi , 
e nos empobreciam a nós , o ficaram tam- 
bém fazendo nos Xerafins de prata que o 
Vifo-Rey D.Luiz da Taíde mandou fazer, 
que fendo elles dantes de prata liquida , 
e pura , por accrefccntar a fazenda Real , 
ordenou que fe accrefcentaífe em cada 
hum hum larim de liga. Daqui tomaram 
os Mouros occaíiao pêra baterem no Ba- 
lagate os mefmos Xerafins já com mais 
liga , e falíificados , e os metterem nefta 
Cidade - y pelo que ella ficou cheia de moe- 
da falfa y e alevantou-fe tanto o preço ás 
coufas , que he hum roubo manifefto \ por- 
que os Moedeiros , que fervem na Caía 
da Moeda de Goa , sáo Gentios, e os mef- 
mos que fazem as chapas pêra as moedas, 
são os que também as fazem pêra os Mou- 
ros nos roubarem. Sobre ifto proveram os 
Reys muitas vezes , como grandes Chri- 
ftaos , e muito Catholicos , com defende- 
rem que fe não batao mais eftes Xerafins , 
a que com muita razão podemos chamar 
falios , fem iíto ter remédio, nem lhe que- 
rerem cumprir fuás Provisões , e Mandados \ 
e vam depois eftes pêra o Reyno tão defean- 
çados com tomarem a fazenda alheia , co- 
mo fe não fizeram coufa alguma } e eu re- 
ceio 



-24 A S I A de Diogo de Couto 

ceio que os* que iílo fizeram , o tenham 
bem pago na outra vida , pois nefta não 
foram caftigados , porque tudo os homens 
podem , e devem fazer , e arrifcar por feu 
Rey , filhos , fazenda , e vida ; mas a alma 
não, porque nem os Reys o querem, nem 
he bem que o queiram, 

CAPITULO IV. 

De como hum Capitão do Grão Mogor , 
chamado Manacinga Gentio , foi con* 
tra os Patanes , e os desbaratou , e 
ganhou o Reyno de Orixá , e Bengala : 
e da defcripção da jornada que fez. 

PAreceo-me bem feguir a ordem , que 
fempre guardei nas minhas Décadas , 
que he contar as coufas alheias no tempo 
do inverno , em que as noflas eftão para- 
das ; pelo que darei aqui conta de algumas 
conquiílas que fizeram os Capitães do grão 
Mogor. Na Corte deite Rey andava hum 
Raja , ou Regulo caíla Rebufto Gentio íeu 
vaíTailo , e grande Capitão , e muito zelo- 
fo da fua Religião. Succedeo efte verão 
paíTado o Rey de Orixá chamado Cutulu 
mandar dar no Pagode de Lagarnate, que 
he em Bengala ? e levarem delle grandes 

the- 



Década XII. Cap. IV. %f 

thefouros , e matarem dentro nelle muitas 
vacas, que he a mór affronta , e irreverên- 
cia que fe pode fazer a feus ídolos. Era 
eíte Cutulu Rey de Orixá Mouro , e vaf- 
fallo do Rey dos Mogores , que havia al- 
guns annos que eítava rebeilado , fem lhe 
pagar as páreas que tinha por obrigação. 
Chegadas as novas do roubo deite Pagode 
á Corte de Laor , eíte Capitão Gentio, 
que digo , chamado Manacinga , deíejou 
logo de tomar vingança , e fatisfaçao da- 
quella aíFronta feita á fua Religião : tomou 
por occaíiao o alevantamento do Rey de 
Orixá , pêra pedir ao Grão JVÍogor licença 
pêra o ir cafugar, e reduzir a fua obediên- 
cia , que lhe elle deo ; e com eíle fe par- 
tio de Laor com dez , ou doze mil cavai- 
los pêra ajuntar pelos mais Reynos do 
Mogor , por onde havia de p afiar todos 
os mais que lhe foíTem neceífarios. 

E porque não he pequena curioíidade 
pêra os curiofos da Geografia dar relação 
deita jornada em modo de Itinerário 3 co- 
mo a elle fez , o farei aqui. Partio eíte 
Capitão de Laor Corte do Grão Mogor, 
e foi caminhando ao Sueíte algumas finco , 
ou féis jornadas , paífando por villas , e 
lugares , huns grandes , e outros pequenos 
até chegar a hum fermofo rio chamado 
Seriundo , que quer dizer Cabeça da ín- 
dia. 



16 ÁSIA de Diogo de Couto 

dia, porque aili começa a índia Meridio- 
nal, ou menor, porque toda aquella parte 
dalli pcra o Norte le chama índia maior 
até os montes Imaos , onde começa a Sci- 
tica Aíiatiaca , ou Tartaria. Paliado o rio 
á outra parte , foi á Cidade de Summopat , 
e á de Panipat , e logo a grande Cidade 
Deli muito Fermola , e frefca , onde eftí 
a fepultura de Hamaum Paxá pai de El- 
Rey Hecbar , que he huma das fermofas 
couías do Mundo , como nas outras mi- 
nhas Décadas tenho dito. Até aqui gaitou 
eíle Capitão trinta jornadas. Ao longo dos 
muros deíla Cidade palia hum muito fer- 
mofo , e frefco rio chamado Iamana , que 
fe vai mifturar com o Gange : paliado o 
rio a outra banda , foi caminhando ao Le- 
vante por diftancia de cento e vinte coces 
feus , que são trinta léguas , a razão de 
quatro coces por légua pela conta dos 
Mouros até chegar a huma villa chamada 
Caiu , que he o extremo do Reyno Deli , 
e do Patane. Daqui foi a huma Cidade 
pequena , a que perdi o nome , e dalli a 
outra chamada Har , por junto delia paíTa 
hum fermofo braço do rio Gange , que vai 
defcendo a baixo > e atraveflando o Reyno 
de Orixá*. Daqui foi á Cidade Sambai , 
'donde voltou a Sufudoeíle á Cidade de 
Lacanor pequena , á diiferença de ou tia 

gran- 



Década XII. Cap. IV. 27 

grande adiante, que são Cidades do Rey- 
no Patane , e entre eítas ambas ha humas 
afperiílímas ferranias , que vam tirando ao 
Norte chamadas Poríònai , riquiilímas de 
minas de ouro , e prata : dalii foram, ca- 
íiiinhando ao Sul j e paflando por eftas Ci- 
dades , Gazepur , Choufa , Agepur, Xir- 
pur , por junto deita paíla o rio Gandec , 
adiante Mugel , Bagelpur , Gori , Galor, 
Cidades já de Bengala : do Reyno dos 
Patanes , Satagão, Tande, e Orixá Cidade 
cabeça deíle Reyno, que elle hia conquif- 
tar y e chegando ao Mandarou , extremo 
do Reyno Orixá , defronte de huma For- 
taleza , que fe chama Raipur , que era dos 
Patanes , em que eílava por Capitão Ale- 
macaum irmão de Gorea Badul , Capitão 
muito aíramado do Rey de Orixá , por 
quem o feu Rey dizia, que era o feu bra- 
ço direito, aflcntou o leu arraial pêra daili 
fazer luas entradas. 

Tanto que o Alemacaum foube deli es, 
ajuntou finco mil cavallos , e foi no mef- 
mo dia bem tarde aífentar feu campo á 
viíta do outro , e mandou dizer ao Mana- 
cinga que lhe não hia dar a obediência 
por fer já tarde , mas que ao outro dia o 
faria logo. Tudo iílo foi manha pêra o 
aflegurar , como fez , porque fe não recea- 
rão de tão pouca gente , e mais com a fe- 

gu- 



a8 ÁSIA de Diogo de Couto 

gurança que moítravam de ir dár obediên- 
cia , com o que os de Manacinga tiraram as 
felias aos cavallos , e repousaram do tra- 
balho do caminho , porque de algumas 
peííbas que elle mandou ao arraial dos Pa- 
tanes foube que eftavam elles também def- 
cançados , e com os cavallos defcellados , 
que foi o que os fez fegurar ; e tanto que 
entrou o quarto da modorra , eftando os 
de Manacinga na força do mor fomno , e 
repoufo , fellárão os Patanes , e com muito 
grande íilencio deram n elles com tanta 
preíteza , que primeiro que foubeííem o 
que era , lhe mataram dous mil homens , 
em quç entrava hum filho do próprio Mana- 
cinga. Com eíte feito fe recolheram os 
Patanes , o que não foi tanto a feu falvo , 
que não tiveflem alguma perda , porque 
também foram efcalavrados. O Manacinga 
fentio tanto feu defcuido , como a perda 
do filho, e de fua gente ; pelo que a mef- 
ma noite fe fortaleceo no próprio lugar , 
em que eftava com hum muro arrezoado , 
e fuás cavas , e defpedio recado a todos 
os Capitães que o Grão Mogor tinha por 
aquelles Reynos com guarnições , pêra que 
lhe acudifíem com as gentes , e mantimen- 
tos que* pudeíTem. Era efte Manacinga na 
Corte do Grão Mogor tão grande peílba, 
e de tanta authoridade 7 e reípeito , que 

Da- 



Década XII. Cap. IV. 29 

Danielgi filho terceiro do Grão Mogor ca- 
iou com íua filha. 

Tendo o Rey de Orixá avifo do íbc- 
corro , que o Manacinga mandou pedir aos 
Capitães , que o Grão Mogor tinha poílos 
nos preíidios dos feus Reynos , comarcãos 
áquelles que o Manacinga hia conquiftar, 
receando-fe que vindo aquelle poder , não 
pudefíem reíiftir-lhe , tomou por remédio 
mandar-lhe commetter pazes com tantas 
vantagens , que as acceitou o Manacinga , 
receoíb que lhe faltaíTem os Capitães , que 
mandara chamar ; e aílim fe concluíram, 
com condição que o Rey de Orixá daria 
cada anno cem elefantes (por haver mui- 
tos naquelle Reyno) e vinte mil tangas de 
páreas , que são dez mil cruzados de rea- 
tes ; e logo contribuio com as deite pri- 
meiro anno 3 com o que o Manacinga fe 
tomou pêra Tenda , e o Rey de Orixá 
pêra a Cidade de lalafor , que he Cabeça 
do Reyno. 

Os Capitães do Mogor , a que o Ma- 
nacinga mandou pedir foccorro , fizeram 
pouco calo de feu recado , e não acudiram 
com coufa alguma ; o que viíto por elle, 
defpedio recado aoGrãoMogoi^ dando-lhe 
conta de tudo o que lhe tinha fuccedido 
na jornada , e mandou-lhe também o di- 
nheiro , e os cem elefantes que arrecadou 

das 



30 ÁSIA de Diogo de Couto 

das páreas , e efcreveo-lhe que deixará de 
conquiftar todo aquelle Reyno por falta 
de gente, e que os feus Capitães o não qui- 
zeram íoccorrer , pedindo-lhe formões 3 
ou Provisões pêra todos os Capitães , que 
houveíTe em feus Reynos , e Províncias, 
lhe obedeceílem , e lhe acudiíTem com as 
gentes de fuás obrigações , e que elle fe 
obrigava a conquiftar , e fujeitar todos os 
Reynos de Bengala, e Patane. 

O Grão Mogor eftimou muito os ele- 
fantes , e mandou ao Manacinga tudo o 
que lhe mandou pedir com grandes penas 
aquelles que lhe não obedeceílem. Eftes 
enviados paíTáram pelo Reyno do Agará, 
aonde as Provisões^ fe publicarão : com o 
que logo fe abalou Cedecão Governador 
do Reyno , e feu irmão Lufufcan com 
quinze mil cavallos que fe aprefentárão ao 
Manacinga , e com a gente que tinha , pre- 
fez trinta e finco mil homens de cavallo , 
e quaíí oitenta mil de pé , de que elies 
fazem bem pouca conta; e com todos eftes 
fe poz em, campo , e muitos elefantes caf- 
tellados , e trezentas carretas de arrilheria 
de campo , e grande fomma de munições , 
e quantidade de mantimentos , com que foi 
marchando contra os Patanes que o desba- 
ratarão ; e quando hia por fuás terras , era 
o Cutulu Rey de Orixá já morto , e os 

Pa- 



Década XII. Cap. IV. 31 

Patanes tinham alevantado por Rey hum 
feu filho menino , que eítava debaixo de 
tutoria de dons Capitães chamados Go- 
rabadul , e Cogeaifa. 

Vendo os Patanes o grande poder com 
que o Manacinga vinha , e que eftavam 
odiados , e aborrecidos da gente da ter- 
ra , que era Gentia , e eiles Mouros 
deíbrdenados , e tyrannos , havendo que 
não poderiam efcapar fuás mulheres , e fi- 
lhos das mãos de léus inimigos , determi- 
náram-fe a fazer outro feito femelhante ao 
dos antigos Numantinos , que foi ajunta- 
rem-fe íeis mil de cavallo , e porem na Ci- 
dade de Iaíafor fuás mulheres , filhos , e fa- 
zendas , e dentro em huma íua mefquita 
fizeram juramento folemne a Mafamede de 
darem nos inimigos , e os desbaratarem, 
ou morrerem todos na demanda ; e que 
não os podendo vencer , os que efca- 
paííem da batalha foliem a lalafor, e ma- 
taíTem todas as mulheres , e filhos , e 
queimaííem as fazendas , por não ir algu- 
ma dacuellas coufas a mãos de feus inimi- 
gos. Eftes juramentados > que eram féis 
mil , fe repartirão por quatro Capitães fa- 
mofos 5 entre elles chamados Gogerifa, 
Meriu, Gorabadul 5 e do outro não foube 
o nome \ ^e como homens offerecidos á 
morte (a que na índia chamão amoucos) 

re- 



32 ÁSIA de Diogo de Couto 

rcmettêrão huma madrugada com o exer- 
cito do inimigo , e entrarão por elle fa- 
zendo grande eítrago ; mas no mor furor 
da batalha fugirão dous dos Capitães , e 
os outros dous ficaram pelejando até mor- 
rerem. Alguns Capitães do Manacinga,. 
quando viram apartar da batalha os dous 
Patanes , foram-os feguindo , e matando 
nelles á fua vontade , e aífim os apertarão , 
que não puderam tomar a Cidade Ialafor 
pêra fazerem em fuás mulheres , filhos, e 
fazendas a execução que tinham affentado, 
e foram-fe defviando por outros caminhos. 
O Manacinga depois que matou os que 
o efperárao , foi também apôs os que lhe 
fugiram 5 e chegou á Cidade Ialafor, aon- 
de entrou vitoriofo ; e as gentes de fua 
companhia ufáram neíla entrada de fua má 
natureza com as pobres mulheres , que fe 
lhe não puderam defender. Alli acudiram 
todos os povos das Cidades dos Patanes 
a fe lançar aos pés do vencedor , e a pe- 
dir-lhe miíericordia ; e a de que ufou com 
elles foi torma-lhes todos os feus thefouros , 
e os melhores elefantes , e cavallos que 
tinham , e lhes deixou alguns íindeiros ; 
em fim elle os defpojou de tudo o que lhe 
pareceo , porque outra vez não teritaffem 
maldade ; e ainda paíícu tanto adiante , 
que os defcerrou, etrafpaííou pêra osRey- 

nosj 



Década XIL Cap. IV. 33 

nos do certão do Grão Mogor, onde elle 
os mandou repartir , e dar comedias y e 
terras em que vivelfem. 

CAPITULO V. 

De como o Manacinga fe apoderou dos 
Keynos de Patane , e Orixá : e dos prin- 
cipaes braços com que o rio Gange fe ef* 
palhou por todos aquelles Keynos : e das 
Gangas que nelle ha. 

T Ornada pelo Manacinga eíta tão gran- 
de fatisfação dos miferos Patanes pela 
rebellião que fizeram contra o Grão Mogor , 
cujos vaííallos eram , paliou o Manacinga 
adiante pelos Keynos de Bengala dentro 
até chegar ao pagode de Lagarnate , que 
he junto do mar , além da Fortaleza de 
Catella principal daqueile Reyno , e neíle 
pagode entrou , e o defapouou de todas 
luas riquezas , que eram muitas : e com 
elle fer Gentio , não bailou pêra ter refpei- 
to a feus idolos , e deixar de os roubar , e 
esbulhar dos rheíburos que o pagode tinha. 
Eítes são os effeitos da cubica, que faz com 
que fe não tenha refpeito ao mefmo Deos , 
e o dcfconheção os que fe deixam entrar 
delia : e mais he ifto de eftranhar em gran- 
des , e vaíerofos ; pois fendo taes , não fa- 
Çouto* Tom. uli\ Ç bem 



34 A S I A de Diogo de Couto 

bem ir-fe a mão , nem refííUr a hum mal que 
tanto os acanha, e abate; o que nos peque- 
nos , e humildes he pelo contrario, porque 
Êouco baila pêra os fatisfazer , e contentar, 
tornando ao fio de noíía hjftoria, 
Defpojado o pagode , paílbu-fe Mana- 
cinga á Fortaleza de Barepur , que eílá 
entre humas ferras fragofas , aonde eílava 
Raja Ramacanda filho do Rey de Orixá 
com tenção de a conquillar , e o haver ás 
mãos , e afíentou pêra iffo fobre ella feu 
campo. O Ramacanda vendo tão grande 
poder, arreceou-o , e mandou-fe oíFerecer 
ao Manacinga por vaílallo do Grão Mogor 
com as obrigações , e páreas que foífem 
honeftas , e juftas ; e pêra concluírem ifto, 
trataram de fe verem. Sobre o que houve 
grandes dilações no modo de como fe 
haviam de ver , e tratar ; porque o Rama- 
canda era filho de EIRey , e tão opiniáti- 
co , que nem naquelle Eftado queria per- 
der nada de fua opinião , nem do que cui- 
dava lhe era devido por quem era ; e de- 
pois de muitos recados , vieram a aílentar 
que fe trataffem nas viftas com igual- 
dade , fem haver diferença em coufa al- 
guma , e que as viftas foífem no pagode 
de Lagarnate , onde o Manacinga iria ju- 
rar primeiro diante dos feus Brâmanes de 
guardar inteiramente o que tinham afienta- 

do 



Década XII. Cap. V. 35* 

do nas viftas , eode Ramacanda não re- 
ceber aggravo , nem efcandalo algum em 
fua peííba , Eftado , nem em vaifailos , o 
que o Manacínga fez. E bem pudera que- 
brar aquelle juramento , quem havia tão 
pouco tinha deípojados os mefmos idolos 
(diante de quem fazia o voto) de fuás 
riquezas, e defpidos feus altares , e leva- 
dos os ricos valos de ouro , e pedraria 
com que aquelles cegos gentios ferviam 
aquellas eftatuas feiííimas de pedras , e 
páos , em que punham fuás deidades , e a 
quem davam as honras , e faziam adora- 
ção, que fó a Deos fe devia. 

Recolhido oManacinga de fazer aquel- 
le juramento pêra o.feu arraial, tanto que 
o Ramacanda o foube, fem aguardar mais 
recado , nem pontos de quem feria o pri- 
meiro , fahio de fua Fortaleza com grande 
acompanhamento , e muito faufto , e entrou 
pela tenda de Manacínga, que fahio muito 
de prefla fora ao receber, e fe abraçaram 
igualmente , e aífen taram- fe em ricas al- 
catifas , e almofadas de borcado , e alli 
praticaram fobre fuás coufas ; e depois de 
as aífentarem com fatisfaçao de ambos, fe 
defpedíram , e Manacinga o foi acompa- 
nhando muito efpaço , e ao voltar o convi- 
dou o Ramacanda pêra ir jantar com elie 
á fua Fortaleza hum dia de huma feita , 
C ii que 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

que vinha perto : o que elle acceitou , e 
levou eííe dia comíigo quatrocentos ho- 
mens todos Gentios , parentes , e amigos ; 
e depois do banquete 5 que foi muito ef- 
plendido, deo oRamacanda aofeuhofpede 
íeis mil tangas em dinheiro , que são três 
mil cruzados í pêra o gaito de fua cozinha 
os dias que alli eftiveífe , e dous formofif- 
ílmos elefantes de guerra , e outras peças. 
OManacinga por não ficar acanhado , per- 
guntou depois quanto montavam as rendas 
das terras que osPatanes lhe tinham dado; 
e fabendo-o , lhe paflbu hum formão em 
nome do Grão Mogor de mais ííncoenta 
mil cruzados de renda cada anno nas mef- 
mas terras. Com ifto fe defpedíram com 
moílras de grande amizade ; c o Manacin- 
ga repartio as Cidades, e villas do Reyno 
de Orixá com feus filhos , que me affirmá- 
ram ferem perto de quarenta; e elle fefoi 
apofentar na Cidade de Agepur Patana, 
onde efteve muito tempo ; e ainda hoje, 
que efcrevemos ifto , he vivo efte Gentio > 
e tem de fua obrigação mais de trinta 
mil de cavallo , porque tem muitas , e 
ricas terras ; e he tão grande Capitão , 
e tem tanta poííe , que fe fufpeita que 
o Grão Mogor fe arrecea delle em feu 
peito. 

Em quanto deixamos aqui o Manacin- 



Década XII. Cap. V. 37 

ga , pareceo-nos bem pêra recreação dos 
curioíos dar relação deitas Gangas de 
Bengala (que na noíTa linguagem sao rios) 
porque sao muitas , e mui diverfas ; e aífím 
nomearemos as que ha do porto de Goli 
de Orixá até Batecala. 

A Ganga de Goli , que vem do Bouro , 
não fe lhe fabe nafcimento ; he no verão 
em algumas partes de pouca agua, vai fa- 
hir á Ilha dos Gallos , que he a principal 
de todas , e o verdadeiro rio Ganges , a 
quem os Gentios tem tanta veneração > 
que fe vam lavar a elle, etem pêra íi que 
ficam puros , e limpos de fuás culpas , e 
peccados. 

A Ganga de Sagor he muito profpera, 
e reparte-fe em muicos braços , de maneira 
que quaíi toda fe palia a vão ; mas em 
baixo na barra tem fundo baííante pêra 
entrarem náos. 

A Ganga Retora , que vem ao Gate do 
Tigolo da outra banda , vem o braço ao 
lugar de Trigor, reparte-fe em muitos ra- 
mos, e todos em baixo capazes de náos. 

A Ganga chamada dos treze bancos , 
que vai fahir ao mar largo com huma 
grande boca. * 

A Ganga Vidadore também he grande, 
e não fe lhe fabe nafcimento , e fahe ao 
mar com outra muito grande boca. 



3$ ÁSIA de Diogo de Couto 

A Ganga Rey Mogor tão profpera cie 
aguas por todos os braços 5 em que fe re- 
parte , que do Chandecam, que he dalli a 
muitas léguas , vem náos por dentro até o 
Bandal de Orixá. 

AGangaZabona não he muito grande , 
mas tem muito fundo. 

A Ganga Balança. 

A Ganga Muruzate , que tem grande 
barra , que chamam de Boracalor. 

A Ganga Rangaíbna , que quer dizer 
ouro , e vermelho , e não me fouberam 
dizer porque fe chama affim. 

A Ganga de Bixela chamada affim por 
humas embarcações dcíle nome , que por 
ella navegam. 

A Ganga Ariganata , que quer dizer 
Veado , por haver derredor delia infinitos. 

A Ganga Sape , Raja , he coufa for- 
moííífima ; e por fer efta , lhe chamam 
Raja , que tanto quer dizer , como Rey 
das Gangas. Sape quer dizer cobra i ou 
por haver nella muitas , ou por ir ter ao 
mar em muitas voltas com três bocas. 

A Ganga Noldil 5 que vem do lugar 
de Bufna 5 que he nos confins do Rey no 
Batecala ; e deíla Ganga até Batecala ha 
hum grande numero de Ilhas , que feus 
braços vam fazendo , e parece tudo hum 
mar ; e com as aguas vivas areao-fe hu- 
mas , 



Década XII. Caf. V. 39 

mas 5 e abrem-fe outras. Em todas eftas Gan- 
gas andam infinitas fortes de embarcações y 
e algumas tamanhas como náos , que todas 
me mandaram de lá pintadas em dous pai- 
néis , que são muitas , e muito pêra ver 
a diverfidade de feus feitios ; eftas são as 
Gangas principaes , e que vam fahir ao 
mar com barras capazes de náos grandes ; 
porque já por algumas delias entraram al- 
gumas náos de Portugal que cá ficaram, 
que foram alli carregar de arroz , aonde 
hum candil , que pela nofia medida são 
vinte alqueires , vai trezentos reis. 

CAPITULO VL 

Do que fuccedeo na conquijla da Ilha Cei- 
lão ejle verão : e das grandes vitorias 
que os nojfos alcançaram do tyranno 
jD. João , que fe intitulava Rey de Can~ 
dea : e da morte de EIRey da Cota D. 
João Perea P andar : e de como deixou 
nomeado por herdeiro do feu Reyno a 
EIRey de Portugal, que logo foi jurado 
por ejfe. 

NA onzena Década, no tempo deMa- 
thias de Alboquerque , temos conti- 
nuado com as guerras de Ceilão pelo dif- 
curfo dos annos ; e porque os fucceflbs 

fo- 



4ó A SI A de Diogo de Couto 

foram muitos , e miúdos , não eícrevcmos 
fenao os de mais íubftancia , porque a 
hiftoria não íbffre tanto. Deixámos o anno 
paílado as coufas daquella Ilha nas gran- 
des vitorias que D.Jeronymo de Azevedo, 
Capitão Geral daquella conquifta , alcançou 
do tyranno D. João , intitulado Rey de 
Candea , nos limites daquelle Pveyno , e do 
Dinavaca. Agora continuaremos com as 
deite verão , em que as coufas ficaram no 
Forte de Corvite , que D. Jeronymo de 
Azevedo mandou fazer féis léguas de Cei- 
ta vaca no fim de Fevereiro paílado , em 
cjue ficou por Capitão Salvador Pereira da 
Silva com cem homens , e as provisões 
de munições , e mantimentos que lhe pare- 
ceram neceíTarios. Feito eíle Forte , defpe- 
dio o Geral a foldadefca Portugueza , e da 
terra , pêra irem defcançar , pêra depois 
com novo alento , e forças tornarem a 
píofeguir naquella guerra. Diíto foi logo 
o tyranno D. João avifado , e communi- 
cando com os mais alevantados , que o fe- 
guiam fobre a fatisfaçao que tomariam dos 
noííos de quantos damnos lhe tinham fei- 
to; porque íe fe deicuidaflem , eilava cer- 
to pôrem-lhe hum pezado jugo a toda 
-aquella Ilha ; e aíTentou que o Rey de Vuá 
fe ajuntaífe com os Príncipes de Dinavaca, 
o cjue elles logo fizeram com quaíi quatro 

mil 



Década XII. Cap. VI. 41 

mil homens , muita efpingardaria , e ele- 
fantes de peleja , e foram aífentar feu cam- 
po quatro léguas do noflb Forre de Cor- 
vite y com tenção de o afíaltarem r por eítar 
com pouca guarnição ; e dalli mandaram 
dous mil homens da fua vanguarda , pêra 
que fefoíTem pôr duas léguas daquelle For- 
te fem bolirem comfigo ; porque perren- 
diam primeiro fazer rebelar toda- aquella 
Comarca , que eítava á noíTa obediência , 
pêra affim lhes ficar mais fácil a conquifta , 
e entrada daquelle Forte. E com iíto in- 
tentaram também divertir o Geral peia 
fronteria das quatro Corlas , pêra não po- 
der foccorrer os de Corvite ; e pêra aquel- 
la parte fe abalou o tyranno D. João com 
todo o mais poder ; porque occupados os 
noílbs por tantas partes , pudeflem elles 
cffeituar feus intentos. De tudo iílo foi 
logo o Capitão Geral avifado por efpias y 
que trazia perto do tyranno. 

Pelo que com muita preíTa mandou 
ajuntar toda a gente de guerra branca , e 
preta , com que fepoz em campo ; efaben- 
do que o tyranno defpedíra huma copia 
de gente pêra ir a faltar a noíla tranqueira 
de Ruanella , e inquietar os vaííallos da- 
quella parte , defpedio António da Coita 
por Capitão Mor da parte da gente da 
terra ; com ordem ? que fendo-lhe neceffario 

mais 



42 A S I A de Diogo de Couto 

mais gente, a tirafle dos prcíidios de Cei- 
tavaca , e outros que boamente pudefle 
defmembrar delles com Segurança Sua. Com 
efta gente foi dando volta pelas quatro 
Corlas , com que os inimigos que o tyran- 
no tinha mandado pêra aquella parte fe 
retiraram logo ; e vindo recado ao Geral 
que os inimigos fe hiam vizinhando ao 
Forte de Corvite , defpedio a mor parte 
do arraial, pêra que ofoífe foccorrer, dei- 
xando fó hum Modeliar com quinhentos 
lafcarins pêra guarda das fronteiras das 
fete Corlas ; e mandou ordem a Salvador 
Pereira , que eítava no Forte de Corvite, 
que fem fe deter fahiíle delle , e foífe aliai- 
tar o arraial do inimigo com o mor res- 
guardo , e fegredo que pudeífe ; o que elle 
logo fez em lhe chegando a gente , e de 
noite foi por caminhos excufos , por ma- 
tos , e brenhas até chegar á parte , onde 
eftava a vanguarda dos inimigos , bem des- 
cuidados todos de tal fobrefalto. E pri- 
meiro foram desbaratados , e mortos a mor 
parte delles, que foubeífem o que era ; e 
poftos os que efcapáram em fugida , lhes 
íeguio Salvador Pereira o alcance com tan- 
ta preíla , que quafi de envolta com elles 
chegaram á retaguarda , em que deram 
com tanto ímpeto, e fúria, que logo lhes 
entraram o arraial .dentro , aonde os des- 

ba- 



Década XII. Cap. VI. 43 

baratáram com morte de muitos , em que 
entraram os principaes Modeliares , e dous 
formofos elefantes tomados com muitas 
armas , bandeiras , e outros defpojos ; e 
affirma-fe morrerem dos inimigos neftes 
aflaltos mais de mil , e muitos que fica- 
ram cativos , falvando-fe os principaes de 
Mature , e Dinavaca com a efcuridao da 
noite. Foi eíla vitoria tão famofa , e poz 
tanto efpanto nos Chingalás , que ficaram 
pondo a Salvador Pereira o fobrenome 
de Corvite Capitão : dos noflbs Lafcarins 
morreram alguns , e hum Modeliar mance- 
bo chamado D. Francifquinho , que pelejou 
muito bem. Ao outro dia mandou Salvador 
Pereira pôr por terra todos os Fortes dos 
inimigos , e recolheo-fe a Corvite, ficando 
efta vitoria (como já diíTemos) entre os 
Chingalás com grande nome, e fama. 

Vendo D. Jeronymo de Azevedo quão 
quebrantados os inimigos ficavam , man- 
dou fazer huma tranqueira da outra parte 
do rio Sofragão no lugar chamado Batu- 
gedrá, porfer mais accommodado pêra a£- 
íaltar , e quebrantar o inimigo , com o que 
elle fe vio tão abatido , e defefperado de 
feus penfamentos , que logo fe recolheo 
a Candea , e o Forte fe desfez. O que os 
noílbs fizeram, eílava vinte léguas de Co- 
lumbo pela terra dentro em meio de todas 

as 



44 ÁSIA de Diogo de Couto 

as dos inimigos , com elles ficaram muito 
opprimidos. Succedeo iíto efte inverno em 
que andamos noventa e fete. 

No mefmo tempo aos vinte e fete, ou 
vinte oito do mez de Maio do mefmo anno 
faleceo ElRey D. João Perea Pandar , Se- 
nhor de toda a Ilha de Ceilão , a quem fe 
fez o mais honrado enterramento que a ter- 
ra podia dar de íi ; elogo o Capitão Geral 
D. Jeronymo de Azevedo mandou chamar 
a Columbo todos os Fidalgos da cafa da- 
quelle Rey , Modeliares , e peífoas princi- 
paes , e aos vinte e nove de Maio fe ajun- 
taram todos j eftando prefente Thomé de 
Soufa de Arronches , Capitão daquella For- 
taleza , Vereadores , Officiaes da Camará , 
Ouvidor , e Prelados de S. Francifco ; e 
fendo todos prefentes , lhes mandou dizer 
pelo Ouvidor João Homem da Coita , que 
bem fabiam todos como ElRey D. João 
Perea Pandar, Senhor de toda aquellallha, 
deixara em feu teftamento nomeado por 
herdeiro de todos os feus Reynos a ElRey 
de Portugal , por não lhe ficar outro algum 
que de direito lhehouveíTe de fucceder na- 
quella coroa ; e que por quanto alii cita- 
vam todos , aílim nobres , como o povo , 
Fidalgos 5 e Modeliares principaes , que 
elegeífem entre fi as peífoas que quizeííem 
pêra em nome de todos jurarem ao dito 

Se- 



Década XII. Cap. VI. 4? 

Senhor por Pvey , por não poder fer faze- 
rem todos o dito juramento. E logo por 
elles foram nomeadas as peílbas feguintes : 
D. Antão , D. Conítantino , D. Jorge , D. 
João j D. Pedro Homem Pereira ; Fidalgos 
da cala do Rey morto , Belchior Botelho 
Modeliar , Domingos da Coita Arache, 
e Thomé Rodrigues Patangatim , que to- 
dos , e cada hum por fi poílos de joelhos 
ao redor de huma meza com as mãos pof- 
tas fobre hum Miífal fizeram o juramento 
feguinte. 

» Nós D. Antão , D. Conítantino , D.Jor- 
» ge , D. João , D. Pedro Homem Pereira , 
» Belchior Botelho , Domingos da Coita , e 
» Thomé Rodrigues juramos a eítes Santos 
» Evangelhos , em que pomos noíTas mãos , 
» pomos, e em nome de todo eítepovo de 
» reconhecermos aElRey de Portugal, que 
» aílim neíte prefente acto alevantamos , e 
» juramos por noílò Rey , e Senhor, por 
» quanto D. João Perea Pandar , que Deos 
» tem no Ceo , noífo Rey natural , o deixara 
» por feu univerfal herdeiro, por não ter ou- 
» tro que de direito haja , e poífa herdar fua 
» Coroa, eReynos. Pelo que juramos outra 
» vez aos Santos Evangelhos , em que temos 
» noílas mãos , e promettemos de lhe guar- 
» dar fé, e lealdade, e de lhe obedecer, e 
» dar vaflallagem allirn aelle, como afeus 

fuo 



46 A S I A de Diogo de Couto 

» fucceílbres que ao diante lhe fuccederem , 
» ou a feus Vifo-Reys , Governadores , ou 
y> Capitães , que em feu lugar aíftítirem 
» neítes Reynos de Ceilão , como até aqui 
» fizemos a EIRey D.João Perea Pandar, 
» que Deos tem em gloria , noíTo Rey na- 
» tural que foi : e affim promettemos de o 
» guardar, e cumprir, como em outra qual- 
y> quer parte de feus Reynos, e Senhorios : 
•)> o que juramos hoje as coufas aífima, af- 
ia fim, e da maneira que são declaradas : o 
y> que tornamos a jurar outra vez, e outras 
» muitas vezes aos Santos Evangelhos , c 
)> promettemos de inteiramente as guardar 
y> affim por nós , como em nome deite povo.» 
Acabado eíie juramento , tomou o Ca- 
pitão Gerai em fuás mãos a bandeira Real 
das Armas de Portugal , e a entregou a 
D. Antão ; e logo o Capitão Geral , e o 
Capitão da Cidade , e todo o mais povo 
foram por todas as ruas principaes com a 
bandeira alevantada ; e nos lugares depu- 
tados alevantou o D. Antão a voz , dizendo : 
Real , Real , Real pelo muito Poderofo 
Senhor EIRey de Portugal \ ao que todos 
refpondiam : Real, Real, Real\ e acabada 
efca ceremonia , fefez hum auto deite jura- 
mento por Manoel Corrêa da Coita , Ta- 
bellião público das notas no livro delias , 
em o^ue fe aílignáram todas as peífoas no- 

mea- 



Década XII. Cap. VI. 47 

meadas; e o traslado do Auto tenho eu na 
Torre do Tombo , no livro dos Contratos , 
e Pazes a folhas 143. donde o trasladei 
aqui ; e logo dalli por diante foi EIRey 
de Portugal obedecido , e conhecido por 
Rey dos Reynos, que D. João Perea Pan- 
dar poffuia. 

CAPITULO VIL 

Das eleições que o Conde Almirante fez 
de Capitães : e das Armadas que orde- 
nou : e das novas que lhe vieram de 
Moçambique , de como eram pajfaâas pê- 
ra a índia duas nãos Hollandezas : e do 
que f obre iffofez: e da Armada que veio 
do Reyno , de que era Capitão mor D. 
Ajfonfo de Noronha : toca-fe a caufa das 
diferenças que houve entre o Conde , e 
Mathias de Alboquerque. 

ESte inverno paífou o Conde Almirante 
em prover em muitas coufas que lhe 
pareceram neceffarias ? affim pêra o provi- 
mento dos armazéns , como das Armadas 
qoe havia de mançlar pêra fora \ e vindo o 
dia de S. João , feítejou-o com carreiras y 
veílidos todos á Mourifca, como lie colhi- 
me na índia, como também fez o de Sant- 
iago , que ambos eftes dias são mui fefte- 



48 A S I A de Diogo de Couto 

jados dos Vifo-Reys ; e logo paflado efle 
deSant-Iago, fez as eleições pêra as Arma- 
das , D. Luiz da Gama feu Irmão em Ca- 
pitão mor do mar da índia , e coita do 
Malavar , por íer coftume nomear-fe nefte 
tempo : efta eleição foi murmurada , como 
ordinariamente o são todas as coufas que 
os Vifo-Reys fazem ; e então o são mais , 
quando ha pertençores ás coufas de que fe 
murmura , parecendo aos que o fazem que 
eftivera nelles melhor o que fe dá a ou- 
trem , ifto he muito antigo na índia ; fenao 
que ha nifto outro mal, que eu tenho por 
maior , que he louvarem eftes taes aos Vi- 
fo-Reys na prefença as eleições que fazem , 
e por detrás defapprovarem-nas : e praza a 
Deos que não aconteça ifto aos que nos 
Confelhos votao nellas , aonde alguns o fa- 
zem mais peias inclinações que fentem nos 
Vifo-Reys ? que pelo que lhes parece jufti- 
ça , e fervi ço de EIRey : e cuido que fem- 
pre fera affim ; porque os mais dos do 
Confelho tem pertençoes , huns de defpa- 
chos pêra entrarem em fuás Fortalezas , e 
outros que íahíram delias pêra o livramen- 
to de fuás refidencias. E aíilm vimos mui- 
tos virem delias com culpas mui exorbi- 
tantes 5 e livrarem-fe facilliílimamente , e 
porem-lhes em fuás fentencas que mereciam 
íazerem-lhes mercês , e affim as requerem , 

co- 



Década XII. Cap. VIL 49 

Como fe lhe deveíTe EIRey fazer-lhas , e 
fazem-lhas : e eíla he a juíliça da índia, 
porque eftes alcançam cá o que querem 
com trocarem os votos , e lá ganham as 
vontades ; e queira Deos que não fejam 
alguns com modos que calo : fallo com eftá 
liberdade , porque fou velho 5 e não parti- 
cularizo ninguém ; e fe por iík> me não fi- 
zerem mercês, não no terei por novidade, 
e contentar-me-hei com me lembrar que 
nunca as tive nem com me calar ; e dei- 
xando eílas coufas , em que havia bem que 
dizer, tornemos ao de que tratava, e digo 
que cem pouco fundamento fe murmurou 
da eleição que o Conde fez de D.Luiz da 
Gama feu irmão, porque era hum Fidalgo , 
que já tinha andado na índia 5 e fervido 
a EIRey , e eítava defpachado com a For- 
taleza de Ormuz , e fer de trinta annos de 
idade, e rico, e eíies são os homens mais 
aptos pêra o ferviço de EIRey. 

Neílas couías , e noutras femelhantes 
fe foi paliando o inverno até dezenove 
deAgofto, em que lhe chegou hum Galeo- 
to de Moçambique, em que vinha Gafpar 
Palha Capitão da náo Rofairo da compa- 
nhia de João de Saldanha , Capitão mor 
da Armada do anno paífado de noventa e 
féis , que indo pêra o Reyno (como já 
dilTe na onzena Década) arribou a Mo- 
Couto. Tonu vlt. D çam- 



5 o ÁSIA de Diogo de Couto 

çambique , aonde fe perdeo , e fe desfez 
a náo. Elte Capitão trazia cartas de Nuno 
da Cunha , Capitão daquella Fortaleza , em 
que lhe fazia a faber , que em Julho paira- 
do eítiveram duas náos Hollandezas no por- 
to deTitangone, finco léguas de Moçambi- 
que, pouco mais , ou menos , fazendo agua- 
da , e que lhe parecia que hiam na derrota 
da Sunda. Com eílas novas fe alvoroçou 
o Conde , e toda a Cidade por fer coufa 
nova , e nunca eílas gentes terem paífado 
a eítas partes ; e logo chamou o Arcebifpo 
D. Fr. Aleixo de Menezes , e todos os Capi- 
tães velhos a confelho , e lhes moftrou a 
carta , propondo-lhes que fe aquellas náos 
hiam pêra onde fe dizia , que poderiam 
fazer muito damno a nofla Fortaleza de 
Malaca em perturbar os vizinhos contra 
ella , e damnar o commercio daquellas 
partes , que era o mais groíTo da índia , e 
tomarem as náos da China , e Japão , em 
que fempre vinham mais de dous milhões 
de ouro de todos os moradores das Cida- 
des da índia : que clle eítava muito pref- 
tes pêra fazer tudo o que fe votaíle na- 
quelle confelho , porque pêra iífo tinha 
muito dinheiro , Galeões, Galés, Fuftas , 
artilheriã, e tudo mais que foífeneceífario ; 
e febre tudo muito animo, zelo, e vonta- 
de pêra acudir ao que foílc ferviço de El- 

Rey; 



Década- XII. Cap. VIL yi 

Rey ; porque elle nao vinha á índia a dcf- 
cançar, fenão a defendella , edilatalla, co- 
mo o fizeram feus antepaflados : que lhes 
pedia lhedeflem feus pareceres porcfcrito, 
pêra que mais livremente pudeffem dizer 
o que entendeflem que cumpria ao fervi- 
ço deDeos, e d 5 ElRey, porque com elles 
lhes havia de dar razão de íi. Sobre eíla 
propofiçao lhe trouxeram ao outro dia to- 
dos feus pareceres por efcrito , e nelles 
concordaram os mais em que fe mandaíTem 
dous Galeões , três Galés , e dez Fuftas 
com quinhentos homens , que era Armada 
baftante pêra fegurar aquellas partes , e 
bufcar as náos Hollandezas , e dar guarda 
ás da China, e de outras partes. 

Com elle aflento que fe tomou fe paf- 
fcu o Conde Almirante pêra a ribeira gran- 
de das Armadas , por nao haver então Vea- 
dor da fazenda ; porque Vicencio de Ba- 
ne , que fervíra aquelle cargo por ordem 
de Mathias de Alboquerque ; fe tinha ido 
pêra o Reyno o Janeiro paífado de noven- 
ta e fete • por fáber que vinha o Conde Al- 
mirante , que nao quiz prover aquelle car- 
go j porque dizia que o queria fervir \ e 
aífim foi correndo com elle ; mas tanto 
que fe mudou pêra a ribeira, o encarregou 
a D. Francifco de Noronha pêra o fervir, 
cm quanto duraííe aquella occaíiao das Ar- 
D ii ma- 



52 ÁSIA de Diogo de Couto 

madas *, e a feu irmão D. Luiz da Gama en- 
commendou os armazéns da artilheria , e 
munições ; e a D. António de Lima , que 
eftava defpachado Com a Capitania de Or- 
muz , os armazéns dos mantimentos com 
Provisões pêra todos os Officiaes da fazen- 
da lhe obedecerem como a fua peílba , e 
pêra por feus efcritos rafos darem tudo o 
que foíle neceíTario pêra aquella Armada. 

E Jogo entrou na eleição do Capitão 
Mor delia, que foi Lourenço de Brito, por 
ler Fidalgo velho, de muita experiência, e 
que tinha fervido muitos annos na índia 
de Capitão , e Capitão Mor das Armadas , 
e havia já fido Capitão de Çofala ; e pelo 
tirarem antes de acabar o tempo, o proveo 
ElPvey de outros três anncs , e homem que 
muitos tinham pêra íi eftar na primeira 
fuccefsão da governança da índia. Eíte Fi- 
dalgo começou a correr com o apreíta- 
mento de fua Armada ; e o Conde Vifo- 
Rey não defcançou até a pôr na barra , e 
pagou aos foldados a três quartéis , e ajun- 
tou marinheiros pêra todas as vafilhas com 
pagas avantajadas ; e tanta preífa fe deo 
a tudo , que logo poz toda a Armada na 
barra , que eram os dous Galeões que 
diíTemos, hum em que hia o Capitão Mor, 
e no outro António Pereira Coutinho , fi- 
lho de Jorge Pereira Coutinho , que foi 

Ca- 



Década XII. Cap. VIL 5-3 

Capitão de Chaul. As Galés eram duas > 
de que hia por Capitão de huma D. Luiz 
de Noronha , filho do Conde de Linhares 
D. Francifco de Noronha , e irmão de D. 
Fernando de Noronha Conde de Linhares , 
que foi Veador da fazenda , que tinha vin- 
do do Reyno o anno de 95*. e levava Pro- 
visão de Almirante da Armada ; e da ou- 
tra D. Jeronymo de Noronha, filho de D. 
António de Menezes. A outra Galé pêra 
perfazer o numero das três , havia de to- 
mar em Malaca , de que o anno paífado 
tinha ido por Capitão Ruy Dias de Aguiar 
Coutinho. As fuftas eram nove , de que fo- 
ram por Capitães D. Francifco Henriques , 
que hoje eftá fervindo a Capitania de Ma- 
laca ; Eílevão Teixeira de Macedo , que 
hoje he Capitão da Fortaleza de Moçam- 
bique ; Affonfo Telles de Menezes > filho 
de Francifco da Silva de Menezes ; Nico- 
láo Pereira de Miranda , filho de Henrique 
Henriques de Miranda , Camareiro Mor que 
foi do Cardeal D. Henrique , em quanto 
Cardeal ; e depois de Rey foi Eftribeiro 
Mor , Luiz Lopes de Soufa : Jeronymo Bo- 
telho, defpachado com a Capitania de Ma- 
laca , morreo em companhia do Vifo-Rey 
D. Martim Affonfo de Caftro ; Jorge de 
Lima Barreto , D. Diogo Lobo , filho de 
D. Rodrigo Lobo , João de Seixas. 

Ef~ 



54 A S I A de Diogo de Couto 

Eíla Armada partio da barra de Goa 
pêra Sunda a vinte e quatro de Setembro. 
Neíle tempo chegou á barra a náo N. Se- 
nhora de Guadalupe , em que o Conde Al- 
mirante tinha vindo , que invernou em 
Bombaim > que logo fe começou a negociar 
pêra Matinas de Alboquerque fe ir neila 
pêra o Reyno. 

E aos vinte e féis de Setembro chegou 
a Armada , que tinha partido de Lisboa > de 
que vinha por Capitão Mor D. Affonfo de 
Noronha > neto do outro D. Affonfo de 
Noronha , irmão do Marquez de Villa 
Real , que foi Vilb-Rey da índia , que ao 
prefente eftá por Capitão emTangere, que 
não trouxe mais que três nãos. A Caílello * 
em que elle vinha , e S. João , de que era 
Capitão Jorge da Silveira , e S. Martinho ? 
em que veio Chriílovão de Siqueira. Trou- 
xeram eftas náos boas novas da faude de 
EIRey j e do Príncipe , que o Conde feíle- 
jou bem. 

E porque os fcklados que vieram do 
Reyno começaram de andar defagazalha- 
dos i e padecer neceíhdades , lhes ordenou 
o Conde Vifo-Rey mezas até fe embarca- 
rem nas Armadas ( que eíle he hum dos 
maiores -íerviços de Deos , e de EIRey 
que fe pode fazer) no que alguns Vifo- 
Reys foram tão defeuidados , e não fei fc 

di- 



Década XII. Cap. VIL 57 

diga deshumanos , que com verem andar 
os pobres homens defpidos y e pedindo es- 
mola y não fe compadeceram delies. E affim 
morreram muitos ao deíamparo com gran- 
de efcandalo dos Mouros > e Gentios , por 
cujas portas andavam pedindo efmola. 
Deixemos eíla matéria , que lie de grande 
efcandalo , e em que não vejo emenda , 
e tornemos ao Conde Almirante , que def- 
pedio logo o cabedal das nãos a Chocim 
pêra terem preparada a carga pêra três, 
em que entrava a em que havia de ir Ma- 
tinas de Alboquerque , porque a de D. 
Affoníb havia de carregar em Goa, donde 
havia de partir , e pêra ella fe mandou fa- 
zer pimenta ás Fortalezas do Canará , que 
he a melhor de todas as que ha na índia. 
E porque (como algumas vezes tenho 
dito) não faltam na índia mechedores , e 
elpertadores de ódios entre os Vifo-Reys 
que acabam , e os que entram de novo \ o 
mefmo aconteceo a eftes ? que vieram a 
quebrar ; e a principal occalião das que- 
bras foi efcrever EIRey á Gamara da Ci- 
dade de Goa , que elle tinha mandado ao 
Conde Almirante que déífe fatisfaçao pú- 
blica aos aggravos que Mathias de Albo- 
querque fizera a António Giralte. E pri- 
meiro que o Conde Vifo-Rey executalTe o 
que lhe EIRey mandava , teve com elle 



5*6 A S I A de Diogo de Couto 

fatisfação pelo Padre Fr. Jeronymo do Ef- 
pirito Santo , Cuftodio CommiíTario Geral 
da Ordem de S. Franciíco , e depois pelo 
Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes. E 
ultimamente communicou na Ralacão aos 
Deíembargadores a ordem de EIRey , e 
aíTentáram que o Licenciado Ruy Machado 
Barbofa , Ouvidor geral do Civel , fizeíTe a 
execução ; e porque Mathias de Alboquer- 
que mandou dizer ao Vifo-Rey fer-lhe 
aquelle homem íufpeito , fem efperar o 
recufafíe na forma da Lei , nomeou o Con- 
de Viíb-Rey o Licenciado Diogo Caiado 
Rijo, a quem deo ordem, que não fizefíe 
execução em nenhuma das coufas que eíU- 
veflem das portas a dentro de Mathias de 
Alboquerque 9 que era o mor refpeito que 
fe lhe podia guardar. 

Feita eíta diligencia ? tratou o Conde da 
Armada , que havia de mandar ao Mala- 
var, em que hia por Capitão Mor D.Luiz 
da Gama feu irmão ; e da do Norte pêra 
quem eícolheo pêra Capitão Mor Luiz da 
Silva , irmão do Regedor Diogo da Silva , 
que eílava defpachado com a Capitania de 
Malaca • e porque faltavam navios de remo , 
por Lourenço de Brito haver de levar os 
que fe preparavam , quando foi quinze de 
Setembro , defpedio D, Rafael de Noronha 
por Capitão mor de dez navios pêra ir ás 

For- 



Década XII. Cap. VII. 57 

Fortalezas do Norte bufcar os novos que 
lá tinha mandado fazer no inverno ; e os 
Capitães que o acompanharam , foram : D. 
Manoel da Silveira , filho natural de D. 
Martinho da Silveira , Capitão que foi de 
Dio ; D. Álvaro de Taíde , filho de D. 
João de Taíde ; D. Luiz Lobo > D. Francif- 
co de Soto Maior , António Furtado de 
Mendoça , Ruy de Soufa de Larcão , e 
Lourenço de Aguiar , e outros a que não 
achei os nomes. E em quanto eftes navios 
foram bufcar os mais , ficou o Conde a- 
percebendo as Galés que feu irmão havia 
de levar , que eram quatro , e em nomear 
Capitães , de que fcmpre fez muito boà 
eleição , e em defpachar hum Galeão pê- 
ra Ceilão , de que foi por Capitão Ruy da 
Cofta Travaços com foldados , munições , e 
dinheiro pêra aquella conquiíla. E defpa- 
chou também Gonfalo de Tavares pêra ir 
entrar na Capitania de Dio , por acabar 
feu tempo Sebaftião de Soufa que nella 
eílava ; e a vinte e quatro de Setembro 
fez á vela toda a Armada de Lourenço de 
Brito , de quem adiante trataremos. 

As náos Hollandezas , de que Nuno da 
Cunha avifou ao Conde , tanto que fizeram 
aguada em Titangone , deram vela , e vie- 
ram haver vifta da cofta da índia de Goa 
pêra baixo 5 e foram correndo o Malavar 

até 



58 ÁSIA de Diogo de Couto 

até o cabo Çomorim ? aonde encontraram 
algumas náos de mercadores , que tinham 
partido de Goa pêra Bengala a carregar 
de arroz , que tomaram , e efcorcháram , 
levando-lhe muito dinheiro que hia nellas 
pêra a carga : huma delias me lembra que 
era de Diogo Catella , calado em Goa , que 
depois largaram com os mais Portuguezes , 
e ainda os proveram de algumas coufas , 
e dalli fe fizeram na volta de Malaca , a 
cuja coita chegaram como adiante fe verá. 

CAPITULO VIIL 

Como Gonfalo de Tavares Capitão eh D to 
mandou Simão de Abreu com dou s navios 
á cofta de Cache : e do encontro que teve 
com oito Par aos de Malavares , onde os 
noffos foram mortos , e desbaratados : e 
das mais coufas em que o Conde Almi- 
rante proveo. 

Anto que Gonfalo de Tavares tomou 
poífe da Capitania de Dio , logo em 
Outubro defpedio duas Fuftas, muito bem 
negociadas , de que foi por Capitão mor 
Simão de Abreu de Mello , pêra ir dando 
guarda a alguns navios de mercadores . que 
hiam pêra acoita dejaquete por caufa dos 
Sanganes > que por alii andavam a roubar. 



Década XII. Cap. VIII. 59 

Eíle Capitão , depois de deixar os mercado- 
res em portos ieguros y deixou-fe andar 
por aquelía paragem ás prezas 3 e nella en- 
controu corn oito Paraos de Malavares , 
que liiam efpcrar as náos que haviam .de 
vir de Ormuz , e os navios do Sinde , que 
naquelle tempo coftumam a vir pêra as 
náos do Reyno carregados de roupas mui- 
to finas. Tanto que os Malavares houveram 
viíla dos nolíos navios , logo os foram 
commetter quatro a cada hum , e os in- 
veftíram dous por cada bordo ; e poíto que 
acharam em os noílbs mui grande refiflen- 
cia , entráram-nos todavia , e dentro nos 
navios tiveram huma muito afpera batalha , 
que durou muitas horas , em que os Por- 
tuguezes fizeram em defensão de fuás vi- 
das coufas muito grandes , e mui notáveis 
cavallarias , principalmente o Simão de 
Abreu , que era hum valerofo foldado. Mas 
como o numero era tão defigual , aífim da 
gente , como o dos navios 3 foram todos 
os noííbs mortos de muitas , e grandes fe- 
ridas : não fe ficaram os Malavares louvan- 
do , e gloriando da vidloria, porque lhes 
mataram mais de 150. Mouros 5 e quafi 
todos os mais ficaram muito feridos 3 e mal- 
tratados. 

Eftas novas chegaram logo a Dio , e 
em poucos dias a Goa > porque eíla he a 

na- 



6o A S I A de Diogo de Couto 

natureza das más , correrem com muita 
prefía ; e dando-fe ao Conde , que as fentio 
bem , defpedio logo D. Álvaro de Menezes 
por Capitão Mor de fete navios, dos que 
eftavam mais a ponto pêra a Armada do 
Malavar com regimento que déflfe huma 
volta ao Norte , e trabalhaíle muito por 
haver falia daquelles coílarios , e os foíTe 
bufcar onde quer que eftiveííem. E logo 
dahi a poucos dias defpedio o Capitão Mor 
da coita do Malavar, pêra que foíTe efpe- 
rar eíles navios aosllhéos de Santa Maria , 
aonde coílumam ir demandar, porque efta- 
va certo , tendo avifo dos navios de D. Ál- 
varo de Menezes , voltarem logo pêra o 
Malavar , e irem demandar aquella para- 
gem , onde não podiam efcapar. Efta Arma- 
da fe fez á vela em treze de Novembro 
com as quatro Galés , de que , a fora o Ca- 
pitão Mor , eram Capitães D. Diogo Couti- 
nho , que levava Provisão de Capitão Mor 
do cabo de Çomorim 3 D. Vafco da Gama , 
filho de D. Francifco de Portugal , e Dio- 
go de Mello , filho de Francifco de Mel- 
lo, d' alcunha o Roncador, filho de Trilião 
de Mello , irmão do Abbade de Pombeiro. 
Neílas Galés hiam muitos Fidalgos por 
foldados , e dos que nos lembram são os 
feguintes. Na Galé do Capitão Mor , D. 
Balthazar , D* Manoel , e D. António de 

Caf- 



Década XII. Cap. VIII. 61 

Caftro , todos irmãos ; D. Duarte Anriques , 
e D. Lopo íeu irmão > António Sobrinho 
de Azevedo , Miguel , Gafpar , e Gomes 
Freire irmãos , D.Jorge de Caftro , Gaf- 
par Tibao , Sebaftião de Brito Falcão , 
Chriílovão Rabello , Lourenço Guedes , fi- 
lho de Pêro Guedes , Triftão , e Luiz Fer- 
nandes de Taíde irmãos , filhos de Nuno 
Fernandes de Taíde , Manoel de Oliveira 
de Azevedo , Ruy Mendes de Vafconcel- 
los , Domingos de Caftilho, Cavalleiro da 
Ordem de Chrifto , Trajano Rodrigues , 
António Botelho de Azevedo , Francifco 
Sodré , Gonfalo Vas de Caftello-Branco , 
Baíilio Taveira , D. Diogo Pereira , D. 
Manoel Mafcarenhas, D.Lopo de Almei- 
da, Luiz de Antas Lobo, Diogo Botelho, 
Álvaro Teixeira Lobo \ Pêro Peixoto da 
Silva, Francifco Homem, e outros muitos 
Fidalgos , que não viviam com EIRey, e 
muitos Cavalleiros , e foldados muito hon- 
rados : na Galé de D. Diogo Coutinho , 
D. Bernardo de Noronha , e D. Manoel de 
Noronha leu irmão , D. Álvaro da Cofta, 
D. Conftantino de Menezes , Simão de Mel- 
lo , Luiz Freire de Andrade , Francifco de 
Soufa , Manoel Coutinho Pereira , André 
da Silva, Luiz da Gama, Gonfalo de Ma-» 
cedo, Sebaftião Corrêa da Cunha, Martim 
da Cunha de Sá , Ruy Brandão , e Fernão 

Bran- 



6z A S I A de Diogo de Couto 

Brandão irmãos , Gonfalo Falcão , filho de 
Aires Falcão j D. Gafpar de Noronha , D. 
Jorge de Noronha , e Lourenço de Car- 
valho : eíles três me não lembra com quem 
hiam embarcados , nem de outros muitos 
Fidalgos , e Cavalleiros principaes , que 
hiam efpalhados por todos os navios , de 
maneira que hiam neíla Armada todos os 
appellidos do Reyno , e a mais luftrofa 
lbldadefca da índia. 

Os navios de remo eram trinta e três , 
cujos Capitães eram os feguintes. D. Ma- 
noel da Silveira , D.Alvaro de Taíde , Simão 
Ranjel de Caftello-B ranço , D, Rafael de 
Noronha 5 D. Luiz Lobo, filho de D.Dio- 
go Lobo , D. Francifco de Soto Maior, 
António Furtado de Mendoça , Lourenço 
de Aguiar Coutinho , Manoel de Benda- 
nha , D. Pedro Mafcarenhas , filho natural 
de D. Francifco Mafcarenhas o Palha , que 
foi Capitão de Ormuz , D. Álvaro de Me- 
nezes y Jorge da Cunha , D. Lourenço da 
Cunha , Fernão Ortis de Távora , Martini^ 
Gomes de Carvalho , Diogo de Miranda, 
filho de Manoel de Miranda, que foi Ca- 
pitão de Dio , Francifco de Mendoça, 
D. Chriílovão de Noronha Villa Verde, 
D. Filippe de Soufa , Vafco Gomes de Mel- 
lo , Chriílovão de Brito, D. Pedro de No- 
ronha a Manoel de Barbuda , António de 

Mi- 



Década XII. Cap. VIII. 63 

Miranda , Duarte Brandão de Lima i Ma- 
noel de Soufa , e outros a que não achei 
os nomes : nefta Armada foram mais de 
mil homens. 

Poucos dias depois defpedio o Conde 
Almirante a Luiz da Silva Capitão Mor 
do Norte com dez navios , os melhor pe- 
trecliados , e da melhor foldadefca que fe 
viram ha muitos annos naquella coila , de 
que eram Capitães D. João Tello de Me- 
nezes , filho do Alferes Mor D. João de 
Menezes , Paulo Machado de Azevedo , 
Ruy Pereira , Ruy de Soufa de Larcao , 
Manoel de Cabedo, Goníalo de Caldas, è 
Pêro de Bcndanha , e outros a que não 
foube o nome. 

Depois deílas Armadas partidas , che- 
gou a Goa huma Zavra , que vinha de Or- 
muz fem trazer dinheiro, que o Conde es- 
perava nella ; mas trouxe novas de fer fa- 
lecido António de Azevedo , Capitão da- 
quella Fortaleza. Pelo que o Conde des- 
pachou logo D. António de Lima pêra 
ir entrar nella ; e nefta Zavra vieram car- 
tas de EÍRey por terra , em que dizia ao 
Conde , que fe António Giralte foífe ido 
pêra o Reyno , ou foífe falecido , fizeífe 
Veador da fazenda hum Fidalgo de idade, 
e experiência , em que coubefle bem a fer- 
ventia daquelle cargo , que foi a razão por 

que 



64 A S I A de Diogo de Couto 

que o Conde fez Garcia de Mello , por 
concorrerem nelle as partes neceííarias. 

Os Paraos que tomaram os navios de 
Simão de Abreu de Mello fizeram por 
aquella coíía mais algumas prezas , e o 
mais groílb , e importante delias mettêram 
em hum dos navios, e defpedíram-no pêra 
o Malavar ; e indo demandar a terra na 
paragem de Barcelor > encontraram huns 
navios de mercadores Portuguezes , que vi- 
nham deCochim, e por cabeça delles hum 
Álvaro Rodrigues Negrão ; e vendo o 
Parao , endireitaram comelle, einveftíram- 
110 y e tomáram-no com todo o recheio 
que trazia, porque os Mouros que vinham 
nelle fe lançaram todos ao mar , e não 
trataram de mais , que de falvarem as vi- 
das. E com efte navio porpoppa entraram 
os noíibs em Goa , que o Conde eftimou 
muito , por fe os Mouros não ficarem lo- 
grando daquellas prezas. 

Tanto que o Conde acabou de eferever 
pêra o Reyno \ defpedio as vias de cartas, 
papeis , e defpachos pêra Cochim , e ficou 
provendo nas mais coufas ? que lhe pare- 
ceram neceífarias , principalmente nas que 
pertenciam ao acerefeentamento da fazenda 
Real 5 porque achou nella algumas defor- 
dens , e gaítos fuperfluos , e deíheceflarios , 
e entre ellas mandou fufpender os Alrno- 

xa- 



Década XII. Cap. VIII. 6? 

xarifes da artilheria , e munições que ha- 
via em todas as Fortalezas , por lhe pare- 
cerem defneceíTarios , e que comiam os or* 
denados debalde , e paflbu Provisões pêra 
os Feitores das Fortalezas fervirem também 
aquelles cargos , e terem cuidado daquellas 
coufas , que eram fazenda deElRey, e por 
ifíb lhes accreícentou mais quinze mil reis 
de ordenado ; porque a fazenda de EIRey 
pêra crefcer ha de andar por poucas mãos , 
e quanto menos forem os Officiaes , tanto 
ella irá em mor crefcimento. E eíta he a 
razão que EIRey teve pêra mandar muitas 
vezes, que não houveífe nas Fortalezas Vea- 
dores da fazenda , nem Provedores delia, 
porque fempre são mais os gaftos , e def- 
pezas que nellas fazem , que os proveitos 
que reíultão de os haver : iílo não quizeram 
os Vifo-Reys nunca guardar por coufas que 
calo. E porque também o Conde foi infor- 
mado , que as obras da fortificação da Cidade 
de Baçaim corriam muito devagar , eftando 
applicado peraellas dinheiro baítante, quiz 
prover niífo com muita preíTa , pêra o que 
fez Superintendente delias a hum Fidalgo 
chamado Aires da Silva de Mello , que então 
era Vereador naquella Cidade , por ler peílba 
de muita diligencia, e confiança, edeo-lhe 
poderes fobre os Officiaes , com que os mu- 
ros daquella Cidade foram crefcendo a olho. 
Couto. Tom. uLTé E CA- 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IX. 

Do que fuccedeo d Armada do Malavar : 
e do que o Capitão Geral tratou com 
EIRey de Cananor , e Çamorim , de 
que afifou ao Conde : e do que fobre 
ijfo ajjentou em Ccnfelho : e de como 
a não 5 em que Mathias de Alboquerque 
havia de ir y fe queimou na barra de 
Cochim. 

PArtido D.Luiz da Gama de Goa com 
toda ília Armada junta 5 foi viíltando 
as Fortalezas do Cariará , c provendo-as 
de todo o neceílario ; e chegando a Cana- 
nor , tratou com aquelle Rey algumas cou- 
fas importantes ao Eílado , fobre o que 
achou alguns inconvenientes a lhe conceder 
quatro cartazes pêra Meca , em que EIRey 
infiftio muito , e lhe deo os mais que lhe 
pedio pêra feus pagueis y refpondendo a EI- 
Rey, que daria conta ao Conde Vifo-Rey 
fobre o negocio dos cartazes , e que o que 
elle ordenaíle , e aíTentaífe , iflb fe faria : e 
nos cartazes que lhe concedeo dos pagueis 
achou também difficuldades nos moradores 
daquella Fortaleza ; e paíTando por ellas, 
lhos concedeo por arrecear , que ficando 
os Mouros defcontentes , fe paííaílem mui- 
tos delles ao Cunhal e 7 e o ajudaíTem na 

guer- 






Década XII. Cap. IX. 67 

guerra contra o Çamorim , e o Eítado, 
porque efperava dos bons intentos com 
que o Çamorim eílava, fegundo o informa- 
ram 5 de fe eíFeituar aquella empreza com 
muita honra. E dalli avifou ao Vifo-Rey 
de tudo o que tinha feito , e paliou a Ca- 
lecut, onde furgio , e mandou tratar fobre 
a guerra , que fe havia de fazer ao Cu- 
nhale até derribar aquella Fortaleza , como 
eílava obrigado pelos contratos das Pazes , 
que D. Álvaro de Abranches o verão palia- 
do fizera com elle ; e aflim lhe mandou 
pedir que entregaíle todos os navios de 
coílairos que houvefle em feus portos , ou 
os inhabilitaífe pêra poderem fahir a rou- 
bar , e todas as mais coufas , a que não ti- 
nha dado execução , como eílava obrigado , 
e tinha jurado nas Pazes. 

A iílo refpondeo o Çamorim, que elle 
não podia effeituar o negocio de Cunhale 
fem o Vifo-Rey lhe dar trinta mil patacões 
pêra as defpezas daquella guerra , fem em- 
bargo de lhe não eílarem promettidos no 
contrato , e que lhe mandaífe algumas Com- 
panhias de Portuguezes pêra o aíTalto da- 
quella Fortaleza , porque os Naires não 
fabiam daquelle miíter , e que daria a ifíb 
todos os reféns , e feguranças que lhe pe- 
di (Tem , e que fe obrigava a dar pêra o 
Eílado ametade de tudo o que fe tomaffe 

E ii na 



68 ÁSIA de Diogo de Couto 

na efcala da Fortaleza , aílim de thefouros , 
como de artilheria, navios, emais coufas, 
affirmando que tudo o que pedia lhe pro- 
mettêra D. Álvaro de Abranches de palavra. 

Vendo o Capitão Mor que o Çamorim 
innovava muitas couíasfóra das que eftavam 
nos contratos , entendeo- que tudo eram 
dilações do Çamorim pêra o entreter , por- 
que eftava já arrependido do que promet- 
têra j e não concluindo em coufa alguma , 
efcreveo ao Conde Vifo-Rey tudo o que 
era paliado y e o que imaginava daquclle 
negocio , pêra que o aviíaíTe do que devia 
fazer. 

Com eftas-cartas ajuntou o Conde Con- 
felho , e nelle as mandou ler, e de pala- 
vra lhes propoz outras coulas , como fe 
em cafo que fofle neceíTario fazer guerra 
ao Çamorim por quebrantador dos contra- 
tos , fe feria licito fazer-fe também a Ca- 
nanor por razão do Eílado 3 por fe não 
proverem o Çamorim , e Cunhale por feus 
rios , como fempre coftumáram. Sobre ifto 
pedio a todos votaííem livremente o que 
foíTe mais ferviço de EIRey ; e debatido 
entre todos aquelle negocio , aflen taram de 
commum parecer, que quanto ao dinheiro 
que o Çamorim pedia , não havia pêra que 
tratar diíTo , ainda que com elle fe com- 
praíTe a paz , fe ella não havia de redun- 
dar 



Década XII. Cap. IX. 69 

dar na deftruição deCunhale, que era o que 
fe perrendia , do que todos duvidavam havei- 
lo o Çamorim de fazer pelo muito que inte- 
reífava nas prezas , que os coffairos que fa- 
hiamdos portos de Cunhal e faziam em todo o 
mar. Que pois o Çamorim faltava com o que 
promettêra 5 fe lhe fizeífe a guerra com lhe 
tomar as barras , e lhe defender os manti- 
mentos , e fe lhe fizeílem todos os mais da- 
mnos que pudeífem , aproveitando-fe o Capi- 
tão Mor de todas as occafiões que o tempo 
lhe aífereceife ; e que antes que fe decla- 
ralfem , mandaífe recolher os Padres da 
Companhia que eítavam em Calecut 5 e o 
Feitor, e Chriílaos que houveífe y e que os 
Portuguezes cativos , que lá eílavam em Cu^ 
nhale , fe refgataífem , e deífem em fua re- 
compensão hum Cutimuça , que eftava em 
noffo poder : e que com Cananor fe diífimu- 
laífe , poílo que o Capitão Mor foubeíle que 
forreticiamente lançava fora Paraos de feus 
portos a roubar , mas que fe lhe limitaílem 
os cartazes pêra os Pagueis de feição , que 
não pudeífem metter em feus portos man- 
timentos ? que os que piedofamente lhes 
baftaífe pêra nao proverem o Cunhal e 
delies ; e que quanto aos foldados que o 
Çamorim pedia pêra o aífalto da Fortaleza 
de Cunhale , fe lhe nao haviam de conce- 
der, ainda que fó com iífo fe contentaífei 

por* 



7o A S I A de Diogo de Couto 

porque não era licito arrifearem-fe entre 
inimigos , que nunca guardavam palavra , 
jiem verdade 5 e aonde tanto fe haviam de 
temer , e arrecear dos que foíTem ajudar, 
como dos que foíTem commetter ; porque 
ainda que o Çamorim prometteííe a fegu- 
ridade que dizia , fempre fe havia de re- 
cear a pouca fé que tem os Mouros bai- 
xos , pelo ódio antigo , em que fe creáram 
contra o nome Chriítão , porque havia 
muitos exemplos de grandes traições , que 
fempre ufára com os noífos : e que os 
reféns que podia dar , que eram três , ou 
quatro Naires , por muito honrados que 
foífem , nao valiao tanto , como o fomenos 
Portuguez que alli fe arrifeafíe. Efta re- 
foluçao mandou o Conde ao Capitão Mor , 
e o avifou muito largamente do que de- 
via fazer, porque eiíe efperava por horas; 
e entretendo-fe por aquella coita , e vendo 
o que fe aífentára em Confelho , efereveo 
em fegredo a Belchior Ferreira Feitor de 
Calecut , pêra que o mais incubertamente 
que pudeífe fe recolheíle com os Padres da 
Companhia, que lá eftavam, a Chalé, onde 
clle ficava efpalmando a Armada : o que 
elle logo fez , e levou comíigo os Padres 
Jorge de Caftro , e o Padre Antonino , e 
o Padre Francifco da Coita ; e tanto que 
çs lá teve 5 alevantou a guerra ao Çamo- 
rim ^ 



Década XII. Cap. IX. 71 

rim, e lhe queimou alguns Pagueis, e avi- 
fou aos Capitães de Cananor , Mangalor, 
e Barcelor, pêra que fizeflem o meímo aos 
que lá houvefíe , ou foíTem ter áquellas 
Fortalezas, Feito ifto , tomou o Capitão 
Mor os portos , donde podiam fahir , e en- 
trar Paraos , e lhes defendeo com iííb o 
Commercio , e Navegação , porque fe não 
proveflem de mantimentos , com que os poz 
em muita neceífidade delles* 

Quaíi neíle meímo tempo fucccedeo na 
barra de Cochim o mor deíaílre que fe vio , 
que foi eíte. Eílando a náo, em que havia 
de ir Mathias de Alboquerque com toda a 
carga , e fazenda dentro , e preítes pêra fe 
partir dalli a dous dias , ou três , quiz a 
defaventura , que eílando huma barcaça a 
bordo delia com huma grande caldeira de 
breo breando algumas portinholas por 
poppa, que ventaííe o vento Noroefte rijo, 
com que o fogo em que a caldeira eílava 
alevantafle huma grande labareda que deo 
no breu , de que logo fahíram medonhas 
chammas , que pegaram na náo pelo leme , 
e varanda , e delia fubio ás obras mortas 
de fima , e em muito breve efpaço foi to- 
mando tanta poíle da náo , que fem fe lhè 
poder pôr remédio ardeo toda , com tão 
efpantofo terremoto , e temoroíò efpeíla- 
culo , que pafmáram todos os que o viram. 

Per- 



72 ÁSIA de Diogo de Couto 

Perda muito notável , porque fe confumio 
jiella mais de milhão e meio de ouro , 
e a gente fe íalvou em algumas embarca- 
ções que havia , ainda que não toda , por- 
que alguma pereceo , que tinha já cumprido 
o termo da vida. Acudio a iílo toda a Ci- 
dade ; e Mathias de Alboquerque , que ti- 
nha nella toda fua fazenda , tirados alguns 
efcritorios maneiros com íeus brincos , e 
papeis j que tinha ainda comíigo em terra , 
Tendo aquelle incêndio tão íupito , e que 
alli íe lhe confumíra quanta fazenda tinha 
adquirido na índia em féis annos que a 
governou , alevantou as mãos aos Ceos , e 
diífe aquellas palavras de Job : Vós o déf- 
tes , e vós o levafies : fejais , Senhor , hu- 
vado pêra fempre , entendendo que fora 
aquillo caítigo de feus peccados. E aífim 
moítrou neíta defaventura grande animo, 
dizendo a todos os com que fallava nefta 
matéria , que não fentia tanto a fua perda , 
como a de EIRey , e a dos homens , ha- 
vendo .que ainda aquillo fora grande mife- 
ricordia de Deos fucceder em terra , por- 
que fe fora no mar, tudo fe acabara. 

Não deixarei aqui de contar huma cou- 
fa , que me aconteceo com o mefmo Ma- 
thias de Alboquerque , admirável , e quaíi 
profecia deíla perdição : e o cafo foi cile. 
Eítando eu hum dia com elle pouco antes 

que 



Década XII. Cap. IX. 73 

que o Conde vieíle , tinha humas cartas na 
mão , que áquella hora lhe vieram da Cor- 
te do Mogor , que lhe efcreveo o Padre 
Jeronymo Xavier da Companhia de Jefus , 
homem tido por muito virtuofo , e que fe 
tia parecendo com o Padre Francifco Xa- 
vier feu tio y que por fua fantidade lhe 
podemos em certo modo chamar Apoílolo 
da índia ; e abrindo huma carta deite Pa- 
dre , que elle já tinha lido , me moftrou 
três , ou quatro regras , que eílavam no ca- 
bo delia 5 que diziam affim , ou outras pa- 
lavras femelhantes : (( Parece-me que efta mi- 
» nha carta tomará já a V. Senhoria entrou- 
» xado 5 e negociado pêra fe ir pêra o Rey- 
» no, ehe razão que vá já defcançar defeus 
» trabalhos : fe tal lie , lembro-vos 5 Senhor , 
)) que os Vifo-Reys da índia não tem outro 
» Preíidente , que lhes tome fuás reíidencias , 
» fenão o Cabo de Boa Eíperança , por iífo 
» trabalhe V. Senhoria muito por ir tão le- 
He, e defcarregado , que não tenha que 
» fazer com elle. » Juíto juizo deDeos , gran- 
de mercê , e mifericordia fua pòrmittir elle 
tomar-lhe a refidencia no porto de Co- 
chim , e não na guardar pêra o Cabo de 
Boa Efperança , porque fora rffidencia 
muito afpera , e rigorofa pêra todos , em 
que foram fazendas , vidas , e não íei fe 
ps almas de alguns , porque lhe quiz guar- 
dar 



74 ÁSIA de Diogo de Couto 

dar eftas pêra outra hora melhor , como 
teriam. 

JSm fim vendo-fe Mathias de Alboquer- 
que caftigado de Deos daquella maneira , 
efcolheo a náo S. Martinho } de que era 
Capitão Chriítovão de Siqueira , pêra fe 
embarcar nella , e em muito poucos dias 
fe apercebeo de matalotagem , e de tudo 
o neceflario abaítadamente , que a Cidade , 
os Fidalgos 5 e moradores o proveram de 
muita roupa , gallinhas , carnes , e bifcouto , 
confervas , e outras coufas , com que foi 
tão bem provido , como dantes eítava j e 
aífim fe fez á vela a dezefete do mez de 
Janeiro defte anno de noventa e oito , em 
que com o favor Divino entramos , e com 
ambas as náos chegou a Lisboa ao primei- 
ro de Agofto. D. Aífoníb de Noronha , Ca- 
pitão Mor das náos , carregou em Goa , e 
deo-lhe o Conde muito bom aviamento , 
e fez-lhe muitas mercês em nome de El- 
Rey , e partio de Goa dia de S. Thomé , 
e chegou ao Reyno com Mathias de Albo- 
querque , porque fe ajuntaram em Santa 
Elena. Nefte anno mandei a EIRey pelo 
mefmo D. Affonfo a minha quarta Década 
da Hiftoria da índia , que logo fe im- 
primio ; e aíTim fui mandando pelos 
annos adiante outras Décadas , que EIRey 
noííb Senhor faz merco a todos os Por- 

tu- 



Década XII. Cap. IX. 75- 

tuguezes de mandar imprimir , já que as 
mandou fazer. 

CAPITULO X. 

Do que fuccedeo d Armada do Norte : e 
do encontro que teve com alguns Par aos 
de Malavares que tomou , e desbara- 
tou : e do que mais fuccedeo á Armada 
do Malavar até Je recolher. 

PArtido Luiz da Silva pêra a coita do 
Norte nos dez navios que diflemos , 
mas taes que valiam vinte , porque levava 
cada hum trinta , e trinta e linco foldados 
dos efcolhidos da índia , e o meíino era 
nos marinheiros , fem levarem moços , 
caixões , nem canaítras , fenão fó quatro 
camizas , e muitas armas, e os navios tão 
leites , ligeiros , e defpejados , que por 
baixo dos bancos , em lima dos bizas dor- 
miam os foldados embrulhados em fuás 
capas , e com as camizas á cabeceira , por- 
que o Capitão que quer tomar Faraós , 
affim ha de andar ; e os que vam cheios 
de caixões , rapazes , e negros , não querem 
encontrallos , nem pelejar com elles , ainda 
que os encontrem , porque não pertendem 
mais que tirarem certidões , que foram por 
Capitães de navios, pêra requererem ferviços 

de 



y6 ÁSIA de Diogo de Couto 

de Capitães. E já não querem acceitar fei- 
torias , nem efcrivanishas , que antigamen- 
te le davam a outros mais bem naícidos , 
e de mais merecimentos , fenão Fortalezas. 
E vieram a dar quafi todos nas de Mom- 
baça , e Mafcate , ainda que faibam não 
entrar nunca , porque fazem conta que são 
os cafados da Índia tão nefcios 5 que como 
elles chegarem do Reyno com eftes def- 
pachos , logo lhes darão em cafamento com 
fuás filhas oito e dez mil pardaos , que fe 
gaílão em dous annos em cavallos , e pa- 
gens , e tornão a ficar como na primeira 
innocencia, em que entraram na índia. E 
certo que me aconteceo vir na Armada 
paliada hum homem defpachado com a» 
Fortaleza de Mombaça , e moltrar-me a 
liíla da cafa da índia dos defpachados 
diante deile , e tinha trinta e tantos ho- 
mens , que vinha a fer mais de cem annos. 
Do que me efpantei ? e lhe perguntei , que 
determinava de viver pêra entrar em feu 
defpacho , fendo elle de perto de quarenta 
annos ? Ao que me refpondeo , que não 
faltaria hum nefcio , que lhe déífe fua filha 
com dez , ou doze mil pardaos , e que 
entre tanto comeria , e que como elle 
morrefle , morreíTe com elle tudo. E como 
já no Reyno fabem como eftes defpachos 
cltão entulhados 5 dá-lhe pouco de lhe da- 
rem 



Década XII. Cap. X. 77 

rem tudo o que pedem , porque em fim 
nada lhe dam , que bem nada he o que fe 
não efpera de lograr. Mas por irem entre- 
tendo os homens , e fe não largar o fervi- 
ço de EIRey , fatisfazemo-nos com lhe da- 
rem o que pedem. 

E tornando ao fio da hiítoria , e aos 
navios de Luiz da Silva , além de elle fer 
Fidalgo curioíb , e defejofo de ganhar 
honra , também o Conde Almirante , que 
a não queria perder em feu tempo , tanto 
que eílas Armadas fe punham na barra , 
lhe hia elle cm pcíTòa com os Officiaes da 
Matricola fazer os aJardos , e corria todos 
os navios , e os fazia defpejar de tudo o 
que levavam, que lhe podia fazer impedi- 
mento. Luiz da Silva foi correndo a cofta y 
levando finco navios ao mar , e outros 
tantos á terra , quaíi á yifta huns dos ou- 
tros 5 pêra afíim lhe não poder efcapar 
coufa alguma \ porque hia defobrigado de 
dar guarda a Cáfilas, coufa de grande pe- 
zo pêra quem quizer bufcar Paraos. E nef- 
ta ordem chegou a Chaul , onde não quiz 
entrar , por fe lhe não defmandarem os 
foldados , coufa muito perjudicial ás Ar- 
madas j e em que muitos Capitães daquel- 
la cofta tiveram pouco refguardo ; porque 
de viçofos , e por fe moftrarem , tomaram 
todas aquellas Fortalezas, em que fe deti- 
ve- 



j% A S I A de Diogo de Coirro 

Teram muitos dias , e nellas lhe ficaram 
muitos Toldados , c não fei fe folgaram 
com iflb por pouparem os mantimentos. 

Efte Capitão não no fez aífim , mas de 
fora mandava buícar os provimentos que 
havia de mifter , a que os Capitães mandavam 
fó feus compradores a iflb ; e paflando 
por Chaul , achou por novas que era pafla- 
da huma grande efquadra de navios Mala- 
vares pêra Dio , e fem fe deter foi em 
feu feguimento ; e chegando áquella For- 
taleza , foube ferem paífados pêra a cofta 
de Pór , e Mangalór a efperar as náos , 
que naquelle tempo haviam de vir de Or- 
muz : e fem detença alguma foi logo apôs 
elles ; e chegando á Ilha dos Sanguanes , 
foube que eram os cofíairos havia muito 
pouco partidos dalli , o que Luiz da Silva 
íentio muito. 

E porque aquella Ilha foi fempre hu- 
ma ladroeira ? e colheita de ladrões 5 ecof- 
fairos 5 determinou de caíligar os da terra y 
pêra o que defembarcou , e fez nella huma 
grande deftruiçao , aífim nos moradores , 
como em fuás fazendas , mettendo o que 
achou vivo á efpada , e a fogo , queiman- 
do-lhe todas as embarcações que achou no 
porto , e fem fe deter alli mais , voltou pê- 
ra a cofta do Norte; e em Chaul 5 porque o 
navio em que hia era hum pouco pezado 5 lar- 

gou-o, 



Década XII. Ca?. X. 79 

gou-o , e paílbu-fe a outro mais pequeno , 
mas muito ligeiro, onde fez embarcar trin- 
ta Toldados dos íeus os mais efcolhidos , 
que não levaram comíigo mais que fós fuás 
armas , e o efquipou de marinheiros todos 
Vogas mui forçofos , e bem difpoftos , que 
faziam voar o navio ; e paliando pela cofta 
abaixo tanto avante , como o rio de 
Chaporá , que são duas Jeguas de Goa y 
houve huma madrugada vifta de quatro 
Paraos , tendo elle comíigo fós outros qua- 
tro 5 porque os mais da fua Armada anda- 
vam apartados , e com eftes que tinha foi 
apôs os dos inimigos , que logo alcançou 
pela ligeireza dos feus navios ; e o Capi- 
tão Mor , que foi o dianteiro , inveftio hum > 
e da pancada que deo 7 o virou logo , e 
arremettendo com outro , poz-lhe aproa, e 
lançou-fe dentro com os íeus foldados , e 
em breve efpaço o rendeo á efpada. Rur 
de Soufa de Lareao , Capitão do outro na- 
vio , inveftio outro Parao , a que fe lançou y 
e á efpada o rendeo com morte de muitos 
Mouros 5 e os mais fe falváram a nado , 
como o fizeram também os dos dous que 
Luiz da Silva rendeo. Pêro de Bendanha 
endireitou com hum navio dos coflairos, 
que lhe foi fugindo , porque o medo que 
levava lhe deo azas á fugida , e em breve 
efpaço o perdeo de vifta , porque foi ali- 

jan- 



8o A S I A de Diogo de Couto 

jando todo o fato ao mar , e ainda os 
mefmos Mouros fe lançaram a elle por fe 
haverem por perdidos , e a nado fe falvá- 
ram em terra* 

Luiz da Silva tomou os três Paraos á 
toa , porque tornou a defalagar o primeiro 
que virou com a pancada , e foi-fe por na 
boca do rio de Banda, e mandou dizer ao 
Tanadar que lhe mandafle entregar todos 
os Malavares que fe tinham falvado em 
terra , conforme ao contrato das Pazes , por- 
que fe não havia de alevantar dalli fem 
<dles. E por tal modo correo com eíle ne- 
gocio , que obrigou ao Tanadar a mandar 
dar bufca pelas aldeãs , e ainda fe ajunta- 
ram perto de duzentos Mouros , que lhe 
trouxeram atados y e affim os entregou a 
Luiz da Silva y que logo mandou efpetar 
pelas barrigas em Arequeiras altas na boca 
daquella barra 9 e aos mais fez outro tanto 
pela coita aííima ao longo das povoações , 
enchendo aquella ribeira daquelles corpos ; 
porque fe por alli paífaílem os coífairos, 
viíTem feus companheiros daquella maneira , 
pêra quefoubeífem que omefmo fe lhes ha- 
via de fazer a elles , fe os tomaflem. Epela 
liberdade do Tanadar de Banda lhe deo 
Luiz da Silva huma peça de veludo crame- 
zim , e outras de tafetá , e duas fermofas 
efpadas \ e os cafcos dos navios mandou 

pe~ 



Década XII. Cap. X. 81 

pêra Goa , porque alguma coufa tinham 
que os foldados as tomaram. 

Feito iílo , tornou Luiz da Silva pela 
coita aífima , por lhe darem por novas le- 
rem paffados outros paraos pêra a eníeada 
de Cambaya ; e neíla volta lhe deo hum 
vento Sul mui grande , que lhe eípalhou 
toda a Armada ) que le recolheo aos portos , 
que cada hum dos navios pode tomar. Só 
o Capitão Mor foi correndo com aquelle 
tempo até Dabul ; e ao outro dia que abo- 
nançou , houve viíta de huma Galeota de 
Malavares que hia engolfada ; e dando á 
vela , a foi demandar , e trabalhou tudo o 
que pode por lhe tomar o balravento, 
como fez , por fer o feu navio muito ligei- 
ro ; e difle aos foldados , que todos oife- 
receflem aquella Galeota a N. Senhora , 
que eila lha metteria nas mãos ; e deixando- 
íe cahir fobre ella , fendo já perto 5 lhe 
deram huma boa furriada de arcabuzaria ; e 
indo pêra ainveitirem, lhe lançou hum fol- 
dado , que hia de proa , huma panelia de 
pólvora, que hum Mouro Com muita def- 
treza tomou no ar , e a tornou arremaflar 
fobre os noífos , que fe efped.açou nos 
bancos do navio dos noílbs i e a labareda 
que fez ? queimou Luiz da Silva > e dous 
foldados , hum chamado Foao de Qua- 
dros y e o outro Simão Pereira de Soufa* 
Couto. Tom. ult* F E 



8a ÁSIA de Diogo de Couto 

E poílo que os mares eram muito gran- 
des , não deixou Luiz da Silva de inveftir 
a Galeota , a que le lançou logo com hu- 
ma efpada , e rodella, e os feus foldados 
com elle , que em breve efpaço a renderam 
tom morte de muitos Mouros , que pele- 
jaram como defefperados : tanto, que hum 
foldado Botelho d ? Alcunha , tendo dado 
quatro eílocadas a hum Mouro , que de 
todas o paliou pelos peitos , affim trafpaf- 
fado , e efpetado na efpada , le liou com 
O foldado, e o levou ao chão, e com hu- 
ftia faca lhe deo fete facadas , quatro na 
fcabeça , três nos braços , partes que levava 
defarmadas , e todavia o Mouro ficou alli 
morto , e dos noílos alguns feridos. 

Alcançada efta vitoria, tomou Luiz da 
Silva a Galeota á toa; e chegando ao por- 
to de Chaul , a mandou de elinola a N. Se- 
nhora, e logo voltou em bufca da fua Ar- 
mada, que o mefmo dia encontrou ; e di- 
vididos os navios em duas efquadras, tor- 
naram pela coita abaixo até Tambona , e 
tanto avante houve a efquadra de Luiz 
da Silva vifta de huma formofa Galeota de 
trequete , que hia ao mar , que logo foi 
demandar com os feus navios ; e como o 
do Capitão Mor era mais ligeiro , chegou 
primeiro a ella , e commetteo-a com huma 
boa furriada de arcabuzaria ; e querendo- 

lhe 



Década XII. Caí». X. 83 

lhe pôr a proa , vio-a tão alterofa , que 
lhe não pareceo poífrvel abordalla fem gran- 
de damno feu , e dos feus foldados ; e 
além diíTo tinha em íi mais de duzentos 
homens de peleja , e o Capitão delia era 
hum valente Mouro fobrinho do Cunhale, 
que fahio do feu rio por Capitão Mor da- 
ouella efquadra de navios que andavam 
fora, de que Luiz da Silva lhe tinha toma- 
do os navios havia pouco. Efte vendo os 
noíTos navios 5 deo-lhe pouco delles , e def- 
parou três , ou quatro peças de colher, 
que eram camelletes , e outros falcões ; 
mas quiz Deos que todas fobrelevaííem y 
e não fizeram damno aos noíTos, Luiz da 
Silva foi-fe por poppa mettendo debaixo 
da Galeota , donde o foi varejando com a 
efpingardaria , e ella refpondendo-lhe com 
a fua fempre ávéla, arribando pêra aterra 
com a viração. Os noíTos defejáram de a 
defparelhar , e tiráram-lhe tantas vezes á 
reiinga da vela , até que lha cortaram , e 
ficou empandinada. Nefte tempo chegou o 
navio de Paulo Machado > e aííim á vela 
como hia , poz a proa na Galeota , e foi 
tão grande a pancada que lhe deo > que 
fe virou o nofíb navio > e os foldados fica- 
ram pelo mar apegados aos bancos > e ta- 
boas que acharam , em que dahi a dous 
dias foram a terra perigando alguns, Luiz 
F ii da 



84 ÁSIA de Diogo de Couto 

da Silva nunca largou a Galeota, por cuja 
poppa foi fempre matando gente , e os 
ieus navios ao redor até chegarem a terra , 
e affim á vela vararam , e logo fe lançaram 
a ella os Mouros , ficando a Galecta nas 
mãos dos noílos com todo o recheio que 
levava , que era muito , porque as prezas 
que os outros navios fizeram, foram defpe- 
jar nellao mais fubítanciai , por fer tamanha , 
que remava vinte e finco bancos. Tirada a 
Galeota pêra fora , foi Luiz da Silva defa- 
lagar o navio de Paulo Machado , que fe 
tinha alagado da pancada que deo j quando 
abalroou o do inimigo, que levou por pop- 
pa. Dos Mouros morreram mais de cento , 
e dos noíTos não houve mais de fete feri- 
dos 5 Pero Rodrigues Botelho dehuma lan- 
çada pela barba, e outros , a que não fou- 
bemos os nomes , de efpingardadas. Com 
cite feito tão honrado fe recolheo Luiz da 
Silva a Goa j que foi em Abril. 

Fica-nos por dar conta da Armada do 
Malavar, de que era Capitão Mor D.Luiz 
da Gama , que depois de por ordem do 
Conde Vifo-Rey levantar guerra ao Çamo- 
rim , e lhe fazer todo o damno que pede 
pela coita , recolheo todas as embarcações 
da China, Malaca , e Bengala que vinham 
pêra Goa , e fe veio com fua Armada , e 
avifou diante ao Conde Yiío-Rey do dia 

que 






Década XII. Cap. X. 8? 

que chegaria á barra de Goa. No mefmo 
foi o Conde Vifc-Rey á barra na fua Ga- 
lé , e levou dezoito navios de chatins bem 
efqirpadcs , e providos de mantimentos , e 
munições pêra hum mez , e nelles fez em- 
barcar deze Capitães de navios -da Ar* 
mada com feus Toldados ; e nomeou por 
Capitão Mór deíles navios D. Álvaro de 
Menezes , que defpedio logo , e lhe deo 
por regimento que foíTe correr a coita do 
Málavar , e fízeíle no mar todo o damno 
que pudeíTe , fem defembarcar em terra , o 
que foi de grande effeito ; porque como 
os moradores daquella coita viram paíTar 
a Armada na volta de Goa ? por fer já 
fim de Abril , pareceo-lhes que eítavam 
feguros de haver outra Armada , e que po- 
deriam ir ao Canará bufear mantimentos 
pêra paliarem o inverno : e foi iílo occa- 
fião de D. Álvaro de Menezes , com os 
navios de fua companhia , tomar muitas 
embarcações pequenas , e féis paraos de 
efporao } e huma Galeota , e matou , e 
cativou mais de trezentos Mouros fem 
perda alguma ; e voltando a Goa em 
doze de Maio , da aguada avifou o Vifo- 
Rey , que lhe mandou ordem pêra entrar 
o dia feguinte 5 que era dia da Trinda- 
de , na maré da tarde , pêra ajudar a feíte- 
jar a entrada do Embaixador do Xá y 

de 



S6 ÁSIA de Diogo de Couto 

de que daremos razão no Capitulo fe- 
guinte. 

CAPITULO XI. 

De como o Conde Vifo-Rey recebeo hum 

Embaixador que o Xd lhe mandou , e 

apparato com que foi recebido. 

^T O anno de 8^. fe embarcou em Co- 
\ chim pêra Portugal hum Embaixador 
de EIRey da Perfia em companhia do Pa- 
dre Fr. Simão de Moraes , Religiofo da 
Ordem doGloriofo Padre Santo Agoftinho , 
de tanta virtude, e partes, como temos di- 
to na nofla decima Década , quando eile 
paliou á Perfia , onde procedeo com tão 
geral fatisfação , que em quanto durar a 
lua memoria entre aquelles infiéis , íerao 
refpeitados os Religiofos de lua Ordem , 
Como o são. Por fe haver perdido a náo, 
em que vinha efte Embaixador, entrou em 
grande defconfiança EIRey da Perfia por 
não ter experiência das coufas do mar , e 
ficou fufpeitando que os Portuguezes lho 
mataram : e com efta imaginação não de- 
firia bem ao que fe ]he propunha por 
íiofTa parte. 

E defejando EIRey noífo Senhor intei- 
rslio na verdade ; eperfuadillo a fazer guer- 
ra 



Década XII. Cap. XL 87 

ra ao Grão Turco , deo ordem ao Conde 
Vifo-Rey que procuraíle diíTuadillo deita 
imaginação , e obrigallo a que mandaíle 
outro Embaixador a Hefpanha, Jím confor- 
midade deita ordem defpachou o Conde 
Vifo-Rey de Moçambique Miguel de Ma- 
cedo a Ormuz com cartas pêra EIRey da 
Períia , e eícreveo ao Capitão daquella 
Fortaleza defpachalfe com ellas hum ho- 
mem de importância , que perfuadiífe a 
EIRey da Perfia a lhe mandar hum Embai- 
xador pêra tratar com elle coufas de muita 
importância. Teve iíto tão bom íucceílb , 
que o Embaixador veio , e chegou a Goa 
em féis de Maio deite anno de 98, O Con- 
de Vifo-Rey o mandou agazalhar em hu- 
mas cafas boas no bairro de S, Pedro ; e 
como defcançou , lhe limitou dia pêra ir a 
elle : foi em huma Galé bem acompanha*- 
do ; e indo pelo rio aífima, entrou D. Ál- 
varo de Menezes com os dezoito navios 
de fua Armada , e trazia nas vergas delles 
enforcados mais de duzentos Mouros, que 
havia tomado de preza, e com ordem que 
affim como os navios feirem paífando pela 
Galé , cortaífem /as cordas com que vinham 
enforcados , pêra que affim viífem os Perfas 
o pouco que eíiimavamos aquelia preza , 
e o caftigo que dávamos aos piratas. Quan- 
do defembarcou no cães, fe lhe difparáram 



S8 ÁSIA de Diogo de Couto 

vinte peças groílas de artilheria , e alli o 
eftavam efperanclo o Capitão da Cidade, 
que era Luiz Pereira de Lacerda, e o Ca- 
pitão da guarda do Viíb-Rey com duzen- 
tos alabardeiros veftidos de libré ; e o lana* 
dar Mor com íeis mil homens da terra ar- 
cabuzeiros 5 e frecheiros com todos feus 
inftrumentos militares. E as caías do Vifo- 
Rey citavam bem concertadas, como con- 
vinha a tal aíto ; e o Conde Viíb-Rey 
mandou agazalhar o Embaixador , e lhe 
mandou dar o provimento neceffario em 
abaftança. O Conde Viíb-Rey tratou com 
eíle Embaixador o que levava por ordem 
de S. Mageftade j e EIRey da Períia íe peiv 
fuadio a mandar a Portugal o primeiro 
Embaixador pela via de Moícovia ,' e veio 
a Roma, e dalli a Valhadolid , onde então 
eílava a Corte , em Outubro de 6o i. e a 
eíTe tempo já íe alli achou o Conde Viíb-> 
Rey , e depois que deípachou com S. Ma^ 
geftade , íe veio embarcar a Lisboa, 



CA* 



Década XII. Cap. XII. 89 

CAPITULO XII. 

Do que aconteceo ás ndos Hollandezas na 
derrota até Bengala : e affim do que 
Juccedeo a Lourenço de Brito , e d Ar- 
mada , cm que o Conde Vifo-Rey o man-* 
dou a Malaca. 

JA atrás no Capitulo fetimo fica dito , 
que Lourenço de Brito, Capitão Mor da 
Armada , que o Conde Almirante Vifo-Rey 
mandou a Malaca em bufca das náos Hol- 
landezas , partio de Goa a vinte e quatro 
de Setembro de 97. Chegou a Malaca a 
falvamento com toda a Armada , íaivo 
a Galeota , de que era Capitão Luiz Lopes 
deSoufa, que com o temporal que lhedeo, 
arribou a Manar, onde fez naufrágio; mas 
o Capitão com todos os foldados fe em- 
barcou em buiria náo , que clalli partio pê- 
ra Malaca, e fe metteo na Armada. Eftan- 
do Lourenço de Brito com efta Armada em 
Malaca , foube de huma náo , que partio 
de Cochim mais tarde , que no cabo de 
Çamorim ficavam as duas náos Hollande- 
zas ; pelo que fe ajuntaram a confelho 
Lourenço de Brito , Martim AíFonfo de 
Mello Coutinho , Capitão adlual da For- 
taleza , e Francifco da Silva de Menezes, 
que o havia fido com outras peífoas de 

ex-* 



9o ÁSIA de Diogo de Couto 

experiência ; e por todos foi adernado , e 
de commum parecer que Lourenço de Bri- 
to paílaíle com toda a ília Armada a Sun- 
da , e coíla da Jaoa , porque de poucos 
tempos áquelia parte tinham os moradores 
delia feito grande eftrago nos Portugue- 
zes , e Chriftãos da terra , matándo-os , e 
tomando-lhes fuás fazendas , e que poderia 
perfuadir os Reys a nao recolherem em 
léus portos nações eftrangeiras da Europa: 
e que procuraíle por haver dous , que fe 
entendia haverem ficado em Bale , ínglezes , 
em reféns de voltarem áquelle porto com 
cabedal pêra carregarem drogas , e fazer 
tudo o mais que entendeíTe que era fervi- 
do de S, Mageftade. 

Efta ordem fe executou logo , e a Ar- 
mada partio bem apercebida de todo o 
neceífario ; e pofto que o Conde Vifo-Rey 
prevenio no regimento que deo a Louren- 
ço de Brito , que não confentifle fazer-fe 
força, nemaggravo ás embarcações que en- 
contraíTe , que navegavam pêra a Sunda > 
C Jaoa , teve nifto tão pouco tento , que 
encontrando algumas de mantimento , de 
que teve neceííidade ,. mandou tirar delias 
o que lhe pareceo fem lhos pagar. Eftes 
foram dar rebate na Sunda , e coíla da 
Jaoa da Armada , e difleram a força que 
Uie haviam feito 5 com o que todos fe pu- 

ze~ 



Década XII. Cap. XII. 91 

"zeram em armas. E Jorge de Lima, Capi- 
tão de hum a Galcota , tomou li uma Soma 
de Chincheos carregada de drogas , e o 
mefmo fizeram os Capitães das Galés a 
huma Soma de Chincheos carregados ; e 
fabendo-fe iíto na Sunda , diííímuláram até 
colherem em terra alguns Portuguezes , e 
o Feitor da Armada : e não bailou efie avi- 
fo, nem ver que indo o Almirante da Ar- 
mada D. Luiz de Noronha com as barqui- 
nhas das Galés , e outras embarcações fa- 
zer aguada , lhes reíiítíram de terra ; e por 
terem necefíidade de agua , a foram as Ga- 
lés tomar mais abaixo affaitadas dos Ga- 
leões , e lhes fahíram ao encontro muitas 
embarcações de remo, que pelejaram com 
ellas : e pelas Galés irem mui empachadas 
com as fazendas que haviam tomado de 
preza nas Somas dos Chincheos , não po- 
de jogar a artilharia , e cada huma delias 
não levava mais de vinte foldados , pelos 
mais eílarem em terra , e eífes tão defeui- 
dados , que com facilidade os entraram os 
inimigos , e mataram os três Capitães , 
D. Luiz , e D. Jeronymo de Noronha , e 
Ruy Dias de Aguiar Coutinho. O Capitão 
Mor Lourenço de Brito lhe não pode acu- 
dir, em quanto durou a briga, porque foi 
detrás de huma ponta em conjunção que 
enchia a maré 3 e ventava a viração tão 

vi- 



yz ÁSIA de Diogo de Couto 

rija , que nem os Galeões , e Galeotas pu- 
deram defamarrar : e já havia dias que o 
Capiíão Mor andava defcontente dos Ca- 
pitães das Galés , por lhe parecer que lhe 
não obedeciam com a promptidão que era 
neceílario. 

E porque neíla conjunção .era monção 
pêra MaLca , ao outro dia fe fez á veia y 
fem emendar , nem tomar farisfação na- 
quelle porto , nem em outro nenhum da- 
quelle Reyno , deíle aggravo , eílando mui 
difpoíta toda a coita da Jaoa pêra com o 
poder daquella Armada fazer nella bons 
progreííos. Chegou a Malaca a dez de Ju- 
lho de noventa e oito , e eíleve alli até 
primeiro de Janeiro , em que fe embarcou 
pêra Goa : e pudera nefte tempo ir tomar 
os Hollandezes , em cuja bufca foi , que 
depois de darem muitas voltas , e andarem 
deítroçados em huma fó náo , por terem da- 
do fundo á outra , fe recolheram ao porto 
de Queda , que diíla de Malaca feífenta 
léguas , aonde foi logo avifo. E não bailou 
requerer o Capitão da Fortaleza , e os 
Officiaes da Camará 3 que foliem a Queda 
tomar aquella náo , o não quiz fazer , nem 
outra nenhuma coufa das muitas que fe lhe 
lembraram ; e fendo o Conde Vifo-Rey 
avifado difto, antes de chegar a Goa Lou- 
renço de Brito, porque veio mui devagar, 

an- 



Década XII. Cap. XII. 93 

antes de defembarcar lhe mandou dizer 
pelo Secretario , que fe deixaííe eílar em 
lua cafa até fe defcarregar de huns aporia 
tamentos que lhe mandou , tirados das 
cartas do Capitão , Ouvidor , Cidade de 
Malaca , e outras peílbas. E pêra fe verem 
os defcargos , chamou o Conde Vifo-Rey 
a Confelho , e mandou que fe votaíle fo- 
bre elles , porque defejou introduzir na- 
quelle Eftado , que as culpas dos Capitães 
commettidas no exercicio da guerra , fe 
caftigaífem pelo Confelho , e não pelos Des- 
embargadores ; mas por rtfpeitos particu- 
lares não quiz o Confelho vir niffo , fenda 
commua utilidade , e aíTentáram que fe li- 
vraífe pelos termos ordinários , e aflim fe 
fez ; e foi condemnado pela Relação em 
pena de dinheiro em quantidade , que pa- 
gou antes de entrar na Fortaleza de Sofa- 
h , de que era provido. 



CA- 



94 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XIII. 

Das coufas que nejie verão fuccedêram na 
Ilha de Ceilão : e da grande vitoria 
que os nojfos alcançaram de EIRey de 
Uva : e dos Capitães do tyranno de 
Candea D. João. 

DEfenganado o tyranno D.João de po- 
der prevalecer contra os noííos pelas 
muitas vitorias que delle tinham alcança- 
do , e a derradeira tinha fido o desbarate 
<ia ília gente emCorvite, como atrás difíe- 
mos , vendo que pelos prefidios , e fortifi- 
cações , que os noflos lhe tinham feito 
nas fuás fronteiras das quatro Corlas , e 
Dinavaca , não podia por aquellas partes 
fazer o que tinha determinado , tomou ou- 
tro modo , que foi , mandar commetter o 
noílo arraial , que andava nas partes de 
Galé 5 e Mature, quarenta léguas de eílou- 
tras tranqueiras , e do lugar em que o Ge- 
ral fempre reíidia , parecendo-lhe que pela 
diilancia do lugar não poderia foccorrer os 
noilos com tanta prcíleza, e cabedal, como 
convinha , por não andar naquelle arraial 
grande força , e quebrada ella 5 ficavam os 
noíTos com menos pêra o perfeguir, e elle 
com mais animo pêra levar fua tenção a- 
vante: contra quem defpedio hum Príncipe 

cha- 



Década XII. Ca?. XIII. 9? 

chamado Madune Pandar , e Simão Corrêa 
alevantado , irmão de Domingos Corrêa 
Bicanarfmga , em que muitas vezes faliei , 
que D. Jeronymo de Azevedo tinha man- 
dado juíuçar, como no Capitulo do Livro 
da onzena Década fica dito. Efte Simão 
Corrêa tinha tomado o titulo de Rey de 
Seitavaca , a quem o tyranno deo hum ar- 
rezcado exercito de gente efcolhida, e dos 
mais práticos Modeliares de íeu Reyno, e 
entre eftes haveria mil efpingardas , e 
mandou fazer preftes o Rey de Uva com 
o reíto do feu poder > pêra lhe ir nas coitas 
aos favorecer. 

Partido efte exercito , foi-fe alojar féis 
léguas de Mature 5 onde eftava o noflb ar- 
raial , de que era Capitão Mor D. Fernan- 
do Modeliar, que hoje he Capitão da Ci- 
dade de Goa , e Salvador Pereira da Silva , 
Capitão do campo. Os inimigos pêra fe 
fortificarem , efcolhêram hum fitio muito 
alto ? onde fe aíTentáram , e fortificaram á 
fua vontade , como quem eítara em fua 
terra , e tinha muitos gaftadores , e fabrica. 
E aflim alevantáram em breves dias huma 
tranqueira de madeira com féis baluartes, 
e cavas ao redor , e cercada de muitos 
eftrepes 5 e impedimentos , coufa muito 
defenfavel , mais pelo íltio que pela arte, 
ainda que eíta lhe não faltou pêra tudo 3 

por- 



96 ÁSIA de Diogo de Couto 

porque não podia fer batida com artilhe- 
ria , nem fe podia levar affima , por haver 
de paffar por muitos alagadiços. E dalii 
determinaram de-fenhorear aquellas terras , 
€ fazellas rebellar contra os noflbs por ef- 
tarem á noíía obediência ; e como homens 
ardil oí os trataram de affugentar os La£* 
carins do noíTo arraial , com quem trouxe- 
ram trato fecreto , promettendo-lhes muitas 
couías , pêra aflim 9 effeituando ifto , desba- 
ratarem mais a feu falvo os noííos. 

Defta expedição , e deíignio foi logo 
avifado D. Jeronymo de Azevedo , pelo 
que com muita prefla defpedio Simão Pi- 
nhão com feiscentos Lai carins de terra , e 
alguns Portuguezes com ordem pêra tomar 
mais cem foidados da Fortaleza de Gallé , 
•com o que fe perfariam cento e íincoenta 
Portuguezes , e dous mil Lafcarins , que 
era gente que lhe bailava pêra commetter 
aquelle forte. D.Fernando Modeliar tanto 
que fe efta gente ajuntou a elle , logo foi 
commetter os inimigos ; e quando chegou 
aífima , já elles eíiavam fobre avifo , e re- 
colhidos no forte com mil efpingardeiros, 
deixando embofeados nos matos dous mil 
Lafcarins com os Modeliares de mor con- 
fiança , com ordem pêra darem nas coitas 
aos noflbs , quando mais embebidos eíti- 
vefíem no aílalto. D. Fernando não tratou 

de 



Década XII. Cap. XIIL 97 

de dilatar o negocio \ antes logo com mui- 
ta determinação commetteo os inimigos, 
pêra o que levava já muitos pavezes , man- 
tas, e elcadas ; e ao* abalroar das tranquei- 
ras, deram nos eftrepes em que le embara- 
çaram , e pararam, ficando defcubertos á 
efpingardaria dos inimigos , que nelles fi- 
zeram arrazoado emprego , cahindo alguns 
Lafcarins , e ferindo Portuguezes , em que 
entraram o Simão Pinhão , Pêro de Abreu 
Modeliar , e outros. E todavia os noffos 
pafsáram avante , e commettêram o forte 
com grande animo , encoílando-lhes as es- 
cadas por onde alguns começaram a fubir. 
E eftando nefte fervor , arrebentaram os 
da Cilada com grande eftrondo , e deram 
pelas coitas aos noííbs , que em os fentin-. 
do , deixaram o combate, e voltaram aos 
inimigos com grande fúria, e deram nelies 
de feição , que com morte de muitos os 
fizeram recolher pêra os matos ,. donde fa- 
híram* 

Vendo D. Fernando Modeliar o fuccejP* 
f o , e entendendo como prudente que apar-- 
tando-le dalli fe perderiam as terras , for- 
tificou-fe no mefmo lugar o melhor- que 
pode , e mandou avifar o Capitão Geral 
de tudo, e do modo em como os inimigos 
ficavam. Com eíte recado defpedio elie 
logo feu irmão D. Manoel de Azevedo 
Couto. Tom, ult* G com 



98 ÁSIA de Diogo de Couto 

com algumas companhias de foldados , que 
mandou vir de Seitavaca , e dos preíidios 
das fronteiras de Dinavaca , do que logo 
o tyranno D. João teve aviíb : e com a 
meíma prefteza defpedio o Rey de Uva 
com três mil homens pêra foccorrer os 
feus 5 e com ordem que primeiro que o 
íoccorro chegaíle aos noffos , trabalhaíTe 
elle por fe ajuntar , e falteallos, e dcsba- 
ratallos , o que lhe feria fácil , por lhe fi- 
car o caminho mais perto. E aíTim chegou 
com muita prefteza, e fe alojou três léguas 
do noíTo arraial , donde mandou avifar do 
forte, e aos que eftavam embrenhados em 
cilada , que eftiveífem preftes pêra ao ou* 
tro dia darem fobre os noílbs por todas 
as partes. 

D.Manoel de Azevedo também fe deo 
tanta prelfa > que chegou quaíi no mefmo 
tempo : a noite que chegou o Rey de 
Uva, ouvio o Modeliar D.Fernando mui- 
tas efpingardadas ; e parecendo-lhe o que 
era , defpedio huma elpia de recado 5 pêra 
que foíTe tomar falia do que achaífe , que 
brevemente tornou , e diíle fer o Rey de 
Uva , que ficava alojado pouco mais de 
légua ; e dando conta de tudo a Salvador 
Pereira , e aos outros Capitães , foram to- 
dos de parecer, que aquella mefma noite 
o foífem commetter em feu alojamento 

pri* 



Década XII. Cai*. XIIÍ. 99 

primeiro que fe foífe ajuntar com os mais* 
E logo delpedio Simão Pinhão, e D. Hen- 
rique Modeliar com todos os Lafcarins 
da terra ; e tanta preíía fe derão, que.no 
quarto d 5 alva deram fobre os inimigos , 
e os commettèram com grande determina- 
ção , e esforço ; e como os tomaram def- 
cuidados , fizeram nelles grandes efíragos ; 
e não fabendo o que era , eítiveram pêra 
fe desbaratar de todo ; mas tornando fobre 
fi , levaram as mãos ás armas , e começaram* 
nas a menear com grande animo , com que 
os noílbs Lafcarins eítiveram poftos quaíi 
em desbarato, fenão fora o esforço de Si- 
mão Pinhão , que era mui temido dos 
Chingalasj que fez efte dia tantas maravi- 
lhas , que poz o Rey de Uva em desbara- 
to de todo 5 e lhe roi feguindo ò alcance 
por grande efpaço , em que lhe mataram 
muitos , e tomaram muitas armas, e def- 
pojos. 

Com efta vitoria fe recolheram os nof- 
fos ao arraial , o que deo tanto animo aoá 
mais , que logo foram commetter os da 
tranqueira , levando alguns cavalleiros de 
madeira , que pêra iílb tinham fabricado , 
pêra de íima com a efpingardaria os com- 
baterem , como fizeram tão determinada- 
mente , e com tanto damno feu , que os 
puzcram em defefperação , por verem que 
G íi os 



ioo ÁSIA de Diogo de Coxjto 

os noffos não tratavam de os commetter 
por aíTalto , fenão derriballos poucos , e 
poucos com fua arcabuzaria até que os to- 
maíTem ás mãos ; e vendo-fe tão apertados , 
determinaram de fugir huma noite com 
todo o rifco y e affim no primeiro quarto 
fahíram da tranqueira com fuás armas nas 
mãos , e como homens defefperados com- 
mettèram os noffos pêra ver fe os podiam 
romper, e paliar por entre elles , que não 
eítavam tão defcuidados , que logo os não 
fentiffem ; e tomando-os em meio , fizeram 
nelles tamanho eftrago , e deítruição, que 
não efcapáram mais que os dous Príncipes 
alevantados , que na revolta fe trefmalhá- 
ram , e com a efcuridão da noite fe foram 
embrenhando. Morreo aqui a flor da gente 
de Candea , e os principaes Modeliares, 
e que mais guerra faziam aos noffos que 
todos. Ficaram no forte todas as armas > e 
defpojos dos inimigos , que foram muitos* 
Nefte feito fe acharam Salvador Perei- 
ra da Silva, Capitão do campo, D.Manoel 
de Azevedo , Simão Pinhão , António da 
Silva de Affonfeca , João Teixeira de Mei- 
relles , João Serrão da Cunha , Filippe de 
Oliveira , Simão Rabello , Gregório da 
Coíla de Soufa , hum Foao Pereira , Pêro 
de Abreu Modeliar , D. Henrique Mode^ 
Bar , e outros muitos que me não vieram á 

no- 



Década XII. Ca?- XIII. 101 

noticia , e D. Fernando Modeliar por Ca- 
pitão Mor , que todos fizeram grandes 
cavailarias. Succedeo iíto no mez de Ou- 
tubro paíTado de noventa e fete. 

CAPITULO XIV. 

De outra grande vitoria que os nojfos al- 
cançaram em Ceilão. 

ALcançadas eftas vitorias deite tyran- 
no 3 mandou D. Jeronymo de Azevedo 
recolher o arraial ao forte de Batugedere , 
nas fronteiras de Dinavaca , de que foi 
por cabeça Salvador Pereita , e com elle 
Simão Pinhão j pêra por aquellas partes fa- 
zerem toda a guerra que pudeíTem ao ty- 
ranno j aifim nas fete , como nas quatro 
Corlas , por onde o inimigo também tra- 
tou de fazer guerra por divertir o Capi- 
tão Geral da que lhe os nofíòs faziam 
pelas partes de Mature , onde 'ficou gente 
Jbaftante pêra iíío i havendo que as partes 
por onde o Geral mandava fazer eíta guer- 
ra eítavam fracas , e com pouco poder, E 
deo-lhe animo pêra iíTo huma vitoria , que 
alcançou da gente da terra da noífa parte , 
o que foi caufa de fe rebcllarem alguns 
vaífallos daquellas partes de Seitavaca , e 
•Cota ; e eítas terras que affim fe rebeilá- 

ram , 



io2 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram , tratou o tyranno de fuítentar, e de- 
fender, pêra o que mandou fazer hum for- 
te nos confins das quatro Corlas , em que 
poz muita , e boa guarnição de Toldados, 
e Modeliares. Tanto que o Geral teve efte 
avifo ,, .mandou que toda a gente que tra- 
zia por aquellas partes fe ajuntaííe , e fe 
fortificaíTe no lugar de Atanagale, em quç 
eftava por Capitão Francifco Pimentel, por 
fer lugar forte , e accommodado pêra con- 
•traftar os inimigos , e pêra fazerem tornar 
á obediência as terras rebelladas. Efte forte 
foi fazer Simão Pinhão. Ifto fentio o ty- 
ranno muito , e mandou que fe profeguifie 
naqueila guerra com muito calor : pêra 
ella fe ajuntou todo o poder no forte de 
Atanagale , donde os noífos fizeram alguns 
aífaltos nas terras dos inimigos ., em que 
mataram , e cativaram muitos, com o que 
parte das terras rebelladas tornaram a obe- 
diência , e o tyranno fe foi retirando , e 
os noífos paliando adiante mais huma jor- 
nada por fe avizinharem a elle , porque 
defepvam muito de o encontrar. 

Vendo-fe o tyranno tão perfeguido, 
mandou fazer hum bem forte em fima de 
huma fenra pegado á noíía gente , e dentro 
nas noílas terras , aífim pêra fuítentar as 
que eftavam á fua obediência , como pêra 
poder fegurar melhor as fuás 5 e o outro 

for* 






Década XII. Cap. XIV- - 103 

forte , que tinha nos confins das quatro 
Corlas, que era o em que elles mais efeo- 
ravam que todos. Sabendo os noílbs do 
forte que fe fazia pegado a elles em lima 
da ferra , o aílaltáram primeiro que fe 
acabaíle , e o entraram com tanta deter- 
minação 5 e esforço , que com mortes de 
muitos dos inimigos o ganharam , e arrazá- 
ram de todo ; e porque os que eílavam na 
tranqueira das quatro Corlas não fe que- 
riam retirar de todo das noílas terras , an- 
tes eftavam confiados em as fenhorearem 
dalli por algumas fortificações , que eíla- 
vam feitas por elles nos pafíbs , onde os 
noíTos os podiam commetter , mandou o 
Geral que fe paífaífe lá o arraial ; e em 
algumas efearamuças que lá tiveram com 
os inimigos , os desbarataram , e puzeram 
em fugida , e lhes ganharam todas as for- 
tificações , com o que largaram as terras, 
e fe recolheram aos limites de Seitavaca, 
e os noílbs fizeram notáveis cruezas nos 
moradores das Aldeãs , que fe rebelláram 
pêra exemplo das outras. 

Sabido ifto pelo tyranno , temendo que 
os noílbs lhes foííem commetter o feu for- 
te 5 e as fuás tranqueiras , quillos divertir 
diífo : pêra o que mandou a mór parte do 
feu poder aos dous Principes das Corlas, 
pêra que elles com os outros alevantaoos 

fof- 



104 ÁSIA de Diogo de C:uto 

foílem commetter a? nofías tranqueiras 
pela banda de Chilao na fralda do mar 
pêra chamar lá os noíTos , e com iíío fe* 
gurar as terras que deíejava. Dilto teve 
o Geral logo recado, e avifou de tudo aos 
do arraial , pêra que efhveífem preftes , e 
de íbbreaviíb , pêra que foíTem dar ncs 
•inimigos de fupito ,< ou commetteíTem en- 
írar-lhes por fuás terras pêra os obrigar a 
deíiftirem daquelle penfamento ; e porque 
•a paragem em que elies tinham o feu ar- 
raial era longe dos noííos , no caminho 
havia grandes impedimentos de rios , e 
alagadiços , os não poderiam tomar fem 
ferem fentidos ; pelo que pareceo melhor 
entrar-lhes por fuás terras , e commetter-íhes 
a própria Cidade , cabeça das fete Corlas , 
onde os principaes alevantados. reíidiao ? 
que áquelle tempo andavam fora com todo 
o feu poder , fazendo guerra ás noífas ter- 
ras , porque tinham naquella Cidade fuás 
riquezas , mulheres 5 e filhos. E aífírn fo- 
ram marchando apreifadamente , fem def* 
cançarem de dia, nem de noite, pelejando 
com os inimigos , que eítavam em guarda 
de alguns pados ; e chegando á Cidade 
que hiam bufcar 5 poíto que a acharam 
fortificada de tranqueiras , e cavas , com- 
jnettêram-na com tanta determinação ; que 
A entraram com morte de hum Modeliar, 

que 



Década XII. Cap. XIV. iõf 

que alli ficou por Capitão , e de muita 
gente , e a Cidade foi logo mettida a fogo ^ 
^ abrazada com todo o íeu recheio , que 
era muito , por íe náo embaraçarem os 
nolfos com o iacco. 

Feito iíto , tornáram-fe os noíTos a re- 
colher com muito boa ordem, e defviados 
do caminho por onde os Príncipes podiam 
ir foccorrer a lua Cidade ; e ainda pelos 
que fe recolheram , não deixavam de ter 
grande trabalho , porque todo hum dia 
pafsáram pelejando com guarnições , que 
os inimigos tinham em diíFerentes paffos , 
que lempre deixaram efcalavrados. 

Sabido eíle negocio pelos Principes 3 
que eílavam fazendo a guerra dentro nas 
noflas terras , deixaram tudo , e acudiram 
lá: e neíta jornada lhes fahíram os noíTos y 
e deram-lhes nas guarnições que deixaram 
em fuás tranqueiras, e com morte dehuns, 
e fugida de outros os lançaram fora das 
terras , e ainda entraram peias dos inimi- 
gos 5 onde fizeram muitos damnos , e re- 
colheram muitos defpojos. Succedeo ifto 
defde Novembro paífado até fim de Abril 
deite anno , em que andamos de noventa 
e oito: o tyranno D.Joáo fentio eftas cou- 
fas muito em extremo , porque além da 
reputação que perdia com os Chingallas y 
£cava menos temido dos noíTos , que lhe 

ti- 



io6 ÁSIA de Diogo de Couto 

tinham mortos os feus principaes Capitães , 
c Modeliares , de que os mais andavam 
tão aíTombrados , que já profeguiam na- 
quella guerra lentamente , e contra fuás 
vontades , que eram novas armas , com 
que os noíTos ficaram pelejando com elles. 
E porque fe temeo o tyranno , que 
com o íbccorro que veio da índia , lhe 
ganhaíTem os noflos o forte , que tinham 
nos confins das quatro Corlas , em que 
çoníiília toda fua força , e fegurança da- 
quellas comarcas , determinou de acudir 
em peíToa áquelle negocio , affim pêra pro- 
ver melhor aquelle forte , como pêra com 
fua prefença dar calor áquella guerra, 
e provocar, e animar aquelles povos , que 
çítavam ánoíTa obediência, a ferebcllar, e 
paliarem a elle , pêra quebrantar os noíTos y 
ç divertir o Geral de lhe mandar fazer a 
guerra, que lhe fazia dentro em fua cafa, 
e pêra também livrar os feus dos males , 
de que andavam ameaçados com a affou- 
teza, e vitorias que os noíTos cada dia al- 
cançavam: o que lhe não fuccedeo , como 
elle cuidava , porque trazia o Geral fobre 
elle tantas efpias , que não dava paflb , 
nem praticava coufa i de que logo não foíTe 
avifàdo : ao que acudia com a prefteza ne- 
ceifaria / porque nella eítiveram fempre as 
vitorias que alcançou j e pêra o tyranno 

effei- 



Década XII. Cap. XIV. 107 

cííeituar o que pertendia, fe foi peraCan* 
dea , e ordenou dous exércitos : hum de 
mil íbldados efcolhidos , que defpedio pe-p 
ra as partes de Putalao , pêra ajuntar toda 
a gente daquella comarca , e fe irem con- 
tra Chilao pelas fraldas do mar ; e outro 
de três mil homens , que mandou que fe 
foííem fortificar na noífa fronteira das fete 
Corlas : e aílím o fizeram nas fraldas de 
huma ferra , com delenho , que mandando 
o Geral commetter qualquer deites , aífal- 
tarem os noifos pelas efpaldas , com que 
haviam teriam vitoria certa delles. 

Sendo o Geral avifado de tudo , refor- 
mou o arraial com mandar acudir a elle 
toda a foldadefca da terra , que feriam per- 
to de dous mil e duzentos íbldados Portu- 
guezes , de que era cabeça Salvador Perei- 
ra, e da gente da terra o Pinhão, e Fran- 
cifco de Brito : e mandou que fe foífem 
fortificar em hum lugar chamado Tranquei- 
ra Alanha , onde fizeram huma forte tran- 
queira de madeira com feus revezes , gua- 
ritas , e cavas , por ficar alli no meio def- 
tes dous exércitos dos inimigos em igual 
diílancia de hum , e do outro , pêra com 
iflb enfrear os inimigos , e lhes fazer per- 
der o orgulho , e as efperanças que tinham 
de prevalecerem contra nós , porque aífim 
fe não podiam foccorrer huns aos outros , 

com 



"108 ÁSIA de Diogo de Couto 

com o que as forças lhes ficavam dividi- 
das ; e depois de bem fortificados, fahíràrit 
os noífos muito ufanos , deixando a tran- 
queira bem provida , e com grande brio 
foram commetter o arraiai da banda das 
fete Corlas , em que deram no quarto d' al- 
va tão de fobreialto , que os tomaram 
fem terem ainda acabado o forte que alli 
faziam , que era nas raizes de huma fer- 
ra , de que tinham cortados os matos ao 
redor } não deixando mais entrada pêra o 
forte , que a de dous boqueirões , que tam- 
bém tinham fortificados com fortes tran- 
queiras , e nellas dous mil homens ; e o 
reíto do exercito tinha em lima da ferra 
com ordem , que fendo commettidos dos 
noííbs , lhe fahiflem por huma ilharga , e 
lhe deffem nas efpaldas. 

Tanto que os noífos chegaram aos bo- 
queirões , logo commettêram os inimigos 
eom grande' determinação ; m ^ s e ^ es des- 
carregaram fua munição , com que derri- 
baram alguns Lafcarins dos noífos , e os 
mais fe foram retirando , ao que acudiram 
òs Portuguezes , e fe pafsáram a dianteira, 
e commettêram os inimigos com tanto ef- 
forço, que a pezar da grão refiftencia que 
neííes acharam , os entraram com morte 
de hum dos Capitães , ou Modeliares , e 
muita gente fua \ e eítando embaraçados 

-nef- 



Década XII. Cat>. XIV. 109 

nefta vitoria 9 lhes fahio o alevantado Si- 
mão Conea , que era o que eftava em lima 
da ferra , e deo nos nofíbs pelas cofias; 
mas como todos andavam com a mão fol- 
gada , viraram a elle com huma fúria ef- 
pantoía , e depois de durar a batalha gran- 
de efpaço , puzeram os inimigos em def- 
barato , e fugida , e no alcance foram ma- 
tando muitos , e com tamanha mercê de 
Deos fe recolheram carregados de armas , 
fem lhes cuftar mais que dous Portuguezes, 
e alguns Lafcarins da terra. 

Alcançada: efta vitoria , defpedio Sal- 
vador Pereira da Silva , que era o Capitão 
Mor defta jornada , mil efpingardeiros da 
gente da terra com alguns Portuguezes 
pêra irem dar no arraial de Putalão , antes 
que tiveíTe o aviíò do desbarato de eito li- 
tro ; e chegando ao forte , que alli tinham 
feito , o commettêram com grandiífima de- 
terminação ; porque além do furor com que 
andavam , ]evc4ram armas de vantagem , 
porque dobraram a efpingardaria com a 
que tomaram na vitoria pafiada , e com a 
mefma facilidade entraram o forte com 
morte de muitos dos inimigos , em que 
entraram quinhentos Bagadas , gente da 
outra cofta, homens de feito, que tinham 
ido de foccorro ao tyranno. O que caufou 
tamanho medo nos mais , que tinham pa£ 



HO A S I A de Diogo de Couto 

fado áquclla Ilha ] e nos outros , quando 
lhes lá foi a nova da má hofpedagem que 
os noíTos lhes fizeram , que não quizeram 
mais provar ventura debaixo da bandeira 
do tyranno : com eíta vitoria fe tornaram 
os noííbs a recolher ao feu forte. 

Chegadas eftas novas ao arraial que o 
tyranno tinha nas quarto Corlas , temen- 
do-fe que fcíTem logo falteados dos noíTos , 
largaram tudo , e fe recolheram a Candea , 
porque parece que foram avifados das 
intelligencias que o Geral trazia com 
aquelles povos , pêra fe tornarem a redu- 
zir á obediência , de que fe tinham rebel- 
lado por induítria do tyranno D. João , fo- 
bre o que já tinham vindo algumas peífoas 
principaes a tratar efte negocio com o Ge- 
ral , que fe effeituou , e os defpedio em 
companhia de todo o exercito (por faber 
já das vitorias que os noíTos alcançaram) 
pêra irem dar naquelle forte , que elles já 
tinham defpejado , onde não houve que 
rebifear dosioldados, e todo o desfizeram, 
no que tiveram affás de trabalho , por fer 
força grande , e de muita fabrica. Com 
eítas vitorias fiecu o inimigo mui derriba- 
do, e os noíTos com a mão folgada. Acha- 
ram-fe neftes fucceíTos Filippe de Olivei- 
ra , João Serrão da Cunha , Gafpar de 
Azevedo , Francifco de Macedo, Francif- 

co 



Década XII. Cap. XIV. Ill 

co Gomes Leitão , filho do outro do meP* 
mo nome , António da Cofta Monteiro, e 
outros Capitães de companhias , e eítancias* 

CAPITULO XV. 

De como os Vereadores de Goa puzerant 
na Camará delia o retrato do Conde AU 
mirante D. Vafco da Gama , que defcu- 
brio a índia : e da Oração que fiz 
aquelle dia em feu louvor a rogo da 
Cidade. 

PArecendo aos Vereadores da Cidade de 
Goa que fe devia naquella Camará lu- 
gar ao Conde da Vidigueira D. Vafco da 
Gama , que defcubrio a índia , pois nella 
tinham os retratos de outros varões famo- 
fos , e beneméritos áquella Cidade , e a 
toda a índia , como o do grande Affonfo 
de Alboquerque, que ganhou a mefma Ci- 
dade, a de Malaca, e Ormuz; e a do va- 
lerofo Capitão , Governador , e Vifo-Rey 
D.João de Caibro por Libertador da índia, 
e a do infigne Capitão , e Viíb-Rey D. 
Luiz de Taíde , Conde da Touguia , que 
governou duas vezes a índia por defeflfor 
da mefma Cidade , e de todo efte Eftado : 
vendo que não merecia menos que todos 
o valeroíb Capitão , e Vifo-Rey D. Vafco 

4a 



it2 ÁSIA de Diogo de Coirro 

da Gama, primeiro Conde da Vidigueira i 
e Almirante do tfiar da índia , e por fer 
p primeiro defcubridor delia , couía tão 
admirável ao mundo , e que feu biíheto o 
Conde D. Francifco da Gama os começava 
a governar com tanta fatisfaçao de todos > 
quizeram-lhe fazer efte ferviço , e favor* 
Pêra o que o mandaram retratar pelo que 
já eftava na cafa dos Vifo-Reys, e Gover- 
nadores , que era feito muito ao natural ; 
e porque a cafa da Camará era pequena, 
e tinha huma parede de frontal nas cofias 
da meza , em que os Vereadores fe aííen- 
tavaili , a mandaram derribar , e eftendê- 
ram a cafa muito, ficando muiformofa, e 
muito mais depois que a ennobrecêram 
com outras cafas que accrefcentáram , co- 
xuçhéos , e portal, como era razão tivefle 
a Camará de huma Cidade tão famofa no 
mundo , e cabeça de todo efte Império 
Oriental , tão rica , profpera , ennobrecida 
com todos os appellidos illuílres de Portu- 
gal , e das mais gerações de Cavalleiros , 
que fempre eftavam com as armas preftes y 
e os cofres abertos pêra tudo fe empregar 
no ferviço do feu Rey , em que fe pode 
igualar com todas as do mundo. 

E tendo tudo preftes , e preparado^ me 
mandaram os Vereadores commetter qui~ 
zefíe celebrar aquelleAuto com huma Ora-- 

ção 



Década XII. Cap. XV. 113 

cão eiti louvor do inefmo D. Vafco da Gama f 
porque queriam feítejar aquelle dia com 
toda a folemnidade devida , o que eu accei- 
tei , por ver que pediam juítiça , e que tudo 
aquillo fe devia aquelle vale rofo Capitão* E 
preparando tudo com o mor apparato que 
podia fer, fe ajuntaram todos os Vereado- 
res , e Cidadãos na Camará dia de Natal 
deite anno de noventa e kiQ , e mandaram 
recado ao Conde D. Francifco , pêra que 
fe foíTe achar preferi te aquelle Auto , a 
que elle logo veio acompanhado de todos 
os Capitães, e Fidalgos: e entre elles , e 
os Cidadãos houve muitos colares de ouro, 
medalhas , plumas , pontas de rica pedra-» 
ria , trajos euftefos 5 e galantes, formofos 
cavallos , e muito ricamente ajaezados. O 
Conde fe aíTentou na Camará em huma ca- 
deira de veludo a mão direita dos Verea- 
dores a huma ilharga da meza , e os Cida- 
dãos 5 Fidalgos , eCavalleiros em efcabellòs 
cubertos de ricas alcatifas , eftando o re- 
trato do Conde D. Vafco da Gama em 
hum painel, feito a óleo, do feu tamanho i 
muito bem retratado ao natural , com fuás 
molduras douradas , com columnas pelas 
ilhargas também douradas j pofto em fima 
de hum bofete en coitado á parede, onde o 
haviam de pôr, e alevantar; e pofto tudo 
em íilencio , alevantei-me do lugar em que 
-Couto* Tom. ult. H ef- 



ii4 ÁSIA de Diogo de Couto 

eftava na meza , e no banco do Eícrivao 
da Camará defronte do Conde , e em voz 
alta , e intelligivel , que fe ouvifle por to- 
da a cafa , que era grande > fiz a Oração 
feguinte. 

ORAÇÃO, 

» À Coufa de que fe mais prezavam 
» jl\ aquellas famofas Republicas Grega, 
» e Romana, Illuílriílimo Senhor, e Vifo- 
» Rey noífo , era de fatisfazerem grandes 
» merecimentos com públicos , e geraes 
)) galardões , dando a léus Famofos , titu- 
» los , e fobrenomes grandiofos , e alevan- 
» tados , a hum de Aííatico , a outro de 
)> Mermidano , outro de Africano , outro 
)) de Pai da Pátria ; em fim , outros muitos 
» conformes aos feitos que commettêram, 
» e acabaram : e não paravam aqui , mas 
» ainda lhes alevantáram eítatuas em os 
» Senados , e lugares mais públicos de to- 
» dos , pêra com iílb incitarem aos mais 
» a obrarem coufas dignas de femelhantes 
)) galardões. Affim eíla Republica de Goa , 
» não menos ordenada que todas as do 
» mundo , querendo imitalias em coufa tão 
» jufta , tratou de remunerar , e em parte 
)> fatisfazer os grandes , e muito notáveis 
» merecimentos defte valerofo Capitão D. 
» Vafco da Gama, primeiro Conde daVidi* 

» guei^ 



Decaia XII. Cap. XV. Ifjf 

í gueira , e Almirante do mar da índia 
» voílo Bifavô , pondo os olhos nos gran-» 
» des , e muito proveitofos ferviços que 
» fez á Coroa de Portugal , e ao muito 
» que eíle Eftado lhe deve , por fer o pri- 
^ meiro que nelle arvorou o real pendão 
)> da Milícia de noflb Senhor Jefu Chrifto , 
> debaixo de cuja fombra vemos hoje re- 
$ colhida huma innumeravel copia , e mul- 
» tidao de Gentilidade: e o que por meio 
» de feu invencível animo rompeo as diffi-» 
» culdades que tantas centenas de annos 
» eftavam na memoria dos homens poftas 
» a efta navegação : havendo huns que o 
» mar não podia fer navegado ; outros ^ 
y> que por baixo da Equinoccial corriam 
» rios de fogo ; outros , que quem paflafle 
» o Cabo , não poderia tornar ao noilb 
)) Portugal , e que por lá acabaria , e fe 
» confumiria : em fim , outros faziam ou- 
» tros medos , e carrancas tamanhas , que 
» faziam recuar os homens, e não oufar á 
» commetter efta tão difficultofa , e teme- 
;> roía navegação ; pois todos elles teve efte 
» noííb Capitão em tão pouco, que paíían- 
» do por todos , foi navegando por tão 
)> vários , e apartados climas , que até en- 
» tão não tinhão chegado á noticia dos 
)> homens , vencendo nefta jornada não fá 
» os furiofos ventos , e arrebatadas , e fii* 
H ií » pi- 



n6 ÁSIA de Diogo de Couto 

» pitas tempeftades*, e as medonhas, ecar- 
» regadas ondas defle Oceano , mas ainda 
)> os feros , e indómitos focas , e monftros 
» marinhos , de que o mar eftá cheio , 
» abrindo por meio de tcdos novos, enao 
» ufados caminhos, pêra que todos pudeffe- 
» mos vir bufcar as riquezas deite Orien- 
a te , com que não fó o noflb Reino de 
» Portugal, mas ainda todos os da Europa 
» tanto fe engrandeceram, E fe hum calo 
» tão efpantoíb como efte acontecera em 
» tempo daquelles antigos poetas , com 
» muita mais razão puderam collocar entre 
» os fignos , e planetas a famofa náo S. Ra- 
» fael , em que efte infigne Capitão nos 
» defcubrio tantas maravilhas, do que o fi- 
» zeram áquella famofa Argos de Jasão , 
» de que tantas cdufas fabularam. E fe 
$ áquelle Américo Vefpufio , que defcubrio 
» eífas índias Occidentaes , que fe tem 
)) pela quarta parte do mundo , ficou neila 
» tão famofo, que tomou delle o nome de 
)) America ; com quanta mais razão efta 
» parte da Aíia , que efte noífo infigne 
» Capitão nos defcubrio, fe pudera chamar 
)) a Gama, confervando tão illuftre appel- 
» lido a memoria do mor feito que íe 
» fez , nem fará , em quanto o mundo du- 
y> rar; mas foi tal odefcuido defta Cidade > 
» que ha tantos annos lhe tinha negado o 

» que 



Década XII. Cap. XV, 117 

» que tanto merecia : o que nao íiiccedeo 
» em Portugal , onde fe conferva fua me- 
)> moria na ampiiflima geração que delle 
» procedeo , e na illuftriííima Cala da Vi- 
)> digueira , de que Voíla Senhoria he di- 
)) gniílimo herdeiro , que tem lançado de 
)> fi varões tão famofos , que bem pudera 
» efte Eftado andar fempre em fuás mãos 
y> muito feguramente. 

» E querendo agora eftes Padres Conf- 
y> criptes remediar o defeuido pafiado > 
» vendo que entre eftes Illuftres varões lhe 
» era a elle com razão devido ■ o primeiro 
)> lugar , ordenaram de lho dar , nao fó 
)) nefte Senado , mas ainda levantarem-lhe 
y* eftatua na principal porta deita Cidade , 
» pêra que todos os que por ella entrarem 
)) fe lembrem do muito que todos lhe de- 
» vemos* E ainda que efte auto fe nao fa- 
» ca com as folemnidades que fe devem a 
» tão valerofo Capitão y todavia he com 
» tanto gofto , e alvoroço de todos eftes 
» Cidadãos, que não ha entre elles algum, 
y> que não defeje de fer oauthor deferviço 
» tão devido como efte. E certo , que fe ef- 
)) te infigne Capitão pudera fallar pela boca 
» defte retrato que o reprefenta , vendo o 
» defeuido que até agora houve nefta Ci- 
:» dade , pudera com muita razão dizer 
» aquillo do grande Catão , quando en- 

» tran- 



1 18 A S I A de Diogo de Couto 

3> trando em o Senado , não vendo entro 
y> tantas eílatuas alguma ília , diíTe que 
)> antes queria que perguntaílem porque 
» não tinha alli Catão eftatua , que não 
» porque puzeram alli eftatua a Catão. Mas 
» porque efte defcuido não pafle mais 
» avante , levante-fe logo com grande al- 
» voroço de todos eíle digniílimo retraio 
)> no mais alto lugar deíle capitólio , por- 
» que menor mal he que leja efta Cidade 
» culpada de defcuido , que de ingratidão. 
a E por eíte ferviço , e por todos os mais 
» que eftes Cidadãos vaílallos de fua Ma- 
» geftade pertendem de lhe fazer, aíTim a 
» elle, como aVoíía Senhoria, lhe pedem 
» todos ponha os olhos no amor, e alvo- 
» roço com que feftejamos efte Auto; por- 
» que aílim lembrando-lhe as obrigações 
» em que fica a efta Cidade, a queira hon- 
» rar com lhe guardar feus foros , privile- 
» gios , e liberdades , e com iíTo remune- 
>> rar, e em parte fatisfazer os ferviços dos 
» Cavalleiros Cidadãos , que morreram em 
}> ferviço do-feu Rey, remediando-lhe , e 
» defpachando-lhe luas filhas pobres, e or- 
» fans , pêra que aífiin vejamos todos que 
» não foi efte noíTo ferviço feito em vão ; 
» e permittirá o Senhor por meio defta 
» obra tão fan f a dar a Voífa Senhoria tan- 
» tas,, etão iníignes vitorias 3 que porellas 

3> me- 



Década XII. Cap. XV. 119 

» mereça fer collocado á ilharga de feu 
» digniflimo Biiavô ; e que me haja eu por 
y> muito ditofo caber-me a forte de efcre- 
y> ver a hiftoria da índia , que me he en- 
» commendada por fua Mageftade , pêra 
» que pelas grandezas que de VoíTa Se- 
» -nhoria efpero efcrever , venha a íer tão 
» conhecido , e celebrado no mundo , co- 
» mo foi Homero por efcrever de Achi- 
» les. » 

Acabada a falia , alevantou-fe logo o 
retrato no lugar que lhe eftava ordenado, 
que foi á mão direita , entrando na cafa 
diante do de Afonfo de Alboquerque , no 
que fe não bolio, porque puzeram efte do 
Conde Almirante na parede que fe accref- 
centou : o que fe fez ao fom de muitos 
inítrumentos. Pofto em feu lugar, primeiro 
que fe alevantaífem da meza , aprefentárão 
os Vereadores ao Conde Almirante algu- 
mas petições de orfans pobres , filhas de 
Cayalleiros honrados , em que lhe pediam 
alguns cargos pêra feus cafamentos , que 
elle defpachou com muito goíto , e dalli 
fe recolherão pêra os apofentos dos Vifo- 
Reys , e lhe correrão ás carreiras no ter- 
reiro do paiTo com muito regozijo. E por- 
que efte Auto foífe de mor gofto , e mais 
celebrado , por não fer tudo temporal , fez 
o Conde outro efpiritual nas melmas Oita- 
vas , 



I2G ÁSIA de Diogo de Couto 

vas , que foi fazer Chriftao o Príncipe de 
Pemba , e lhe poz nome D. Filippe da 
Gama 5 e ainda depois o cafcu com huma 
mulher Portugueza 5 que tinha vindo, do 
Reino no numero das orfans , a quem do<- 
fotí honeílamente. 

Efte retrato do Conde D. Vafco da Ga- 
ma , que ailim fe poz naquolle lugar bom 
tantc alvoroço da Cidade, foi depéi 
dado não lei por cuja ordem ; porqae-os 
parentes de Afonfo de Alboquerque alio 
gavam n ue o primeiro lugar. daqu 
mara lhes pertencia por Conquiffadot da- 
quella Cidade ; e porque fe não fizcffe a •(- 
gravo a algum , paliaram eíles Capitães 
ambos pêra a fronteria da caía a de Afon- 
fo de Alboquerque á mão direita , donde 
fe aíTentão os Vereadores , e a do Conde 
Almirante á efquerda ) e na parede em que 
eftavam ficarão os retratos dos dous famo- 
fos varões D. João de Caftro , e D. Luiz 
de Taíde defronte hum do oiitro \ o que 
fe fez em tempo do Vifo-Rey Aires de 
Saldanha. 



CA- 



Década XII. Cap. XVI. 121 

CAPITULO XVI. 

J)e como as nãos Hollandezas , que anda* 
vam pela cqfta de Malaca , pelejaram 
com as nãos que hião daquella Forta- 
leza pêra a índia : e do fim que ejias 
nãos tiveram , e de outras coufas. 

E^ Stando ainda a armada de Lourenço 
i de Brito na.Sunda , não fabendo em 
Malaca das nios Hollandezas , que anda- 
vam já por aquelJa coita- rj preparou-fe a 
frota , que havia de ir pêra a índia , que 
era efta : a náo de Miguel da Cunha, em 
que hia embarcado Francifco da Silva de 
Menezes , que acabara de fer Capitão da- 
quella Fortaleza, que hia por Capitão Mor 
de todas aqueilas náos : a náo da viagem 
da China , de que era Capitão Ruy Men- 
des de Figueiredo , e huma náo de Luiz 
de Mencloça , de que era Capitão hum feu 
cunhado : outra náo do mefmo Francifco 
da Silva de Menezes , que vinha da Chi- 
na, de que era Capitão Fernão de Almei- 
da: dous juncos, e hum galeoto pequeno. 
E eftando todas eftas náos pêra darem á 
vela dia deReys, o dia dantes fe fez João 
Gomes Fayo á vela , fem efperar pela mais 
frota , que ao outro dia fe defamarrou ; e 
quando foi aos nove , fendo trinta léguas 

de 



nz ÁSIA dê Diogo de Couto 

ide Malaca na altura das ilhas de Pulupar- 
celar , houve João Gomes Favo , que hia 
diante , vifta das duas náos Hollandezas , 
que logo conheceo , pelo que voltou pêra 
trás , e houve vifta da outra frota , e def- 
pedio hum balão a Francifco da Silva de 
Menezes com recado em que o avifava 
que eram as náos dos Hollandezes : eftes 
tanto que viram a náo do João Gomes 
Fayo, foram-na demandar mui determina- 
dos. 

Chegado o balão com o recado, ajun- 
tou Francifco da Silva de Menezes na fua 
náo todos os Capitães , e as outras , e lhes 
deo as novas , e lhes perguntou o que fe 
devia fazer. Foi a nova caufa de grande 
alvoroço em alguns , e as náos fe come- 
çaram adefordenar, e requererem algumas 
peífoas a Francifco da Silva de Menezes 
que tornaífem a arribar a Malaca , que ti- 
nham pêra lá vento que lhes fervia , e que 
fe não arrifcaífem a ir pêra a índia , por- 
que os inimigos os haviam de ir feguindo , 
e perfeguindo por todo o caminho j e fc- 
gundo os noífos eram defordenados , eftava 
certo irem tomando aquellas náos huma e 
huma. No meio defta borborinha , que era 
grande , não faltaram homens amigos de 
honra que acudiram áquillo , e que diffe- 
ram a Francifco da Silva de Menezes, que 

não 



Década XII. Cà*. XVI. 125 

tiao íó fe poderia pelejar com as náos , 
mas que com los os batéis delias as po- 
diam tomar , e desbaratar : que paflaíie 
adiante, que Deoa llie daria vitoria. Com 
ilto 3 e com deitarem bem ilias contas, que 
os podiam os inimigos alcançar primeiro 
que chegiflfem a Malaca , fe prepararam 
pêra pelejar com os inimigos. 

Eihvam as noilas nãos furtas, c diante 
de todas a de João Gome? Fayo , que fe 
viera recolhendo ja as bombardadas com 
os inimigos, que vendo a nofía frota, en- 
tenderam que era toda de mercadores , cm 
que podiam ter muito proveito , e pouco 
perigo : determináram-fe a commettellos „ 
COmo fizeram, indo muito embandeirados 
de bandeiras brancas, e de formol os eíten- 
dartes , e aífim á vela chegaram ás noilas 
nãos , e lançaram ferro junto da de Joáo 
Comes Fayo , e de huma das noflTas nãos 
lhe atiraram com huma efpera , que deo por 
huma das inimigas , que lhe fez bem de 
damno , com o que abateram as bandeiras 
brancas, c deitaram outras de feda, como 
oue fe faziam louçaos pêra aquella bata- 
lha : e logo começaram hum furiofo jogo 
de bombardadas , de que a náo de João 
Gomes Fayo recebeo a mór parte , ciue 
também lhe refpondeo com outra falva 
mui arrazoada, andando fempre no convés 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

fazendo laborar a artilheria. Das outras 
náos também lhes refpondèram r ui bem , 
e alTim fe travou huma baralha mui cref- 
pa , que durou defde pôr do Sol ; em que 
começou, até ás oito da noite. E dalii até 
pela manhã gaitaram os noííos em prepa- 
rar fuás coufas , porque determinaram de 
pelejar, e abordar as náos, por citarem já 
com mais animo ; e affim fe fizeram á vela 
mui ordenados , e os inimigos de envolta 
com elles pelas ilhargas , e oito dias con- 
tínuos foram -deita maneira pelejando fii- 
riofamente , defviando-fe os inimigos pôr 
fua ligeireza de as noflas náos os poderem 
abordar. Em todas as náos houve algum 
damno , e feridos ; e na de Francifco da 
Silva de Menezes entrou hum pelouro pe- 
la camará , onde levava fua mulher , e fi- 
lhas , e lhe matou huma , que era a mais ve- 
lha , e duas eferavas. Os inimigos não hiam 
folgados , porque a artilheria das noflas 
náos os deítroçou por muitas partes, e lhes 
abrio buracos , que lhes deram bem de traba- 
lho. Determinaram de inveítir a náo de Luiz 
de Jvíendoça , que lhe ficava mais a geito , e 
vieram fobre elía ; mas as noflas deixáram- 
fe vir cahindo em favor fobre as dos inimi- 
gos , em quem fizeram algum não pequeno 
damno , fuítingando-os com a artilheria, e 
arcabuzaria de maneira que os fizeram deter. 

Nef- " 



Década XII. Cap. XVI. ! 123- 

Neíte tempo aconteceo hum defaílre, 
que foi tomar fogo a pólvora que hia no 
co véz da Capitânia dos inimigos , que fez 
grandes eítragos , queimando muitos , que 
foi caufa de fe retirarem quaíl deítroçados. 
João Gomes Fayo quiz avifar a Malaca 
daquelle negocio, edefpedio hum foldado 
de recado , chamado António Lopes de 
Almeida , com huma carta fua , e outra de 
Francifco da Silva de Menezes pêra o Ca- 
pitão ; em que lhe davam conta de como 
hiam , e do que até então era paífado. A 
noíTa frota deixou-fe ir feu caminho até 
Cochim. O Capitão de Malaca , tanto que 
chegou o António Lopes de Almeida com 
citas cartas , de quem foube o que era paf- 
fado , defpachou logo dous balões mui li- 
geiros a faber das náos Hollandezas em 
que paragem ficavam. Eítes balões foram 
até Pulobotum fem achar novas delles ; e 
por não poderem ir até Nicubar , fe tor- 
naram fem novas delles. Com o que def- 
pedio logo outra embarcação maior pêra 
ir á ilha Polvoreira , e até Nicubar a faber 
delles 5 porque fe lhes ficaífem deita ban- 
da , os ir bufcar com. três náos , que ainda 
citavam no porto bem negociadas ; e def- 
pedio huma embarcação pêra a Sunda , em 
que mandava avifo a Lourenço de Brito 
do que paliava. A embarcação , que o Ca- 

pi- 



T2<5 ÁSIA de Diogo cie Couto 

pitão mandou atéNicubar, também tornou 
fem nova alguma. Os inimigos íe recolhe- 
ram ao pono de Queda com muita gente 
morta , e os mais tao feridos , e desbarata* 
dos, que gaitaram muito tempo em fe re-. 
formarem: e pela falta de gente, que Jhe 
os noífos mataram , deixaram naquelle 
porto a náo de menos porte; e na outra, 
que era a Capitânia , embarcaram o que ti- 
nham, e fahíram-fe com muita preíTa, tan- 
ta , que deixaram em terra alguns feridos , 
porque os naturaes quizeram dar nelles 
por algumas fem-razões de que usaram 
com elles , e foram-fe na volta de Bengal- 
la ; e pela paragem de Martavão na coita 
de Pegu fe perdeo naquelle Macareo. 

CAPITULO XVII. 

Do que fez D. Luiz da Gama no Mala- 
Dar o rejlo do verão : e de como D. Dio- 
go Coutinho Capitão Mor do cabo Ca- 
marim recolheo as nãos da China , e le- 
vou a Goa : e dos Capitães que o Con- 
de defpachou pêra fora : e do que pro- 
veo fobre a feira de Cantão na China. 

DEixamo" atrás D. Luiz da Gama na 
coifa, do Malavar continuando na gu er- 
ra contra o Çamorim até Abril > que fe re- 
co- 



Década XII. Cap. XVII." 127 

colheo a Goa , deixando providas as Forta- 
lezas do Canará. Tanto que eíta Armada 
chegou , vendo o Conde que a coita do 
Canará ficava defabrigada , e que aquelle 
era o tempo em que os Mouros doCunha- 
le fe proviam de mantimentos por navios 
ligeiros , quiz-lhe defender iíto , porque 
era a mor guerra que lhes podia fazer. Pêra 
o que defpedio logo D. Álvaro de Mene- 
zes com dezoito navios , e regimento que 
andaíTe por aquella coita até vinte de Maio , 
e partio de Goa a vinte e dous de Abril. 
Com eíta Armada foi correndo aquella cof- 
ta , e tomou nella huma galeota de Ma- 
lavares , e outros dous navios mais , de 
maneira que não fe proveram os Mouros 
deita vez como coítumavam ; porque o que 
governar o eítado , não ha de poupar a fa- 
zenda de EiRey , porque neítas coufas lie ella 
melhor defpendida 5 que em todas as mais ; 
porque fe fe gaita em huma Armada do 
Malavar feílenta ? ou fetenta mil pardaos 
pêra fomente lhe tomar os portos , e de- 
fender os mantimentos ? que razão darão 
pêra depois deixarem a coita ( donde fe 
el.les depois proviam á fua vontade) fem 
guarda alguma , porque fó por eíte refpei- 
to fe fizeram aquellas Fortalezas naquella 
coita pêra nella ficarem navios da Armada 
do Malavar 7 guardando-a até entrar o in* 

ver- 



nS AS IA de Diogo de Couto 

verno , e fe recolherem a ellas : e aflim fi- 
cam dous gaftos baldados, o das Armadas 
do Malavar, e o das ordinárias daquellas 
Fortalezas ; e tudo ifto v acontece de quere- 
rem poupar o que os navios (que aíli era 
razão ficaffem ) haviam de gaitar ; e fazem 
alguns tão pouco caio deita obrigação , co- 
mo fe não montara tanto 3 ccmo algumas 
vezes tenho dito. 

Partindo D. Álvaro de Menezes , logo 
o Conde defpedio D, Fernando de Noro- 
nha por Capitão Mor de dez navios j por 
recear que depois do inverno entrado fe 
moveííe alguma guerra contra as Fortalezas 
de Barcelor , Mangalor , e Cananor pêra 
as fegurar , por não eítarem providas como 
era razão eftiveíTem , dando ordem a D* 
Fernando de Noronha pcra deixar navios 
pelas Fortalezas do Canará , e elle inver- 
nar em Cananor , pêra dalli fahir entrada 
de Setembro a tomar as barras a Cunhale 
por fe não prover de mantimentos , por- 
que pertendia profeguir na guerra contra 
elle até o defrruir de todo, porfer coííairo 
quaíi da porta , e que todos os annos fa- 
sia grandes roubos nos navios dos vaífaMos 
de EIRey , e enxovalhava as noíías Arma- 
das , coufa que além das perdas que dava , 
e reputação que tirava, enriquecia elle ^ e 
fe fazia cada anno mais poderoíò cora 

da- 



Década XII. Ca?. XVII. 12^ 

damno , e afFronta noífa : e pêra eítas cou- 
fas tão neceflarias nunca efte Vifo-Rey 
poupou a fazenda deElRey, porque fabia 
que com a defpender aífim , erefcia ella, 
e a dos vaíTallos : e aífim todo o feu tem- 
po mandou invernar neftas Fortalezas , na- 
vios , e foldados que fahiam cedo a de- 
fender os provimentos aos Mouros , como' 
fe verá pelo difcurfo deíla hiítoria. Antes* 
diffo defpachou o Conde alguns Capitães 
pêra fora , como foram , João Pinto de 
Morais no galeão S.João, pêra ir fazer as 
viagens de Malaca com muitos provimen- 
tos ? e munições pêra elle , e nelle foi em- 
barcado Ruy Gonfalves de Siqueira, pro? 
vido da Capitania daquella Fortaleza, por 
acabar feu tempo D. Julião de Noronha 
que nella eftava. 

Neíle mefmo tempo defpachou também 
o Conde a D. Paulo de Portugal pêra ir 
fazer três viagens de Japão , que comprou f 
huma aos herdeitos de feu Pai D. Francif- 
co de Portugal , e outra ao hofpital de 
Goa , quê EIRey lhe mandou pêra fe re- 
novar, e que preeedeffe a todas, e a ter- 
ceira a S. João de Goa : feguiam-fe huma 
á outra : pêra o que comprou huma for- 
mofa náo , em que partio mui bem petre- 
chado , e provido do neceífario. Neítas 
jiáos paíTou o Conde Almirante huma Pro- 
Couto. Tom. uLTé í vi- 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

visão a requerimento da Cidade , em que 
mandava que o Capitão Mor da China, e 
Japão não impediíTe por alguma via , nem 
por íl , nem por interpoílas peílbas , nem 
*cs moradores da Cidade Macao , aos mer- 
cadores da índia irem a Canrão fazer luas 
fazendas livremente : e que o Capitão Mór 
hão pudeffe pôr emconfelho a ida de Can- 
tão ; porque por refpeito de feus interef- 
fes , e dos moradores daquella Cidade to- 
mavam nos ditos confelhos determinações , 
de que refultavam grandes damnos aos ren- 
dimentos das Alfandegas pelas poucas fa- 
zendas que vinham a ellas ; porque fe tinha 
intendido' que pêra vir á índia huma náo , 
ou junco diante , que commummente trazia 
fazendas de pouco porte, fe abria preço á 
feda , e fe compravam fazendas do Lan- 
quim, o que era em grande perjuizo pêra 
a feira do tarde , que fe vai fazer a Can- 
tão , pêra quem fica fempre amor parte do 
cabedal da índia : pelo que defendia que 
não houveífe mais de huma feira da índia , 
pêra onde fe partiram os mercadores delia 
em Setembro , pêra que pudeílem empre- 
gar feus cabedaes com menos opprefsão , 
*e a preços mais moderados pêra le torna- 
rem' cedo pêra a índia , e chegarem em 
Março , como fempre antigamente chega- 
vam : e que á dita feira ; chamada da ín- 
dia > 



Década XII. Cap. XVIL 131 

dia , não pudeííe ir nenhum morador da 
Cidade deMacao; porque como eram mui 
inrereíTados na viagem do Japão, não hiam 
a Cantão a mais que fazer feda pêra leva- 
rem, ou mandarem, com o que a tiravam 
aos mercadores da índia. Por efte refpeito 
havia dous annos que tinha vindo á Índia 
muito pouca feda , porque a levavam ao 
Japão , no que ElRey perdia muito em 
feus direitos , e com ilíò faziam á feira 
muito cara aos mercadores da índia \ e que 
os de Macao foííem áquella feira em Mar- 
ço pêra fazerem as fazendas de Japão , e 
que a ella não iriam também Mercadores 
da índia. Eíta náo de D. Paulo de Portu- 
gal partio na entrada de Maio ; e fendo 
tanto avante como Patane , lhe deo hum 
corifco no maftro , que lho quebrou , peío 
que foi neceílario fazer em Cochim algu- 
ma detença em fe prover de outro. 

D, Fernando de Noronha , que deixá- 
mos partido de Goa pêra invernar em Ca- 
nanor , foi feguindo fua jornada s e na cofta 
Canará encontraram hum Parao de Mala- 
vares , que foi fugindo , e os íioííbs apôs 
clle ãté o fazerem varar em terra , donde 
o tiraram com todo o feu recheio : e aíTim 
encontrou pôr aquelíes rios muitas embar- 
cações pequenas i que eítavam carregando 
de arroz , que logo largaram tudo > e Jfe 
I ii aco- 



lyi ÁSIA de Bioco de Coirro 

acolheram; e nas Fortalezas de BarcelJof, 
e Mangalor deixou dous navios , de que 
eram Capitães Manoel de Oliveira de Aze- 
vedo , e Lopo de Andrade de Gamboa, e 
elle paíTou a Cananor ? onde invernou com 
os mais navios* 

D. Diogo Coutinho , Capitão Mor do 
Cabo Çamorim , recolheo as náos que dif- 
femos de Malaca , que pelejaram com os 
Hollandezes , e as de Bengala , e navios 
da coita de Coromandel , e com huma 
grande cáfila partio pêra Goa , aonde che- 
gou com toda a falvamento já depois de 
quinze de Maio. 

CAPITULO XVIII. 

Das razões que o Çamorim teve pêra fa<* 
zer guerra ao Cunhale : e das prepara- 
ções que pêra iffo fez : e das Armadas 
que o Conde ordenou : e do que fuccedeo 
a D. Fernando de Noronha , ejrando em 
Cananor : e das intelligencias que teve 
tom o Çamorim Jobre o que queria fazer 
ao Cunhale : e da defcripção da cojla do 
Malavar de Cananor até Cochim : e da 
fitio da Fortaleza do Cunhale. 

PEra melhor entendimento da guerra, 
de que logo tratarei , contra o Cunha- 
le .., fera razão dizer primeiro as occaíiões. 

que 



Década XII. Cap. XVIIL Í33 

que o Çamorím teve pêra fe mover a lhá 
fazer em peílba , que foram eftas. Já EIRey 
feu tio , a quem o Çamorim fuccedeo , ef- 
tava tão eícandalizado das couías do Cu- 
nhaie y que antes que morreííe lhe diífe, 
que fe queria reinar em paz , havia de fa- 
zer duas coufas : a primeira era fer fempre 
amigo dos Portuguezes ; e a outra deftruir 
o Cunhale , porque por tempos lhe não 
vieíle a tomar o Reino , e a f e fazer fe- 
nhor de todo o Malavar. Ifto teve elle 
guardado em feu peito fem o communicar 
a alguém , fomente em humas praticas que 
teve com o Padre Antonino da Compa- 
nhia , Religiofo de muito exemplo 5 bom 
Letrado , e Pregador , que hoje que ifto 
efe revemos , he Prepofito da Cafa profeífa 
Bom Jefus deita Cidade de Goa , que en- 
tão eftava lá , e que mo contou a mim. 

Succedêram efte anno eftas duas cou- 
fas : huma cortar efte tyranno o rabo , ou 
a orelha a hum elefante , em que EIRey 
coftumava a cavalgar , que foi tamanha 
affronta, como fe o fizera ao mefmo Reyj 
a outra foi cortarem huns Mouros o mem- 
bro genital a hum Naire , e metterem-lho 
na boca , que he a mor abominação que fe 
podia fazer a efta cafta , de que todos fe 
queixaram ao Çamorim. E ajuntou-fe mais 
a ifto haver ânuos., que lhe não pagava 09 

quiíi- 



134 ÁSIA de Diogo de Couto 

quintos das prezas que fuás Armadas fan 
ziam , e com iíío pôr-lhes pensões novas 
aos Gentios léus vaíTallos a hum tanto por 
cabeça ; e fobre tudo ter tomado tamanho 
brio , que fe intitulava Rey dos Mouros 
do Malavar , e Senhor de todo o mar da 
índia , o que trazia o Çamorim em tantos 
cuidados , que em humas praticas que teve 
com o Padre Antonino , lhe deo conta 
deita fua tenção ; mas diíte-lhe que não fe 
atrevia a tomar a Fortaleza áquelle Mou- 
ro por eítar poderofo. Ao que lhe o Padre 
refpondeo , dizendo4he 5 que como dizia 
aquillo , que quem tomou a Fortaleza de 
Chalé aos Portuguezes , mais fácil lhe era 
tomar aquella daquelle tyranno. A ifto re- 
fpondeo o Çamorim: Meu tio não lha to^ 
mou , tomou-lha a fome. E aíTim lhe diífe 
mais , que determinava de mandar chamar 
o Cunhale, e Cutimuça, e como os tiveííe 
em çafãj mandar-lhes cortar as cabeças, e 
que comiflb eícnfava a guerra. Pedindo ao 
Padre que lhe déífe fobre aquillo feu pa* 
recer , o Padre como o negocio era coufa 
de morte ? não lhe refpondeo : ao que o 
Çamorim acudio , dizendo , que já fabia o 
porque fe calava ; e então lhe perguntou 
fe podia matar os ladroes ? e dizendo-lhe 
O Padre que fim , tornou elle que por iífo 
queria matar aquelles, porque o eram ; e 

mau- 



Década XIL Cap. XVIII. 135- 

mandando dahi a hum dia , ou dous cha- 
mallos , náo quizeram ir, couía que nunca 
fizeram , porque fempre foram a feu cha- 
mado , com o que o Çamorim fe determi- 
nou a lhe fazer guerra, e logo fez ajunta- 
mento de fuás gentes , e preparou as cou- 
fas neceííarias pêra ella. 

Eítas novas chegaram a Cananor ; e 
confultando-as D. Fernando de Menezes 
Capitão daquella Fortaleza , e D. Fernan- 
do de Noronha ; e vendo o tempo difpofto 
pêra o que defejava , trataram por cartas 
com o Çamorim , e com os feus Regedo- 
res fobre aquelle negocio , oíferecendo por 
parte do Vifo-Rey toda a ajuda , e favor 
por mar que lhe foíle neceílario pêra 
deílruir aquelle tyranno ; e avifáram logo 
ao Conde do citado em que aquellas cou- 
fas eílavam , e mandaram prometter ao 
Çamorim que fe lhe confirmariam as pazes , 
que eílavam feicas com D. Álvaro de 
Abranches , indo fempre o D. Fernando 
de Noronha fuílentando o Çamorim com 
efperanças , e promeílas. O Conde andou 
todo o inverno occupado em reformar as 
Armadas, porque determinava de as deitar 
muito cedo fora , e vilitou muitas vezes as 
ribeiras dos navios , cafa da pólvora , e 
armazéns , porque fobre tudo trouxe fem- 
pre grande vigilância , e feílejou os dias 

de 



136 ÁSIA de Diogo de Couto 

de S. João , e Sant-Iago , como he coifo- 
me , veítido á Mourifca , com carreiras , e 
regozijos , coufas que alegrão muito aos 
homens 5 e os exercita ; e como foi tempo , 
nomeou feu irmão D. Luiz da Gama por 
Capitão Mor do mar da índia pêra ir ao 
Malavar , e efcreveo a Baçaim que fe ar- 
maífem féis Sanguiceis muito ligeiros pela 
ordem que déífe Sebaftião Botelho , que 
era muito experimentado naquelle mifter , 
e que fahiíTe por Capitão Mor delias em 
Setembro , o que elie fez muito bem fei- 
to , porque tudo vio com o olho , como 
foldado velho , e experimentado , e que ti- 
nha íido muitas vezes Capitão Mor dos 
navios. Iíto mandou o Conde Almirante 
ordenar , por entender que as Armadas 
grandes não ferviam de mais que de da- 
tem guarda ás cáfilas , e que eítes navios 
aífim foltos eram os que podiam tomar 
Paraos, e navios de cofiairos , que já com 
medo de noiías Armadas faziam outros 
navios pequenos , que eram os que rouba- 
vam toda aqueila coita , porque fugiam a 
noífas Armadas , e chegavam aos navios 
de mercadores cada vez que queriam , e 
como Ginetes ligeiros entravam , e fahiam 
quando queriam , e contra elles mandou 
*armar eftes que diííemos ? que os fizeram 
aíFugentar > como adiaMe verqmos. 



Década XII. Cap. XVIII. 137 

E porque defejava de dar fim á empre- 
za de Cunhale , e lhe deram as cartas de 
Cananor do eftado em que as coufas efta- 
vam , e de como o Çamorim fe preparava 
pêra o cercar, negociou com muita preíTa 
alguns navios pêra mandar a D. Fernando 
de Noronha , pêra que com os outros que 
lá tinha fe puzeífe na barra de Cunhale, 
até chegar o Capitão Mor do Malavar* 
E pêra ifto começou em Agofto a pagar 
gente , e deitar navios ao mar , pêra como 
o tempo déííe lugar , os defpedir com mui- 
ta ordem, e prefteza ; e porque defejava de 
concluir o negocio de Cunhale , já que ti- 
nha o Çamorim tão difpofto pêra iífo , por 
fer a mais importante jornada que então 
havia na índia : e como as barras eftive- 
ram pêra fe poderem commetter em Agof* 
to , defpedio doze navios , de que foi por 
Capitão Mor , e cabeça delles Manoel de 4 
Barbuda , e dos mais foram Capitães D, 
António Manoel , que neíle verão em que 
efcrevemos ifto , acabou de fervir a Capi- 
tania de Damão D. Álvaro da Cofta , Gaf- 
par de Mello , Vafco Gomes de Mello > 
António Botelho , João de Seixas , Diogo 
Ortiz de Távora , e hum navio pêra Bel- 
chior Ferreira de Cananor, e féis Piriches 
mais de Malavares ; e quando eíles navios 
chegaram, já D, Fernando de Noronha. ti* 

nlu 



138 ÁSIA de Diogo de Couto 

nha fahido de Cananor em finco de Setem- 
bro com gs navios que alli tinha , com que 
fe paíTou á coita Gamara , onde recolheo os 

Í[ue foram em Mangalor , e Barcelor , e alli 
e ajuntaram todos , com que fe fizeram dez- 
oito navios 5 com que D. Fernando de No- 
ronha andou correndo aquella coita , porque 
os Mouros fenao proveííem nella de manti- 
mentos : e dalli voltou pêra Cunhale por ter 
recado do Çamorim pêra começar a dar 
principio á íua empreza , deixando fobre a 
barra do Canharoto finco navios pêra impe- 
direm a alguns Paraos que não fahiífem, 
que eftavam dentro. Chegado a barra de 
Cunhale , poz por derredor muita vigia , 
porque lhe não entraíle couía alguma , c 
mandou dous Capitães Malavares , bons Ca- 
valieiros , pêra irem afiiftir com o Ariole y 
que ficava da outra parte do rio, fronteiro 
á Fortaleza , que eftava da parte do Çamo- 
rim , por fer feu vaífallo , pêra dalli fazerem 
toda a guerra que pudeíTem. Tanto que o 
Camorim vio D. Fernando de Noronha na 
barra , logo aíTentou feu exercito da parte 
de Lede 5 e da do Sul, pêra aífim ter o ty* 
ranno melhor cercado , e mais encurralado : 
€ pêra que fe entenda melhor eíte nego- 
cio , farei huma breve deferipção de todos 
os rios de Cananor até Cochim , que he 
a verdadeira coita do Malavar^ pêra fefa- 

ber 



Década XII. Cap. XVIII. 139 

ber a parte em que eíle tyranno tinha a 
fua Fortaleza , e moílraremos o íitio , e 
forma de fuás fortificações. 

De Cananor ao ilheo deTremapatao ha 
duas léguas , tem alli hum rio mui bom , 
delle ao rio do Sal ha meia légua , e lé- 
gua e meia abaixo o rio deMaim; adiante 
huma légua a povoação deChomamba, que 
tem defronte humas pedras; dahi ameiale- 
gua a povoação deMotangue, e outro tanto 
ao rio dePudepatão, em efpaço de meia lé- 
gua, que he onde o Cunhale tem fua For- 
taleza , fobre quem deixamos D. Fernando 
de Noronha com fua Armada , e na barra 
tem efte rio hum ilheo j e entre a povoa- 
ção deMotangue, ePudepatao, em efpaço 
de meia légua , ficam eílas duas povoações, 
Coriare , e Baregare : adiante do rio de 
Cunhale duas léguas eílá a villa de Tira- 
cole deíla coíla , e dos mais foberbos Mou- 
ros delia: outras duas léguas adiante vai a 
villa Coulete , ou Couleche , e huma légua 
avante o rio Capocate, e adiante outra lé- 
gua a povoação dePudiangare. Neftes por- 
tos , rios , e povoações fe armam" todos os 
Paraos que filiem a roubar, e em todos ha- 
verá hoje perto deietenta, pouco mais, ou 
menos , que fe repartem pêra differentes 
partes a fua pilhagem, armados todos por 
differentes armadores. E das prezas que 

t<> 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos fazem , tem o Çamorim huma boa 
quantidade , fem elle metter cabedal algum ; 
c poíto que eftejam de paz comnofco , nãò 
deixam eftes coíTairos de fahir fora , e de 
o confentir o Çamorim pelo proveito que 
diíTo tem , fobre fe ter obrigado em todas 
as pazes que tem feito com o eítado > a 
nao fahirem de feus portos coíTairos , e de 
cortar os efporoes aos navios , e fazellos 
de carga. E os Vifo-Reys quando lhe con- 
cedem eítas pazes , bem entendem que as 
nao hão de cumprir neíte particular , mas 
diffimulam por refpeitos que tem pêra 
iíTo , que eu nao fei quaes íejam , porque 
com iíTo não poupam coufa alguma ao Ef- 
tado , pois forçado por razão delie fe ha 
de mandar áquella coita todos os annos 
Armadas , em que fe gaitam mais de feífen- 
ta mil pardaos , e arrifcam os vaífallos i 
porque á conta das pazes navegam > e os 
tomam , cativam , ou roubam. 

E certo que nefte paifo me lembrou 
perguntar-me a mim qual he a caufa , por 
que os Vifo-Reys não tomam deites feflen-» 
ta, oufetcnta mil pardaos, que gaitam to- 
dos os annos , vinte mil , e os repartem 
pelos Arioles , e Naires deites rios pêra 
lhes queimarem todos os Paraos que nelles 
houver j o que fe fará com muita facilida^ 
de } e fem fe faber ; e ainda digo mais i 

que 



Década XII. Cap. XVIII. 141 

«jue os meímos Çamorins os mandariam 
queimar , dando-lhes eíle dinheiro , porque 
cuido que nem ametade deita quantia lhes 
cabe do quinhão das prezas ; e fegundo 
elles são miferaveis , e cubiçofos y e inte* 
refleiros, cuido que comifto folgaram mais.- 
E affim fem riíco dos vaíTalios , que he 
bem que fe eílimem , e lhes poupem as 
vidas , e fem tantas perdas , e defpezas, 
farão a todo o Malavar dentro em fua ca- 
fa a mor guerra do mundo , fó por imi- 
tarem o muito prudente Rey i que eftá em 
gloria , que tudo o que podia fazer , e 
acabar com dinheiro , não perdoava os 
gaílos , e defpezas , porque entendia bem 
que o officio de bom Capitão era traba- 
lhar mais por vencer com eftratagemas , e 
artifícios , que com armas ; porque quando 
os inimigos fe temem difto , andam mais 
precatados , e tímidos. 

E tornando ao noíTo fio , e ordem do 
que dizíamos : de Pudiangare a Calecut ha 
huma légua , eduas dalli ao rio de Chalé > 
e outras tantas á Cidade de Paranor > e 
às mefmas á deTanor, e outras duas á de 
Paranora ; e dahi a huma légua eftá o famo- 
ío rio de Panane, o maior daquella cofta, 
e delle á barra de Paliporto nove léguas , 
e quatro ao rio de Cranganor i e delle a 
Cochim finco» Eis-aqui toda a, coita Mala-. 



i4^t ÁSIA de Diogo de Couto 

var de Cananor até Cochim. Agora torne- 
mos ao rio Pudeparao , onde Cunhale tem 
fua Fortaleza , e moftraremos o lítio , e 
forma delia. Pêra o que feha defaber, que 
o lítio em que eftá, hehuma peninfula qua- 
drada de tiro de falcão de comprido , e 
outro tanto de largo ; entrando pela boca 
da barra , logo volta pêra o Sul hum eftei- 
ro , que deixa huma lingua de arêa fobre 
a barra , que corre de longo hum tiro de 
fakão: até o meio podem entrar fuftas , e 
dahi por diante lo almadias. O rio princi- 
pal vai fubindo qnaíi ao Nordefte outro ti- 
ro de falcão 5 e faz volta ao Sul, e deixa 
feita aquella peninfula que diííe , porque 
fó fe pega com a terra pela parte do Sul; 
e nefta volta que faz o rio eftá a Fortaleza 
principal , com que logo continuaremos. 
Aquella pane da terra, que não deixa fa- 
zer aquelle lítio ilha , fechou o Cunhale 
com huma grofía parede defde o eíleiro 
debaixo até o rio grande ; e ainda fez ou- 
tra tranqueira por fora de madeira muito 
froíTa, e forte com fuás guaritas, e revezes 
uma, e outra. O rio grande he de largu- 
ra de tiro de efpingarda , porque de huma 
parte , e de outra fe ouve muito bem tu- 
do ; ^ cá em baixo perto da Fortaleza fe 
aparta em dous ramos, deixando no meio 
aquella ilheta 5 que chamam do Chinalle 7 

que 



- Década XII. Cap. XVIIT. 143 

que era hum Mouro , de que logo dare* 
mos razão. Era efta ilheta de meia légua 
em roda , e logo fe torna a ajuntar o rio , 
e fe aparta delle hum braço , que vai até 
Calecut , e Chalé , que são nove léguas , e 
até três léguas poderão navegar catures , 
e dahi por diante almadias. A Fortaleza 
he quadrada j e cada quadra he de fin- 
coenta paífos v e em cada huma tem hum 
baluarte amadeirados de traves groífas , e 
debaixo delles cafas pêra armazéns. As 
paredes da Fortaleza são de quatro paífos 
de largura : em meio da Fortaleza eftá 
huma caía forte, que ferve de mafmom, 
em que mettem os Portuguezes cativos, e 
por noflbs peccados eítá poucas vezes v"àiia. 
Tem efta Fortaleza mais dous cavalleiros, 
que refpondem de revéz hum ao outro, 
que defcobrem todo o íitio , e povoação 
<jue fica dentro das tranqueiras. Os muros 
tinham feus parapeitos , bombardeiras 5 e 
fetteiras com muita , e boa artilheria , e 
não tinha mais de huma fó porta detrás 
de hum revéz de hum dos baluartes. A 
tranqueira de pedra , que fecha eíle lítio, 
tinha no cabo fobre a barra hum formofo 
baluarte com muita artilheria , que defen- 
dia a entrada com huma guarita pêra a 
parte de Norte. Por todas eftas fortifica- 
ções tinha o Cunhale repartidos mil e 

qui- 



m 

144 AS IA de Diogo de Couto 

quinhentos Mouros efcolhidos , a fora qui* 
nhentos de ferviço , e na Fortaleza tinha; 
comíigo duzentos dos principaes , e de mór 
confiança. No baluarte de íobre a barra 
eftava por Capitão Cutimuça , cafado com 
]iuma tia doCunhale, que foi o que tomou 
a galé de D. Fernando Lobo defronte de 
Coulão : no baluarte da tranqueira de pe- 
dra eftava Calvaca , valente Mouro : na 
tranqueira de madeira eftava Canatale 5 fo- 
brinho do outro , que foi grande coíTairo : 
nas guaritas eftavam repartidos eftes Capi- 
tães , Cunhimai , Nonomai y Cutimai , Cu- 
timurça Marca, Bacca Mamede, Bacia Cu-* 
tiali feu irmão , Canatale , Cana Acam , 
Tampocare , e outros , todos eftes arma- 
dores de navios de féis, fete, e oito cada 
hum , que eftavam mui ricos de prezas , e 
o Cunltale mais rico que todos , e tão lo- 
berbo , que tinha concebido em feu pen- 
famento fazer-fe Rey de todo o Malavar. 
E quando elle eftava mais alevantado da 
fortuna , e cheio de vitorias contra nós , deb- 
andou ella fua roda , e deo com elle no 
pelourinho de Goa , onde lhe cortaram a 
cabeia > como em feu lugar diremos** 



CA- 



Década XII. Ca*, XIX, 145* 

CAPITULO XIX* 

JDe como o Bifpo da China D. Luiz de Sir» 
queira da Companhia de Jejus , e o Pa- 
dre Alexandre de Valignano foram a 
Japão : e de como aquelle Emperador fa* 
leceo : e do que lhe fuc cedeu por fua 
morte. 

N r O fim da onzena Década deixamos 
dito que tinha partido pêra a Chi- 
na a náo da viagem de Japáo , de que 
era Capitão Mor Nuno de Mendoça , on*- 
de foram embarcados o Bifpo D. Luiz de 
Sirqueira , Religiofo da Companhia de Je- 
fus. Foi eleito pêra a índia pêra Bifpo do 
Japão pêra por morte do Bifpo D. Pêro 
Martins ,- também da Companhia, lhe fuc* 
ceder no Bifpado ; porque como aquella 
Chriílandade era ainda nova, e muito ten- 
ra i arrifcava-fe muito fe ficara alguns an- 
nos fem Bifpo. E por iífo EIRey de Por- 
tugal proveo nefta forma b por fel* em ex- 
tremo zelofo do augmento da Santiflíma 
Fé Catholica. Hia também embarcado o 
Padre Alexandre de Valignano , Vifítadof 
da Companhia , que já o fofa da índia, e 
agora levava o mefmo Cargo pêra a Ilha 
de Japão j e fazendo fua viagem ( tomaram 
Malaca , e dalli paffáram á China > onde 
Couto. Tom. ult* K - íe 



146 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe detiveram , efperando pela monção pê- 
ra a Ilha de Japão , que lie em Junho , de- 
pois de S.João , donde partiram já em no- 
venta e oito, e chegaram entrada deAgof- 
to , e os Padres da Companhia começaram 
a exercitar feu officio , e correr com fuás 
obrigações no minifterio da conversão das 
almas. 

Eítava neíle tempo muito mal o Tai- 
cozama , Emperador de todas aquellas 
Jlhas , e quaíi no cabo ; e fobre aquella 
herança havia entre os fenhores Japoes 
grandes pertenções , e defavenças , porque 
pelas idolatrias , e peccados daquella Ilha 
nunca de quinhentos annos a eíla parte 
fuccedeo filho a pai, nenr^eto a avô, nem 
ainda, algum , a quem por linha direita íuc- 
cedeíTe naquella herança ; porque o derra- 
deiro Emperador , em que aquella fuccef- 
são fe acabou , foi reteudo , e foi prezo 
por hum Governador feu , que fe lhe ale- 
vantou com o Império , deixando-o na 
Cidade de Meaco em huns paços muito 
ricos, onde aífim elle, como todos os que 
lhe fuccedêram por linha direita eíKveram 
até hoje como eííatuas , fem eleição de que- 
rer y nem com mando algum , fomente ti- 
nham authoridade pêra confirmar os Rey- 
nos aos tyrannos , e a todos os mais da- 
quella Ilha y ç com yiverem aífim privados 

de 






Década XII. Cap. XIX, 147 

dg feu Império , eram muito ricos por 
pensões que lhes davam , e na authoridade , 
lerviço , e riquezas eram outros Empera- 
dores. E eítes feus herdeiros, que aífim lhe 
fuccediam por linha direita , não perderam 
nunca o titulo de.Daires, ou Voo, que he 
o mefmo que de Emperador ; e o que os 
tyrannos tomaram de Taicozama he mais 
humilde por encubrirem lua tyrannia > que 
tanto quer dizer como do Império. 

Pelo alevantamento do primeiro tyran* 
no , que deíapofíbu o derradeiro Daire, 
fe dividio aquelle Império em feiTenta e 
féis Reynds diítindos , que são os íeguintes. 

Faremos primeiro huma defcripção def- 
tas Ilhas por etta maneira. Tomada eíta 
terra a vulto, affirmam que tem quatrocen- 
tas leguas de comprido ; mas o que he na 
realidade , não paíla de duzentas , quanto 
á própria Ilha de Japão. Nafce ifto de fer 
efta grande terra repartida em muitas Ilhas 
juntas 5 que fazem parecer hum grande 
continente. As maiores, e mais principaes 
Ilhas, são três. A primeira fe chama Chi-* 
•mo j e por outro nome Xaicocu , que tem 
eítes nove Reynos > fcilicet , Figcn , Bungo ? 
Funga, Bonzumi, Cucuma, Fingo, Chicu- 
-gen, Chicungo, Unigen. 

A fegunda Ilha fe chama Xicocu > que 
.-quer dizer quatro Reynos , por outros tantos 

K ii que 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

que tem , que são eíles , Tofa , Aba \ Sa* 
noqui j e Lijo. 

A terceira , e mais principal , he a que 
propriamente chamamos Japão , que tem 
em íi eftes quarenta e fete Reynos , fcili- 
cet ? Nangato , Inami , Sura , Juxomim , 
Aqui , Foqui , Bingo 5 Ineba , Bichum i Mi- 
ma , Zaca , Farima 5 Tanquima ? Viger , 
Tambá ? Tango , Bacaía , Xama> Xiro> 
Xamalo , Inzuno 3 Quij , Liquigem , Bomi , 
Ingá , Xima , Ixe , Mino , Canga , Noto , 
Jetehic, Fitachi , Ximano* Boari, Micava, 
Cai y Jenchingo , Deva , Lencuque , Tou- 
tomi , Fugara , Ixu , Meaxi , Ximonu , Xic- 
que , Sangami ? Ximoneza , Findeaqui, 
Bonju , Bandou. A efta Ilha principal fe 
ajuntam outras féis , que são eftas. Sado, 
Voqui y Couxima , Iqua , Abangui , Iniuno* 
xíma , que são outros féis Reynos. Eítea 
são os feífenta e féis Reynos do Japão. E 
entre quarenta e ftto. da Ilha principal ha 
finco , que fe chamam Tecão por hum no- 
me fó ; e quem for fenhor delles , he Em* 
perador de toda a Ilha. 

Já que temos vifto a grandeza deite 
Império , tornemos a continuar com o di£ 
curfo que levávamos da doença do Taico-* 
zama. Eíle vendo-fe no cabo ? andou di£ 
curfando como poria na cadeira daquella 
Monarquia hum filho que tinha , de idade 

de 



Década XII. Cap. XIX. 149 

de finco annos j porque ainda que era ty- 
ranno , e tinha tomado o eftado alheio, 
não deixava de ver, e entender que o que 
elle fez ao filho alheio , lhe podiam outros 
fazer ao feu ; e vendo que não tinha outro 
remédio fenão fiar-fe de alguém , quillo 
fazer antes do Rey de Bandou , chamado 
Yaya Su, por fer muito valerofo, de quem 
fe receava mais que de todos os outros 
Reys , que por lua morte lançaífe mão da- 
quella Monarquia , e quillo levar por ter- 
mos de muita confiança que delle fazia 
com lhe entregar feu filho ; porque pela 
ventura que com iflb o quietaria, e fuften- 
taria feu filho menino naquelle eftado. 
Chegado efte Rey a elle , tendo comfigo 
muitos dos feus Grandes , lhe fez efta bre- 
ve falia : 

)) Bem fei que não poffo efeapar defta 
» enfermidade, porque vejo em mim finaes 
y> de fer chegado o meu termo : não finto 
}> morrer , porque fei mui bem quão certa 
» a morte he a todos , fó finto deixar 
» meu filho de tão pouca idade , que não 
» he capaz de lhe entregar efte Reyno ; e 
» já que afiim he , correndo pela memoria 
» a quem com mais confiança podia entre- 
}> gar efte menino , e efta coroa , que tivef- 
» fe valor , e poífe pefa o fuftentar nella , 
» e defender de feus inimigos 5 e que co- 

» mo 



l$o ÁSIA de Diogo dé Couto 

» mo chegar a idade de poder governar, 
» lho entregue , em todo efte Império nãò 
» achei outro , fenão vós , que tenha pêra 
» iílo as partes que quero , pelo que com 
» muita fegurança vos entrego efte filho , e 
» rodo efte Império ; e pêra que efta coii- 
» fiança , que de vós tenho \ fe acabe de 
» moftrar a todos , vos rogo que cafeis 
» efte menino com voíTa neta ; pêra que 
)> aífim fendo vós avô de fua mulher , fe- 
» jais também pai defte meu filho. » E 
mandando vir o menino , lho entregou , e 
lho poz nos braços , onde elle ò agaza^ 
lhou com moftras de muito amor , e cor- 
tezia , ê com iífo refpondeo a Taicozama 
eftas palavras : 

)) Eu, Senhor, quando morreo oEmpe^ 
» rador Nabunango não poíTuia mais que 
» o Reyho de Micava ; e como vós , Se«T 
» nhor, fuecedeftes nefta Monarquia, corri 
» voíla ajuda , mercês , e favores conquik 
» tei outros três Reynos. E depois pêra 
y> me honrardes mais , e alevantardes , me 
)) déftes oito Reynos em o de Bandou a 
» troco dos quatro que poíTuia : pelo que 
)> eu , e toda a minha geração eftamos obri- 
5) gados a fervirmos , e amarmos ao Prin- 
3> cipe voílb filho , e a todos os feus def- 
» cendentes com rifeo das fazendas , vidas , 
3ô e eftados* E fem vós , Senhor, moftrar- 

)) des 



Década XII. Cap. XIX. lyi 

» des tanta confiança de mim , tinha eií 
)> obrigação , e eílava mui aportado a pôr*' 
)) todas minhas forças , e induítria , pêra 
» que o Príncipe voíío filho ficafTe feguro 
» em feu Império. Mas agora que fobre 
» tantas honras, e mercês, como são todas 
» as que me tendes feito , me fazeis eíla 
» de novo, que pafla por todas as outras, 
» de me entregardes voííos Reynos , e 
» voíTo filho por genro , fico tão cativo 
» de V. Alteza , e prezo com tão fortes 
» cadeias de amor , que determino de fa- 
» zer todo o poffivel pêra cumprir tudo o 
)) que me deixais encommendado. » 

Acabado ifto , mandou trazer fua neta , 
que era de dous annos , e alli os defpofá- 
ram logo com as ceremonias do Japão , 
com muito goíto , e applaufo de todos ; e o 
Taicozama deo juramento 20 Reydo Ban- 
dou de governar feus Reynos em paz , e 
juftiça , até feu filho fer deidade peta lhos 
entregar. E o mefmo fez a todos os Gran- 
des que eílavam prefentes , deferem fieis a 
feu filho , e procurarem confervallo em; 
fua Monarquia. Acabado aquellé aâo ,- 
logo alli mandou trazer grande fomma de 
jóias, e riquezas, e as reparfio por todos ] 
pêra com iífo os obrigar mais. 

E porque naquelles Reynos de Tença-* 
não havia mais de quatro Governadores, 

ac- 



içz A S I À de Diogo de Couto 

acere fcentou-lhe mais hum chamado Afo- 
nodario j e eíte como Prelldente dos outros y 
e que eftes todos fiçaiTem fubditos de El- 
Rey tutor de feu filho , e lhe obedeceíTem 
como a fua própria peífoa , fe fora vivo ; 
ç pêra que eítes finco ficaífem mais uni- 
dos 3 e conformes i fez cafar os filhos de 
liuns com as filhas dos outros. 

Havia muitos annos que eíle bárbaro 
Taicozama andava com imaginação de fe 
fazer adorar por Deos , pêra o que tinha 
113. lua Fortaleza de Fuximi (que era cou- 
fa muito notável ) ordenado hum certo 
lugar de grande recreação pêra nelle ale- 
vantar , e por fobre altar fua eftatua ; e 
porque eftç peccado de quererem os ho- 
mens ufurpar , e tomar pêra fi o que a ío 
Deos lie devido , he o que elle mais cafti- 
ga que todos, o quiz fazer a eíte tyranno 
logo , tanto que entrou naquella imagina- 
ção , e moftrar-lhe grandes íinaes de fua 
juíla indignação , pêra ver fe com elles en- 
trava em íi, e fe apartava de feu máo pro- 
poíito. E aíTim a vinte e dons de Julho 
de noventa e féis > andando elle oceupado 
no lugar em que queria depoíítar fua efta- 
tua , appareceo fobre a Cidade de Mea- 
co hum grande Cometa que durou alguns 
dias ; e logo dahi a poucos choveo grande 
quantidade de cinza , e na Cidade de Ofaca 



Década XII. Cap. XIX. 15-3 

também choveo arêa ; e depois difto na 
entrada de Dezembro feguinte foram tan- 
tos , e tão grandes os terremotos , e tre- 
mores da terra na mor parte do Japão , 
que cahio pelo chão toda a Fortaleza , e 
paços de Fuximi , onde aquelle tyranno 
queria pôr fua eítatua , que elle tinha fa- 
bricados com exceífívas defpezas , e o ty- 
ranno efcapou com o filhinho de três an- 
nos nos braços , e na terra de Frenoxa 
cahíram grande quantidade de templos dos 
feus idolos , onde morreo muita gente ; e 
cm outro mui grande templo de Meaco 
fe fizeram todos os idolos que havia , em 
pedaços. Os mefmos damnos acontecerão 
nas Cidades de Ofaca , e Sacai , e delias 
pêra Meaco ficaram tão grandes aberturas 
na terra , que os tremores delia abriram , 
que fe não podia paífar pêra aquella Ci- 
dade fem grandes rodeios. 

Além deites males da terra, fez o mar 
outros maiores , que foi fahir de feu curfo 
com duas correntes caudaloííífimas , huma 
que foi caminho da Cidade Meaco , alagan- 
do , e deítruindo todos os lugares , e villas 
inteiras que havia, em que pereceo grande 
numero de gente , e outra que foi pêra o 
Ximo , e Reyno de Bungo , que também 
aílolou muitos povos inteiros , porque en- 
trou vinte léguas pela terra dentro , coufa 

nun- 



1Ç4 ÁSIA de Diogo de Couto 

nunca vifta , nem ouvida no mundo depois 
do diluvio geral. E toda eíla inundação 
procedco de hum eftreito que faz o mar 
entre duas Ilhas defronte do porto de Xi- 
rnonoxeque ; e foi efte diluvio tamanho y 
que depois de pafíados alguns dias , ficou 
nefte Reyno do Ximonoxeque fobre o mais 
alto monte delle perro de vinte braças de 
agua ; e aífím morreo naquella parte tanto 
numero de gente , que íe não pode efti- 
mar , fem efte bárbaro fe mover, nem ti- 
rar de feu máo propofito ; e tanto foi per- 
feverando nelle , que tornou logo a reedi- 
ficar a Cidade de Fuximi com mores gaf- 
íos , e defpezas ; e o lugar em que havia 
de alevantar fua eftatua , ornou-o com mais 
riquezas ; e aos dezefeis .de Setembro fa- 
leceo efte tyranno , e feu corpo foi metti- 
do em huma caixa mui rica , e bem guar- 
necida , pelo elle aífim mandar , lendo 
coftume dos Japoes queimarem-fe : foi le- 
vado com grande mageftade ao lugar que 
elle tinha ordenado , e logo lhe alevantá- 
ram a fua eftatua, que tinha feita, com hum 
letreiro que dizia Xinfaquiman , que quer 
dizer Deos das guerras , como aquella an- 
tiga gentilidade tinha alevantado outra a 
Deos Marte. E efte lugar, em que foi de- 
poíitado , era hum jardim de grandes re- 
creações , e frefcuras 3 e fua alma foi parar 

en- 



Década XII. Caí. XlX. itf 

entre grandes fufpiros , tormentos , e fogo 
eterno , que dura em quanto Deos durar i 
que fera pêra fempre, que he o que fó fe 
ha de adorar. Com fua morte tomou o Rey 
de Bandou , tutor do filho do Taicozama , 
poífe do Império fem contradicção alguma > 
porque nenhum dos outros Reys quiz con- 
tender com elle , por fer de grande valor ; 
mas também ufou o mefmo que o Taico- 
zama , que tem hoje efte Príncipe , com fer 
feu genro , como eftatua , e pertende pôr 
naquella cadeira hum filho que tem ; mas 
não faltará quem lhe faça outro tanto por 
fua morte. 

Com eftas coufas tornaram os Padres 
da Companhia a resfolegar \ e tomar alen- 
to , e aquella grande Chriílandade a ir por 
diante , e reedificarem-fe Templos, e Se- 
minário : e tanto foi Deos noíTo Senhor 
cumprindo os bons intentos deites Obreiros 
Evangélicos , que os mais dos Reys lhe 
offerecêram lugares pêra Igrejas 5 chaman- 
do-os cada hum pêra íi , porque folgavam 
de communicar com homens de tanta vir- 
tude , e exemplo. E iílo lhes fuecedeo 
fempre , depois de eílarem neílas Ilhas , que 
com andarem muitos , e fós , e apartados 
no minifterio da conversão das almas entre 
moças muito formolas , que as ha naquel- 
las Ilhas , tanto como as da Europa , até 

ho- 



iç6 ÁSIA de Diogo de Couto 

hoje y por mifericordia de Deos , fe não 
achou Padre nem de MiíTa , nem Leigo 
comprendido em hum máo exemplo , nem 
efcandalo : e aílim por fua limpeza ferti- 
lizaram feus campos 5 e fuás fementeiras > 
como o grão do fanto Evangelho. 




DE- 



DÉCADA DUODÉCIMA 

Da Hiítoria da índia, 

LIVRO II. 

CAPITULO I. 

De como ejie anno de noventa e oito nao 
partiram nãos do Reyno : e do Forte que 
o Conde Almirante ordenou fobre a barra, 
de Goa : e do que prove o Jobre o gover~ 
no do Reyno de Ormuz. 

DEpois que o Conde Almirante def- 
pedio os navios pêra D. Fernando 
de Noronha , ficou efperando pelas 
náos do Reyno pêra faber novas do que 
lá hia , que não partiram efte anno por 
eftar a barra de Lisboa impedida com hu- 
ma Armada de Inglaterra , que eíleve fo- 
bre ella todo o mez de Março ; e vendo o 
Conde Almirante que lhe tardavam até to- 
do Setembro, parecendo-lhe que poderiam 
ir tomar Cochim , começou a entender nas 
coufas que havia de mandar pêra fora , e 
a primeira foi defpedir o galeão dos pro- 
vimentos pêra Ceilão , e nelle D. Pedro 
Manoel > irmão do Conde daAtalaya, pri- 
mo 



r< 



158 ÁSIA de Diogo de Couto 

mo com irmão do mefmo Conde , pêra 
Capitão de Columbo , por acabar feu tem- 
)o Thomé de Soufa de Arronches que nel- 
e eftava , que partio na entrada de Outu- 
bro ; e porque entre as inltrucções que El- 
Rey mandou a eíleEftado o anno paílado , 
achou hum Capitulo, de huma que dizia 
aílim : « E porque fou informado que fera 
)> de muito effeito pêra guarda da barra 
0) deífa Cidade , principalmente pêra os 
» navios de remo , que por ella intentaf- 
» fem entrar , fazer-fe outra Fortaleza na 
» ponta do palmar de Gafpar Dias , que 
» eftá fronteira á de Bardes , vos encommen- 
» do que ouvindo fobre ifto o Engenheiro 
» que ficou , em lugar do que pêra cá fc 
» embarcou nas náos paíTadas , e as mais 
» peíToas que neíla matéria poliam dar vo- 
» to 3 deis ordem com que fe faça. » E 
como o Conde defejava de cumprir todos 
os regimentos ? e inílrucções de EIRey, 
cm que confilte o bom governo deite Efta- 
do , ajuntou a Conlelho os Fidalgos ve- 
lhos , e as peíToas que mais lhe pareceram , 
e propoz aquelle negocio , e mandou ler 
a inftrucção. 

E examinadas entre todos as razões que 
havia pêra fe haver de fazer aquella For- 
taleza , não fó pêra contra os navios pe- 
quenos j mas ainda pêra contra náos Hol- 

lan- 



Década XII. Cap. I. 15*9 

landezas , e quaefquer outras que cá paf- 
fallem, aílentou-fe que era mui neceílaria; 
porque como a entrada deíla barra de Goa 
tem dous canaes , hum mais pequeno capaz 
fó de Fuftas , que paíla ao longo da pon- 
ta de Bardes , onde eftá fundado o Moftei- 
ro dos Reys Magos da Ordem do Padre 
S. Francifco , pêra cuja defensão o Viib- 
Rey D. Aífoníb de Noronha mandou fazer 
aquella Fortaleza , que já diffemos ; e ao 
pé delia, que eftá em hum alto, fundou o 
Governador Manoel de Soufa Coutinho hu- 
ma Couraça ao longo da agua, que pega na 
Fortaleza com boa artilheria , que o Con- 
de Almirante Viíb-Rey acabou com man- 
dar fazer cafas pêra gazalhado do Capitão, 
que não tinha , c não ficar acabada , que 
defende bem a entrada da barra , em ef» 
peciaí o canal pequeno ; e por ficar de- 
fronte da ponta do palmar de Gafpar Dias 9 
com o Forte que o Conde Almirante alli 
fundou, fe aflegurava o canal maior, e pe- 
la mefma razão ambas as entradas que ha 
da barra pêra o rio de Goa , e por efte 
canal maior entram as noflas náos do 
Reyno defcarregadas , e a banda , por fer 
capaz de entrarem por elle náos de gran- 
de porte. Aqui onde agora eftá o Forte, que 
o Conde mandou fazer , poz o Vifo-Rey 
D. Luiz de Taíde , a primeira vez que o 

foij 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

foi , hum Alcaide das facas pêra bufcaf 
todas as embarcações que alli furgiííem $ 
allim á ida , como á vinda , que não apro- 
veitou mais que ao homem que alli poz. 
E eíla entrada por efta parte não podia de- 
fender a artilhem da Fortaleza , e Couraça 
de Bardes , por fer a largura do rio demais 
de tiro de camelete , era neceífario haver 
alli alguma defensão , porque a índia nunca 
fe temeo , fenão de Galés de Rumes 3 que 
nunca fe imaginou que pudeífem Armadas 
de inimigos da Europa paífar a eftas partes , 
como depois vimos, contra quem foi reme* 
dio muito principal eíta Fortaleza, que o 
Conde aqui principiou ; porque fegundo os 
Hollandezes , que depois vieram a eíla bar* 
ra muitas vezes , fe moítráram atrevidos , 
porfem dúvida tenho que fe determinaíTem 
commetter a entrada por efte canal , fenão 
viram aquellas duas Fortalezas , porque as 
coufas da índia foram fempre mais enca- 
minhadas por Deos , que pelos homens. 

Em fim j tomando o parecer , e feito 
o aílento delle , foi o Conde Almirante 
ver aquelle fitio com os Vereadores , le- 
vando comíigo Júlio Simões Engenhei- 
ro , que ficou em lugar de João Baptifta 
Milanês , que EIRey mandou cá vir , e 
reformar todas as Fortalezas ; e notado 
bem o litio , fez o Engenheiro a traça 

con- 



Década XII. Cap. I. 161 

conforme a elle , e ficou a obra á conta 
dos Vereadores , pêra fe fazer do dinheiro 
do hum por cento , que os moradores de 
Goa tinham applicado nos direitos de fuás 
fazendas , pêra a obra das fortificações de 
Goa; e cuido que elle dinheiro de hum por 
cento rende cada anno mais de vinte mil 
pardaos , e á obra deo o Conde logo prin- 
cípio , e depois foi correndo com tanto va- 
gar , como vam todas as mais coufas da 
índia ; porque não ha Governador \ netíi 
Vifo-Rey que queira profeguir obra , que 
outro comece, por boa que feja , e ainda 
neíle inverno de feiscentos e onze \ em que 
eferevo ifto \ eílará pouco mais de braça 
craveira de altura ; pois na guarda , e pro- 
vimentos defta Fortaleza \ e das mais da 
outra banda , e de todas as da índia , não 
convém tratar dos grandes defeuidos dos 
Vifo-Reys , e Governadores j porque he 
bem fe não faibam ; e paliando daqui , va- 
mos ás coufas de Ormuz, em que o Con- 
de proveo. 

D. António de Lima, que, como atrás 
diílemos , foi entrar na Capitania de Or- 
muz , achou as coufas daquelle Reyno mui 
arruinadas, e arriícadas a fe perderem to- 
das as Fortalezas, que aquelle Rey tinha, 
aífim da banda da Perlia , como da Arábia, 
em grande perjuizo do eftado da índia : a 
Couto. Tonu ult, L ra- " 



lôi ÁSIA de Diogo de Couto 

razão era , porque aquelle Rey , que era 
Ferugoxa , citava já na idade decrépita 5 e 
determinava largar o governo ao filho feá 
gundo , chamado Mamedexa 5 que era filho 
de huma irmã do Guazil , e tirallo ao filho 
mais velho , chamado Feruxá , que era mais 
pêra iííb, e eíle negocio favorecia o Gua- 
zil , por fer o outro feu fobrinho ; fobre 
iílo havia em Ormuz grandes revoltas. 

Diílo tinha D. António de Lima avifa- 
dò ò Vifo-Rey em Abril paíTado , que ven- 
do agora que fe vinha chegando a monção 
pêra aquella Fortaleza > poz aquelle nego- 
cio ém Confelho de Capitães velhos ; e de- 
batidos os inconvenientes , aíTentou-fe que 
o Capitão de Ormuz obrigaífe aquelle Rey 
a ter fuás Fortalezas mui bem providas, 
e guardadas , até fobre iílb lhe focreftax 
fua fazenda, pêra delia fe proverem, e cor- 
rer com elle com todas as execuções ne- 
ceíTarias ; mas que não foíle privado do 
Reyno , em quanto não houveíTe mais cau- 
fa pêra iílb ; e que o Viíb-Rey o perfua- 
diíTe por cartas , que deixaíle governar feu 
filho mais velho por elle ; e que trabalhai- 
fe pelo cafar com huma filha do Guazil, 
porque aífim fe comporiam as coufas me- 
lhor > mas que ou íe efFeituaíTe efte cafa- 
mento , ou não , fe todavia EIRey quizef- 
fe que feu filho mais velho governaíTe por 

et* 



Década XII. Gap. I. 163 

elle , pois tinha mais partes neceflafias pe« 
ra iílb , que o fizeíle ; e que o Capitão o 
mettefle de poíTe do Reyno , mollrando 
primeiro inftrumento público de renuncia* 
cão, que feu pai fazia nelle. AíTentado i£ 
to defta maneira , paliou o Conde fuás pro- 
visões ao Capitão , e o traslado do aílen-í 
to do Confelno, pêra que o effeituafle , e 
dcreveo a EIRey , e ao Guazil fobre aquela 
le negocio. 

CAPITULO II. 

Das Armadas que o Conde Almeirante def* 
pachou pêra fora : e do que fuccedeo a, 
D. Fernando de Noronha na barra de 
Cunhale , e a Sebaftião Botelho^ Capi~ 
tão dos Sanguiceis , na cojla do Norte : 
e de como D. Álvaro de Abranches foi en* 
trar nas Fortalezas de Cofala , e Mo* 
çambique. 

JÁ demos conta de como o Conde Al- 
meirante mandou ao Norte fazer féis 
Sanguiceis pêra ir contra os navios ligeiros 
dos Malavares , e encommendou efta obra 
a Sebaftião Botelho , que os foi fazer aTa- 
ná os melhores que fe viram daquelle to- 
que na índia \ que em Setembro poz no 
mar \ e pagou foldados mui conhecidos , e 
L ii ma- 



164 AS TA de Diogo de Couto 

marinheiros efcolhidos entre muitos , e a 
dez de Setembro fahio de Taná mui bem 
negociado , e petrechado de tudo , porque 
tudo vio com o olho , e fó de fi o fiou. 
Os Capitães que o acompanharam , foram 
D. Rodrigo Pereira , filho de D. Manoel 
Pereira , D. Manoel Mafcarenhas , filho na- 
tural de D. Gilianes Mafcarenhas , a que. 
chamavam o Langara , António Barbo fa , D* 
Luiz de Menezes , e Gafpar Pacheco de 
Mefquita ; e todos juntos , e com grande 
defejo de acharem coífairos , foram mui 
conformes ; e delles trataremos depois, e 
continuaremos com a Armada de D. Luiz 
da Gama , a que o Conde deo a mor pref- 
fa que pode 5 e em Dezembro a fez á ve- 
la , a melhor provida de Fidalgos , Capi- 
tães , efoldadosque fevio ha muitos an nos. 
Foi a Armada de três galés , de que 
eram Capitães , a fora elle , D. Francifco Pe- 
reira, irmão de D. João Pereira > Conde da 
Feira, eD. Vafco da Gama : as fuílas eram 
perto de vinte , cujos Capitães eram D. Ma- 
noel de Noronha, filho de D. Thomaz de 
Noronha , D. Chriílovão de Noronha 3 Lou- 
renço Guedes , filho de Pêro Guedes , Dio- 
go de Miranda , filho de Martim AíFonlb 
de Miranda, Ruy de Soufa deLarcão, D. 
João Tello de Menezes , filho do Alferes 
Mór D. Jorge de Menezes , D. Francifco 

de 



Década XII. Cap. II. 165 

de Soto-maior , Álvaro Velho , Gafpar de 
Abreu Mouíinho , Triítão de Taíde, filho 
de Nuno Fernandes de Taíde , Manoel de 
Bendanha , e outros a que não achámos os 
nomes ; e em quanto eíta Armada vai feu 
caminho , daremos conta das coufas que 
fuccedêram a D, Fernando de Noronha ích 
bre a barra de Cunhale. 

Eíte Capitão depois que fe poz com 
fua Armada fobre Cunhale , deixou-fe eítar 
nella , dando calor ás coufas do Çamorim , 
pêra com mais fegurança aiíentar o cerco 
fobre aquella Fortaleza , como fez muito 
de vagar , tendo-lhe a noífa Armada fegu- 
ro o mar, por onde fe podia prover ailim 
de mantimentos , como de foccorro , que 
eíla he a guerra que elle mais fentio , que 
a que lhe o Çamorim fazia por terra , e 
aiíím o puzeram em eítrema neceílidade ; e 
depois do Çamorim ter aíTentadas fuás ef- 
tancias , e fe fortificar á fua vontade, e dar 
princípio á guerra , fe levou D. Fernando 
de Noronha de fobre a barra com toda a 
Armada , e foi dar huma viíla pela coita , 
em que encontrou huma galeota , e dous 
paráos , a que deo caífa , até os fazer varar 
na coita brava , onde fe fizeram em peda- 
ços , e a gente fe falvou em terra com 
bem grande trabalho ; e por outra vez to- 
mou dous paráos ligeiros ao mar, por não 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

poderem fugir pêra a terra , e os Mouros 
delles foram todos mortos 5 e cativos , e 
affim tomou outras duas embarcações de 
mantimentos , e a outro paráo fez varar 
em terra. 

E por ter avifo que em alguns rios fe 
faziam preftes coflairos pêra fahirem ás 
prezas , os foi tomar , e na barra do rio 
Canharoto achou quatro paráos ao mar , 
oue eftavam efperando que daquelles rios 
iahiíTem outros , pêra todos juntos paliarem 
ás prezas do Norte , que foi demandar ; e 
como eftavam encevados de novo , e eram 
muito ligeiros, tanto que viram a nofla Ar- 
mada , voltaram a terra perfeguidos fem^ 
pre dos noíTos , até fe recolherem naquei- 
le rio , onde D. Fernando os teve de cer- 
co até os fazer defarmar ; e depois de fa«s 
zer ifto , voltou outra vez pêra a barra do 
Cunhaie 5 pêra favorecer o Çamorim , e al- 
li efteve até chegar D. Luiz da Gama , cor- 
rendo com o Çamorim fempre muito par-> 
ticularmente , fegurando-lhe que aquella jor- 
nada teria muito bom fim , e aquelles ini- 
migos de feu Eftado fe extinguiriam , e que 
o Conde lhe mandava conceder as pazes 
muito a feu gofto ; com o que foi entreten- 
do o Çamorim , e obrigando a proleguir o 
cerco , onde o deixaremos por contarmos 
o que açpntecco á Armada do Norte. 

Dei* 



Década XII. Cap. II. 167 

Deixamos fahido Sebaílião Botelho de 
Taná com os féis Sanguiceis que diffemos ? 
com que fe foi mettendo na enfeada de 
Cambaia , onde os coífairos são mais con- 
tínuos , e pelas muitas prezas que delia le- 
vam , lhe chamam elles o rio do ouro , co- 
mo já algumas vezes diífe , e a foi atravef- 
íando até a Fortaleza deDio, onde tomou 
falia , e achou por novas ferem paliados 
quatro , ou finco navios pêra a cofta de 
Por , e Mangalor , e enfeada de Jaquete , 
onde também achavam em que fe empre- 
gaífem com grandes proveitos ; e paliando 
em bufca delles , foi correndo todos os 
portos , levando-os fempre diante de íi , 
até haver vifta delles huma tarde , a tempo 
que fe hiam aífaftando da terra , ejá muito 
emmarados , por ferem avifados da noífa 
Armada. Sebaíliao Botelho os foi feguindo 
até anoitecer ; e entendendo que haviam 
de ir na derrota da cofta do Canará , por 
terem já feito algumas prezas , até onde 
determinou de os enfacar , como fez por 
efpaço de finco , ou féis dias , fem haver 
vifta delles , fenao já na outra cofta ; e co- 
mo hiam muito adiantados , nunca os pode 
entrar. E vendo-fe elles tão acoçados dos 
noftbs , endireitaram com a terra , e reco- 
lhêram-fe no rio Sanguicer , que he huma 
grande colheita deites coífairos , que com* 

mum* 



i6S ÁSIA de Diogo de Couto 

mummente fe chamam do nome daquelle 
rio. Sobre elle fe deixou ficar Scbaftião 
Botelho alguns dias , com o que os obri- 
gou a fe defarmarem de todo ? porque dos 
navios deite toque tem elles tão grande 
medo 5 como do diabo, 

Dalli fe fez Sebaftião Botelho á vela na 
volta da cofta do Norte , e defronte do rio 
Tambona acharam hum Parao de Malava- 
res , que logo inveítíram , e renderam , fi- 
cando todos os d elle mortos á efpada , ti- 
rados alguns , que os foldados cativaram 
por lhes parecerem bem ; e como correo 
pela coíla afama da ligeireza deites navios, 
todos os coífairos que por ella andavam , 
fe aífugentáram , e fe recolheram a feus 
portos , e alTim andou efta Armada fem 
achar coufa em que fe empregaíle , até o 
Conde lhe mandar recado que fefoífe ajun- 
tar com D. Luiz da Gama pêra fe achar 
com elle na guerra do Cunhale, como lo- 
go fez. O Capitão Geral foi com fua Ar- 
mada correndo a coita do Canará , viíitan- 
do por ella todas aquelías Fortalezas , e 
provendo-as até chegar ao rio de Cunhale > 
aonde D. Fernando de Noronha ihe entre- 
gou a Armada, e lhe deo a informação do 
citado em que as coufas eílavam : e pelo 
Capitão Mor mandou o Vifc-Rey dizer a 
D? Fernando de Noronha que fe ficava fa- 

j zen- 



Década XII. Cap. II. 169 

zendo preíles huma galé , que lhe havia de 
mandar pêra elle andar nella aquelle ve- 
rão ; e não fe fatisfazendo difto D. Fernan- 
do , fem pedir licença ao Capitão Mor , fe 
foi pêra Goa , e indo pêra f aliar ao Con- 
de Vifo-Rey , lhe mandou o Conde pergun- 
tar fe vinha com licença do Capitão Mor; 
e refpondendo que não , fem o ver , nem ou- 
vir , o mandou pelo Ouvidor Geral levar 
prezo ao forte de Agaçaim , onde efteve 
mais dedous mezes; e a galé que mandou 
apparelhar pêra elle deo o Conde Vifo- 
Rey a D. Álvaro de Menezes. O Çamo- 
rim mandou logo vifitar ao Capitão Mor, 
e o Padre Francifco Rodrigues veio ágalé a 
iflo , e lhe deo relação do modo de como 
o inimigo eítava cercado , e da conítancia 
que o Ça morim tinha de eílar fobre elle 
até o deítruir de todo. A' viííta lhe man- 
dou o Capitão Mor refponder com gran- 
des cumprimentos , e agradecimentos do feu 
})rocedimento : e que vinha alli com aquel- 
a Armada, e com muita gente, que logo 
chegaria pêra o ajudar a deítruir aquelle 
inimigo , que tanta poífe queria tomar de 
feu Reyno : e aqui o deixaremos até tor- 
nar a elle. 

Partido D. Luiz da Gama de Goa , en- 
trou o Conde no defpacho de D. Álvaro 
de Abranches pêra ir ejitrar na Capitania 

de 



'ijo ÁSIA de Diogo de Couto 

de Çofala , e Moçambique , por acabar feu 
tempo Nuno da Cunha que lá eftava. Par- 
tio eíle Fidalgo de Goa a quinze de Janei- 
ro deite anno de noventa e nove , em que 
com o favor Divino entramos , e na mef- 
ma monção mandou dous navios de remo , 
Capitão Ambroíio Leitão , pêra ir até Mo- 
çambique , e António Colaço pêra Melin- 
de a faberem novas de náos Hollandezas > 
e pêra outras coufas do ferviço de EIRey , 
que levavam por regimento. E porque nef- 
ta viagem não houve coufas dignas de con- 
tar , concluiremos com eíles navios aqui , 
com dizer fó que foram y e tornaram em 
Maio a falvamento , e D, Álvaro de Abran- 
ches chegou a Moçambique , e tomou pof* 
fe da Fortaleza ; e António Collaço , e Am- 
broíio Leitão em Setembro com as náos 
do Reyno. 



CA- 



Década XII. Cap. IIT. 171 

CAPITULO III. 

De como o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Me- 
nezes , da Ordem do Padre Santo Agof* 
tinho y partio de Goa pêra ir vijitar os 
Chriftãos das ferras do Malavar : e do 
que fez na barra do Cunhale : e do af- 
fento que tomou com o Capitão Mor , e 
mais Capitães fobre o modo de como fc 
commetteria aquella Fortaleza. 

DEpois do Conde Almeirante defpedir 
a Armada do Malavar, corno defeja* 
va de dar fim áquella empreza do Cunha- 
le , ficou tomando todas as informações que 
lhe pareceram de homens de experiência 
pêra avifar a feu irmão D.Luiz da Gama, 
como fez por muitas vezes. E porque o 
Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes tra- 
tava de ir viíitar a chriítandade das ferras 
do Malavar, por fer morto o feuBifpo, e 
o Summo Pontífice lhe ter efcrito que tra- 
balhaífe tudo o que pudeíTe por trazer to* 
dos aquelles Chriftãos á obediência da San- 
ta Igreja Catholica Romana , o negociou , 
e lhe deo pêra fua embarcação huma galé, 
de que foi por Capitão D. Álvaro de Me- 
nezes , com ordem pêra tanto que deixaf* 
fe o Arcebifpo em Cochim , voltaífe Ioga 
pen* o Cunhale pêra fe achar naquelle ne* 

go* 



Í72 ÁSIA de Diogo de Couro 

gocio em companhia de feu irmão : e ao 
Arcebifpo encommendou muito fe derivef- 
íe íòbre aquella barra , e tomaíTe informa- 
ção do modo em que o Cunhale eítava , e 
do em que o Çamorim o tinha cercado , e 
por onde fe poderia commetter a efcala da- 
queila Fortaleza , e de todas as mais cou- 
fas que entendeffe convinha ao fim que fe 
pertendia , e que de tudo o avifaífe pêra 
mandar a feu irmão a reiolução do que ha- 
via de fazer , porque entendia que o Ar- 
cebifpo faria naquelle negocio tudo o que 
o mefmo Conde poderia fazer , fe fe achaf- 
fe lá em negócios de Confelhos , e de ad- 
vertências. 

Pelas Oitavas do Natal fe fez o Arce- 
bifpo a vela , e com vento profpero foi 
furgir fobre a barra do Cunhale, onde D. 
Luiz da Gama o efperou com toda fua Ar- 
mada embandeirada > e poíla em ordem , e 
o recebeo com grandes falvas de artilhe- 
ria , e de arcabuzaria , e logo fe foi ver 
com elle , e lhe deo conta do eílado em 
que as coufas eftavam , e de como o Ça- 
morim profeguia no cerco contra aquella 
Fortaleza , com muito rigor , afpereza , e 
firmeza, e que tinha moftrado de fua par- 
te haver de cumprir o que tinha prometti- 
do. O Arcebifpo lhe moftrou as inftrucçoes 
do Conde Almeirante y e por virtude del- 
ias 



Década XII. Cap. III. 173 

las ajuntou logo Confelho geral de todos 
os Capitães , a quem o Arcebifpo propoz 
a tenção do Conde Almeirante , principal- 
mente íbbre o modo que fe teria na def- 
embarcação daquella Fortaleza , pêra pri- 
meiro que fe efteituaíle , o avifarem , pêra 
noConíelho de Goa fe verem as razões em 
que fe fundavam , pêra com iífo mandar a 
íeu irmão a ultima refolução fobre aquel- 
le negocio ; e praticado o cafo , e exami- 
nados os inconvenientes que fe oíFerecê- 
ram fobre a matéria da defembarcaçao , if- 
to he , por qual das partes fe faria , fe en- 
trando pela barra , fe defembarcando na 
terra do Ariole , e depois de muito alter- 
cado tudo , vieram a concluir todos , ou os 
mais , que o melhor, e mais feguro feria 
entrar toda a Armada pela barra , tiradas 
as galés , e defembarcarem dos navios em 
terra , e porem fuás eílancias , allegando pê- 
ra iffb muitos proveitos que' refultariam 
diífo ; porque pofto que na entrada houvef- 
fe algum rifco , fem que fe não fazia nun- 
ca guerra , todavia depois de efiarem den- 
tro os navios , ficariam os noífos mais fe- 
guros , e defembarcariam em terra com me- 
lhor ordem, e menos opprefsão , porque os 
noífos navios varejariam a ribeira com fua 
artilheria , e fariam a defembarcaçao mais 
franca j e que ficando os navios com as 

proas 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

proas em terra , teriam os noflbs mais á 
mão os provimentos de munições , e de to- 
das as mais coufas , porque ficariam fen- 
do armazéns de tudo o de que tiveíTem ne- 
ceffidade pêra o eícalar da Fortaleza , por- 
que não era poílivel irem todos tão provi- 
dos , que lhe não vieíTem a faltar as cou- 
fas ; e com iííb ferviriam de recolherem os 
feridos , e de coitas aos noífos pêra pelei- 
jaremmais afFoitos , tendo-as feguras ; e que 
acontecendo hum defaílre , teriam onde fe 
recolher , e repairar ; e que vendo-fe o ini- 
migo cercado pelo rio , fem dúvida fe en- 
tregaria logo , porque lhe não ficava ou- 
tro remédio > porque fó nelle tinha fuás ef- 
peranças ; e debatidas todas eítas , e outras 
coufas , vieram a concluir que entraífe no 
rio com toda a Armada, e que dos navios 
fizeííem preíles pêra defembarcarem os? 
noííos a pé enxuto. 

Difto fe fez hum aíTento aífignado por 
todos , que o Capitão Mor defpedio , e 
mandou ao Conde por hum navio ligeiro , 
efcrevendo-lhe elle , e o Arcebifpo a dif- 
pofiçao em que as coufas ficavam , affir- 
mando-lhe que convinha ao Eftado deftruir 
aqueile inimigo ; porque fegundo eftava po- 
derofo , fe le diífimulaíTe com elle , viria 
em pouco tempo a fer fenhor do mar , e 
os Portuguezes a ficarem encurralados era 

fuás 



Década XII. Cap. III. 175* 

fuás Fortalezas ; e que ainda aíTim no ef» 
tado em que eííava , vivia tão poderoíò y 
e foberbo , que fuás Armadas ja não efti- 
mavam as noífas ; nem os noffos navios 
tantos por tantos otifavam a fe encontrar 
com os feus , e aílim como fenhor do mar 
da índia eftava muito rico de thefouros, 
pelas grandes prezas com que todos os an- 
nos fuás Armadas fe recolhiam , e por e£- 
fe refpeito dobrava todos elíes a copia de 
navios , e gente. 

Defpedido o recado , depois do Arce- 
bifpo fazer na barra de Cunhale todas as 
diligencias que lhe pareceram neceííarias , 
fe foi pêra Cochim y e com elle continua- 
remos depois. O recado que o Capitão 
Mor defpedio ao Conde Almeirante che- 
gou a Goa em poucos dias ; e vendo elle 
o eftado em que aquellas coufas eítavam, 
por tão verdadeira informação , como era 
a do Arcebifpo , e o afíento que fe lá to- 
mou febre a defembarcaçao , convocou Con- 
felho geral , e nelle moílrou as cartas , e 
papeis que lhe yieram , e propoz os ter- 
mos em que a guerra ficava, e a feguran- 
ça com que o Çamorim continuava no cer- 
co contra o Cunhale, e o que fe determi- 
nou fobre a defembarcaçao , e todas as mais 
coufas que lhe pareceram fobre o que fe 
devia votar ,0 que tudo fez com muita 

cia- 



jy6 ÁSIA de Diogo de Cotrro 

clareza , deítreza , e fufficiencia , pêra que 
não íicaffe coufa, que caufalTe dúvida aos 
que haviam de votar , nem de que lançaf- 
fem mao, que lhe ficara por inadvertência; 
porque em todas as matérias eftava muito 
refbluto , e debatido tudo pelos do Con- 
felho ; e viftos os proveitos que os Capi- 
tães , que eítavam fobre Cunhale, aponta- 
vam , entrando pela barra , como homens 
que eílavam com as mãos na malla , vota- 
ram que os navios entrafíem pelo rio den- 
tro, e que com as proas em terra ficaflem 
fendo Fortaleza aos noííbs , em quanto com- 
metteflem a Fortaleza ; e que fe correíle 
com o Çamorim tão pontualmente, e com 
tantos refpeitos , que não vieffe z cahir em 
alguma defconfiança j que foffe occaíião de 
fe perder aquella jornada , e que fe lhe 
prometteíTem , e fizeflem as pazes que pe- 
dia com todos os favores poiliveis. Sobre 
eítas diligencias fez o Conde outras da fua 
parte , como quem defejava daquelle nego- 
cio ir muito bem encaminhado , e ter o 
fim que fe defejava , aíllm pelo* que cum- 
pria ao ferviço de Deos , de EIRey , e do 
bem commum, como pelo feu particular, 
pois commettéra aquella empreza a feu ir- 
mão , inquirindo de homens velhos , e que 
fabiam do negocio da guerra [ e do Mala- 
var o que lhe pareceo neceítario pêra o 

avi- 



Década XII. Cap. III. 177 

avifar , porque Jhe não ficaíTe coufa algu* 
ma por fazer ; e eu cuido que fobre iffo 
lhe dei hum papel com a defcripçao daquel- 
le rio, aífim como aqui a pintei, eíltio da- 
quella Fortaleza , e por onde fe podia com- 
metter , e elcalar , que me deo hum Pêro 
de Braga , que eíleve muitos annos naquel- 
la Fortaleza feito Mouro , e tão valido do 
Cunhaie , que era a fegunda peííba diante 
deile ; e por efle refpeito lhe chamavam 
Cunhaie pequeno , que depois fugio com 
riíco feu , como o eu conto na undécima 
Década , no tempo do Governador Ma- 
noel de Soula Coutinho. 

Em fim , depois do Conde Almeirante 
fazer todos os bons officios que lhe pa- 
receram fobre aquelle negocio , e refoluto 
em mandar aíTalrar aquella Fortaleza, ele- 
geo a Luiz da Silva , irmão do Regedor 9 
pêra Capitão Mor da dianteira , que elle 
pedio, efolicitou, por fer hum Fidalgo de 
grande brio , e delejofo de ganhar honra i 
que logo fe fez preftes com dous navios 
armados á fua cufta, aquém acudiram mui- 
tos Fidalgos , e foldados , parentes , e ami- 
gos , e criados. 

E parecendo que feriam neceííarias al- 
gumas barcaças pêra bater a Fortaleza ', 
mandou apreftar duas , ehuma delias encar- 
regou a Belchior Calaça , Capitão velho y 
Crato. Tom. vlt. M e 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

e de muita experiência; a outra deo a Ma- 
noel Froes , homem do mar, mas de mui- 
ta confiança , e experiência. Diogo Moniz 
Barreto , que fe quiz achar naquella empre- 
za, foi n 5 um navio á fua cuíta, com quem 
fe embarcaram muitos Fidalgos , e Caval- 
leiros , que continuamente tinha em fua ca- 
ia, e affim fe fizeram preíles alguns Fidal- 
gos , em navios ás fuás cuítas , pêra irem 
de foccorro com muitos Fidalgos , e foi-- 
dados ; e fó me lembra de D. Bernardo de 
Noronha, e de D. Manoel de Lacerda, que 
todos partiram em companhia. 

Quaíi no mefmo tempo chegou a Goa 
Sebaftião Botelho , Capitão Mor dos San- 
guiceis da coita do Norte , que o Conde 
tinha mandado chamar pêra o mandar de 
foccorro a feu irmão , em cuja companhia 
vieram muitos Capitães em navios feus ás 
fuás cuftas , pêra fe acharem naquella oc- 
caíião , que foram D. Luiz Lobo , D. Ma- 
noel , e D. Rodrigo de Caítro , feu irmão , 
filhos de Baçaim , Salvador de Sanrpayo , 
filho de Heitor de Sampayo , António Pe- 
reira Coelho de Damão , e outros que me 
não vieram á noticia j e citando todos em- 
barcados efperando na barra recado do Con- 
de pêra fe partirem pefa Cunhale , foi D. 
Manoel Pereira viíitar feu filho D. Rodri- 
go, que era hum dos Capitães da Armada 

de 



Década XII. Cap. IIL 179 

de Sebaftião Botelho ; e ao tempo de da-* 
rem á vela , efíando no navio do filho , fe 
deixou ficar , dizendo-lhe que fe calaíTe , que 
elie havia de ir achar-fe naquella empre- 
za , e aílim fe foi com elle com fó o fato 
que levava veílido no corpo , e com que 
andava na Cidade , fendo de mais de íc£- 
fcnta anhos , e tendo fido Capitão de Ba- 
çaim ; o que fez fó por envergonhar al- 
guns Fidalgos mancebos , que ficavam pa£ 
içando em Goa* Eftas novas chegaram ao 
Capitão Mor , que elle recebeo com mui- 
ta honra , e alvoroço ; e quando vio D« 
Manoel Pereira , veího daquella maneira * 
e com aquelle zelo, levou-o pêra a íua ga- 
lé, e lhe mandou dar fato, e armas, e tra- 
tou-o com muito refpeíto, como era razão: 
e aqui os deixaremos , por darmos conta 
do que o Arcebifpo paíTou em Cochim , e 
do foccorro que aquella Cidade mandou. 

CAPITULO IV. 

Do que o Arcebifpo fez em Cochim com 
aquelle Rey : e do foccorro que âquella Ci- 
dade mandou a D, Luiz da Gama. 

CHegado o Arcebifpo a Cochim , foi re- 
cebido daquella Cidade com muitas 
feitas , e alegrias , indo-o bufcar ao cães o 
M ii Bif 



180 ÁSIA de Diogo de Couto 

Bifpo , Cabido , Vereadores , e todo o mais 
povo , como era razão fe fizeíTe áquelle Pre- 
lado de tantas partes , e fangue : e logo 
tratou com a Cidade o íbccorro , pêra man- 
dar a D. Luiz da Gama , que os Vereado- 
res já tinham preítes , que eram três na- 
vios mui cheios de foldados , e munições , 
de que elegeram por Capitão Mor Louren- 
ço Corrêa da Franca , Fidalgo do habito 
de Chrifto 5 dos Francas de Tangere , que 
todos foram muito bons Cavalleiros , como 
o elle era , e os Capitães dos outros dous 
navios foram D. Gafpar de . . . . , e Fran- 
cifco Botelho Cabral i filho de Manoel Bo- 
telho Cabral , hum Fidalgo velho , que fo- 
ra Efe ri vão da Matricula geral , e Secre- 
tario do Eftado , e o Arcebifpo negociou 
a galé em que foi , em que tornou D. Ál- 
varo de Menezes com muitos foldados , e 
outro catar j em que metteo criados feus, 
homens , e bons foldados : e porque havia 
pouco chegara de Ceilão André Pereira Cou- 
tinho , filho dejorge Pereira Coutinho, Ca- 
pitão que foi de Chaul , que fe foi apre- 
ientar áquella Fortaleza , por hum degre- 
do que tinha , e fabendo daquella occafiao , 
fretou hum navio , e ajuntou muitos folda- 
dos pêra irem com elle. D. Francifco de 
Soufa , filho deD. Pedro, também nefta oc- 
cafiao era chegado a Cochim de Ceilão, 

Ott- 



Década XII. Cap. IV. 181 

onde fe fora apprefentar por ter certos an- 
jios de degredo pêra aquella Ilha, e com 
licença do General delia vinha buícar fua 
cafa , também fretou outro navio com Tol- 
dados , e fe foi ao foccorro de Cunhale. 

E juntos todos eftes navios, deram ave- 
la , e em poucos dias chegaram a Cunha- 
le. Vendo EIRey de Cochim aquellas pre- 
parações , e o animo com que o Çamorim 
eftava pêra deítruir aquelle inimigo ,. de- 
ram-lhe os ciúmes , e houve que ficando o 
Çamorim por efta via amigo do eftado, fi- 
cava elle abatido , e acanhado ; porque to- 
do o feu poder, riqueza , e eftado coníif- 
tia na amizade dos Portuguezes : pelo que 
lhe vinha bem vellos travados em guerra 
com o Çamorim pelos bens que diíTo lhe 
refultavam ; porque além do proveito em 
que fempre trazia o olho , tanto mais fe 
hia alevantando em poder , quanto mais 
via o Çamorim (que era feu inimigo capi- 
tal) abatido ; porque havendo guerra entre 
elle 5 e os Portuguezes , fempre o eftado o 
havia mifter , e com pazes temia vir a me- 
nos , e perderem-lhe o refpeito : 7 e pêra ef- 
torvar eítas lianças , e que o negocio do 
Cunhale não foífe por diante , e fe eftor- 
vaífe aquella liga , ufou deites ardis , de 
que eftes Gentios são meftres. Mandou por 
João Pereira de Miranda dizer ao Arcebif- 

P°> 



iSz ÁSIA de Diogo de Couto 

po, que elle como irmáo em armas de Eh 
Rey de Portugal , e como tão obrigado 
por quantas honras, e mercês, como tinha 
recebido dos Portuguezes , o mandava avi-^ 
lar debaixo de todo o fegredo do. mundo, 
que elle tivera cartas de peflbas de confian- 
ça , que aíliftiam no Confelho do Çamorim , 
em que lhe affirmavam , que aquella guer- 
ra do Cunhale tudo eram traças do Camo- 
rim, ordenadas antre elle, e o Cunhale pê- 
ra ao tempo do aflalto virarem todos as 
armas contra os Portuguezes , e matarem- 
nos em fatisfação de quantos aggravos , e 
damnos tinham delles recebido : que lhe 
mandava pedir eícreveffe ao Capitão Mor 
que fobreeíliveíTe naquella execução , e 
que por nenhum caio commetteíTe adefem- 
barcaçao , e diífimulaíFe o melhor que pu-* 
deíTe fer com aquelle negocio. 

E depois de íbbre íilo fazer grandes 
medos a João Pereira , e muitos efpantos , 
lhe difíe que daquelle recado , que manda- 
va aoArcebifpo por elle, e da refpofta que 
lhe déííe , lhe paííaíTe huma certidão pêra 
mandar a EIRey feu irmão , porque depois 
fe não queixaíle o Vifo-Rey , que não tive- 
ra quem o avifafle. João Pereira , como ho- 
mem, que creo o que lhe EIRey diífe, re- 
prefentou ao Arcebifpo o feu recado com 
exteriores de homem , que atalhava tanta 

da- 



Década XII. Cap. IV. 183 

tlamno , quanto fe apparelhava aos Portu- 
guezes. O Arcebifpo ficou algum tanto em- 
baraçado, por ter muito conhecimento- da 
pouca fé, verdade, e lealdade deites Reys 
Gentios , principalmente do Çamorim , que 
nunca guardou juramento , nem contrato 
das pazes, cujo antiquiflimo ódio era tal, 
•que fe podia fufpeitar aquillo delle ; e fe- 
bre tudo ter tanto conhecimento de fua mi- 
feria , e cubica que era fempre tal, que fe 
o Cunhale lhe déífe dinheiro , quebraria fua 
lei, quanto mais fua palavra. 

E confiderando aquellas coufas comíi- 
go , que eram de qualidade que podiam 
dar muito em que cuidar por ferem de tan- 
ta importância , e fazendo fobre ellas mui- 
tos difeurfos , e praticando-as com D. An- 
tónio de Noronha , Capitão daquella Cida- 
de , com Manoel de Lacerda , e outros 
Fidalgos velhos , infpirou-lhe Deos no co- 
tação hum não íei que , com que fe deter- 
minou a crer que tudo aquillo eram arti- 
fícios , e invenções de EIRey de Cochim , 
cahindo no porque o faria, porque ao mef- 
mo Çamorim lhe convinha dar fim áquei- 
laempreza, e deílruir aquelle Mouro , con- 
tra quem tinha mettido tanto cabedal , e 
defpendido tanto dinheiro , e dado claros 
finaes de fua fé , e moílrando tanto animo , 
c zelo pêra ir com efte negocio avante, 

por- 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

porque ficando aquelle Mouro em pé> efc 
tava certo alevantar-fe de todo , e tomar 
aquelle Reyno , porque bem fabia o Ça- 
morim quão falíbs , enganofos , e traidores 
jeram eftes Mouros , de quem nunca já fe 
havia de fiar, nem o Cunhale delle ; e re- 
folutos nifto , mandou o Arcebifpo refpon- 
der a EIRey de Cochim 5 que lhe agrade- 
cia muito aquelle aviíb , que bem via pro- 
ceder de fua muito* antiga lealdade , e do 
muito que lhe os Portuguezes fempre me- 
receram ; mas que naquelle negocio não ha- 
via pêra que tomar outra determinação , 
porque eílavam os Portuguezes refolutos 
em fe fiarem doÇamorim, porque pêra if- 
fo havia caufas mui licitas , e que convi- 
nha aquelle negocio muito ao mefmo Ça- 
morim ; e que em penhor de fua fé ofFe- 
recia as pelfoas prinçipaes , e de mor eftir 
mação do leu Reyno pêra fegurança dos 
noffos ; e que quando houveíte algum en- 
gano , ou de huma parte , ou da outra , quaef- 
quer que ficaííem vivos dos noíTos baila- 
vam pêra vingar tamanha traição , e as 
mortes dos parentes , amigos , e compa- 
nheiros. 

E certo que nifto fe vio bem quanto 
Deos noffo Senhor queria que efte tyranr 
no fe acabaffe , e pagaífe as mortes de tan- 
tos Portuguezes 7 quantos por fep mandadp 

fo- 



Década XII. Cap. IV. 18? 

foram martyrizados , de cujo fangue aquel- 
las praias eftavam banhadas , pedindo a Deos 
vingança ; porque fe não acudira com fua 
mifericordia em tirar da imaginação do 
Arcebifpo , que tudo aquillo eram inven- 
ções , e eítratagemas de EIRey de Cochim , 
e avifára diífo ao Capitão Mor do Mala- 
var, e fe efpalhára pela armada, fem dú- 
vida que aquella empreza fe nao effeituá- 
ra , e aquelle Mouro ficara em pé , por- 
que já fe não haviam de fiar do Çamorim. 
Ouvindo EIRey de Cochim a refpofta 
do Arcebifpo, nao deixou de entender que 
aquelle remoque do engano de huma par- 
te, ou da outra dizia por elie, e diffimu- 
lou o melhor que pode ; mas vendo que 
por alli não pegara fua pcrtenção , diícur- 
fou outro modo , por onde pudefíe eítorvar 
aquella jornada , e offereceo-lhe o diabo o 
melhor que podia fer, que foi fazer guer- 
ra ao Caimal da Carugueira, vaífallo , e allia- 
do do Çamorim , de quem tinha alguns 
aggravos, e metter-lhe muita gente por fuás 
terras , porque eílava certo deixar o Ça„ 
morim o cerco , e acudir ao foccorrer , por., 
que lhe não entraffe pelas do mefmo Ça„ 
morim ; e logo mandou pôr em campo feíl 
fenta mil Naires , pêra com aquelle nego_ 
cio poder atemorizar-fe o Çamorim , e dei, 
xaile tudo por acudir ao feu. Difto foi lo„ 

S° 



l86 ÁSIA de Diogo de Couto 

go avifado o Arcebifpo ; e entendendo a 
malícia daquelle Rey , e o damno que fa- 
ria , fefahiíTe com feu intento até o cabo, 
em humas viítas que com elle teve lhe pe- 
dio muito que dilataíle aquella expedição, 
que queria fazer contra aquelleCaimal , pê- 
ra depois do negocio de Cunhale concluí- 
do , e que alli lhe ficava tempo largo pêra 
pôr por obra o que pertcndia ;■ que El Rey 
de Portugal feu irmão o eftimaria muito , 
€ fentiria em extremo o contrario , porque 
feria aquillo occaííão de fe perder aquella 
empreza , em que tanto cabedal fe tinha 
mettido : e por taes termos levou efte ne- 
gocio, que lho não pode EIRey negar, c 
aífim ceifou por então daquella guerra. 

CAPITULO V. 

Do confelho que o Capitão Mor tomou Jo- 
bre o modo de como fe commetteria a For- 
taleza : e das preparações que pêra ijfo 
fez : e de como alguns Fidalgos feus ami- 
gos lhe fizer ão mudar o parecer. 

CHegados todos os foccorros , cartas, 
e advertências , que o Conde Almei- 
rante mandou a feu irmão , convocou elle 
a Confelho geral todos os Fidalgos , Capi- 
tães, e Cavalieiros principaes da Armada, 

e 



Década XII. Cap. V. 187 

e moftrou-Ihes as cartas do Vifo-Rey a e a 
determinação que fe tomou no Confelho 
de Goa fobre o modo de como fe com- 
metteria a Fortaleza doCunhale, e lhespe- 
dio que por lima de tudo tornaíTem a vo- 
tar livremente fobre aquelle negocio, por- 
que eftavam alli muitos , que fe não acha- 
ram nos Confelhos paliados , e era bem 
que pois viam com o olho o eílado em 
que aquellas coufas eftavam , que fe ouvif- 
fem também fobre ellas ; e debatido de no- 
vo o cafo , tornaram a votar que fe com- 
metteífe a Fortaleza , entrando pela barra 
dentro todos os navios defemmaítreados , 
como já eftava aífentado , porque era ne- 
gocio mais feguro , e de menos rifeo , dan- 
do pêra iífo quaíi as mefmas razões pa£ 
fadas. 

Refumido o Confelho , mandou o Capi- 
tão Mor logo defemmaftrear os navios , e 
fazer as preparações que lhe pareceram ne- 
ceífarias , e nomeou os navios , que haviam 
de acompanhar a Luiz da Silva na dian- 
teira ; e porque o rio eftava impedido com 
maftros lançados no fundo , encommendou 
aquelle negocio a Sebaftião Botelho , a An- 
dré Rodrigues Palhota 5 Francifco Pays \ e 
Pêro Rodrigues o Malavar , que de noite 
no mor filencio delia entraram o rio ent 
almadias pequenas 3 levando çomfígo ma- 

ri? 



i88 ÁSIA de Diogo de Couto 

rinheiros, e mergulhadores, que andá:am 
por baixo da agua trabalhando até arran- 
carem hum maftro grande , que eftava pre- 
zo com huma cadeia de ferro , e a argola 
de íima , em que ficava prezo , acharam que- 
brada , que lhes pareceo que fora alguma 
bombardada que lhe deram , arrancando ef- 
te maftro , que Francifco Pays tirou , e le- 
vou á barcaça onde o amarrou , ficando tra- 
balhando tudo o que puderam por tirar os 
mais ; mas não lhes foi poífivel , por efta- 
xem pregados com pregos mui groífos fo- 
bre cabeças de grandes eftacas mettidas no 
lamarão dentro na vafa; mas todavia com 
aquelle maftro que tiraram lhe ficava hum 
canal pelo meio, por onde todos os navios 
podiam entrar largamente : nefte canal acha- 
ram braça e meia de agua em baixa mar 
de todo. 

Em fim , feitas todas eftas diligencias , 
e preparadas as coufas pêra aquella entra- 
da 5 e aíTalto , que havia de fer de madru- 
gada da terça feira que vinha , que eram 
três de Março , mandou o Capitão Mor avi- 
far o Çamorim , e pedir-lhe os reféns 5 que 
lhe elle logo mandou , que foram Uniaré 
Chararé , o Príncipe de Tanor , e outros 
Regedores, e Príncipes do fangue, que fe 
mettêram na galé em lugar feparado por 
ferem Gentios ; onde foram tratados muito 

hon- 



Década XIL Cap. V. 189 

honradamente; e como os lá teve, mandou 
á parte do Çamorim Belchior Ferreira por 
Capitão Mor de trezentos homens , pêra 
por lá aííaltarem as tranqueiras , e ir-fe 
ajuntar na povoação com a mais gente , que 
havia de defembarcar pelo rio , a quem o 
Çamorim tinha promettido féis mil Naires 
com todos os machados , alavancas , efca- 
das, e mais coufas que lhe foíTem neceífa- 
rias. 

PaíTada eíla gente ao Çamorim, deo o 
Capitão Mor ordem á defembarcação , co- 
mo já eftava aíTentado , que era levar Luiz 
da Silva a dianteira com feiscentos homens 
com os Capitães , que adiante nomeare- 
mos y na defembarcação ; e com elle o Sar- 
gento Mor D. António de Leiva , Portu- 
guez , foldado velho , e muito experimen- 
tado , que fe tinha achado na batalha na- 
val na galé do Senhor D. João d'Auítria; 
e pelo que nelia lhe vio fazer , lhe deo o 
Dom j e o habito da cavalleria de Calatrava ; 
c citando tudo preparado , mandou o Ca- 
pitão Mòr recado ao Çamorim , que ao ou- 
tro dia no quarto da alva lhe mandaria fa- 
zer hum final com huraa lança de fogo no 
ar, pêra que ao mefmo tempo commettef- 
fem por lá a Fortaleza , como os navios 
haviam de fazer por eftoutra parte , e pê- 
ra eíte negocio ie gaitou todo aquelle dia 

em 



190 ASIÀ de Diogo de Couto 

em fe confeffarem os foldados da Armada ; 
porque ainda que antre elles ha muitas íbl- 
turas , e devaífidoes de mancebos , e gente 
que milita , neíle negocio da chriftandade , e 
temor de Deos são extremados fobre to- 
dos , porque nunca tiram fuás contas das 
mãos, nem deixam de ouvir todos os dias 
fua MiíTa > quando pode fer, com outras 
coufas deíle toque muito pêra eítimar nel- 
les ; e á volta difto alimparam fuás armas 3 
fizeram feus pelouros 3 e ordenaram fuás ef- 
ping ardas. 

Eílando tudo preftes , parece que enten- 
deram alguns Fidalgos que o entrar pela 
barra era de muito rifco , e perigo , por 
caufa do baluarte que eftava fobre ella ; por- 
que delle poderiam muitos navios fer met- 
tidos no fundo. Ajuntáram-fe íinco , ou féis 
aquella noite , e foram-fe á galé do Capi- 
tão Mor, e mettidos na fua camará, o co- 
meçaram a perfuadir que mudafíe o Con- 
felho , porque tinham todos aífentado que 
o entrar pela barra , como eílava determi- 
nado i feria perdição daquella Armada , por- 
que lhe poderiam metter tantos navios no 
fundo , que lhe não ficaífe poder pêra da- 
rem o aífalto y e que qualquer defaílre que 
fuecedeífe , quebraria os corações aos ho- 
mens de maneira, que ficaíTcm amedrenta- 
dos i e que fuecedendo o que elles temiam , 

quan- 



Década XII. Ca?. V. 191 

quando os navios quizeífem tornar a fahir 
pêra fora , correriam o mefmo perigo 3 e 
que pela informação que tinham 5 no ca- 
nal não havia agua pêra poderem entrar 
os navios dentro, lenão lançados á banda, 
no que diziam muitos 5 que fe enganaram , 
ou fe quizeram enganar por darem melho- 
res cores ás razoes com que quizeram per- 
fuadir ao Capitão Mor a mudar o aflento , 
que íe tinha tomado no Confelho, que en- 
traílem os navios pela barra dentro. Em 
fim, perluadíram ao Capitão Mór, que fe 
fe commetteííe aquelle negocio pela banda 
do Ariole , feria de mais eíFeito , e de me- 
nos perigo , e rifco , porque o rio não ti- 
nha mais largura que de hum tiro de fun- 
da ; que em jangadas , que fe podiam fa- 
zer muitas , fe paliaria toda a gente a ou- 
tra parte , e defembarcariam em terra á 
fua vontade, e fem o perigo de provarem 
primeiro a fúria da artilheria do baluarte 
branco (que affim fe chamava o de fobre 
a barra) e tantas razoes lhe deram fobre 
aquelle negocio , que o renderam a lhe pa- 
recer que o aconfelhavam como amigos , 
e fem refpeito algum , e affim tiveram de- 
pois alguns pêra íi , que parecia confelho 
acertado , e fó fe pode reprender o Capi- 
tão Mor de mudar o confelho , e ordem 
do Vifo-Rey , no que elle não deixou de 

ca- 



lyz ÁSIA de Diogo de Couto 

cahir ; mas por lhe parecer que fe aquil- 
lo 5 que lhe facilitavam, íuccedefíe bem, 
o defculparia de tudo , não lhe lembrando 
que melhor lie perder-fe hum Capitão na 
guerra por cumprir os mandados do feu 
Rey, ou Vifo-Rey, que ganhar-fe defobe- 
decendo ; e fe não , vede quantos Confules 
caftigou o Senado Romano por vencerem 
fora do feu regimento , e o outro , que man- 
dou cortar a cabeça ao filho por acceitar 
o defafio doFrancez, com elle o matar no 
campo , porque foi fem fua ordem ; por- 
que aqui não fe tem refpeito á vitoria , £eà 
não á defobediencia , porque a obediência 
faz os exércitos poderofos , e os foldados 
esforçados , e a boa difciplina na guerra 
he princípio de vitoria. 

E tornando ao fio dahiftoria, refoluto 
o Capitão Mor em commetter o aífalto pe- 
la parte doAriole, mandou recado a Luiz 
da Silva , e mais Capitães que fobreefti- 
veílem , e não buliflem comfigo até o ou- 
tro dia , que lhe daria razão de fu Efta mu- 
dança correo logo pela Armada , que mui- 
tos fentíram , por entenderem que fe en- 
caminhava tudo a huma grande d efa ventu- 
ra , como aconteceo , e não deixaram mui- 
tos de murmurar; e ainda houve peíToas, 
que fe defordenáram , e defcompuzeram 
em palavras contra os que mettêram, e fo- 
ram 



Década XIL Cap. V* 193 

ram caufa de fe não guardar o que Je a£ 
fentou em Confelho , e quem eftes foram 
logo fe foube: em fim elle ficou aíTentado 
pêra o outro dia , em que fe paíTáram pê- 
ra a parte do Ariole pêra fe ordenarem 
as jangadas , pêra qUe fe tomaram muitas 
almadias , que havia por aquelle rio , e jun- 
tas de duas em duas atraveífáram por íl- 
ma alguns barrotes bem amarrados j com o 
que ficaram capazes de poderem paílar de 
dez homens 5 e algumas de vinte 5 porque 
as almadias eram mais de feíTenta , em que 
fe orçou poderem paífar feiscentos homens , 
que era a cópia que o Capitão Mor tinha 
nomeado a Luiz da Silva pêra a dianteira» 

CAPITULO VL 

De hum maravilhofo final que appareceo fio 
Ceo : e de como os nojfos comníettêram a 
ãef embarcação : e âe como Luiz da Sil- 
va foi morto ao chegar dá terra. 

TOdo aquelle dia gaítáraiti os fioíTos 
em fazerem jangadas <, e em fe prepa- 
rarem pêra o aíTalto : por eítã ordem o fez 
Belchior Ferreira , que eftava da parte de 
Çamorim com trezentos homens , cujos 
Capitães eram D. Pedro de Noronha j Lo- 
po de Andrade de Gamboa, Lourenço Cal- 
Çquíq. Tom, vlt* N dei- 



194 ÁSIA de Diogo de Couto 

d eira, os dous irmãos Caftros de Baçaim 7 
Salvador de Sampayo , Protaíio Matofo, 
Antão Fernandes , que andava em hum na- 
vio de D. Fernando de Menezes, Capitão 
de Cananor, Manoel de Miranda de Tor- 
res 5 que tinha a Fortaleza de Maluco , e 
António Coelho Malavar : eíles com fua 
gQnte haviam de commetter as tranqueiras* 
do Cunhale ; e tanto que as entraílem > 
irem marchando até o terreiro da Forta- 
leza , onde achariam Luiz da Silva com 
toda a gente da dianteira pêra commette- 
rem a Fortaleza ; e que todos a hum tem- 
po commetteriam o feu cerco , tanto que 
viííem na barcaça fazer final com huma. 
lança de fogo , que feria no quarto da alva. 
E como eíle negocio de commetterem 
a defembarcação em jangadas era a total 
perdição dos noífos , parece que os quiz 
Deos avifar com hum final maraviihofo, 
que lhes moílrou aquella noite noCeo, que 
os pudera fazer tornar fobre íi , e verem 
com o olho fua perdição ; mas os pecca- 
dos da índia fechou os olhos aos que fo- 
ram occafião de tão grande damno , e def- 
truiçao : o final foi efte : a noite da quar- 
ta feira quatro domez de Março , no quar- 
to da prima 5 viram correr da parte deLef- 
te hum raio de fogo , como huma grande 
bomba > que parando fobre a noíla Arma- 
da, 



Década XII. Cap. VI. i# 

da 5 fe desfez entre eítrellas , ou faifeag 
em breve efpaço , com grande efpanto > e 
admiração dos noííos , e não menor ale- 
gria do Cunhale , porque teve aquelle fi- 
nal por bom prognoftico pêra elle , e pê- 
ra os noííos por muito infelice , como foi. 
Não fei de que qualidade efte final feja/ 
fenao fe lhe chamarmos trave de fogo , a 
que os Gregos chamam Docci ; mas algu- 
mas fe viram já delias , que não deitaram 
faifeas , como deita hum foguete , que fe 
arremeda por effes ares. Ser eftrelía erran- 
te , também não pode fer , porque eftas não 
moftram nunca tamanha claridade. Se lhe 
quizermos chamar cometa , fera erro gran- 
de , porque eíles tem outros eífeitos mui- 
to differentes j e fempre apparecem á parte 
de Oefte , e durão muitos dias , e não tem 
mais que relampadejar , e lançar pêra fima 
huma efpadana , ou huma coma , por onde 
me parece que foi raio ; porque muitas pef- 
foas me affirmáram , que aodesfazer-fefen- 
tira André Rodrigues Palhota quebrar-fe- 
lhe a efpada , que tinha na cinta , em três 
pedaços , que he o mefmo eíFeito de al- 
guns raios , fegundo fe lê na matéria delles. 
Em fim ? preparados todos , repoufáram 
de noite pouco , e eftiveram vigiando o fi- 
nal que eílava encommendado a Belchior 
Calaça, que parece que fe enganou nas ef- 
N ii tvcl- 



196 ÁSIA de Diogo de Couto 

trellas , por onde fe governão os Quartos 7 
que fe vigiam nas Armadas ; e parecendo- 
lhe que era o da alva , fez o final pouco 
mais de meia noite ; e tanto que foi vilto 
de Belchior Ferreira da parte doÇamorim, 
abalou logo com a fua gente , e quatro , ou 
linco mil Naires do Çamorim, fem lhe el- 
le dar as efeadas , e mais petrechos ? que 
tinha promettidas ? e com grande determi- 
nação commettêram as tranqueiras de ma- 
deira > a que puzeram fogo por algumas 
partes ; mas como os Mouros eram mui- 
tos , logo o apagaram 5 e fobre ifto houve 
muitas eípingardadas 5 fettadas , e outros 
géneros de morte , que cahíram fobre os 
noífos, de que pereceram Manoel de Mi- 
randa 5 António Coelho Malavar, e vinte 
e féis foldados mais , que fizeram maravi- 
lhas por cavalgarem as tranqueiras , e fi- 
caram , a fora eítes , feridos os nove Capi- 
tães de todos os navios , de efpingardadas ; 
e a Belchior Ferreira deram finco nas ar- 
mas , que por fortes o não mataram ; mas 
de huma , que lhe deo por hum braço , fi- 
cou muito ferido , e do fogo que os Mou- 
ros lançaram de fima fobre os noífos , que 
era muito y foram alguns bem queimados ; 
e por não particularizarmos iílo , foram fe- 
ridos de eípingardadas cento e vinte e féis 
foldados j e nem com iíTo fe aífaítáram das 

tran- 



Década XII. Cap. VI. 197 

tranqueiras , antes trabalharam tudo o que 
puderam pelas entrar ; e aqui os deixare- 
mos , por continuarmos com Luiz da Silva. 

Efte Capitão teve tento nas horas ; e 
poílo que vio o íinal que fe fez na bar- 
caça, não fe governou porelle pêra fe aba- 
lar, por ver que não era aquelle o tempo , 
em que ficou aflentado que fe fizeífe ; mas 
tanto que foi o quarto da alva j o fez , fem 
fe faber da parte donde elle eftava o que 
pairavam os da companhia de Belchior Fer- 
reira nas tranqueiras , e em feíTenta janga- 
das atraveffou Luiz da Silva o rio , indo 
elle n'uma embarcação pequena com ai- 
guns que efcolheo , levando ordem pêra def- 
embarcar bem ao pé da Fortaleza, porque 
com o muro ficavam abrigados da artilhe- 
ria d elle , e com a efcuridão da noite po- 
deriam fazer a defembarcação mais a feu 
falvo ; e que de longo do muro foííem de- 
mandar o terreiro da Fortaleza , aonde fe 
lhe iria ajuntar Belchior Ferreira , e jun- 
tos commetteriam pela porta , que fe ar- 
rombaria com vaivéns , que haviam de le- 
var pêra efte efFeito. 

Indo Luiz da Silva demandando á ter- 
ra com alguns que hiam na fua embarca- 
ção , o primeiro que faltou nella foi Ben-* 
to Corrêa, criado do Conde da Feira , que 
logo morreo abrazado da pólvora j e a em- 

bar- 



X5?S ÁSIA de Dtogo de Couto 

barcaçao com a pancada que deo em ter- 
ra , tornou a recuar pêra trás : e quiz a 
defaventura que no mefmo tempo deitem 
a Luiz da Silva huma mofquetada pela tef- 
ta , de que logo cahio morto. António 
Dias , o Tormenta , que levava a fua ban- 
deira , vendo-o daquelia maneira , tirou-a 
da haítea em que hia, e cubrio-o com el- 
la ; e tornando a embarcação a chegar a ter- 
ra , António Dias , e outros fe mettêram 
nelia com o corpo de Luiz da Silva \ e 
o levaram á outra banda , de cuja morte 
fe não foube a que foi bem grande mal ; 
porque fe fe foubera > e fora á noticia do 
Capitão Mor , por fem dúvida fe tem que 
todos fe tornaram pêra elle , e fora me- 
lhor, porque então paliara elle empeíloa, 
e concíuira-fe o negocio j mas como todos 
os que hiam nas outras jangadas cuidavam 
que hia Luiz da Silva diante , e não fou- 
beram de fua morte , inveílíram com a ter- 
ra ? e pojáram na parte que cada hum po- 
de tomar, por alcançar a gente da compa- 
nhia de Luiz da Silva ; e o primeiro que 
delias faltou em terra foi Luiz Fragolo , 
que encontrou com hum cardume de Mou- 
ros 5 com que peleijou mui esforçadamen- 
te , e logo lhe deram huma efpingardada 
por hum braço , e aífím ferido foi feguin- 
dp os companheiros, 

As 



Década XII. Cap. VI. 199 

As mais jangadas puzeram as proas 
onde melhor puderam , que tudo foi quaíl 
ao mefmo tempo , e todas ao pé dos mu- 
ros , onde os que eítavam em lima os fer- 
víram com muitos géneros de tiros , e cou- 
fas de fogo, de que muitos fahíram mui ef- 
calavrados; e como eílas jangadas pojáram 
em diíFerentes partes , não fe pode averi- 
guar quem folie o primeiro de todos ; ain- 
da que alguns dizem , que a primeira que 
chegou a terra foi huma, em que hia Luiz 
de Almeida , foldado , e Capitão, muito bom 
Cavalleiro , a quem antes que puzefle os 

f)és em terra deram huma efpingardada no 
ado direito; e cuidando elle que era mor- 
tal , quiz ir acabar em terra entre os ini- 
migos , a que fe arremeíTou, dizendo aos 
companheiros, que já que havia de acabar > 
queria primeiro vingar fua morte. 

As outras jangadas , em que hiam D. 
Fernando de Noronha , D. Chriítovao feu 
irmão , que ambos hiam juntos em huma 5 
Ruy de Soufa de Larcão , Manoel de Ben- 
danha , e outros , cada hum n\ima , foram 
varar pêra a banda do baluarte doCutimu- 
ça ao pé da Fortaleza , onde havia huma 
barranceira que os Mouros taparam com 
huma eftacada de tranqueira de pedra até 
o canto da Fortaleza , e os primeiros que 
fahíram em terra da jangada de D. Fernan- 
do 



ioo ÁSIA de Diogo de Couto 

do de Noronha 5 foram Thomé Diniz , e 
apôs elle Simão Rabello de Caftello-b ran- 
ço , e Franciíco Borges ; e ao defembarcar 
achou o 1 home Diniz nuns poucos de Mou- 
ros , que acudiram a lhe tolher a defem- 
barcação , com quem fe baralhou de fei- 
ção , que veio a braços com hum que ma- 
tou ajudado de Simão Rabello, Ruy de Sou- 
fa de Larcão , Manoel de Bendanha , D. 
Manoel Mafcarenhas, André Rodrigues o 
Palhota 5 e outros defembarcáram todos 
quaíí ao mefmo tempo , que acharam na 
borda da agua hum efqtiadrão de Mouros 
divididos em magotes , que chegaram a 
lhe defender a defembarcação , e aff errarão 
das jangadas , com quem os noífos foram 
peleijando valerofamente : e na força def- 
ta briga , em que fe aíllgnalou muito Ruy 
de Soufa de Larcão , lhe cortaram a mão 
direita , ao que lhe acudio Simão Rabel- 
lo ; e por ficar inhabilitado por falta da 
mão, que tinha cortada, o embarcaram os 
feus emhuma almadia, epaífáram-no dou- 
tra parte , onde chegou ao Capitão Mor 
com a mão dependurada , em cuja prefen- 
ça fe deílemperou em palavras contra os 
que não hiam foccorrer os que andavam pe- 
leijando. O Capitão Mor fentio muito ver 
aquelle Fidalgo daquella maneira ; e muir 
To mais por não ter embarcações ; em que 

po* 



Década XII. Cap. VI. 20 í 

poder mandar foccorrer os noflbs ; porque 
como Luiz da Silva morreo , não houve 
quem governafle aquellas coufas. Porque 
D. António de Leiva , que levava ordem 
do Capitão Mór pêra íucceder a Luiz da 
Silva , acontecendo-lhe algum defaftxe , deJP- 
embarcou longe delle, foube tão tarde de 
fua morte , que tratando de pôr os Tolda- 
dos em ordem , foi logo morto ; e faben- 
do-o o Capitão Mór , mandou paliar D. 
Francifco Pereira , irmão do Conde da Fei- 
ra , a quem tanto que poz os pés em ter- 
ra , deram huma eípingardada na cabeça, 
de que ficou fem fentido; que vendo-o os 
feus foldados daquella maneira, mettêram- 
no na barquinha da fua galé , que por car- 
regar muita gente fe virou, e quaíl todos 
os que hiam nella fe affogárao. 

Sabendo o Capitão Mor da morte de 
D. Francifco Pereira , mandou ordem a Bel- 
chior Calaça , foldado velho , e Capitão, 
experimentado , pêra governar os foldados ; 
mas tratando de os pôr em ordem , lhe de- 
ram huma mofquetada pelo hombro direi- 
to , de que o derribaram ; e ficou de modo , 
^ue os feus foldados o embarcaram , e paf- 
aram á outra banda ; e por acontecerem 
eíles defaftres aos Capitães que o Capitão 
Mór foi nomeando , ficaram os foldados 
fem quem os governaífe , e refpeitaífem , 

quç 



% 



ioi ASIÀ de Diogo dé Couto 

que foi a occafião principal da perdição 
dos noífos ; porque os que peleijáram o fi- 
zeram de modo , que os Mouros affi raia- 
ram depois que nunca os viram peleijar 
com mor esforço ; e bem fe vio , porque 
em tão pequeno efpaço mataram mais de 
quinhentos Mouros , e fizeram o eítrago que 
he notório na fua povoação ; e fem falta 
fe alcançara a vitoria por noífa parte , fe 
tornaram a mandar ao Capitão Mor as em- 
barcações pêra paliar com o refto da gen- 
te que tinha comfigo ; o que o defviou pe- 
la ordem que Luiz da Silva deo aos ma- 
rinheiros delias, e das jangadas, que não 
voltaíTem fem ordem fua , porque cuidava 
poder tomar a Fortaleza fem a ajuda do 
Capitão Mor; e queria mandar-lhe as em- 
barcações, e jangadas, depois que eílivef- 
fe de poíTe da Fortaleza , parecendo-lhe que 
fe antes paíTaífe o Capitão Mor , lhe ficava 
toda a honra , e gloria do fucceffo. Erro 
he efte, que não aconteceo lo a efte Fidal- 
go , nem foi o primeiro que deita qualida- 
de houve nefte eftado, porque as Chroni- 
cas eftam cheias de muitos femelhantes ? 
porque fe deixaram de alcançar grandes , 
e importantes vitorias com perda de mui- 
ta gente , e reputação , que fe deve fentir 
fobre tudo : fer a inveja , e ambição tão 
poderoía y que fendo eítes efFeitos tão di- 
gnos 



Década XII. Cap. VI. 203 

gnos de louvor , ficao efcurecidos por acon- 
tecerem a ânimos nobres , e generofos. 

O Capitão Mor eítava a eíte tempo mui- 
to trifte j e defconfolado pela morte de 
Luiz da Silva, cujo corpo mandou defem- 
barcar com muito fentimento de todos ; e 
fez embarcar na fua manchua Sebaílião Bo- 
telho com os foldados que nella coube- 
ram pêra ir foccorrer os noílos : e aíTun 
tanto que chegava alguma jangada , logo a 
enchia de gente , e a tornava a defpedir, 
ao que os Toldados hiam de má vontade; 
porque a morte de Luiz da Silva y e mui- 
tos que viam recolherem-fe feridos da ou- 
tra banda os amedrentou de feição , que 
não havia podellos fazer embarcar , nem 
ainda com o Capitão Mor fe metter pela 
vaia pêra os obrigar , e forçar a iíTo. Já 
a eíle tempo andavam pelo rio nadando 
muitos , huns aífogados 5 e outros trabalhan- 
do por fe falvarem ; e pêra acabar de os 
amedrentar a todos , fe alevantou huma voz 
de traição , traição , que ferio as orelhas 
dos noffos, com que fe houveram por per^ 
didos , e não fe foube donde ella fahio ; 
mas eu prefumo que foi artificio do Cu- 
nhale pêra defanimar nos noííos. Algumas 
peííoas me affirmáram , que quando o Ca* 
pitão Mor vira aquelle defarranjo , e me- 
do nos homens , fora a fua paixão tama- 
nha, 



204 ÁSIA de Diogo de Couto 

nha , que foi neceíTario acudirem-lhe alguns 
amigos ? e tirarem-no da vafa , onde eitava 
mettido a fazer embarcar os foldados : e 
aíiim deixaremos iílo por tornarmos aos 
que andavam em terra : o que faremos nes- 
toutro Capitulo por não enfadarmos a quem 
iftoler com tanta coufa mettida emhumfó. 

CAPITULO VIL 

Do que fuccedeo aos que def embarcaram 
em Cunhale : e de alguns cafos notáveis 
que alli pajfáram até fe desbarata- 
rem, por Ji mefmos. 

OS noífos que defembarcáram em ter- 
ra , em diíferentes partes , em todas 
acharam Mouros , que os fahiarn a receber, 
e a defender a defembarcacão. D. Anto- 
nio de Leiva , Sargento Mór, andava como 
hum leão bravo em bufca de Luiz da Sil- 
va , porque não fabia de fua morte , e foi 
por onde aventura o guiou , peleijando va- 
lerofamente por fer muito animofo ; e achan- 
do tudo defordenado , femhuma bandeira, 
a que os homens acudiíTem , e fem huma 
cabeça , por quem fe governaflem , traba- 
lhou tudo o que pode pelos ajuntar a íi, 
e fazer hum corpo de gente com que com- 
rnetteíTe os inimigos , e fe defendeíTe dei* 

les, 



Década XIL Cap. VIL 20? 

les , porque cada vez fe hia o poder en* 
grollando mais , e aqui o mataram de hu- 
ma efpingardada , como fica dito no Capi^ 
tulo atrás. O que agora digo he, que eíle 
homem fez couiàs , que por muito que diga 
delle , e faça de fuás coufas muitos y e mui 
grandes Capítulos , em tudo ficarei atrás 
do que merece por ellas. Manoel de Men- 
danha , Fidalgo muito bom Cavalleiro , mo£ 
trou bem neíte dia os quilates de feu es- 
forço, peleijando comos inimigos com tan- 
to valor , que ouvi dizer a muitos dos nof- 
fos , que fe podia igualar com todos os es- 
forçados , porque por onde paffou , foi dei- 
xando grande roílalhada de Mouros mor- 
tos , e efpedaçados ; mas como tinha já al- 
li o termo da vida acabado , faltou-lhe pri- 
meiro que o esforço , porque foi morto de 
muitas feridas i deixando de ÍI memoria , 
que fe pudera engrandecer muito mais do 
que o eu faço. Muitos outros Fidalgos, e 
Cavalleiros fizeram aqui grandes feitos nas 
armas : eftes foram tantos , que fe não po- 
dem particularizar , nem todos fouberam 
dar razáo delles , porque o negocio anda- 
va tão embrulhado , que fazia muito o 
que foubeífe dar fé de ft. 

D. Fernando de Noronha, e feu irmão 
D. Chriílovão, o Palhota, Simão Rabello, 
Francifco Borges , e outros na parte em 

que 



2o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

eme defembarcáram acharam a refiílencia 
que diflemos > e aílim foram de longo do 
muro peleijando com muito valor , pêra 
irem demandar o terreiro , onde cuidaram 
achar Luiz da Silva , de quem também não 
fabiam ; e fahindo ao largo , deram a D. 
Chriítavão huma efpingardada n\im braço , 
e hum^Jancada no rolto , e outra adiante 
na cabeça , de que cahio ; mas acudio-lhe 
logo Thomé Diniz , que já hia bem feri- 
do , porque fempre foi envolto com os Mou- 
ros , e fe poz fobre elle pelo defender , que 
o não mataílem ; e tanto fez , que o tor- 
nou a alevantar , e o fez recolher a huma 
embarcação , e quaíi no mefmo lugar de- 
ram huma frechada pelas pernas a feu ir- 
mão D. Fernando de Noronha i de que foi 
neceífario obrigarem-no a recolher-fe ; e 
André Rodrigues Palhota , que peleijou va- 
lerofamenre , recebeo outra efpingardada 
pelas pernas , que lhas palfou ambas, que 
foi forçado recolherem-no > e paííarem-nos 
todos á outra banda , que ifto era o que 
mettia mor temor nos foldados , e em ou- 
tros que o não eram. Hum foão do Ama- 
ral j muito bom foldado , ao defembarcar fe 
metteo no meio de huns poucos de Mou- 
ros i com quem elle, e outros feus compa- 
nheiros peleijáram com muito valor; e a£- 
iim andava o Amaral furiofo , que fe liou 

com 



Década XII. Cap. VIL 207 

com hum Mouro , que lhe metteo os den* 
tes em huma orelha que quaíi lha cortou , 
e elle afferrou com os feus os narizes do 
Mouro de maneira, que lhos lavou em fan- 
gue ; e neíle conflito lhe acudiram alguns 
Toldados por recreícerem os Mouros , e an- 
tre elles foi hum de alcunha o Trovifca- 
da , grande Cavalleiro i que fez bem de ef-> 
trago nos inimigos ; e chegando ao Mou- 
ro com que o Amaral eítava liado 5 deo- 
lhe com hum gris que o paliou 3 e derri- 
bou morto , e dizem que com a fúria que 
levava , ferio também o Amaral , que já 
trazia outras feridas dos Mouros , como o 
Trovifcada , que nunca fe refguardou del- 
les , antes íempre fe achou nos lugares mai£ 
perigofos , onde as recebeo : efta arma 
gris he propriamente dosjáos, he de dous 
palmos , ou dous e meio de comprido ^ 
tem.quali dous dedos de largura , tem os 
cortes de ambas as partes em voltas , co- 
mo efpada columbrina , e alguns são unta- 
dos com peçonha. 

Henrique da Silveira de Menezes 5 que 
não foi dos derradeiros ao defembarcar , 
peleijou muito bem : deram-lhe huma ef- 
pingardada n J uma mão. André da Silveira 
andou entre os inimigos peleijando valero- 
famente , até que depois de fazer muitas , 
e grandes cavallerias 5 e efeaiavrar muitos 

Mou- 



2o8 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mouros, o mataram. Balthazar Pereira , Ca- 
pitão de hum navio, também fe aflignalou 
bem até lhe darem hurna efpingardada n'um 
hombro. Hum foao Borges Picoto , da obri- 
gação de D. Theotonio de Bragança , Ar- 
cebifpo de Évora, também fez muitas ma- 
ravilhas até o matarem : hum foao Borra- 
lho , foldado valerofo , moftrou aqui bem que 
o era , até que o queimaram , e abrazáram. 
Belchior Calaça com fer de íelTenta annos 
fez taes couías , que pudera envergonhar 
muitos mancebos , e todos os que o viram 
peleijar : hum foao Machado de Cochim 
fez coufas-mui notáveis de esforço , e ef- 
candalizou bem aos inimigos , com quem 
fempre andou miíturado , até que o mata- 
ram de huma efpingardada. D. João Tel- 
lo, filho do Alferes Mor, e D.Manoel de 
Noronha cumpriram aqui bem com a obri- 
gação de filhos de feus pais , imitando-os 
no esforço , e cavalleria , que os inimigos 
fentíram bem em fuás carnes até os mata- 
rem. Lourenço Guedes foi aqui morto, de- 
pois de ter bem cumprido com as obriga- 
ções de quem era. Diogo de Miranda tam- 
bém deo boas moftras de feu esforço até 
chegar a perder a vida no meio dos Mou- 
ros ; e por não relatarmos tantas miud.ezas , 
baile iaber-feque todos os que tinham fan- 
gue, e honra, foram fempre por diante fa- 

zen- 



Década XII. Cáp. VIL 209 

Êendo maravilhas , e todos apertaram corri 
òs Mouros de feição , que os obrigaram à 
fe recolherem na mefquita , que eftava de- 
fronte da Fortaleza , que eílava entulhada 
de povo miudò : e trabalharam os noflbs 
tudo o que puderam pela entrar , mas 
não lhes foi poflivel porfer forte; e por- 
que o teélo era cuberto de folhas de pal- 
ma feccas , bradaram osqueeítavam apor- 
ta por lanças de fogo , e foi logo cor- 
rendo por ellas ás embarcações hum fol- 
dado da obrigação de Luiz da Silva j cha- 
mado Simão Pereira ; e tomando três , tor- 
nou a voltar , e no caminho encontrou 
com Pêro Fernandes de Carvalho ? e An- 
tónio de Magalhães , que nelle feito fize- 
ram muitas cavallerias , e cada hum lhe 
tomou a fua , e foram-fe á mefquita , e 
deram fogo as lanças , e com ellas o pu- 
zeram ás olas : outros dizem que hum foão 
Pinto , natural de Bemíica , foi o primeiro 
que lhe poz o fogo* A eíte tempo chegou 
Sebaftião Botelho , que tinha feito muito ,- 
e com elle huma companhia de feus foi-* 
dados ; e vendo o trabalho em que os 
noíTos eftavam de pôr o fogo ao te&o da 
mefquita b tomou humas lanças que levava 
comfigo^ que tinham nas pontas mui bem 
atadas huns cornos de bois com pontas 
pêra baixo , e os vãos pêra fima > todos 
Couto* Tom. ult. O cheios 



2 io ÁSIA de Diogo de Couto 

cheios de pólvora, de feição queíbbejavam 
por fora em cada huma hum palmo de 
ferro 5 pêra tanto que o fogo fe acabaíle, 
pelejarem com ellas. Artificio foi eíte, 
que elle inventou pêra trazer nos Cota- 
couloes , em que elle andava por Capitão. 
Eram eítas lanças de tanta efficacia , que 
huma fó bailava pêra axorar, e desbaratar 
hum Parao ; e dando-lhe fogo por íima , 
lançaram grandiffimas labaredas com te- 
merofos terremotos 5 e com ellas ajudou a 

Í)ôr o fogo á mefquita : e tinham eítas 
ancas outra coufa , que de mais de duas 
braças affaftadas , lançavam as chammas de 
fogo aonde queriam. Os Mouros que eíta- 
vam na mefquita , tanto que as olas toma- 
ram fogo , que começou a cahir fobre elles , 
arrebentaram alguns pela porta fora , e 
como defatinados arremettêram com os 
noílos , e quaíi que os fizeram defmandar* 
Ao que acudio Domingos de Caítilho 9 
natural de Ceita y com outros companhei^ 
ros , e fe oppuzeram aos inimigos , e 
apertaram com elles de feição , que foram 
fugindo pêra a Fortaleza , aonde fe reco- 
lheram por huma porta que fe fervia por 
baixo de hum arco de abobada , que alguns 
dos noíTos quizeram commetter ; mas dei- 
xaram de o fazer por fe temerem de 
minas, 

A 



/ 
Década- XII. Cap. VII. 211 

A efte tempo íahio do baluarte de íb- 
bre a barra hum efquadrão de Mouros , 
que vinham em favor dos feus ; e corren- 
do a voz de Mouros , Mouros , foi tão 
grande o defmancho dos foldados com- 
muns 1 que andavam efpalhados ? que perto 
de cento e lincoenta delles fe acolheram 
pêra debaixo das galeotas , que eítavam 
varadas dos inimigos á borda do rio, fem 
verem , pelos não deixar o medo com que 
hiam , quão perigofo era o lugar que ef- 
colhiam \ porque mais feguro lhes era fa- 
zerem-fe em hum corpo 5 e pelejarem em 
defensão de fuás vidas h quando por hon- 
ra o não quizeífem fazer ? ou pela Fé de 
Chrifto , que eram refpeitos que os en- 
gradeciam mais. 

Os noflbs que eftavam derredor da 
mefquita , vendo recolherem-fe aquelles 
fracos foldados pêra os navios , bradaram 
que os foílem alguns fazer recolher , onde 
todos eítavam 5 pêra juntos refiftirem aos 
inimigos : ao que foi Sebaftião Botelho , e 
com elle hum Padre de S. Francifco , que 
fe chamava Fi\ Francifco Baptifta da Re- 
coleta dos Defcalços , que já fora cativo 
em Cunhal e , e começaram a perfuadillos 
que fe foílem ajuntar com os que eílavam 
na mefquita , lembrando-lhes que eram 
Portuguezes > e que não quizeífem abater, 

O ii e 



212 ÁSIA de Diogo de Couto 

e affrontar fua nação, que tão temida fora 
fempre em todas as partes do mundo. Á 
voltas diíto alevantou o Padre no ar hum 
devoto Crucifixo , e lhe diíTe : Eia i folda* 
dos de Chrifto , e esforçados cavaíleiros y 
fegui efte Capitão , e efta fua bandeira > 
que certa ejtá a vitoria em quem á fua 
fombra quizer pelejar. Com efta exhorta- 
ção fe foram os íoldados fahindo de de- 
baixo dos navios, Como homens que que- 
riam feguir tão formo fo eftandarte ; e cui* 
dando o Sebaftião Botelho , e o Padre 
Fr. Francifco Baptifta ] que vinham apôs 
elles , começaram a andar ; e virando pêra 
trás 5 os viram lançar todos ao mar pêra 
fe paliarem á outra banda , não lhes dei-* 
xando ver fua covardia, que fe fugiam de 
huma morte , hiam dar em outra mais af- 
frontofa , e de mor vitupério ; e que já 
que haviam de morrer 5 fazendo-o com a 
efpada na mão 5 ficavam vivendo no Ceo 
por gloria , e na terra pela fama: que de 
11 deixavam ; e aflim arrifcáram todos as 
vidas , e não fei fe as almas , por toma- 
rem morte por fuás próprias vontades , e 
deites fe affbgáram a mor parte. Os que 
pelejavam junto á mefquita defenderam* 
íe dos inimigos com muito valor , e esfor- 
ço com verem tudo perdido ; e o que os 
acabou de desbaratar , foi a mefma voz de 

trai* 



Década XII. Cap. VII. 213 

traição , traição , como da outra banda , 
que caufou nos peitos dos que pelejavam 
grande terror. 

Luiz de Almeida, que já tinha as duas 
feridas que diífe, indo com hum matalote 
feu, chamado João da Cunha , e com al- 
guns companheiros mais, foram pelejando 
valerofamente , fazendo fempre roílo aos 
inimigos , até que deram ao Luiz de Al- 
meida outra lançada por baixo do braço 
direito, que o paíTou a outra parte, ehuma 
cutilada por huma perna , de que cahio , 
rendo a rodela , chuça , e morrião, com 
que fempre pelejou , tudo feito pedaços ; 
porque daquella feita que recebeo eftas 
feridas , teve o encontro a dous façanho- 
fos Mouros rodeleiros , que derribou a 
feus pés mortos. O João da Cunha , que 
também tinha imitado ao companheiro , 
vendo-o cahido , alevantou-o com os outros , 
e foram-fe recolhendo com elle pêra as 
embarcações , indo perfegiúdos de alguns 
Mouros ; mas foccorreo-os outro amigo , 
chamado André Simões com alguns Tol- 
dados , que arremettendo com os Mouros , 
os efcalavráram , e fizeram fugir , com o 
que tiveram tempo de pôr emfalvo o Luiz 
de Almeida, e paflíaram-no á outra banda, 
e dahi foi levado á Galé Capitânia aonde foi 
curado , e viveo : e ainda fe adiou na to- 
ma-" 



ai4 ÁSIA de Diogo de Couto 

mada daquella Fortaleza em companhia 
de André Fartado , onde fez outros feitos , 
que em feu lugar fe contaráó. 

Já nefte tempo era tudo perdido , e no 
mar havia alguns corpos mortos ; e alguns 
dos noflbs , que ainda eftavam em terra por 
primor \ fe não quizeram lançar ao mar, 
como foi D. António de Leiva , Sargento 
Mór , que vendo aquelle negocio concluí- 
do , e de má maneira \ foi-fe recolhendo 
pêra as embarcações j e não achando algu- 
ma em que fe metter , não fe quiz lançar 
ao mar , aífim pela affronta que niífo rece- 
bera , fe o fizera, como por fugir á morte , 
que lançando-fe ao mar , tinha certa , por 
ir todo armado de armas inteiras , tanto 
que até grevas levava nas pernas. Pelo que 
tornou a voltar aos inimigos \ que já não 
eram tantos , e arremeflbu-fe entre elles , 
como hum leão, fazendo nelles bem gran- 
de eítrago ; e depois de andar já muito 
canfado , enao poder bracejar, cahio mor- 
to de muitas efpingardadas. Simão Rabel- 
lo , em quem já falíei , pelejou eíle dia 
valerofamente ; e depois de tudo perdido, 
vendo-fe ferido de muitas feridas , fe foi 
recolhendo pêra a praia , pelejando fempre 
de roílo com os inimigos até chegar á 
borda da agua ; e não achando embarca- 
ção çm que le recolheífe , paífando-lhe 

pe- 



Década XII. Cap. VIL 215- 

pela memoria a affronta que feria morrer 
affogado , diíle a alguns companheiros, 
que o feguiam , que trataíTem de fe falvar 5 
porque elle não havia de morrer affogado 
no mar , fenao entre Mouros na terra ; e 
lançando-fe em meio delles , que o fe- 
guiam , fez tantas maravilhas ate que ca- 
hio morto. 

O Padre Fr. Francifco Baptifta andou 
fempre com o Crucifixo alevantado no meio 
da briga animando aos noííos , e pedindo â 
Deos mifericordia ; e vindo hum pelouro 
de eípingarda encaminhado por vontade 
de Deos , deo em hum braço do Crucifixo , 
e quebrou-Iho , ficando dependurado pelo 
outro. O que viílo pelo Padre , alevantou 
a voz, dizendo: Ah cavalleiros de Chrifio , 
vingai ejla offenfa feita a vojfo Deos pelos 
mores inimigos que tem \ e ha do feu San- 
to Nome ; e abraçando-fe com o Crucifixo , 
dizendo muitas laftimas , e derramando 
muitas lagrimas pelo ver aífim tão mal 
tratado , e abraçado com elle , o mataram : 
e de crer he que iria fua alma direita- 
mente á gloria a receber a coroa do 
martyrio. 

Os que puderam alcançar jangadas fal- 
varam-fe nellas. D. Francifco Pereira , ir- 
mão do Conde da Feira, de quem ha pou- 
co falíamos , vindo ao longo da praia com 

ai- 



2i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

alguns companheiros , lhe deram huma e& 
pingardada na cabeça , de que ficou fem 
fentido ; e achando os companheiros a bar* 
quinha dafua galé, o mettêram dentro : foi 
tanta a gente, que fe metteo na bateira, 
que fe virou , e morreo aífogado aquelle 
mancebo , que tinha dado de fi muitas , e 
mui grandes efperanças do que ao diante 
houvera de fer ; mas atalhou-lho a fortu- 
/na invejofa do íeu valor , porém não lhe 
tirara a fama que de feu esforço lhe dará 
cila nofla efcritura ; e ao virar da bateira 
acudiram alguns Mouros em embarcações 
pequenas, depois de verem tudo perdido, 
pêra andarem á pefcaria dos noífos que 
andavam no mar, e fifgavam-nos como fe 
foram peixes , e os alanceavam com tanta 
crueldade , como he a que os Mouros cof? 
tumam ter contra Chriftãos. Mas hum Luiz 
Cardofo , bom fpldado , que alli hia , acer- 
tou de haver huma lança ás mãos ; e ca- 
valgado na quilha da bateira , defendeo com 
muito esforço , ainda que com grande tra- 
balho , quantos eílavam afferrados na ba- 
teira até fe fal varem. Eis-aqui tudo perdi- 
do , e desbaratado ; mas todavia não foi 
tanto a falvo dos Mouros , que não ficaífe 
o campo fem haver quem nelle pelejaíle, 
porque a mor parte dos feus aventureiros , 
que fahíjram aos noífos y foram mortos, e 
feridos. Bel- 



Década XII. Cap. VIL 217 

Belchior Ferreira , que deixamos com 
a tranqueira pelejando com os inimigos 
valerofamente , bem fentio o desbarate dos 
jioíTos nos gritos, e alaridos que ouvio; e 
porque já era perto do meio dia , e tinha 
a mor parte dos feus foldados feridos , foi- 
fc recolhendo com muito boa ordem pêra 
o Çamorim , que lhe pezou bem do des- 
barate dos noííbs ; e alguns que fe acolhe- 
rão pêra aquella parte, mandou curar , e 
agazalhar. D. Luiz da Gama fentio em ex- 
tremo aquella defaventura , e muito mais 
yer que o enganaram os que o aconfelhá- 
ram que mudaífe a ordem que tinha do, 
Vifo-Rey , em que não pode ter defculpa. 
E arrebentava de pezar , e mágoa de não 
poder mandar foccorrer os noílbs ; porque 
fe já no cabo paífáram quatrocentos ho^ 
mens, fem dúvida a Fortaleza fe perdera, 
porque não ficou ao Cunhal e gente com 
que a poder defender : o que fe deixou de 
fazer , aífim pelos homens eítarem quebran- 
tados , como por não haver embarcações ; 
e quando chegaram os derradeiros dos 
noífos, já o acharam quaíi fó , porque mui- 
tos o defamparáram : por lhe dizerem al- 
guns dos que hiam do desbarate que fe 
recolheífe que já não havia que fazer , o 
fez logo , que até nefta hora de tanta im- 
portância lhe faltaram amigos. E comq 



•2i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

efte Fidalgo não eftava muito bem quifto, 
alevantáram-lhe aleives , porque a folda- 
defca da índia he niílo muito livre , e pou- 
co efcrupulofa. E não era muito que efte 
Fidalgo fe recolheíFe daquella maneira, 
porque aquella defaventura bailava pêra 
derribar o animo de hum homem que efti- 
veffe muito folgado , quanto mais o de 
hum Capitão , que toda aquella noite , e 
dia gaitou em governar , lidar com tantas 
coufas , e gritar ; porque em hum confli- 
éío y e tranfe deftes , e tal qual efte foi , 
mais fe peleja com o efpirito > que com 
as armas. 

CAPITULO VIII. 

Da gente que de ambas as partes morreo 
fie (ia de/embarcação : e de como o Capi~ 
tão Mor fe foi pêra Co chim , e deixou 
D. Francifco do Soufa fobre a barra de 

Cunhale. 

ESta foi huma das mores defaventuras, 
e affrontas que os Portuguezes paira- 
ram na índia \ porque nella fe desbarata- 
ram quaíi por vontade , e por íi mefmos. 
Efta miferia ha entre efta noíTa nação , que 
affim como no commetter excede no pri- 
meiro impeto a todas as outras , aíTim no 

def- 



Década XII. Cap. VIII. 219 

defordenar, e recolher terh o mefmo extre- 
mo. Diílemos que fuccedeo iílo quafi pof 
vontade ? deixando o que he mais certo, 
que he fer por peccados, porque por von- 
tade podemos dizer que foi não verem 
com os olhos da razão quantos damnos 
nafcêram de não entrar a Armada pela bar-' 
ra , como eftava aíTentado no Confelho , é 
mandado pelo Vifo-Rey. E já que pa- 
receo aos que inquietaram efte Capitão, 
melhor o feu confelho , que o que eltava 
tomado , não fei que razão houve pêra 
depois de toda a gente eílar da banda do 
Ariole , não mandar entrar a Armada no 
rio ; porque ainda que niíío correram al- 
guns navios rifco , pouco damno era ; por- 
que fe fe iflb fizera 5 muito poucos dos noíTos 
fe perderam , antes poífo affirmar que fe 
ganhara a jornada , porque não vejo ne* 
nhuma razão de fe poder perder , eílando 
os navios com as proas em terra ; e depois 
de Luiz da Silva fer da outra parte , pu- 
dera tornar a ametade delles a paífar a 
gente com mais fegurança , e os homens 
pelejaram com mor animo , fabendo que 
tinham os navios á mão , pêra fe valerem 
delles fe fe viram em algum grande aper- 
to. E quando não levaram a Fortaleza tias 
mãos do primeiro commettimento , levara- 
fe do fegundo , ou do terceiro , porque 

nos 



2,2o ÁSIA de Diogo de Coirro 

nos navios tinham onde fe recolher \ e 
refazer do que lhes folie neceffario pêra 
tornarem ao aííalto. Nifto fe vio bem cla- 
ro quanto importa hum bom confelho , pois 
he caufa de fe alcançar huma grande vito- 
ria ; e o máo de fe perder , e de muitos 
outros damnos que acontecem > quando fe 
não alcança* 

Perdêram-fe nefte negocio duzentos e 
trinta homens dos noífos ; e alguns que 
dizem que mais , enganáram-fe ; porque eu 
tive o rol dos que morreram , que não 
paíTáram dos que tenho dito , e deite nu- 
mero morreram alguns affogados no rio. 
Perda foi efta muito grande pêra o Eftado , 
c digna de grande fentimento , não porque 
não houveííe já nelle outras em alguns 
recontros , em que fe perderam mores 
quantias de homens ; mas efta foi de do- 
brado fentimento h por fe ter por mui cer- 
ta a vitoria , que nos Deos tirou das mãos; 
por fe nao entrar nos navios pela barra y 
e por nao voltarem as jangadas , e embar- 
cações a bufcar o Capitão Mor , como elle 
tinha mandado 5 por morrerem Luiz da 
Silva , e os mais que o Capitão Mor no- 
meou pêra acaudilharem a gente , o que 
tudo pende de fegredos , que fó a Deos são 
manifeílos , c elle fabe o porque dilatou 
cita vitoria 5 havendo-fe pelos antecedentes 

por 



Década XII. Cap. VIII. 221 

?3or tão certa, que ninguém duvidava del- 
a : e a/fim o fora , fe a nação Portugueza 
obedecera ás ordens dos Generaes , como 
o fazem as outras. 

As peflbas conhecidas que fe aqui per- 
deram , pofto que já tenho nomeado algu- 
mas , tornarei a fazer outra matricula del- 
ias , as quaes foram D. Francifco Pereira y 
irmão do Conde da Feira: D.João Tello 
de Menezes , filho do Alferes Mor : Ma- 
noel de Mendanha : Diogo de Miranda: 
Lourenço Guedes : D. António de Leiva, 
Sargento Mor : D. Manoel de Noronha: 
Manoel de Barbuda : Paulo Leitão : Gafpar 
de Mello : Nuno Fernandes Cabral : Go- 
terre de Monroy , fobrinho do outro Go- 
terre de Monroy de Beja , filho de feu ir- 
mão Simão Rangel de Cafíello-Branco , filho 
de hum irmão de Fernão Rodrigues de Caf- 
tello-Branco : Gomes, Miguel, e Gafpar 
Freire , todos três irmãos , e do meímo 
appellido : Ruy Brandão : D. Manoel de 
Azevedo : Manoel de Soufa Chichorro: 
Álvaro Teixeira Lobo , Fidalgo filho de 
Manoel Lobo Teixeira , cafado em Goa : 
Pêro Borges de Caítello-Branco : António 
d 5 Affonfeca :• hum Foão Ortis : Luiz Sar- 
dinha de Santarém : Mathias de Abreu de 
Abrantes , e outros. Houve deita parte 
«juafi íincoenta feridos- , e da de Belchior 

Fer- 



tzi2 ÁSIA de Diogo de Coirro 

Ferreira cento e vinte e féis , a fora os 
mortos, que já nomeámos em outra parte* 

Dos Mouros morreram ás mãos dos 
nofíos mais de quinhentos efcolhidos , e 
aventureiros. Os Capitães Mores de Ar* 
madas , e peflbas principaes , foram eíies# 
Cutimai , Cutimuça , Marca Caca , Cotife 
Marca , Bava Mamede , Bava Cutiale feu 
irmão , Canatale , Cunhimais : Connas No- 
nomai , Tampocara , e outros , que o mef- 
mo Cunhale ? e Chinale me deram a rol 5 
eílando prezos no tronco , onde os fui ver. 
O Capitão Mor mandou o corpo de Luiz 
da Silva peraCananor, aonde o enterraram 
com a mor pompa que a terra podia fa- 
zer-lhe ; e depois o mandou o Regedor 
feu irmão levar pêra o Reyno ; e das pri- 
meiras coufas que o Capitão Mór também 
fez , foi mandar D. Luiz Lobo pêra Goa 
em hum catur ligeiro com cartas ao Con- 
de Almirante pêra , como teftemunha de 
viíta , lhe dar relação daquella jornada ; e 
em lua companhia fe foram em outros 
navios alguns Fidalgos fem lho fazer a 
faber. 

E depois de defpedir ifto 5 tratou de 
fe ir pêra Cochim com todos os feridos 
pêra lá fe curarem , porque em Cananor 
não havia pêra iííb commodo; e querendo 
deixar huma galé com alguns navios na-* 

quel- 



Década XII. Cap. VIII. 223 

quella barra pêra com eiles entreter o Ça- 
morim , que havia de ficar fobre oCunhaíe, 
fem fe afraftar delle , e pêra defender que 
lhe não entraflem provimentos , pêra o que 
commetteo alguns Capitães que fe lhe e£- 
cufáram. O que elle fentio muito por fe 
ver defamparado de todos i fomente D. 
Francifco de Soufa lhe acceitou a empreza : 
do que deo conta a Belchior Ferreira , que 
mandou chamar á fua galé, e lhe diíle de 
como determinava ir a Cochim a coufas 
que importavam. Ao que Belchior Ferrei- 
ra lhe atalhou , dizendo 5 que cuidara que 
o mandava chamar pêra fe fazer outra 
vez p refles pêra tornarem a commetter a 
Fortaleza de Cunhale : ao que o Capitão 
Mor lhe diíle , que mal poderia aquillo 
fer , pois todos os homens eítavam taes do 
trabalho paílado , que não podiam comíi- 
go ; e outros tão amedrontados , que a- 
quella noite fe lhe foram alguns pêra Goa 
fem o elle faber , pelo que não podia , 
nem tinha com que tornar a provar ventu- 
ra. O Belchior Ferreira lhe reipondeo , que 
não havia que fazer naquillo , que fe liou- 
veíTe por defgradecido , pois até os ho- 
mens que lhe tinham mais obrigação o 
deixavam , e defamparavam naquelle tem- 
po 9 que viíTe o que queria delle , porque 
pêra tudo eftava preíles. Então lhe diífe o 



124 A S I À DE DíOGO DE COUTO 

Capitão Mor 5 que deixava fobre aquellá 
barra D. Francifco de Soufa na galé de 
D. Francifco Pereira , que lhe pedia qun 
zefle ficar com elle até tornar de Cochim : o 
que Belchior Ferreira acceitou : e ainda fez 
mais , que fe offercceo a ficar fó , quando 
outros Capitães dos navios fe efcufaflem. E 
todavia acceitáram também a ficar alli Gaf- 
par Tibao , Gafpar de Abreu Mouzinho , 
D. Álvaro da Coita , Gafpar de Mello , Ál- 
varo Velho , e três Pinches de Malavares. 
E porque os homens eftavam cançados , 
e quebrantados da guerra , vendo que o 
Capitão Mor fe hia pêra Cochim , muitos 
dos foldados fe lançaram ao mar 5 e fe 
paliaram aos navios que hiarn com elle: 
o que também quizeram fazer alguns da 
galé de D. Francifco , do que elle foi avi- 
fado ; e chamando pelo Patrão , lhe diífe 
muito alto 5 que lhe fizeífe p refles a batei- 
ra ; e que todo o foldado que fe quizefle 
pairar pêra os navios 5 que hiam pêra Co- 
chim , os levaífe nella , porque elle não 
queria que o acompanhaílem por força na 
galé , que com quaefquer que lhe ficaííem 
defenderia aquella barra. Eftas palavras 
ditas aiTim em público fizeram tal impres- 
são nos que fe queriam lançar a nado i 
que deíiftíram de fua determinação > e íe 
deixaram ficar tão corridos daquelle nego-' 

cio. 



Decaia XII. Cap. VIII. 225- 

cio , que todo o mais tempo eíliveram fo- 
bre as mantas da galé, fem oufarem dever 
o roilo a D. Francilco de Soufa. 

O Capitão Mor fe fez á vela pêra 
Cochim , e chegou áquella Cidade , onde já 
fe lábia o cafo ; os Vereadores acudiram á 
Armada com muitas embarcações , e vilitá- 
ram o Capitão Mor , e o confoláram , e 
defembarcáram todos os feridos ; e os Fi- 
dalgos , e Capitães fe repartiram pelas 
cafas dos moradores , onde foram fervidos 
com muitos regalos i e curados com mui- 
to cuidado i e todos os mais foram leva- 
dos ao Hofpital , onde foram muito bem 
curados. Sabendo o Capitão Mor que o 
Arcebifpo eílava em Vaipim , fem aguar- 
dar por fua vifita , o fci bufcar, e lhe deo 
conta do fucceífo , e lhe pedio confelho 
iòbre o que faria. O Arcebifpo, que já ti- 
nha bem fentido , e chorado tamanho def- 
aftre , confolou-o , e mandou recado a D. 
António de Noronha Capitão de Cochim, 
ao Bifpo, e aos Fidalgos velhos, e diante 
delles deo o Capitão Mor outra vez rela- 
ção de fuás coufas : certiíkou-lhe que 
fempre o Çamorim ufaria de muita verda- 
de , e fidelidade naquelle negocio , pelo 
que lhe niílb hia , e que com a mefma fi* 
cava com todo o feu poder fobre o Cu- 
nhale , affirmando-lhe que fe não alevantaria 
Couto. Tom. ujlt* P dàU 



2,26 ÁSIA de Diogo de Couto 

dalli até o deftruir de tcdo , que lhes pedia 
o aconfelhafíem no que devia fazer. E pra- 
ticado o cafo entre todos , vieram a cofi- 
cluir , que era muito licito que fe conce- 
deílem as pazes que o Çamorim pedia , 
pois tinha também fatisfeito com fua obri- 
gação , e pêra com iffo o terem mais obri- 
gado pêra o verão feguinte , em que o 
Conde Almirante forcado havia de ir , ou 
mandar concluir aquelle negocio ; porque 
o tyranno eftava em eftado que facilmente 
fe desbarataria, por lhe ficar morta a frol 
da fua foldadefca , e de feus Capitães. 

Aílentado ifto , capitularam as pazes, 
e defpedíram hum catur ligeiro com car- 
tas ao Conde Almirante , e que o Capi- 
tão Mor foíTe efperar a refpofta delias á 
barra de Cunhale pêra dalli aíTentar , e 
jurar as pazes com o Çamorim. Feito ifto , 
partio-fe o Capitão Mor pêra lá , e defpe- 
dio de Cochim a D. Vafco da Gama com a 
fua galé, eoito, cu dez navios mais pêra ir 
ao cabo Çomorim recolher as náos da 
China , Malaca , e outras partes , como fez 
em Abril , e as trouxe a Cochim , onde 
ficaram invernando deus galeões de Malu- 
co carregados de cravo , por não terem 
tempo pêra paliar a Gca ; e em quan- 
to D. Luiz da Gama não chega a Cunha- 
le , contaremos o que aili acenteceo a D* 

Fran- 



Década XII. Cap. VIII. 227 

Francifco de Soufa , que ficou febre fua 
barra. 

CAPITULO IX. 

Do que acontece o a D. Francifco de Soufa 

fobre Cunhale : e de como chegar am a 

Goa as novas de fia perdição : e do 

que fez o Conde Almirante. 

DEpois de D. Luiz da Gama partir pêra 
Cochim ? vendo o Cunhale aquella 
Armada que lhe ficava fobre fua barra , 
o fentio em extremo pela grande neceffidade ; 
e falta que tinha de mantimentos , e lhe 
era neceflario mandallos bufear , primeiro 
que o Capitão Mor tornaífe. E pêra ifto 
bufeou todos os meios que pode j ainda 
que foífe com grande rifeo : pêra o que 
aflentou com os feus Capitães lançar to- 
das as fuás galeotas ao mar , que eram 
treze , e provellas muito bem de artilhe- 
ria , e lòídados pêra mandar pelejar com 
a noífa Armada. Eíles apercebimentos 
fez com grande eftrondo > pêra que che-* 
gando as novas á. noífa Armada , que ha* 
via que não efperaria , fe foífe logo pêra 
Cananor , e lhe ficaífe lugar pêra mandar 
navios a Mangalor a bufear piovimentos ; 
e que quando a Armada fehão quizeífe rcr 

P ii CO- 



lio ÁSIA de Diogo de Couto 

colher , então a commetteffem , porquê 
havia que tinham certa a vitoria. D. Fran* 
cifco de Soufa foi logo avifado pelo Ça~ 
morim da preffa que fe dava áqtiellas ga- 
leotas , e do grande cabedal que o Cu- 
nhale mettia nellas ; e vendo que tinha 
pouca Armada , e pouca gente pêra efpe- 
rar tantas , e tão poífantes galeotas i ufou 
de hum ardil de bom Capitão pêra emba- 
raçar o Cunhale , que lhe fuccedeo bem. 
Eíle foi mandar de noite a Pêro Luiz com 
os Piriches , e duas fuftas mais que fe af- 
faftaíle ao mar , e que nò quarto d 5 alva 
vieííe demandar a barra , como que era 
íbccorro que vinha de fóra, e que na che- 
gada fízeíle grande eílrondo com a artilhe- 
ria , difparando-a muitas vezes , e com fe 
tocarem os tambores com grandes carran- 
cas , e fom de guerra , e toda a gente pe- 
las perchas dos navios com armas , e feus 
barretes vermelhos : pêra o que lhe deram 
todos os que havia na Armada , pêra de 
mais longe os divifarem melhor , e avul- 
taífem mais ; e que depois de darem eíla 
moítra , pêra que fe ouvifíem na Fortale- 
za , fe tornaíle a aíFaílar ao mar, e fe pu- 
zeíTe em parte donde os viífem da Forta- 
leza, o que elle fez muito bem ; e ouvin- 
do o Cunhale aquelle eítrondo no quarto 
d 3 alva, e defcubrindo a manhã , vendo 

a- 



Década XII. Cap. IX. 229 

aquelles navios furtos ao mar com tantos 
barretes vermelhos , e tanta foldadefca 
pofta em armas , porque fe puzeram, co- 
mo diíTe , em parte $onde da Fortaleza 
os divifavam mui betn , enibaraçou-fe o 
Cunhale. E o Çamorim mandou pergun- 
tar a D- Francifco que eftrondo de arti- 
lheria era a que ouvio , e que navios 
eram aquelles que appareciam ? A iíto lhe 
refpondeo D. Francifco de Soufa , que vi- 
nham de foccorro , e que furgíram alli por 
elperarem por outros que vinham atrás. 

Eftas novas correram logo pelo arraial > 
e foram ter a Cunhale •, e pêra mor ajuda 
defta invenção , fuccedeo virem no mefmo 
tempo alguns navios de mercadores de 
Cochim com fazendas das náos da China , 
e Malaca , que D. Francifco fez furgir jun- 
to da Armada, com que reprefentava mor 
poder. Eítas novas chegaram a Cunhale , 
que também vio tudo ; e não querendo 
arrifcar fua Armada y que era todo o feu 
remédio , porque perdida ella , não lhe fi- 
cava coufa em que pudeíTe ter efperança 
de fe falvar , levou mão do negocio , e 
tornou a varar as galeotas. Do que D. 
Francifco de Soufa teve logo avifo , e fi- 
cou defalivado ; e quando lhe era neceíía- 
rio prover-fe de agua , a mandava de noi- 
te bufear a Coriche pelos navios que hiam 

de 

( 



Í30 ÁSIA de Diogo de Couto 

de deus em dous a trazella : e aílim foi 
entretendo o tempo y e ao Cunhale o me- 
lhor que pode. O Çamorim eítava muito 
maguado da perda dos noílbs , mais pelo 
que lhe relevava a elle, que pelo que nos 
hia a nós, 

E porque nao podia já levar mão da- 
quella guerra pelo rifeo , e perigo em que 
le punha daquelle tyranno fe alevanrar , e 
lhe tomar o Reyno , fabendo a miferia em 
que eítava , e a muita gente que os noílbs 
lhe mataram , determinou de commetter a 
Fortaleza com tedo o feu poder , e traba- 
lhar pela levar nas mãos : e pede muito 
bem fer que tiveíle o olho nas grandes ri- 
quezas que cuidava achar ; de que fe que- 
ria lograr fó , e que nao tiveífem os noíTos 
•nenhuma parte nellas , porque entendeo 
que havia o Conde Almirante de metter 
todo o rcfto do poder da Índia contra a- 
quelle inimigo, e que ficaria elie com me- 
nos quinhão. Ediílo que tinha determinado 
mandou dar conta a D. Francifco de Soufa , 
e pedir-ihe que o dia que lhe JizefTe final , 
fe chegafie cem toda lua Armada aboca da 
barra , e esbombardeaííe os Fortes dos ini- 
migos com grande terror pêra com iífo os 
divertir , e elle ter tempo de dar por lá 
na Fortaleza mais folgadamente. O que 
D. Francifco fez ao final que lhe fizeram, 

che- 



Década XII. Cap. IX. 131 

cliegando-fe quafi ao rolo do mar, e dalli 
bateo as fortificações com grande terror. 
O Çamorim ao mefmo tempo commetteo 
a Fortaleza com mais de vinte mil ho- 
mens , e trabalhou por entrar as paredes, 
íbbre o que houve huma grande batalha, 
em que os Mouros fe defenderam valero- 
famente ; e depois de gaitada toda huma 
manhã neíla referta , fe affaftcu a gente do 
Çamorim com algum damno , não ficando 
os Mouros com pouco. E com iílo para- 
ram as coufas , e o Çamorim fe deixou 
eítar no lugar em que fempre eíleve com 
todo o feu poder , e aífim os deixaremos , 
por darmos conta das novas que chegaram 
a Coa. 

Não deixava o Conde Almirante de 
eftar com grandes fobre faltos efperando o 
fucccifo do Cunhale , quando começou a 
correr huma nova farda , que D. Luiz da 
Gama era perdido com todos os feus , que 
o Conde engulio , e calou com muita dor 
fua , fem fe moílrar trifte , nem melanconiza- 
do aos homens , porque as não houveíTem 
por certas ; e porque as más pela mor par- 
te , ou quaíi fempre o são , quando foram 
quinze de Março chegou a certeza delias 
por cartas do Capitão Mor , que D. Luiz 
Lobo levou, que fizeram tão grande abalo 
na Cidade , que fahíram os homens de 

fuás 



^3^ ÁSIA de Diogo de Couto 

fuás Gafas, como defatinados, a faber del- 
ias , e as mulheres pelas janellas com 
grandes prantos a efperar as novas dos 
maridos numas , outras dos filhos , e ir? 
mãos que lá tinham. O Conde Almirante y 
como a quem lhe hia mais que a todos 
naquelle negocio , fentio-o mais que todos; 
mas porque lhe era necelfario moílrar 
grande animo pelos homens fe não defani? 
marem , moftrou-íe-lhes com menos trifte- 
za , da que tinha em feu coração ; e ao 
outro dia mandou chamar a Confelho to? 
dos os Fidalgos velhos , e nelíe lhes diííe 
que havia três dias que tinha aquellas trif- 
tes novas , e que não havia mais que fazer 
por então , que dar graças a Deos , a 
quem fe não podia perguntar pela razão 
das couías que permittia , e ordenava , e 
que aquelles eram os fucceífos da guerra , 
que muitas vezes não aconteciam as coufas 
como fe deíejavam : e que o que por ago- 
ra era neceílario , era prover-fe naqueile 
negocio com prudência , e bom confelho , 
que effe lhes pedia pêra faber o que devia 
de fazer. E logo mandou ler a carta de 
feu irmão pelo Secretario ; e porque nella 
fe reportava a D. Luiz Lobo , foi logo cha- 
mado , pêra que referiííe todo o fucceífo , e 
os votantes conforme a dlç deífem feus 
pareceres / o que D. Luiz Lobo fez como 

lhe 



Década XIL Cap. IX. 233 

lhe pareceo. Depcis de ouvida a relação , 
que deo do (ucceíTo , pedio o Conde a tx> 
dos que votaflem fobre fe feria licito ir 
clle logo em peífoa a Cunhale , porque fe- 
gundo aqueile tyranno ficava quebrado , e 
desbaratado , facilmente lhe tomaria a For- 
taleza , e reftauraria o credito do Eítado , 
porque eftava mui preftes pêra aquella 
jornada, pêra que tinha tudo de fobejo. 

Sobre efta propofta votaram todos os 
do Confelho, que não era bem que a Pef- 
foa do Vifo-Rey da Índia fe abalaíTe com 
aquella preíTa , porque primeiro havia de 
pedir ajudas a todas as Fortalezas , pêra 
o que já não havia tempo , ainda tendo 
tudo preftes , por fer mais de meiado Mar- 
ço , quanto mais a perceber-fe de novo, 
que lá vinha o verão feguinte, em que fe 
podiam fazer aquellas coufas muito bem 
Feitas : que fe o Cunhale ficava quebrado , 
também o tinha o Camarim tão rodeado , 
e cercado com leu exercito , que fe não 
podia prover nem de gente, nem de man- 
timentos. E que pêra aqueile Rey conti- 
nuar no cerco que lhe tinha pofto , lhe 
concedeiTem pazes , e lhe fízeíTem todos 
os mimos , e vantagens que pediffe , e que 
o que r eftava do verão , ficaífe huma Ar- 
mada fobre aquella barra ; e que como 
foífe tempo, fe recolheífe a invernar a Ca- 
na- 



a34 AS IA de Diogo de Couto 

nanor , pêra no veranico de Agoíto fe tor- 
nar a pôr fobre a mefma barra ; porque 
fegundo aquelle Mouro eítava falto de man- 
timentos, não tinham dúvida a fe entregar 
logo a qualquer Capitão que foííe no ve- 
rão acabar aquella empreza. 

A (Tentado ifto , defpedio o Conde re- 
cado a feu irmão , e ao Arcebifpo , que 
em Cochim com D. António de Noronha y 
Capitão daquella Fortaleza , capitulaflcm as 
pazes que fe haviam de fazer ao Çamcrim ; 
e que o Capitão Mor D. Luiz da Gama as 
foíTe jurar com aquelleRey, e fe recolhef- 
fe a Goa como foííe tempo , deixando fo- 
bre Cunhale a Armada que lhe pareceíle 
bem , pelo modo que fe affentou no Confe- 
Iho , cujo traslado lhe mandou pêra fe re- 
ger, e governar por elle. 

Efte recado tomou a D. Luiz da Gama 
fobre a barra de Cunhale , e logo defpedio 
hum navio ligeiro com as cartas do Con- 
de pêra o Arcebifpo , e D. António de 
Noronha , que tomaram o Arcebifpo no 
lugar de Molandur dos Cliriftaos de S. 
Thomé , que logo fe foi pêra Cochim , 
onde com o Capitão , e Bifpo fez os capí- 
tulos das pazes conforme ao tempo , e as 
occaíiões delle , e as tornaram a enviar a D. 
Luiz da Gama, que por via do Padre Fran- 
cifco Rodrigues fedeo conta daquelle nego- 
cio 



Década XII. Cap. IX. 23? 

cio 20 Çamorim , e lhe mandou os capí- 
tulos das pazes , que elle eftimou muito, 
por ferem á ília vontade , e tratou logo de 
le jurarem: e por inconvenientes que houve, 
não foi a iffo o Capitão Mor , e em feu 
lugar mandou D. Fernando de Noronha 
mui bem acompanhado de Fidalgos, eCa- 
valleircs. E o Çamorim diante de feus 
Regedores , e Peíloas principaes jurou as 
pazes , e ficou de mandar feu fobrinho 
Uniare Chararé, e outras peífoas a Goa no 
verão feguinte avellasjurar pelo Vifo-Rey. 
Feito ifto , fe recolheo o Capitão Mor 
a Goa , e deixou fobre aquella barra o 
mefmo D. Fernando de Noronha com doze 
navios mui bem providos, e com a melhor 
ioldadelca da Armada , cujos Capitães 
eram , D. Lourenço da Cunha, Lourenço 
de Aguiar Coutinho, D. António Manoel, 
Gafpar de Mello, Diogo Ortiz de Távora, 
António Botelho , Lançarote de Seixas , 
Lopo de Andrade de Gamboa , e outros , 
de que me não lembram os nomes. E pêra 
a paga deita Armada , aíTim de foldados , 
como de marinheiros , pêra mantimentos, 
e outras defpezas, mandou o Conde muito 
dinheiro ; porque lhe não faltou nunca 
pêra eftas coufas , porque o bufcava fobre 
feu credito quando faltava, e iíto fez mui- 
tas vezes. 

CA- 



2,36 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO X. 

Do contrato das pazes que fe fizeram com 
o Çamorim : e do que fuccedeo a D. Fer- 
nando de Noronha fobre Cunhale , e D. 
Luiz da Gama chegou a Goa : e dos pro- 
vimentos que o Conde mandou a Maluco , 
e Embaixadores do Achem que defpachou. 

PRometteo o Çamorim licença pêra em 
todos os feus Reinos , e íenhorios , e 
nos de feus vaííallos deixar pregar o fanto 
Evangelho , e fe fazerem Chriftãos todos 
os que quizeífem , de qualquer forte, ecaíta 
que foílem , fem por iffo perderem feus 
officios , dignidades, honras, e preeminên- 
cias que antes tiveram , nem coufa alguma 
de fuás fazendas , que poderiam deixar li- 
vremente a feus herdeiros , ou a quem lhes 
pareceíle , affim como fe coíiuma entre Chri- 
ftãos , fem niífo fe poder entremetter El- 
Rey, ou Regedor algum , nem entrar El- 
Rey alguma hora em parte de fua herança. 
Obrigou-fe a dar chão neceííario pêra 
edificação de todas as Igrejas em todos 
feus Reinos , e fenhorios , e nos de feus 
vaífallos nas partes que lhe pediíTem os 
Miniílros da Chriitandade : e que eílas Igre- 
jas feriam couto , e valeriam a todos os 
homifiados nas coufas , e delidos em que 

el« 



Década XII. Cap. X, 237 

cilas coítumam a feilo áquellcs que a el- 
las fe acolheflem , como fe guarda entre 
os Chriítãos. E os Padres que nellas re- 
íidem , teriam poder fobre os Chriítãos 
pêra fazerem juítiça conforme á Ley da 
Chriftandade , fem nifíb lhes irem á mão , 
nem lhes porem impedimento algum El- 
Rey , ou ieus Regedores , ou peílba al- 
guma. 

Prometteo mais que eítes mefmos pri- 
vilégios, e izenções teriam as Igrejas dos 
Chriítãos de S. Thomé que eftiveílem em 
luas terras „ e nas de feus vaffallos , e nas 
que de novo fe edificaffem , pêra o que 
dava livremente licença. E os CaíTanares , 
e Vigairos que nellas reíidem , teriam a 
mefma jurifdicção fobre feus Chriílaos, que 
os Padres Portuguezes tem nas outras Igre- 
jas , e nas mais coufas que os Chriítãos de 
S. Thomé coítumavam ter nas terras dos 
outros Keys Malavares. 

Obrigou-fe mais a não confentir em 
tempo algum fer recebido entre os Chriítãos 
de S. Thomé , que morão em fuás terras y 
e de feus vaífallos , Bifpo , ou Prelado algum > 
fenao o que vieíle por ordem do Papa , e de 
EIRey de Portugal deite Eítado , e do Ar- 
cebifpo de Goa : e que entrando outro al- 
gum nellas , o prenderiam > e entregariam 
ao Feitor de Calecut; ou em qualquer das 

For- 



232 ÁSIA de Diogo de Couto 

Fortalezas do Eftado pêra fe mandar ao 
Arcebifpo de Goa. 

Prometteo mais que tcdcs es Portu- 
guezes , e Chriílaos que a fuás terras fof- 
iem ter cativos por qualquer cafo que fcf- 
fe 3 de os entregar ao Capitão j ou Feitor 
de EIRey de Portugal , que com elle efti- 
veíTe. 

Prometteo de entregar ao Feitor que 
eftivefíe em Calecut finco peças de arti- 
lheriã , que foram da Fortaleza de Chalé; 
a faber , dous Camelletes , hum Falcão , e 
dous Berços \ que eftariam depoíitadas na 
feitoria até haver Fortaleza em que fe 
metteíTem. E em nenhum tempo o Çamo- 
rim , ou feus defeendentes as poderiam ti- 
rar 5 nem fervirem-fe delias pêra outro 
effeito. 

Prometteo que não deílftiria do cerco 
de Cunhaie até o verão feguinte vir a Ar- 
mada. 

IJio que fe agora Jegue he o que o Eftado 
prometteo ao Camarim. 

OBrigou-fe o Eftado a haver fempre 
Igrejas, e Padres em Calecut. E aftlm 
de fazer alli a Fortaleza > e ter alli Offi- 
ciaes , e feitoria : e de favorecer a todos 
os Portuguezes 7 ç Chriílaos, que alli quize- 



Década XII. Cap. X. 239 

rem morar , e fazer alli a povoação : pêra 
o que dará o Çamorim lugar particular 
junto da feitoria. 

Obriga-fe mais a dar cada anno finco 
cartazes pêra finco náos de Meca. Quatro 
que eftavam promettidos nas pazes que fez 
D. Álvaro de Abranches , e hum mais que 
agcra fe lhe accrefcenta , por fe não fal- 
lar em algum tempo , nem pedir que o Ef- 
tado não dê cartazes a outra alguma pef- 
foa no Malavar , como fe lhe promettco 
nas pazes que lhe fez o Vifo-Rey Ma th ias 
de Albuquerque: e deitas náos as duas po- 
derám fer de porte de até feiscentos can- 
dis ; e as outras três de até quinhentos, 
e pagará per cada hum deites cartazes tre- 
zentos fanões ; e pedindo algum cartaz pê- 
ra Bengala, ou pêra o Achem , fe lhe da- 
rá, não trazendo , nem levando coufas de- 
fezas : e pêra Barceíor , Mangalor , e mais 
partes , ende coítumavam navegar , fe lhe 
dariam os cartazes ccítumados, que fe hou- 
verem de paiTar aos vafiaJlos do Çamorim, 
e moradores de fuás terras , que contém 
de Paliporto até Pudepatão , fe lhe entre- 
gariam a elle na fua mão , ou a ieus Pve- 
gedores pêra elles os repartirem , excepto 
os do Reyno de Tanór : e eftes cartazes 
feram paíTados pelo Capitão , ou Feitor que 
eítiver em Calecut na Forma , e ordem em 

que 



240 ÁSIA de Diogo de Couto 

que o Eftado es coftuma paliar, e confor- 
me ao Regimento que oVifo-Rey lhe der, 
fem fe niíto entremetterem os Capitães de 
Cochim, e Cananor: e por cada hum def- 
tes cartazes pagará o Çamorim treze ía-^ 
nões , que he o preço antigo, ecoftumado. 

Os cartazes que fe houverem de dar 
aos Arioles , dallos ao Feitor de Calecut, 
ou nas fuás próprias mãos , ou ao Çamo- 
rim, conforme aos contratos que entre íi ti- 
verem feito, em quanto elles eftiverem con- 
certados com o Çamorim. 

Apimenta que fe comprar pêra asnáos 
do Reyno , fe pagará pelos preços ordiná- 
rios da terra, e fe receberá pela ordem de 
Cochim , fem por iífo fe alterar coufa al- 
guma. 

Da fazenda que comprarem , e vende- 
rem os Portuguezes , e Chriftãos nas terras 
do Çamorim não lhe pagaráõ direitos al- 
guns, falvo os coftumados nas terras deEl- 
Rey de Cochim. 

Havendo algumas brigas entre os Por- 
tuguezes , e Naires , cada hum caftigará os 
feus : nem o Çamorim., e feus Regedores 
fe entremetteráo em coufa tocante á jufti- 
ça dos Portuguezes 5 ou Chriftãos , e feus 
familiares ; porque iífo pertencerá ao Fei- 
tor, que eftiver em Calecut, ou a quem o 
Vifo-Rey ordenar. 

Obri^ 



Década XIL Cap. Si 241 

Obrigou-fe o Eílado , que fazendo algum 
dos inimigos guerra ao C,amorim pêra lhe 
entrar por fuás terras , e jurdiçao , ou de 
feus vaflallos , não dar favor, nem ajuda ak 
guma , nem tão pouco favorecer ao dito 
C,amorim , querendo entrar pelas terras dos 
outros Reys amigos do Eítado. 

Tendo o Qamorim guerra com os Ario- 
les, e ellando elles em amizade com oEf- 
tado , não favorecerá , nem ajudará alguma 
das partes , mas a todos tratará como ami- 
gos , trabalhando pelos compor,, fem feag- 
gravar das ditas guerras. 

Obrigou-fe o Eílado a não tirar de Ca- 
lecut as peças de artilheria , que foram to- 
madas na Fortaleza de Chalé 5 mas fempre 
eílarão na feitoria até fe porem na Forta- 
leza , que fe fizeíTe nas terras do C,amorim , 
que o Eítado defejaque fefaça em Calecut > 
havendo commodidade pêra iíTo, e poden- 
do fer ; mas não fe obriga a fazelía , fenâo 
onde for mais accommodada no tempo que 
lhe parecer mais conveniente. 

Juradas eílas pazes, partio-feD. Luiz da 
Gama pêra Goa , deixando D. Fernando de 
Noronha , como diííemos , fobre aquella 
barra; e chegando aGoa 5 deo razão de li 
ao Conde Vifc-Rey , que o defpachou lo- 
go pêra ir entrar de ferventia na capitania 
da Fortaleza de Ormuz , que eftava vaga. 
Couto. Tom. ult. Q^ por 



24^ ÁSIA de Diogo de Couto 

j3or falecimento de D. António de Lima, 
Capitão delia , e não hia entrar nelía por 
virtude da fua Patente, por ter ainda por 
cumprir algum tempo. 

Partido D. Luiz da Gama pêra Ormuz, 
ficou o Conde defpachando nuns Embai- 
xadores , que lhe tinham vindo do Achem, 
que elle recebeo mui honradamente em fa- 
la paramentada com todos os Fidalgos , e 
Capitães , que fe acharam naquelle tempo 
em Goa, e os apofentou muito bem, man- 
dando-os prover de todo o neceífario ^até 
fer tempo de fe tornarem, em que os def- 
pachou com fatisfaçao. E os pontos prin- 
cipaes que vieram tratar , eu os não fou- 
be , porque os não achei na Secretaria , on- 
de era razão que fe ifto achaífe ; mas fei 
que foram fatisfeitos : e o Conde Almei- 
rante os mandou embarcar no galeão da 
carreira de Maluco , de que Luiz Macha- 
do Boto era Capitão , e os mandou pro- 
ver muito bem do neceífario pêra a via- 
gem: e mandou ao Achem hum arrezoado 
prefente em retorno de outro , que os feus 
Embaixadores trouxeram, e deram á vela 
aos três de Maio deite anno de <)<). e de 
fua viagem adiante daremos razão. 



CA- 



Década XII. Cap. XL 243 

CAPITULO XI. 

lie huma fragata de Hefpanhoes de Ma- 
nilha y que foi ter d China pêra ajfentar 
pazes com os Chins , e fazer feitoria em 
hum de feus portos : e do que D. Paulo 
de Portugal fobre ijfo fez» 

JÁ demos conta no Capitulo XVI. do 
primeiro livro de como D. Paulo de 
Portugal partio pêra a China , agora con- 
tinuaremos com elle. Chegou efte Capitão 
ao porto de Macao em Outubro paliado, 
e logo dahi a quinze dias aportou a Cida- 
de de Cantão huma fragata das Manilhas, 
de que vinha por Capitão hum D. João 
de Samudeo , e com elle dous Religioíbs 
da Ordem de S. Francifco , que elle logo 
defpedio pêra a Cidade de Macáo com 
duas cartas pêra o Capitão que alli eftivef- 
fe. Huma delias de D* Francifco Tello, 
Governador da Manilha , e outra fua ; e o 
Governador dizia "na fua , que elle manda- 
va aquella embarcação a bufear chumbo, 
ferro , e munições pêra o ferviço das Ar- 
madas, qucElRey D. Filippe trazia naquel- 
las partes Filippinas : que lhe pedia déífe 
ordem com que pudefle haver aquellas cou- 
fas , e favoreceífe o Capitão que hia a i£ 
íb, pois todos eram vaflallos dehumRey, 



^44 ÁSIA de Diogo de Couto 

e a voltas diflb muitos cumprimentos , de 
que os Caftelhànos não são nada avaros. 
A carta de D- João de Samudeo continha 
o meímo , e pedia-lhe licença pêra fazer o 
negocio a que hia, e que o favorecefle na- 
quellas coufas como era razão, e com iíto 
também feus offerecimentos. 

Vendo D. Paulo de Portugal as cartas , 
e que a fragata paliara logo a Cantão fem 
tocar naquella Cidade , logo lhe pareceo. 
artificio , e refpondeo ao Samudeo que fe 
elle trazia Provisões de EIRey de Portu- 
gal , que aquelle porto , fua cafa , íua fa- 
zenda, e tudo o daquella Cidade eítavam 
muito preítes pêra feu ferviço ; e fe as não 
trazia, que entendeíTe que lhe não havia de 
confentir coufa alguma daquellas , antes lhas 
havia de eílorvar por todos os modos , e 
meios que pudeffe , por EIRey lhe ter de- 
fendido que os Caftelhanos das Filippinas 
não foíTem perturbar aquella terra ,. nem o 
commercio que os Portuguezes alJi tinham; 
e o mefmo diíle 4 e palavra aos Padres , que 
lhe levaram as cartas , e com iflb os def- 
pedio. E logo os moradores da terra en- 
tenderam que aquella fragata vinha nego- 
ciar algum porto novo naquelle Reyno, 
pêra nelle fazerem feu negocio, como lo- 
go antes de muitos dias fe declararam ; è 
que vinham com intenção de á força de 

di- 



Década XII. Cap. XI. 245* 

dinheiro fazerem o que pertendiam ; por-* 
que eíle Caftelhano começou a tratar feu 
negocio com os Mandarins , fazendo-lhes 
grandes promeíTas de muitos , e mui groí- 
fos proveitos 5 concedendo-lhes porto, em 
que elíes eíliveííem , pêra o que lhes deo 
muitas peças ricas 5 e curioías que pêra if- 
fo já levava, que eftas fam as chaves mef- 
tras , com que fe abrem todas as portas do 
mundo. 

D. Paulo de Portugal teve logo aviíb 
daquelle negocio ; e entendendo que feria 
de grande perjuizo affim do ferviço deEl- 
Rey 5 como do meneio , e proveito daquel- 
les moradores , e ainda dos mercadores de 
toda a índia , defpedio hum Tabellião com 
hum proteíto , e notificação ao Caftelhano 
Samudeo , em que lhe dizia, que fe trazia 
Provisões de EIRey pêra poder vir áquel- 
le porto , em contrario de outras , porque 
o defendia com graves penas , que as mof- 
traífe pêra fe trasladarem; e não fendo af- 
íim, que foubeíTe que lho havia de defen- 
der : e com iífo lhe eícreveo huma carta 
muito cortez , que mandou que fe lhe déf- 
fe primeiro que o proteíto ; e que fe não 
defiriífe a ella, então fizeíle as diligencias 
que levava a cargo. E o que dizia na car- 
ta era pedir-lhe aífim da parte de EIRey , 
como dafua, que não quizelTe ir perturbar 

aquel- 



2^6 AS IA de Diogo de Couto 

aquelle commercio , nem inquietar âqúefc 
la terra , apontando-lhe todos os inconve- 
nientes que havia , e as perdas y e damnos 
que as alfandegas da índia receberiam , e 
o trato dos vaflallos de EIRey D. Filippe , 
que era Senhor de ambas aquellas Coroas : 
e com ifto defpedio também hum Mathias 
Pinella , homem velho , e antigo naquelle 
porto , e muito conhecido dos Mandarins y 
pêra que os períuadiííe a lhe entregarem 
aquella fragata , ou lhe deíTem licença pê- 
ra elle a ir tomar y e que lhe fizeffe mui- 
tos cumprimentos , e promettefíe grandes 
dadivas. Quando elle homem chegou , já 
os Caílelhanos tinham feito feu negocio , 
e alcançado a licença que queriam á for- 
ça de dinheiro ; porque de Cantão mandou 
o D. João de Samudeo dous Caílelhanos 
com huma petição ao Aitâo , que era Go- 
vernador daquella Provincia , em que lhe 
dizia que elle chegara aili com tempo for- 
tuito, que pedia lhe déíTe licença pêra no 
porto do Pinhal y que era ... . léguas de 
Macáo , pudeífe fazer feitoria , e pagar di-* 
reitos a EÍRey da China de fuás fazendas. 
Diíto avifou logo Mathias Pinella a D. Pau-» 
lo de Portugal , que fez junta de todos os 
moradores , e lhes pedio que lhe deííem 
feus pareceres fobre o que faria naquellç 
negocio j e todos affirmáram que não era 

pof- 



Década XII. Cap. XI. 1147 

poifível darem os Chins porto aos Cafte- 
lhanos 3 por fer coufa que encontrava luas 
leis , de que elles fe moftravam , e eram 
tão obfervantes ; mas que por lhe eftorva- 
rem carregarem fora , como já acontecera 
outra vez , eftando alli D. Franciíco dTEça , 
fazendo a viagem de Japão , á outra em- 
barcação , como aquella que foi alli ter das 
Manilhas, que fe mandaíTem dous homens 
a Cantão com credito, e dinheiro pêra al- 
cançarem daquelJe Governador que lheman- 
daífe entregar os Caftelhanos ', ou os dei- 
taíTem fora. do feu porto. Pêra eíle nego- 
cio efcolhêram por eleição hum Domingos 
Carvalho , e António Carvalho de Araújo, 
que acharam em Cantão tão traftornado, 
tudo da parte dos Caftelhanos , que lhes 
não refpondêram a propoíito , porque já 
os Caftelhanos eftavam de poííe do porto 
do Pinhal. No que fe vê claramente quão 
grande he a força da cubica , e intereffe, 
oue faz que eftes tão inteiros na guarda de 
íiias leis , as quebrem com tanta facilida- 
de pelo intereffe que efperavam dos Caf- 
telhanos. 

Com efta certeza que D.Paulo de Por- 
tugal teve , aflentou de ir áquelle porto 
em bufca dos Caftelhanos , e trazellos ao 
de Macáo , e mandallos prezos á índia , 
pêra que o Conde Vifo-Rey os mandai! e 

pre- 



248 ÁSIA de Diogo de Couto 

prezos ao Reyno , com os autos de fuás 
culpas , e proteftos que primeiro lhe fize- 
ram ; porque fe fenão fizefle iílo affim, 
perder-fe-hia aquelle commercio , e não ti- 
nham os Portuguezes pêra que morar na- 
quella Cidade , nem os mercadores da ín- 
dia a que ir lá com fuás fazendas; e aífim 
fe começou a preparar , e negociar os ba- 
téis das náos 5 que alli citavam pêra ir fo- 
bre elles. 

Iílo fe foube logo em Cantão 5 e os 
Mandarins defpedíram com muita brevi- 
dade hum proteíto a D. Paulo de Portugal , 
em que lhe requeriam que não foífe in- 
quietar os eftrangeiros , que eftavam nos 
portos de EIRey da China, que lhe paga- 
vam direitos de fuás fazendas : o que man- 
daram fazer com grandes ameaças , e lo- 
go fe começaram de enxergar fombras del- 
ias 3 porque começaram de ir faltando os 
mantimentos , e outras coufas que havia or- 
dinariamente na terra : pelo que foram os 
moradores que alli havia com grandes re- 
querimentos a D. Paulo de Portugal , pe- 
dindo-lhe que deíiíliífe daquella jornada; 
porque fe o não fizeíle , eftavam arrifca- 
dos a lhe acontecerem grandes males , pois 
viviam n'uma terra toda aberta , e fem de- 
fensão alguma ; e todas as vezes que os 
Chins quizeflejn, estornariam ás mãos fem 

lho 



Década XII. Cap. XI. 249 

lho poderem defender , nem contradizer; 
e que aquelles homens eram muito ciofosr 
de fua liberdade , e de lhe quebrarem os 
mandados do feu Rey ; e que indo a feus 
portos fazer guerra aos eftrangeiros que 
nelles eítavam, além da defobediencia em 
que incorriam , citavam arrifeados a outro 
não menor perigo : era elte virem as Ar- 
madas da China em favor dos Caftclhanos , 
contra quem fora calo graviffimo peleijar 
os Portuguezes. Com iíto que os morado- 
res Portuguezes daquella Cidade diíferatn 
a D. Paulo de Portugal , ceifou dos aperce- 
bimentos que hia fazendo , e defiftio da 
jornada que queria fazer contra os Caíte- 
lhanos. Eli es ficaram por então carregan- 
do a fua vontade ; e como levavam mui- 
tos reales , e gaitavam largo , compraram 
a feda , peças 3 e mais coufas de brincos , 
e fazendas com tanta largueza , que fubí- 
ram os preços de maneira , que não oufá- 
ram os mercadores da índia a empregar 
feus cabedaes ; e aííim partiram as náos ef- 
ta monção pêra a índia quaíi vaíias deitas 
coufas que coítumavam levar. 

Por eítas mefmas náos avifou D. Pau- 
lo de Portugal de tudo iíto ao Conde Vi- 
fo-Rey 3 que chegaram a Goa no fim de 
Abril ? e o Conde propoz em Confelho o 
avifo que D, Paulo lhe mandou dos Caf- 

te- 



2^0 ÁSIA de Diogo.de Couto 

telhanos ; e aíTentoa-fe nelle que fe efcre- 
vefle a D. Paulo , que conforme as ordens 
que tinha de Sua Mageítade, em que pro- 
hibia paliarem Caftelhanos á China , lho 
impediííe , e os íançaíTe fora , fe ainda lá 
eftiveíTem. E por virtude^ deita ordem foi 
D. Paulo de Portugal no anno feguinte con- 
tra os Caftelhanos , que eftavam no porto 
dò Pinhal , e os lançou delle á força de 
armas , e não tornaram lá mais. 




' 



DE- 



DÉCADA DUODÉCIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO III. 

CAPITULO L 

Do que nefte verão aconteceo na conquifta 
da Ilha Ceilão : e das vitorias que os 
nojfcs alcançaram do Tyranno de Can^ 
dea : e da fermofa tranqueira que D. Je« 
ronymo mandou fazer no lugar de Ma* 
nicravaré. 

A Lcançadas as vitorias que diíTemos 
/\ nas fete Corlas , e desfeitas as tran- 
-*■ -^ queiras dos inimigos , determinou 
o Geral D. Jeronymo de Azevedo de man- 
dar fa^zer huma tranqueira em Manicrava- 
;ré 5 por ficar mais vizinha aoReyno deCan- 
dea , pêra dalli o poder conquiftar, e fa- 
zer naquella tranqueira armazém , e aíTen* 
to de guerra , e ficar dalli como prefidio, 
e caítello contra as quatro Corlas. Eíla 
tranqueira determinou que foíTe de pedra 
pêra mor fortificação , e fegurança da gen^ 
te , que nella havia de eílar : pêra o que 
ajuutou grande número de gaíladores 9 e 

of- 



ftg* ÁSIA de Diogo de Couto 

©fficiaes , e todas as achegas , e materiaes 
neceflarios pêra aquella fábrica , que encar- 
regou a Salvador Pereira da Silva , que 
partio com grande cópia de Lafcarins , e 
os mais Toldados Portuguezes que fe pu- 
deram ajuntar; e huma légua antes- de che- 
gar ao Forte de Manicravaré , em Setem- 
bro paíTado de noventa e oito 9 alojou feu 
campo , em que eíteve alguns dias , em que 
fe recolhiam as coufas neceíTarias pêra a 
obra que hia fazer , pêra no mefmo dia 
que chegaífem fazer tudo 5 porque íufpei- 
tava que tratava o tyranno de faltear os 
noíTos a noite que chegaffem , primeiro que 
fe fizeffem fortes , por impedir aquella 
obra , que lhe ficava fendo de grande da- 
mno , e perjuizo , por lhe taparem com el- 
la as portas do Reyno de Candea , onde 
íicaria encurralado. Juntas as achegas , par- 
tiram os noíTos pêra o lugar, onde a For- 
taleza fe havia de fazer ; e cm chegando 
a elle , logo fe fortificaram ; e quando foi 
a noite feguinte , em que os inimigos ti- 
nham determinado de os allaltar 5 eftava já 
feito hum forte de madeira defenfavel , e 
os noíTos dentro nelle mui feguros , e os 
inimigos, fruftrados em feu defenho fem 
Gufarem a bulir comfigo. 

Os nofíbs foram logo pondo as mãos 
á obra da Fortaleza de pedra ? em que gaf- 

tá- 



Década XII. Cap. I. 25-3 

taram efpaço de quatro mezes com gran- 
de cuíto , e trabalho j e com terem eíta, 
não deixaram de fazer algumas entradas 
nas terras do tyranno , de que fempre fe 
recolheram vitorioíòs. 

Vendo o tyranno que não podia eítor- 
var aquella obra , determinou de divertir 
o Geral , pêra o que fe paífou com feu ex- 
ercito ás fronteiras de Dinavaca , por on- 
de começou a fazer muita guerra poraquel- 
las terras , que eram noíías ; ao que o Ge- 
ral acudio com outro exercito , que for- 
mou de foldados que tirou dos preíidios , 
que tinham por partes , deixando-os fem- 
pre com guardas, de quem mandou por Ca- 
pitão Salvador Pereira da Silva pêra con- 
rraftar os inimigos , como fez , tendo com. 
elles alguns recontros, em que os desbara- 
tou. A Fortaleza de Manicravaré foi-fe 
continuando até de todo fe acabar com feus 
muros , baluartes , e huma torre no meio 
de dous fobrados, obra tão bem acabada, 
e forte , que fe teve por inexpugnável pê- 
ra aquella Ilha , pêra onde fe paífou o mef- 
mo Geral com o refto do exercito em prin- 
cípio de Janeiro paífado de noventa e no- 
ve , e alli fez apercebimentos pêra man- 
dar entrar pelas Corlas. 

Ifto entendeo logo o tyranno ; e vendo 
quanto lhe importava fuílentar aquellas Cor- 
las > 



254 ÁSIA de Diogo de Coyro 

las 3 aflim as quatro , como as fete ; porque 
fe fe perdeííem , ficava o Reyno de Can- 
dea aberto , defabrigado , e diminuído nas 
forças : paffou-íe áquellas partes com to<- 
do feu poder , e do de EIRey de Huva, 
em que havia perto de finco mil homens , 
e foi-fe aíTentar nas fete Co rias , e delias 
defpedio hum Capitão com parte da gen- 
te , pêra que fe folie vizinhar ás noílas For- 
talezas fronteiras. Ao que o Geral acudio 
•com mandar Salvador Pereira da Silva com 
duzentos Portuguezes , e dous mil Lafcarins , 
que foi marchando ao longo de hum rio, 
que divide as fete Corlas do Reyno da Co- 
ta , e Ceitavaca \ e ao outro dia paíTou par- 
te da gente á outra banda , pêra que foíTe 
reconhecer o fitio mais accommodado , pê- 
ra formar nelle alojamento pêra todo o 
arraial ? em quanto fe alimpava , e roçava 
o mato pêra elle. Andando os nofibs nef- 
ta obra 5 os eommettêram os inimigos por 
muitas partes ; mas como os noílos eíta- 
vam em contínua vigia , e andavam fem- 
pre com as armas nas mãos , refiftíram-lhe 
valerofamente ; e depois de terem huma 
arrezoada batalha , puzeram os inimigos 
em desbarato com morte , e cativeiro de 
muitos de quem fouberam como o Rey 
deHuva fe avizinhara com o noífo arraial, 
€ ficava delle menos de meia légua , com 

ten- 



Década XIL Cap. I. 257 

tenção de defender aos noflbs a paíTagem 
do rio , pêra que não foíTem aíTentar feu 
exercito no lugar de Adegalitota , donde 
podiam fazer muito damno. Os noflbs avi- 
iáram logo deitas coufas ao Geral , que man- 
dou com muita prefla abalar toda a mais 
gente , e por Capitão delia . . . • que foi 
caminhando , e de paíTagem ganhou três 
tranqueiras , que os inimigos tinham feitas 
cm partes eftreitas, e nellas mataram mui- 
tos dos inimigos. E os que efcapáram , fo- 
ram dar rebate ao Rey de Huva 5 que lo- 
go fe abalou do lugar em que eílava , e 
formou feu exercito , e fe poz em campo 
aberto pêra efperar os noflbs , que cuida- 
ram achallo defcuidado. E quando appare- 
cèram , víram-fe fobrefaltados , e embara- 
çados , porque o inimigo logo os commet- 
teo com grande fúria ; e como os noflbs 
hiam já com as armas nas mãos 5 reliítí- 
ram-lhe com tanto valor 3 e esforço , que 
em pouco efpaço lhe desbarataram a van- 
guarda , e os arrancaram do campo com 
bem de damno. E conhecendo a vitoria, 
que lhe Deos dava ? foram dando nelles , 
e fazendo tão grande deftruição , que ma- 
taram mais de duzentos , e neíte alcance 
chegaram ao corpo do exercito , onde eíta- 
va o Rey de Huva ; e inveftindo huns , e 
outros j fez a noíía efpingardaria bem feu 

of- 



25*6 ÁSIA de Diogo de Couto 

officio , com que os inimigos pararam até 
fe tornarem a ajuntar a feu corpo. Os da 
vanguarda, que foram fugindo juntos, vcl* 
taram com tao efpantofa fúria , que fe vi- 
ram os noffbs perdidos ; mas entendendo 
que o remédio de fuás vidas eftava no va^ 
lor , e esforço de feus braços , moílráram 
o ultimo de feu esforço, e como defefpe- 
rados fe mettêram entre os inimigos , em 
quem fizeram tantas cruezas , que lhes vol- 
taram as coitas poílos em desbarato , e nel- 
Jas lhe foram os noífos dando , como quem 
já os levavam de vencida , fazendo nelles 
muito grande eítrago. Nefte encontro fe 
perderam duzentos dos inimigos , e muitos 
Modeliares , e ganharam os noífos muitas 
armas, e outros defpojos, e fe recolheram 
ao fitio de Adegaiitota, onde ai evan taram 
fuás tranqueiras , e fortificações á fua von- 
tade , e fem impedimento. Succedeo iita 
no fim de Janeiro paífado de noventa e 
nove. 



CA- 



Década XII. Cap. IL 357 

CAPITULO II. 

De huma alteração que houve entre os foU 
dados da conquifia Cobre fuás pagas : e 
do fvccorro que o Conde lhe mandou por 
D. Francifto de Noronha : e do que lhe 
fuccedeo na viagem. 

Afiadas as vitorias, que atrás contámos* 
com tanto rifco dos foldados ., entra- 
ram em outro maior , e mais pêra temer, 
e arrecear j que foi a fome, e falta de pa- 
gas, porque os foldados que militam ,*e an- 
dam neíta conquifia ( que eu tenho pelos 
mais exercitados , e affoutos que ha na ín- 
dia ) como eftam fartos , commetterám fèm 
temor todos os perigos do mundo , e pe- 5 
leijarám com elefantes bravos. E efta fal- 
ta de pagas , por que o Geral efperava da 
índia, foffrêram tão mal, que muitos del- 
les fe alvoraçaram , e fe foram pêra as fer- 
ras , onde fe fizeram fortes , e fahiam em 
magotes a bufcar de comer pelas Aldeãs. 
Difto teve logo avifo o Conde Vifo-Rey 
por cartas de Ceilão ; e vendo que lhe era 
neceíTario acudir áquelle negocio, fabendo 
que no porto de Goa eflava huma náo de 
Thomé de Soufa de Arronches , Capitão 
de Columbo , mandou logo embarcar nel- 
la cento e íincoenta foldados y vinte mil 
Cêuto. Tom. uít* R par* 



i<> 8 ÁSIA de Diogo de Couto 

pardáos em dinheiro, muitos mantimentos, 
munições , lanças , e efpingardas , e ele- 
geo por Capitão delia pêra fazer efta jor- 
nada D. Francifco de Noronha , que fe fez 
á vela já quaíí aos vinte de Abril deite an- 
bo de 99. em que andamos. E além dos 
foldados que fe pagaram, mandou o Con- 
de embarcar muitos , que eítavam no tron- 
co fentenceados a degredo ; e aílim fe em- 
barcaram alguns Fidalgos : huns quehiam a 
fervir, e outros a cumprir feus degredos, 
e apreíentar-fe. E dos que pude faber foram 
André Pereira Coutinho , Luiz de Lacer- 
da, D. Manoel, e D. Pvodrigo de Caftro, 
ambos irmãos, e filhos de Baçaim, a que 
na índia chamam os Mangaritos , Ruy Qua- 
drado de Almadão, e outros. 

E feguindo eíle Capitão fua derrota , ef* 
íando tanto avante como Cananor , tive- 
ram os degradados tomado o batel pêra 
fe acolherem. No que fe vê quanta força 
tem a perda da liberdade, que no que e£ 
tes queriam fazer em fugir , tinham por 
menor mal arrifcarem-fe a tão conhecido 
perigo, como era metterem-fe n 5 um batel 
em tempo tão perigofo do inverno , que 
irem a Ceilão contra fua vontade , fendo 
fcuma terra pêra onde tantos folgavam de 
ir fervir EIRey por feu goílo pela profpe- 
ridade., frefcura,.e abundância que tem, e 

. em 



Década XII. Cá*. II. 25^ 

em que muitas vezes ha occaíióes , em que 
os homens enriquecem. 

Deita alteração 5 e determinação deites 
homens teve D. Francifco de Noronha re- 
bate, a que logo acudio, mandando metter 
homens defua obrigação no batel $ que le- 
vou fempre grande refguardo. E paliado 
o Cabo C,amorim i atraveíTou aquelle golfo 
com tempo muito rijo , que lhe durou até 
haver viíta da terra de Gale , e alli furgn 
ram duas léguas ao mar , fem faberem on- 
de eítavam. E por fe arrecear de dar acoi- 
ta por razão de andar o mar muito grof* 
fo , e o vento tezo , e o tempo tão carre-* 
gado , que hia moítrando , e dando íinaes: 
do inverno , que he alli mui perigofo , eíà 
teve D. Francifco de Noronha mui inde* 
terminado no que faria , porque havia hum 
reboliço nos foldados 5 que defejavam de 
arribar a Tutocori ; ao que eile acudio , e 
atalhou, dizendo-lhes , eaffirmandoatodos 

?ue ainda que fe perdefle , havia de ir a 
leilão pela grande neceffidade , em que 
aquella conquiíta eítava daquelle foccorro; 

Çorque entendia mui bem que íe foífe a 
'utocori , nenhum daquelles foldados qu£ 
levava lhe havia de ficar , e que todos os 
provimentos , e munições fe haviam de da-* 
mnar , e confumir. E que pela confiança 
que oVifo-Rey delle tinha , o elegera pef a 
• i & ii aquel- 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

aquella jornada , que elle por nenhum cafo 
havia de deixar de fazer , e levar aquelle 
fo.ccorro a Columbo , ainda que fearrifcaf- 
fe a todos os perigos até perder a vida, 
porque com eíles ficava EIRey melhor fer- 
vido , e elle fatisfiazendo a fua obrigação. 
E tão refoluto eítava niílo , que mandou 
metter o dinheiro , as efpingardas , e mu- 
nições em pipas , e quartos , e aboiar tu- 
do com viradores groíTos , e fortes pêra o 
tempo da neceífidade. E diíTe aos Officiaes , 
que quando não houveffe outro nenhum re- 
médio , varaífem com a náo naquella ter- 
ra que apparecia, em parte que fe pudeífe 
falvar a gente , e o cabedal ^ que elle fe 
obrigava a pagar de fua fazenda a náo a 
feu dono. E por lhe não ficar coufa ne- 
nhuma por fazer, vendo que apparecia hu- 
ma fermofa praia de arêa, mandou chegar 
o batel a bordo , e o efquipou mui bem 
de remos , e marinheiros , e pedio a hum 
daquelles Fidalgos que com elle hiam ,' que 
fe embarcaífe nelle , e fofle demandar a 
praia que apparecia, e trabalhaífe por ha- 
ver ás mãos algum Piloto , que os guiaíTe 
a porto feguro , do que o Fidalgo fe ef- 
culou ; e havendo entre elle , e o Capitão 
algumas razões , fe oífereceo hum Álvaro 
de Barros , foldado velho , bom cavalleiro , 
que hia provido da Capitania do porto de 

Ca- 



Década XIL Cap* IL 261 

Caleturc , e diíTe a D. Francifco de Noro- 
nha 5 que elie iria no batel a fazer aquella 
diligencia , e que efperava em Deos que 
a havia de fazer muito bem, o que llie o 
Capitão acceitou , e mandou embarcar com 
elle alguns companheiros , dando-lhe por 
regimento que fofle demandar aquella praia; 
e que fe achafle alli alguma povoação , tra- 
balhaíTe por negociar hum Piloto , ou dous , 
pêra o que lhe deo dinheiro ; e como os 
Chingalas por elle venderam mulher, e fi- 
lhos , fe os alli houvera ., não deixaram de 
vir. 

Depois de partido efte batel , appareceo 
huma almadia , que tinha fahido de Gale , 
e capeando-lhe veio á náo , e dos que vi- 
nham nella fouberam a paragem em que 
eílavam , que era entre Gale , e Beligão. E 
por não vir nella quem os foubelíe guiar, 
e encaminhar , defpedíram a almadia com 
huma carta pêra o Capitão de Gale , em 
que o Capitão da náo lhe dava conta do 
eftado em que ficava., e lhe pedia o man- 
daífe foccorrer com Pilotos , que os reco- 
lheíTem em algum porto feguro. 

Tal diligencia poz Álvaro de Barros 
naquelle negocio , que lhe encommendá- 
ram , que chegou á terra , e nella negociou 
logo dous Pilotos , que mandou no batel , 
que D. Francifco de Noronha feítejou bem, 

e 



i6z ÁSIA dè Diogo de Couto 

e lhe perguntou onde feria melhor reco- 
lherem-fe , fe em Gale , ou Beligão , e fe 
fe atreviam a metter aquella náo em qual- 
quer daquelles portos ? e ambos diííeram 
que em Beligão era melhor, porque a ília 
barra tinha de maré cheia de quatro pêra 
finco braças de agua, e que elles trabalha- 
riam pela metter dentro ; mas que fc não 
obrigavam a coufa alguma. 

Fazendo D. Francifço de Noronha feus 
difcurfos , alíentou de commetter a barra de 
Beligão , ainda que a náo fe arrifcaíle ; por- 
que como falvaílem a gente , dinheiro , e 
munições ,, de tudo mais lhe dava pouco, 
E determinado nifto , mandou aos Pilotos 
que folfem a Beligão , que Deos , em quem 
confiava, os ajudaria. E aílim deram á vé* 
la , e chegaram defronte da barra a tem^ 
po que eftava amare meia cheia, com que 
commettêram a entrada ? e foram por fete 
braças ; e logo mais dentro deram em qua- 
tro , e mais adiante em três e meia, com 
o que D. Francifço fe houve por perdido. 
E como levava todas as coufas aboiadas y 
e poftas no convés pêra as baldear no ba- 
tel, mandou-o levar a bordo, e deixou-fe 
ir. E quiz Deos por fua mifericordia , que 
das três braças e meia deram logo em 
finco , e depois lhe foi crefcendo mais o 
fundo, e os da náo alegrando-fe 7 e fefte- 

jan- 



Década XII. Cap. II. a6$ 

jando muito , e allím foram furgir perto 
da terra. E efta foi a primeira náo que en- 
trou nelle porto , e ficou dalli adiante fa^ 
cil a todos. 

D. Francifco de Noronha mandou des- 
embarcar tudo o que levava 5 e em terra 
fez fuás eftancias , e fe fortificou mui bem , 
e defpedio recado a Gale , pêra que lhe 
mandaíTem fervidores que acarretaflem 
aquella fabrica. Ao que acudio D. Fernan- 
do Modeliar com muita gente da terra , 
com que D. Francifco de Noronha come- 
çou logo a marchar com muito boa ordem > 
e recado. E nos lugares , em que fe haviam 
de alojar pêra jantarem, ou dormirem, em 
breve efpaço fe fortificaram á roda ; por- 
que como os fervidores eram muitos , e os 
matos grandes , e efpeífos , facilmente fe 
fazia tudo. E por efta razão alguns alevan- 
tados que encontrou , não oufáram aos com- 
metter. Nefta ordem chegou a Columbo â 
falvamento , onde foram muito feftejados , 
e o Geral teve já com que pagar, e quie- 
tar os foldados , com que tornou a profe- 
guir na guerra , como logo diremos. 



CA- 



364 A SI A dé Diogo de Couto 

CAPITULO III. 

De outras vitorias que os nojjos alcançai 
ram em Ceilão em differ entes partes. 

ENvergonhado o Rey de Huva de fer 
tantas vezes desbaratado , temendo-fe 
do tyranno D. João , deixou-fe ficar nas 
feteCorlas bem alongado das eftancias 5 em 
que os noííos ficavam , e da terra de Ga- 
litota, e alii tornou a recolher a mor par- 
te da gente ? que lhe eícapou daquelle des- 
barato. O tyranno D. João tanto que vio 
perdida aquella jornada , em que elle tinha 
grande confiança , determinou de ajuntar 
fuás gentes , e tornar a profeguir a guerra 
por aquella parte , o que não pode fazer ; 
porque andavam os feus tão medroíbs da- 
quelles fucceífos , e tão enfadados daquel- 
la guerra , que não quizeram acudir , fobre 
o que o tyranno ufou grandes crueldades 
com elles , mandando defcabeçar muitos , 
e mandou chamar o Rey de Huva que acu^ 
dio , e andou em peíToa por fuás terras 
ajuntando gente até formar hum arrezoa^ 
do exercito , com que tornou a defpedir 
aquelle Rey com ordem que fe afFaftaífe 
dos noííos , e foíTe impedir os defenhos de 
D. Jeronymo , que eram obrigar os natu- 
raes das Corlas a fe reduzirem á obediên- 
cia, 



Década XII. Cap. III. 26$ 

cia , em que lhe dantes citavam , pêra com 
iíTo poder mais facilmente commetter a 
conquiíta do Reyno de Candea , e metter- 
lhe a guerra dentro em cafa, pêra affim o 
encurralar de feição , que ou deixaííe as 
terras, ou o perfeguiííe tanto até o matar, 
ou haver ás mãos ; o que o tyranno enten- 
deo bem , e trabalhou tudo o que pode 
pelo divertir. E pêra iílo teve inteligên- 
cias fecretas com osLafcarins do noílo ex- 
ercito , que citava nas fronteiras de Dina- 
vaca , e a poder de peitas os fez paffar a 
fi , com o que aquellas terras fizeram mu- 
dança. ( 

Tanto que os noílos viram os Lafca- 
rins pafTados pêra o inimigo , recolhêram- 
íe aos fortes de Corvite , e Batugedere , 
aonde ficaram cercados por terem tudo con- 
tra íi. Eitava o Geral neíte tempo nas fron- 
teiras de Candea penhorado comaconquif- 
ta , que queria fazer por aquelle Reyno , 
com o que os inimigos tiveram lugar de 
cobrar animo , e fazerem alguns damnos 
çm noífas terras , e entrarem por ellas até 
defronte da tranqueira Malvana. Do que 
fendo D. Jeronymo avifado , proveo a tran- 
queira de Manicravaré , em que eitava, de 
três companhias defoldados, de que eram 
Capitães Thomé Coelho , que era cabeça 
de todos y João Serrão da Cunha ; e Dio- 
go 



2.66 ÁSIA de Diogo de Couto 

go de Araújo , e de mantimentos , e mú-» 
mçóes pêra muitos dias. E elle com huma 
companhia de foldados , e oitocentos Laf- 
carins fe paíTou á Cidade de Seitavaca por 
eítar no meio de todo o Reyno , e mais 
vizinha á fronteira de Dinavaca , onde os 
inimigos andavam; contra quem defpedio 
Simão Pinhão com outra companhia de Tol- 
dados , e oitocentos Laícarins , que os en- 
contraram no lugar de Sofragao ; e depois 
de terem com elles hum bem porfiado re- 
contro 3 os arrancaram os noílbs do cam- 
po, deixando muitos mortos, que por el- 
le ficaram : e aííim teve o Simão Pinhão 
tempo de vifitar as Fortalezas de Corvite, 
e Batugedere , em que fe tinham recolhi- 
do os que andavam nas partes de Dinava- 
ca y como dilfemo? , que proveo muito bem 
de tudo* 

Daqui mandou o Geral que paífaífe o Pi- 
nhão pêra as terras vizinhas da Malvana , 
onde já eítavam os rebellados , e princi- 
paes cabeças daquelle alevantamento. E o 
mefmo Geral também fe abalou por outra 
parte , de maneira que os colheram em 
meio , e os cercaram em forma , que por 
não terem remédio fe entregaram , e vie- 
ram á obediência , e o Geral mandou cor- 
tar as cabeças aos que o foram daquelle 
alevantamento : e depois foi pouco, e pou- 
co 



r Década XII. Cap. III. 267 

co juftiçando os mais culpados , com o que 
apagou de todo aquella labareda , que lhe 
abrazava a terra. O tyranno foi mettendo 
todo feu cabedal pelas Corlas , pêra dar 
em que entender ao Geral ? e divertillo de 
feu intento ; pelo que lhe foi neceiTario 
mandar outra vez o arraial contra aquelle 
inimigo , e em muitos recontros que lá ti- 
veram com fuás gentes , fempre os noífos 
ficaram com vitoria , e fe recolheram com 
muitos cativos , e prezas. O noífo arraial y 
que eftava na tranqueira de Balitote , tam- 
bém não efteve neíle tempo ociofo , porque 
o mandou o Rey de Huva commetter com 
mais de féis mil homens ; mas o Capitão 
Salvador Pereira , que já eítava avifadoda- 
quillo, primeiro que chegaífe , lançou osLaf- 
earins da terra fora das tranqueiras em ci- 
lada nos matos , pêra ao tempo que o com- 
metteífem, lhe darem pelas coitas 5 . e os des- 
baratarem , do que fe elles temeram , e por 
iífo não quizeram inveílir a tranqueira, an- 
tes eíliveram dez dias fobre ella commet- 
tendo-a por efcaramuças , de que fempre 
fe recolheram efcalavrados. 

E por não ficar ao tyranno de Candea 
coufa que não commetteífe por divertir , e 
embaraçar ao Geral , mandou ao meílno tem- 
po commetter a tranqueira de Manicrava- 
ré com hum Capitão de quatro mil ho* 

mens , 



z68 ÁSIA de Diogo de Couto 

mens, como fizeram com grande determina- 
ção y e por eípaço de meio dia tiveram 
com os noílbs huma groíTa eFcaramuça de 
arcabuzaria , de que lhe ficaram muitos ef- 
tirados no campo ; e tão mal os hoFpedá- 
ram os noflbs , que no mefmo dia Fe re- 
colheram , ficando o campo Femeado de 
muitos corpos eFpedaçados. 

O Rey de Huva , que efíava fobre o 
noíTo Forte de Balitote , vendo que gaflava 
o tempo Fem proveito , e que eftava arriF- 
cado a fer Falteado i e desbaratado dos noF- 
fos , retirou-Fe ; porque também Foube que 
o Geral mandava Foccorrer aquella tranquei- 
ra, e dalli Fe paliou ás terras de Chilao, 
deixando huma légua daquella tranqueira 
de Balitote hum corpo de mil homens , os 
mais delles de eFpingardas , em huma tran- 
queira que Fez n\im paílo, pêra que ajun- 
tando-Fe alli a gente das aldeãs vizinhas , 
impediílem as entradas aos noíFos por aquel- 
Ias partes , porque de todas Fe arreceavam. 
Do que aviíàdo o Geral , mandou dar nel- 
les hum Capitão com Fincoenta Portugue- 
zes , e trezentos LaFcarins , que os puze- 
ram em desbarato , entrando-lhes a tranquei- 
ra com mortes de muitos. Com eFte íuc- 
ceíFo Fer retirou logo o Rey de Huva das 
partes de Chilao , pêra onde Fe paliou, aF- 
íim porque também lá Foi mal agazalha- 

do 



Década XII. Cap. III. 269 

do dos noflbs 5 como por fe recear que 
inandaííe o Geral outro poder fobre elle. 

Vendo o tyranno de Candea quão mal 
lhe fuccediam todos os feus ardis, e quan- 
ta gente linha perdida por aquelles aífal- 
tos , attribuio tudo a covardia do Rey de 
Huva, pelo que o mandou recolher a Can- 
dea ; e o feu cargo , que era de Capitão 
geral do campo 3 deo a hum Príncipe do 
langue dos antigos Reys , mancebo havido" 
por atrevido, que querendo moftrar ao ty- 
ranno que não ficava enganado naquella 
eleição , fe abalou logo com todo o ar- 
raial , e gente que trazia o de Huva con- 
tra a Fortaleza de Balitote , que já o Ge- 
ral tinha fcccorrido com gente \ e muni- 
ções , que accommetteo com algumas eíca- 
ramuças de efpingardaria. E vendo Salva- 
dor Pereira , Capitão delia ) que o inimigo 
o não oufava ainveítir, lhefahio com hum 
corpo de gente , e remetteo a elle com tan- 
ta fúria y que em breve efpaço o poz em 
desbarato, com morte de mais de cento, 
ficando efte Príncipe no primeiro aíTaifo 
que commetteo y tão mal afFortunado , como 
o Rey de Huva , porque fe metteo pelos 
matos tão atemorizado como o outro : e 
os feus que efcapáram y foi tal o feu medo , 
que não pararam fenão dentro em Candea. 
Com iílo ficaram as Corlas defpejadas , fi- 
cai!- 



270 ÁSIA de Diogo de Còutô 

cando fó o Príncipe nos confins delias , duas 
léguas do noflb arraial , fem oufar de ir 
diante do tyranno. O que fabido pelos da 
tranqueira da Balitote , fahíram de noite 
em boa ordem , e no quarto da alva de- 
ram nelle com tanto eílrondo , que o pu- 
zeram em fugida , e o tornaram a metter 
pelos matos , e o foram feguindo , e quei- 
mando muitas aldeãs , povoações , e pago- 
des : com o que defenganados os povos 
das Corlas de o tyranno os poder defen- 
der 5 fujeitáram-fe á obediência. 

CAPITULO IV. 

Das razoes que moveram ao Arcebifpo D* 
Fr. Aleixo de Menezes a ir vijitar os 

Chrifiãos de S. Thomé : e de huma bre- 
ve relação das coufas dejle Santo Apojlolo* 

A Gora que he tempo do inverno , que 
eltam paradas as coufas do Governo , 
daremos razáo do que moveo ao Arcebif- 
po D. Fr. Aleixo de Menezes pêra ir vi- 
íitar a Chriílandade das ferras do Malavar, 
pêra onde o deixámos partido : o que tra- 
balharemos pelo fazer brevemente , porque 
a hiftoria nao foíFre tanto , e fam coufas 
eífenciaes deíle tempo do Conde Almei-» 
rante, pois nellas trabalhou com ajuda, è 

fa- 



Década XII. Cap. IV. 271 

favor ; e he bem que de quando em quan- 
do paflemos da terra ao Ceo , e do politi- 
co ao Divino : e começaremos pela entra- 
da do Santo Apoílolo na índia, conforme 
ao que fe acha efcrito nos livros Caldeos 
deita Chriftandade, onde ha muitas coufas, 
de que a fua lenda não trata. 

Pelo que fe ha de faber que eftesChri- 
ftaos tem por tradição defde o tempo deite 
Santo Apoílolo até agora , que por morte 
do Filho de Deos Chriíto Jeius Senhor , e 
Redemptor noíío fe repartiram os feus do- 
ze Difcipulos pelo mundo a pregar a Lei 
da Graça. E que andando efte Santo Apoí- 
tolo eWt companhia de S. Judas Thaddeo, 
pelas partes de Mefopotamia , fabendoque 
paliavam huns mercadores pêra a índia , 
defejando de fe embarcar pêra aquellas par- 
tes , onde havia tamanha fama daquella Gen- 
tilidade, apartou-fe do Apoítolo S. Thad- 
deo feu companheiro, fegundo fua lenda, 
na Cidade de Edelía. E os livros Caldeos 
da Serra dizem , que vendeo feu corpo a 
hum daquelles mercadores , ou fe concer- 
tou com elle pêra o fervir naquella jorna- 
da , e aiTim fe embarcou com elle fem di- 
zer pêra onde ; e a náo em que hia tomou 
a Ilha C,acotorá , onde ficou pregando á 
gente daquella Ilha , pelo que tenho dúvi- 
da na venda , que de íí fez o Santo Apoi- 

to- 



iji A SI A de Diogo £>e Couto 

tolo; porque letal fora, não havia de dei- 
xar o dono de feu corpo , antes houvera 
defeguir feu amo, como feu cativo; íenao 
fe o mercador vendo fua muita virtude , e 
doutrina , de fua livre vontade lhe déííe li- 
cença pêra ficar alli. Em fim, como quer 
que foífe , o Santo Apoílolo converteo a 
mor parte dos moradores daquella Ilha , e 
lhes fez hum Templo , em que adoraífem 
a hum fó Deos , em que havia de deixar 
alguma Cruz , porque então não tinha ou- 
tro retabolo , e com ilfo lhes deo ordem , 
e regimento de vida , e lhes deixaria efcri- 
tos os mandamentos ; porque os Santos Apo£ 
tolos aílim como entendiam , e fatiavam 
todas as línguas , veroíimil he que também 
as foubeíTem efcrever , e conhecefíem feus 
caracteres. Em fim 5 ordenando alli as cou- 
fas , que lhe pareceram neceflarias pêra 
bem, econíervação daquella Chriílandade, 
fe embarcou pêra a coita de Melinde , e 
Cafraria , onde havia fama haver tamanho 
número de idólatras. E dizem os livros Cal- 
deos, que chegou aoReyno de Paces , que 
parece fer de Ampaza , pela femelhança do 
nome : e dalli á outra Província chamada 
Zarique , que não fei qual feja, fenão fe 
for Moçambique , que fempre foi efcala 
daquella cofta toda, que era mais conheci* 
da y e fabida pelas Armadas de Salamão, 

que 



Década XII. Gap.' IV. 273 

que andaram por alli commerceando o ou- 
ro , e madeira preta pêra o Templo. 

Dalli fe paíTou o Santo á Província 
Marhozaya, que oBifpo da Serra D. Fran- 
cifco Rodrigues i com quem communiquei 
iíto , affirma fer Malaca* O que fallando com 
toda a modeftia , me parece que não po- 
de fer pelo apartamento deitas Provindas y 
e nunca navegarem os mercadores de Mo- 
çambique > nem da coita de Melinde pê- 
ra aquella parte b e aífim o tenho por cei> 
reza ; porque o Santo tornou a vifitar aquel- 
la Chriítandade primeiro que paflafle á ín- 
dia , e de Malaca não podia tornar a Sa- 
cotora. E faz eíla minha opinião mais ver- 
dadeira efcreverem muitos Authores gra- 
ves , e cuido que também o dizem os li^ 
vros da Serra , que paíTou o Santo Apol- 
tolo á Perfia , e de lá á Provincia Gamar- 
cant, que hoje he áUsbequia, por fer ca- 
minho mais ordinário de cafillas i e mer- 
cadores de todas àquellas partes , donde 
parece que tornou aSacotora, e fe embar- 
cou naquella embarcação , que trata fua 
lenda 5 que n 5 uma noite fora aportar á ter- 
ra do Malavar. E fobre qual foi a primei- 
ra parte que tomaífe , ha entre aquelles po- 
vos grandes contendas ; porque os Cliri- 
Itãos chamados Çortali , da provincia Pa- 
ru , junto de Coulao > affirmam que a pri- 
Ceuta. Tom.uLT. S mei- 



274 ÁSIA de Diogo de Couto 

meira terra que o Santo tomou , foi hunt 
lugar chamado Mogodover Patana , que 
quer dizer cidade grande ídolo , que en- 
tão tinha hum porto mui continuado de 
mercadores Perfas , e Arábios, onde, con- 
forme ao que fe efcreve nos Adlos dos 
Apoftolos , Abdias Difcipulo deite Santo 
Apoftolo converteo hum filho do Rey do 
Malavar , que deve de fer o de Paru , aon- 
de aportou , e aonde ainda hoje ha muita 
Chriítandade. Ou pela ventura que a pri- 
meira Cidade que tomafíe , fofle Calecut, 
aonde dizem os livros Caldeos y que con- 
verteo o Chriílao Perimal, Emperador de 
todo o Malavar. E entre os Reys que o 
Santo deixou efcritos naquella pedra mi- 
lagroía, que elle converteo, he elle hum 
deftes , e que depois em Meliapor conver- 
tera hum filho leu. No que fe vê clara- 
mente que aquella dignidade dosPerimaes, 
de que no Capitulo X, do X. Livro da mi- 
nha fetima Década dei larga relação , he 
tão antiga , que já havia muito antes da 
vinda de Chriílo. Mas não he efte o der- 
radeiro Perimal , que eu alií digo , que fe 
foi fazer Chriílao a Meliapor , e o que os 
Mouros Arábios affirmam que não foi fe- 
i:ão pêra Meca a fe fazer Mouro por acre- 
• citarem fua abominável , e maldita feita, 
-iuccedendo iíto muito antes que Mafame-* 

da 



, Década XIL Cap. IV. 27? 

de nafceíTe , como o tenho provado clara- 
mente na mefma Década aílíma allegada. 
E o que affirmam os do lugar de Paru, que 
o Santo aportou primeiro aelle, eque dei- 
xara Igreja alli feita pêra os Chriftaos que 
converteo i não tira efta opinião ; porque o 
Apoftolo correo todo o Malavar , e cada 
hum quer a honra de aportar primeiro a 
feu porto. Ora que elle deixaííe alli Igre- 
ja , te prova por hum campo que alli mof- 
tram, chamado Paripalamba , que quer di- 
zer o Campo da Igreja; e por outro lugar 
chamado Palimóe , que em lingua antiga 
qiver dizer o Canto da Igreja. Mas o mais 
averiguado he aportar á Cidade Mogo- 
dover Patana , por fua muita antiguida- 
de ; que he tanta , que fetem perdido as 
efcrituras , que tratam de fua fundação. 
E fó da de Coulão tem memoriaes de 
fetecentos annos a efta parte , porque" 
em todo o Malavar contam fuás eras, 
como os Romanos pela fundação d*e Ro- 
ma • e antes diílb contavam eftes Mala- 
vares a era pelo curfo do Planeta Júpi- 
ter , que he de doze em doze annos , co- 
mo os Gregos pelas Olympiadas de qua- 
tro em quatro : e os Chriftaos de S. Tho- 
mé em fuás efcrituras põem primeiro a era 
•de Patana , e depois a de Coulão , como 
antes da vinda de Chrifto contavam nas 
S ii fuás 



iy6 ÁSIA de Diogo de Couto 

fuás efcrituras pela era da creação domuil* 
do 5 e de Cefan 

Aqui em Mogodover Paraná , onde o 
Santo primeiro aportou , que lie o maia 
certo , e não em Cranganor , como outros 
affirmam , fuccedeo aquelle milagre da mao 5 
por efta maneira. Celebrava aquelle Rey 
humas bodas a hum filho feu , a que con* 
corria infinita gente , e entre eíta foi hu- 
ma moça , que era Judia de nação , que 
dançava , e cantava em lingua Hebrea cou- 
fas da Lei de Deos ? e das maravilhas que 
fizera com os filhos de Ifrael , milagres de 
feus Profetas , e outras coufás deita forte , 
com que o Santo Apoftòlo (que foi con- 
vidado pêra aquellas vddas) fe enlevou tan- 
to na contemplação daquellas coufas , que 
ficou em extafe : e vendo-o hum daquelles 
miniflros que ferviam , aífinl arrebatado 5 
e como fora de li., deo-lhe huma bofetada 
diante de EIRey i o que o doâ Ceos per- 
mittio , pêra que o feu Santo Apoftòlo fe 
pareceífe com elle n 5 outra, qtte lhe deram 
em cafa de Caifás. Ao que o Santo ale- 
vantou as mãos , e diíTe ao que lhe fizera 
aquella afFronta : Filho , pêra que no outro 
mundo não pagues com: penas eternas ijio 
que aqui me fizefle , nejie te cajligará Deos 
com a brandura , e mifericordia que fu& 
condição lhe pede. E affim aconteceo, que 

pri- 



Década XII. Cap. IV. 277 

primeiro que o banquete fe acabaíTe , fa- 
iiio eíle homem abufcar agua ahuma fon- 
te , que devia eíle banquete de dar-fe em 
alguma quinta , e encontrou com hum ti- 
gre, que ouvieffe á fonte a beber, ou fof- 
fe ordenado por Deos aquelle encontro , 
pêra moítrar a virtude do feu Servo no 
foíFrirnento da aíFronta que fe lhe fez ; e 
arremettendo o tigre com o pobre ho- 
mem, lhe levou na boca aquella facrilega 
mão com que deo a bofetada , e lha cor- 
tou pelo pulfo , e deixou-a cahir no chão. 
Vendo-fe o triíle homem fem mão, foi-fe 
muito de preífa pêra onde as bodas fe ce- 
lebravam , todo enfanguentado ; e eftando 
dando conta da fua defaventura , entrou 
hum cão com a fua mão na boca ; e com- 
padecido o Santo Apoílolo do pobre ho- 
mem , alevantou-fe , e tomando a mão , que 
citava ainda frefca , applicou-a ao braço , 
e no mefmo inílante fe lhe foldou como 
d 5 antes era. O que viílo pelos convidados , 
admiráram-fe do cafo , que foi occaíião de 
muitos fe converterem á Fé de Chriílo. 

Eíle milagre he ainda hoje mui cele- 
brado entre os Gentios de Meliapor , e 
trazem-no pintado em feus painéis , como 
o eu vi em alguns. E não fei qual he a 
razão , por que os Efcritores modernos tem 
por apocryfos eíles milagres > pois não re- 

pu- 



27S AS IA de Diogo de Couto 

pugnao á razão; nem o Santo pedio aDeosr 
caftigaíTe aquelle homem, nem lhedefejou 
ver aquelle mal , e ainda que o pedira a 
Deos que por honra fua o caftigaíTe. Por- 
que do Profeta Elifeu lemos , que amaldi-r 
çoára os meninos , que lhe chamaram cal- 
vo por vitupério , a quem logo fahíram 
huns urfos do íntimo do mato , e os fize- 
ram em pedaços. Da cafta deites Judeos , 
e deitas moças Judias, que fe acharam nef- 
tas bodas, ha ainda hoje muitos por todo 
o Malavar ; e affirmam alguns ficarem nel- 
las daquelles , que vieram nas Armadas de 
Salamão , que vinham a eílas partes buf- 
car coufas pêra o Santo Templo : e em 
Cochim ha huma Judiaria delles , e con- 
fervam ainda a fua antiga linguagem. E 
também eu cuido que procederam dos que 
efcapáram da deftruiçao de Jerufalem , e 
que foram cativos pêra a Períla , donde fe 
pairariam á índia. 

Eftes , e outros milagres obrou o San- 
to por todas eílas partes , e converteo gran- 
de número de idólatras á lei de Chrifto. E 
fuás efcrituras affirmam que o Santo fe paf- 
fára dalli ás terras do Mogor , e á Pro^ 
vincia Induftan, onde reinava aquelle Rey 
chamado Chfetrigal, que também eftá no^ 
meado na pedra do milagre entre os que 
el]e convertçQ. Também dizem paliou a 

Chi- 



Década XII. Cap. IV. 279 

China , e China grande , onde fizera muita 
Chriftandade. Eftas partes entendo eu pe- 
la Província da China , e Catayo , que he 
a China grande, por eftar mais alevantada 
pêra o Norte que a outra da China , aífim 
como os Cofmografos fazem diiTerença da 
índia menor , e índia maior. E poíto que 
deita Provincia do Catayo. tenho já falia- 
do no Capitulo . . . do . . . Livro da mi- 
nha quarta Década , adiante com o favor 
Divino, quando tratar do Principe de Ba- 
daxa , que fe fez Chriftao em Ormuz , da- 
rei melhor relação delia pelo muito que 
hoje eítá mais defcuberto pelos Padres da 
Companhia , que penetram até o ultimo 
da China, e Catayo , aonde Portuguez al- 
gum já mais chegou , fenao aq-uelle Em- 
baixador , que Fernão Peres de Andrade 
mandou ao Rey da China , que foi até á 
fua Corte , fem faber dar razão daquella Pro- 
vincia , nem de outra alguma; porque os 
Chins que o levavam o divertiram por dif- 
ferentes jornadas, em que lhe fizeram gaf- 
tar muitos mezes , aífim por não faber dar 
razão de coufa alguma , como pêra lhe 
moftrarem a grandeza daquelle império. 

E tornando ao Santo , depois de ter vi- 
fitado todas eftas Provindas , voltou pera^ 
a índia ; parece que veio vifitando a Pro- 
víncia Tebet f onde fez muitos Chriílãos^ 

de 



z$o A SI A de Diogo de Couto 

de que ainda hoje ha nella, e feveio dek 
çendo até o Reyno Canará , até parar na 
Cidade Meliapor , onde fez aquelle gran- 
de milagre daquelle façanhofo madeiro, de 
que fabricou a fua Igreja, que ainda hoje 
eftá parte delia em pé. E eftando nefta Ci- 
dade orando em hum oratório , que tinha 
naquelle monte , de que já fallei no Capi- 
tulo V. doX. Livro da minha Década, foi 
morto pelos Bragmenes Gentios de huma 
lançada , que lhe deram por huma freíla , 
que foi aos 27. annos depois da morte de 
Chrifto , parecendo-fe até niílo com feu 
Meítre, e noflb Redemptor, que também 
foi ferido com aquella cruel lançada, que 
lhe os Judeos deram , com que lhe atra- 
veílaram o coração. E conforme a compu- 
tação dos mefmos Canarás , conformao 
com efta conta ; e dizem mais que foi mor- 
to aos trinta annos do reinado de EIRey 
Xaga, que o Santo Apoílolo tinha conver- 
tido. Foi feu corpo enterrado na fua Er- 
mida , onde fe acharam fuás reliquias em 
tempo do Governador D. Duarte de Me- 
nezes, Senhor da çafa de Tarouca, que por 
mandado de EIRey D. Manoel as mandou 
bufcar. E pofto que feu Difcipulo Abdias 
diga que feus companheiros lhe levaram 
fuás reliquias pêra a Cidade de EdeíTa , ift 
fo não tira ficarem muita parte delias na 



Década XII. Cap. IV. 281 

fua própria fepultura , porque forçado ha- 
viam de deixar nella ília memoria. Efta Ci- 
dade de EdeíTa he Metropoli da Mefopo- 
tamia ; e alguns tem que he a antiga Raquis y 
donde Tobias o velho mandou a feu fi- 
lho a bufcar os dez talentos de prata , que 
Gabello feu parente lhe devia. Efta Cida- 
de fe converteo á Fé de Chrifto pela pre- 
gação do Apoftolo S. Thaddeo feu compa^ 
nheiro , e fempre nella houve Bifpos , cu- 
jos futfraganeos foram os Bifpos da Serra 
deMeliapor, que dalli fe proviam até en- 
trarem os da maldita feita de Neftor. 

CAPITULO V. 

Das coufas que mais aconteceram a ejies 

Chriftãos : e dos Prelados que tiveram 

até ejie tempo : e dos Reynos em que 

hoje moram. 

POr morte do Apoftolo S. Thomé ficou 
toda aquella Chriftandade deftas partes 
do Malavar , e Meliapor fuftentando-fe 
com os Prelados , que lhe mandavam os 
Bifpos de Edeífa até lhe virem os de Ba- 
bylonia Neftorianos , que como pefte con- 
taminaram todas aquellas partes com fuás 
herefias , e perverta doutrina. Succedeo 
depois da morte do Santo ha mais de tre- 

zen- 



282 ÁSIA de Diogo de Couro 

zentos annos haver no Reyno de Bifnagà 
grandes guerras, e fomes, e tantos terre- 
motos , e finaes do Ceo , que affirmam fuás 
eferituras que junto de Meliapor choveo 
terra , e aíTolou huma povoação , com o que 
fe defpovoáram muitas terras daqueihs , e 
os Chriílãos fe efpalháram pêra differentes 
partes, e muitos por falta de doutrina tor- 
naram á Gentilidade de feus paliados. E 
ainda hoje em Bipor na cofta da Pefcaria 
lia muitos que procedem deites a que cha- 
mam Taridafcai Naique mor , que quer di- 
zer, os da caíla dos antigos Reys ; porque 
muitos dos que alli pararam eram do fan- 
gue dos Reys , que o Santo Apoftolo fez 
Chriílãos ' y mas a mor parte delles fe aco- 
lheram aos matos , e ferras , que fam os 
que padaram em Jodamalla , a que os na- 
turaes chamam Xaber, que quer dizer gen- 
te antiga , e outros fe efpalháram por efta 
cofta Malavar , onde fundaram Templos ; 
é ainda daqui fe acolheram pêra as ferras , 
depois que os Mouros entraram na índia , 
por muitas avexaçoes que lhes faziam , cu-* 
ja cabeça foi fempre a Cidade Patana , on- 
de o Santo Apoftolo aportou a primeira 
vez áquella Cidade : efta depois por tem- 
pos fe deítruio de todo por guerra. 

Depois dahi a muitos annos aportou 
áquelle porto de Patana huma náo , em 

que 



Década XII. Cap. V. 1% 

que vinha hum Arménio Chriílão , chama- 
do Tliomé Cananeo , homem muito rico ; 
e vendo-fe com aquelleRey, lhe deo con- 
ta de íi , e elle deo o lugar de Patana pe- 
ra fe apofentar com os feus , que traziam 
fuás mulheres , e depois lhe deo o mefmo 
Rey o chão deCranganor, onde agora e£ 
tá a noíla Fortaleza , onde o Thomé Ca- 
naneo mandou fazer a Igreja no lugar, em 
que hoje efti da invocação do mefmo Apof- 
tolo ; e depois fez outras duas : huma do 
Orago de noíla Senhora \ e outra de S. Cy- 
riaco Martyr. E porque a doação deftes 
chãos , que lhe EIRey mandou paífar , he 
notável , e declara muitas coufas dignas de 
fe faberem , me pareceo bem polias aqui 
de verbo ad verbum y fegundo fe acharam 
em humas paftas de cobre , que eu refiro 
na minha fetima Década , que defapparecê- 
ram da Feitoria de Cochim y e delias infi- 
ro que efte Rey era Chriílão, e chamava- 
fe Cocurangon. 

Cópia da doação que EIRey do Malavar 
fez a Thomé Cananeo. 

COcurangon feja profperado , e tenha 
longa vida , e viva cem mil annos , di- 
vino fervo de Deos , forte , verdadeiro ^ 
cheio de boas obras , racionavel , podero> 

fo 



284 ÁSIA dè Diogo de Couto 

fo fobre toda a terra 5 ditoíb, vencedor y 
gloriofo , profpero no miniíterio de Deos 
direitamente. No Malavar na Cidade do 
grande idolo , reinando elle em tempo de 
Mercúrio > no dia fetimo do mez de Mar- 
ço antes da Lua cheia , o mefmo Rey Co- 
curangon , eítando em Cornelur J chegou 
Thomé Cananeo , homem principal , em hu- 
ma náo com determinação de ver a derra- 
deira terra do Oriente > e vendo-o chegar 
alli ? deram recado ao Rey , que o man- 
dou ir perante íi , fallou com elle amiga- 
velmente , e lhe deo o feu próprio nome, 
chamando-fe dalli por diante Cocurangon 
Cananeo , a quem EIRey deo a Cidade Pa- 
tana pêra todo fempre. E eílando efte Rey 
em fua grande profperidade , foi hum dia 
á caça , e mandou cercar o mato , tendo 
comfígo o Thomé Cananeo , e fallou EI- 
Rey com hum grande Aftrologo , que lhe 
aconfelhou que déífe todo aquelle mato, 
que era grande 5 ao Cananeo , como fez , 
que elle mandou logo roçar , e alimpar. 
Foi ifto no mefmo anno , em que alli apor- 
tou aos onze dias do mez de Abril. Enef- 
te mato mandou logo o Cananeo fabricar 
huma Igreja, em que EIRey lançou a pri- 
meira pedra , e aíTim fundou alli humà mui 
arrezoada Cidade , e deo a EIRey muitos , 
c mui ricos prefentesj pelo que oRey lhe 

con- 



Década XII. Cap. V. 28? 

concedeo mais fete modos de inftrumentos 
muíicos , e todas as honras que fe faziam 
ao mefmo Rey. E concedeo-lhe mais po- 
der pêra em fuás bodas poderem as mu- 
lheres fazer cerro final com o dedo na bo- 
ca , que fó as mulheres dos Reys podem 
fazer. Concedeo-lhe mais pezo diítiníto 
fobre feu real , e todas as mais , como a fua 
própria peílba , e que pudeíle pôr tribu- 
tos a feu povo. As teftemunhas que efta- 
vam aífignadas neílas paftas fam as feguin- 
tes : Cadaxericandi , Cheracaru , Putancha- 
te, Comefe, porteiro mor de EIRey, Ar- 
cunden Coundem , do feu Confelho , Ame- 
nate, Condem, Gerulem , Capitão do cam- 
po , Chiranmala Portati Reívoramem, Re- 
gedor da banda do Oriente no Malavar, 
e outros muitos que deixo por fugir pro- 
luxidade. 

Foi a vinda defte homem quaíi nos ân- 
uos do Senhor de 81 j. fegundo fe acha 
nos livros Caldeos deites Chriítãos ; e por 
muitas conjecturas me parece que eíle he 
o regulo, que Santo Antonino efcreve na 
fua hiftoria , que mandava todos os annos 
hum prefente de pimenta ao Summo Pon- 
tífice; porque naquelle tempo era mui con- 
tinuado dos Chriftãos da Europa o fepul- 
cro do Santo Apoftolo , e por elles lhe 
mandaria o Thomé Cananeo aquelie pre- 



^8ó ÁSIA de Diogo de Couto 

fente ; de maneira que a primeira Igreja^ 
que o Santo Apoílolo fez , foi no lugar de 
Patana , que depois fe deftruio pelas mui- 
tas 5 e grandes guerras que houve naquel- 
le tempo 5 e depois o Thomé Cananeo a 
tornou a reedificar , como diífemos 7 e da- 
hi a muitos tempos fe mudou pêra Paru. 
E a fegunda Igreja que fe fez no Mala- 
var , eíle Cananeo a fez (como já diífe- 
mos) e foi em Cranganor ; e por eíla obra 

puzeram aquelles Chriftãos no catalogo 
dos feus Santos , e rezaram delle. 

Das gentes que com elle vieram , pro- 
cedem os Chriftãos de Diamper , Cortate , 
e Cartute ? que fem dúvida fam de caíla 
Arménios , e o mefmo feus filhos , porque 
trouxeram fuás mulheres; re depois os que 
procederam dclles fe cafáram na terra , c 
vieram a fer por tempo todos Malavares. 
Os Reynos , em que hoje fe confervam ef- 
tes Chriftãos de S. Thomé y fam os feguin- 
tes : No Reyno dos Mc-leas vinte e féis lé- 
guas das terras de Madure. No Reyno de 

1 urubuli feu vizinho. No Reyno de Mao- 
ta. No Reyno de Batimena. No Reyno de 
Porca. No Reyno deTravancor. No Rey- 
no de Diamper. No Reyno da Pimenta, 
No Reyno dos Tetancutes. No Reyno de 
Paru i e ultimamente no Reyno de Cortu? 
te* 

To- 



Decasa XII. Cap. V- 287 

Todos eftes Chriftaos , depois que fe lhes 
acabaram os Prelados Catholicos , que lhes 
vinham da Cidade deEdeíla, viveram mui- 
tas centenas de annos naquella fé que lhes 
feus pais , e avós eníináram até qualí os 
annos do Senhor de 730. antes que oTho- 
mé Cananeo alli aportaíTe. E poucos an- 
nos depois da fundação da Cidade deCou- 
Ião, deite fundamento, como jádiííe, con- 
tam os Malavares fuás eras ; e neíta de 
161 1- em que eferevo ifto \ fam de lua fun- 
dação a de 722, por onde vai a noíTa con- 
ta diante 889. annos , em que foram ter 
aquella Cidade dous Calde&s. deBabylonia,, 
chamados Mar Xabio, e MarProd, fequa- 
zes da feita Neíloriana , que foram bem 
recebidos daquelles ChriMos , e eítimados 
daquelle Rey , por mcítrarem muita fanti* 
dade, que governaram aquella Chriííanda- 
de não fei fe com nome de Bifpos , ain- 
da que cuido que iílo he o mais certo , e 
que repartiram toda aquella Chriítandade 
em dous Bifpados , em que alevantárarn 
muitos Templos ; e viveram com tanto ex- 
emplo entre elles , que por fuás mortes 
foram havidos porfantos; e poílos nos feus 
catálogos , rezavam deli es em feus breviá- 
rios. Donde o Arcebifpo Primaz D. Fr. Alei- 
xo de Menezes, vifitando aquellas Igrejas, 
jos mandou borrar pelos ter por hereges 

fcif- 



^88 A SI A de Diogo de Còutõ 

fcifmaticos , por virem de Babylonia por or- 
dem do Patriarca Grego. 

Com eíles homens crefceo eíla Chri- 
Itandade tanto , e vieram a ter tanta pof- 
fe 3 que alevantáram entre fi Reys , por 
quem foram muitos annos regidos , e go- 
vernados \ fem fe quebrar a direita fuccef- 
sao , e veio aquelle Reyno ao Rey de Dian> 
per. Com elle paflbu ao de Cochim por 
perfilhação que tinha feito com aquelle 
Rey , como temos bem moílrado no noflo 
Epilogo das coufas da índia : e eíta he a 
razão 3 por que eíles Reys de Cochim per- 
tendem ter mais. poder , e fenhorio que os 
outros Reys fobre eíles Chriítaos. 

Depois de falecidos eíles Caldeõs , man- 
daram a Babylonia pedir Bifpos , por não 
terem commodo pêra mandarem a Roma, 
porque por morte deites lhes ficou fó hum 
Diácono , que tomou por íi o officio de 
Sacerdote, fem fer ordenado, e o exerci- 
tou, cuidando que o podia fazer, que tão 
ignorantes eílavam todos. Com eíte reca- 
-do os proveo o Patriarca Grego de hum 
Arcebifpo , chamado Mar Joanna , e de 
dous Bifpos fuffraganeos feus Coadjutores, 
e futuros fucceífores. Eíle Arcebifpo orde- 
nou o Breviário Caldeo , de que até agora 
ufava efta Igreja , e fez feu aífento em 
•Cranganor. Por morte deites Arcebifpo, e 

Bif- 



Década XIÍ. Caí>. V. i%$ 

Bifpos fuccedeo outro chamado Mar Jacob > 
que tinha vindo também de Babylonia , 
que governou muitos annos , e faleceo 
quaíi no de mil e quinhentos. E lego no de 
mil quinhentos e dous , chegando á índia a 
fegunda vez D. Vafco da Gama , primeiro 
Almirante, e Conde da Vidigueira , e indo 
a nova a eftes Chriílãos da grande Armada 
com que efte Capitão eftava em Cochim , 
lhe mandaram Embaixadores a lhe fazer a 
faber como eram Chriftãos > e que eítavam 
mui avexados daquellesReys vizinhos : que 
lhe pediam os amparaíTe , e defendefle 
delles : que daquelle dia em diante fe fa- 
ziam vaflallos de EIRey de Portugal : e 
em final deita vaíTailagem lhe mandavam 
o Sceptro de que feus Reys ufáram , que 
lhe os Embaixadores entregaram , que era 
huma vara vermelha guarnecida de prata 
nas pontas, e na cabeça três campainhas % 
que o Conde Almirante recebeo com gran- 
de apparato , e náos embandeiradas , e a 
mais luftrofa gente na fua , e os mandou 
falvar com toda a artilheria , de que elles 
ficaram aíTombrados , por não terem ouvi- 
do nunca aquelle eftrondo. E á Embaixada 
refpondeo aos Chriftãos com grandes oíFe- 
recimentos da parte de EIRey de Portu- 
gal , em cujo nome lhes diíTe, que accei* 
tava aquelle Sceptro , afíegurando-os que elle 
Couto. Tom. ult. T man- 



2po ÁSIA de Diogo de Couto 

mandaria Armadas mais poiTantes, e mais 
poderolas que ^quella com que os liber- 
talTe das fujeições dos vizinhos; e aos Em- 
baixadores mandou dar peças ricas , e cu- 
xiofas, com que foram muito fatisfeitos. E 
não acho fe mandou o Almirante comelles 
alguns Religiofos dos que hiam na Armada 
pêra os doutrinar , e eníinar nos coítumes 
Romanos ; porque neíías/e outras coufas 
de tanta importância foram os nofTos Ef- 
critores mui remiíTos , e defcuidados. 

E tornando aos Prelados r por morte da 
Arcebifpo Mar Jacob veio outro chama- 
do Mar Jcanna % fegundo deíle nome > que 
cílá enterrado na Igreja de Diamper , e a 
efte lhe veio de Babylonia outro chamado 
Mar Janabo 5 e aílim foram fuccedendo- 
outros Arcebifpos até quaíi os annos de 
1556. em que o Papa Paulo IV, fuccedeo 
na Cadeira de S. Pedro , que confirmou 
em Patriarca da Abaffia à D. João Bermu- 
des r como na minha quinta Década fica 
dito , em cujo, tempo foram a Roma Si- 
mão Sulaca Bifpo de Caeremit , Cidade 
cabeça da Mefopotamia > e com elle ou- 
tros dous Bifpos , hum que fe chamava 
Mar Elias, e outro Mar Joíef,:que ambos 
deram obediência ao Sumiria Pontífice por 
fi. 5 e por íeus fubditos , e elle os confir- 
mou 9 e ao Simão Sulaca em Patriarca de 

Mu- 



Década XII. Cap. V. ' 291 

Mufal , e aos outros em feus Riípados fuf- 
fraganeos a elle : e ao Mar Jofef , que ti- 
nha o titulo de Bifpo de Ninive, 'mandou 
que foííe governar os Chriftaos das ferras 
do Malavar , e com elle o Bifpo D. Am- 
broíio Monte-coeli , Frade Dominico, por 
feu Coadjutor, e futuro fucceífor, e afíim 
ficou aquelle Patriarcado dividido em dous , 
hum Catholico , e outro herege ; o Catho- 
lico na Cidade de Mufal , e o outro em 
Antioquia; mas o Catholico viveo pouco, 
porque logo foi morto por ordem do he- 
rege. E os Bifpos Mar Jofef , e D. Am- 
broíio , que ainda eítavam com elle , tive-* 
ram modo pêra fugirem por fe arrecearem 
doutro tanto , e foram ter a Ormuz , e nas 
náos que partiram pêra a índia fe embar- 
caram , e não acho fe tomaram Goa , ou 
aonde foífem aportar. Baila que paliaram 
ás ferras do Malavar, onde aquelles Cliri- 
ftaos os receberam muito bem , e o Mar 
Jofef tomou poíle do Bifpado , em que 
ordenou muitas coufas mui boas. O D- 
Ambrofio parece que não vio aquella terra 
conforme a fua vontade , foi-fe pêra Co- 
chim , e dalli pêra Goa , e no Convento 
de S. Domingos leo a Sagrada Theologia 
aos feus Frades com muita fatisfaçao por 
ler muito douto; e indo-fe embarcar, a Co» 
chim pêra o Reino no anno de 1557. fa- 
T ii le- 



içi ÁSIA t>E Diogo de Couto 

leceo naquella Cidade, e jaz nella enterra- 
do no Moíteiro de S. Domingos , como já 
lemos dito no Capitulo I. do 1. Livro da 
fetima Década. 

E tornando ao Mar Jofef , como ellc 
vinha inficionado , e contaminado da peite 
Neítoriana , começou a femealla pelo feu 
Bifpado , e ainda por alguns moços que 
lomou em Gochim pêra feus pagens. O 
que fabido pelo Biípo daquella Cidade 
D. Jorge Temudo da Ordem de S. Domin- 
gos , deo conta diílo ao Vifo-Rey , e ao 
Arcebifpo de Goa , que efcrevêram ao Ca- 
pitão de Cochim que prendefle logo ao 
Mar Jofef , e o embarcaífe pêra o Reino 
nas náos que lá eítavam tomando a carga 
pêra partir; o que elles fizeram, porque o 
houveram ás mãos por manha. Por fua ida 
mandaram osChriítãos aBabylonia a pedir 
Bifpo , donde lhe mandaram hum Mar 
Abrahão , que em trajos de marinheiro 
entrou naquella ferra, onde foi muito bem 
recebido ; e logo na volta das náos , em 
que embarcaram a Mar Jofef, tornou clle 
a vir muito favorecido do Cardeal D. Hen- 
rique , e da Rainha que então governavam , 
porque affim foube attrahir os corações 
deites Príncipes , que lhe concederam tudo 
o que pedio , com prometter de reduzir 
todos aquelles Chriítãos á obediência da 

San- 



Década XII. Cap. V. 293 

Santa Igreja Catholica Romana; e chegan- 
do a feu Bifpado , foi recebido de alguns 
povos \ e de outros não , por eftarem affei- 
coados a Mar Abrahão 5 e aílim houve en- 
tre elles fcifma. Ao que acudiram o Vifor 
Rey 5 e o Arcebifpo ; e tal manha tive- 
ram , que houveram ás mãos o Mar Abra- 
hão , e embarcaram-no pêra o Reyno por 
fer herege refinado ; e a náo em que foi 
arribou a Moçambique , donde em hum 

Í>angaio fe paífou a Ormuz , e dalli á Ba- 
>ylonia a dar razão de íi áquelle Patriar- 
ca , e a pedir-lhe Breves pêra tornar a feu 
Bifpado. Mas entendendo bem que fe não 
foíle por ordem do Papa , não poderia fer 
admittido a elle , mudou o confelho , e 
paílbu a Roma 5 e deo relação de fuás cou- 
fas ao Papa, que era então Pio IV. e dian- 
te delle anathematizou feus erros , e fez 
profifsão da Fé Catholica Apoftolica Ro- 
mana , e prometteo de reduzir aquella 
Chriílandade á Santiílima Fé Catholica da 
Igreja Romana : pelo que o Santo Pontífi- 
ce lhe paífou Breves Apoílolicos , em que 
o confirmava em Bifpo daquelles povos 
Chriílãos, E porque ate então não era legi- 
timamente ordenado , nem tinha Ordens 
algumas , o mandou ordenar defda primei- 
ra Tonfura até ás Ordens deMilfa: e paf- 
fou Breves ao Patriarca de Veneza pêra o 

f a- 



^294 ÁSIA de Diogo dê Couto 

fagrar em Bifpo ; e deo-lhe cartas pêra o 
Vifo~Rey da índia , Arcebifpo de Goa , e 
Bifpo de Cochim , em que lhe pedia o 
deixafTem pafíar a feu Bifpado de Veneza, 
onde fe fagrou , paliou por terra a Or- 
muz , e dahi a Goa , e apreíentou feus Bre- 
ves ao Arcebifpo D. Gafpar , que exami- 
nando-os bem , achou que eram fubrepti-^ 
cios , e paííadcs com falfas informações , 
pelo que o fez deter em hum dos Mortei- 
ros de Goa até informar a Sua Santidade 
da verdade , e foi pofto em S. Domingos , 
onde eu faljei com elie muitas vezes : dalli 
teve taes intelligencias , que quinta feira 
de Endoenças, eftando osReligiofcs occu- 
pados naquelles piedofos , e devotos OíE-* 
cios i cheios dos Myílerios que nelles fe 
celebrao, fugio, e fe paííou pêra as terras 
do ldalxa ; e dahi ao feu Bifpado , onde já 
não eftava o Mar Jofef , porque o ti- 
nham embarcado nas náos panadas pêra o 
Reino por Breves da Sé Apoftolica , e car^ 
tas -de EIRey , e Cardeal , por ferem in- 
formados que era herege pertinaz , e não 
cumprio o que prometteo ao Papa. En- 
trando o Mar Abrahão na ferra, e achan- 
do feu competidor aufente, foi logo rece- 
bido de todos por feu Prelado ; e por fe 
recear que o Arcebifpo de Goa , e Bifpo 
de Cochim o tornaíTem a haver ás mãos, 

fe 



Década XII. Cap. V. , 195: 

fé metteo muito pelo certão. O que fabU 
do pelos noífos Prelados , trabalharam pelo 
colher , e avifáram de tudo ao Summo 
Pontífice j que paíTou Breves o anno 7%. 
dirigidos ao mefmo Bifpo Mar Abraháo , 
em que lhe mandava deixaíTe pregar a Lei 
de Chrifto em todo o feu Bifpado : e que 
dalli em diante fe achaíle em todos os 
Conciiios que em Coa fe celebraííem.: e 
que guardafle feus decretes , e fe fujeitaf- 
fe a elles : e que pêra ir a Goa lhe dava 
feguro Apoftolico. E affim fe achou no 
Concilio que celebrou D. Fr. Vicente da 
Fonfeca ; o que fez por não fer de todo 
reprovado , e havido por herege, E de- 
pois de acabado o Concilio i fè foi pêra 
leu Bifpado \ e nada cumprio dó que pro- 
metteo , e jurou no Concilio. 

Eílaudo aíTim as coufas deites ChriMos 
nefte bem ruim 5 e defaventilrado eftado 
com a falfa , eperverfa doutrina, q-ue*efté 
herege femeava , chegou áquella ferra hum 
Mar Simeao , que diííe fer mandado pelo 
Patriarca de Babylónia pêra íueceder- na- 
quelle Bifpado , que a Rainha da Piinen^ 
ta agazalhou ,* e favoreceo , e : fefez cabeça 
dé todos os Ghriítáos daquelle Reino , e 
de outros que também lhe obedeceram , e 
pòz feu afíento no lugar de Çartute ', onde 
começou a exercitar o offieip ; <ie Bifpo ,, 



296 ÁSIA de Diogo de Couto 

ordenar , crifmar , e outras coufas , de que 
informados os Prelados da índia , o hou- 
veram ás mãos , e o embarcaram pêra o 
Reino , e delle fe paflbu a Roma , onde 
foi examinado por mandado do Papa Xilto 
V. e foi achado hum fino herege Neftoria- 
jio, e que não fó não eraBifpo, mas nem 
ainda Sacerdote : pelo que foi fentenceada 
que não ufaíle mais da dignidade , nem da 
Ordem. 

Com efta ida de Mar Simeao pêra o 
Reyno ficou o Mar Abrahao quieto em feu 
Biípado , onde não teve emenda , antes 
foi por diante com feus erros, e coftumes 
Neftorianos. E fendo chamado a Goa no 
nnno de ij^o. pelo Arcebifpo D.Fr, Mat- 
théus peia Concilio que queria celebrar, 
não quiz acudir , por fe temer que o pren- 
deífem , como já fizeram da outra vez. Pe- 
lo que o Arcebifpo efereveo ao Summo 
Pontífice dos máos coftumes defte homem, 
que mandou paífar hum Breve dirigido ao 
Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes , quan- 
do veio pêra a índia no anno de 95*. em 
que lhe mandava que inquiriífe das culpas 
defte homem ; e que achando fer Neftoria- 
no , o prendeffe , e proveífe aquelleBifpado 
de Governador ; e não confentiífe mais en- 
trar nelle Bifpos de Babylonia , fenão os 
que foífejji por ordem da Igreja Romana* 



Pecada XII. Cap. V. 297 

E tirando o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de 
Menezes inquirição defte Bifpo, achou fer 
herege, e culpado em graviífimos erros; 
e porque eftava já em idade tão decrépi- 
ta , que fe não alevantava de huma cama* 
E íabendo que tinha mandado aBabylonia 
pedir fucceífor , diílimulou com elle , e 
mandou em Ormuz ter tantas intelligen- 
cias , e nos portos da índia , pêra que nao 
paíTaífe áquella Chriftandade nenhum Bifpo 
de Babylonia , que vindo hum a fucceder 
ao Mar Abrahão , parece que foi avifado 
defte negocio : pelo que houve por mais 
acertado confelho tornar-fe pêra Babylo- 
nia. O Mar Abrahão faleceo logo envolto 
cm feus peftilenciaes , e abomináveis er- 
ros , e ficou aquelle Bifpado entregue ao 
Arcediago > que também era tocado da 
mefma lepra. E o Arcebifpo com muita 

f>rudencia o mandou confirmar até que elle 
bife peífoalmente tomar poífe daquella 
Igreja , conforme aos Breves que pêra iílb 
tinha do Papa , e efcreveo ao Arcediago 
fizeífe Profifsao da Fé , e reconheceífe a 
Igreja Catholica. E efta foi a caufa que 
jmoveo ao Arcebifpo D. Fr. Aleixo de 
Menezes a fazer efta jornada com tantas 
defpezas de fua fazenda , e tão grande rif- 
co , e perigo de fua vida , fó pelo apro- 
veitamento das almas de tantos fieis, quan^ 

tos 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

tos os malditos Bi fpos hereges tinhao apar- 
tado da Igreja Romana. 

CAPITULO VI. 

Dos erros em que viviam eftes Chriftãos : 
e de como o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de 
Menezes os reduzio d obediência da San- 
ta Igreja Romana : e do Synodo Dioce- 
fano que celebrou 3 em que tirou muitos 
erros \ e abufos. 

JA 5 que demos relação defta Chriíianda- 
de 5 pareceo-me que convinha tratar tam- 
bém dos erros em que viviam , pêra fe fa- 
ber o damno que lhe tinham feito os Bis- 
pos Babylonicos , e o fruto que o Arce- 
bifpo D, Fr. Aleixo de Menezes fez em 
os viíitar. Pelo que fe ha de faber , que 
aquelle maldito herege Neílorio concorreo 
quaíi nos annos do Senhor de 440. e de- 
pois nos de quatrocentos e fincoenta e 
hum , que fua peçonha hia já lavrando pe- 
lo mundo , foi nccefíario aoSummo Pontí- 
fice Celeftino I. ajuntar em Efefo Conci- 
lio contra -elle \ em que fe acharam duzen- 
tos Bifpos , onde condemnáram cite perveríb 
herefiareã \ e fe queimaram todos os livros 
dos Maniqueos ; e naquella envolta foi 
também condemnado por herege Diofcoro 

Bif- 



Década XII. Cap. VL 299 

Bífpo de Alexandria , que feguia a Euthr 
chio. 

Condemnado Neftorio por herege jj tí&è 
deixou de ir com fua protervia , e pertinácia 
por diante , com que fez tantos males no 
mundo , e levou apôs 11 caminho do in- 
ferno tantos mil milhares de almas dos 
malditos que os feguíram. E de maneira 
fe eílendeo , e dilatou fua falia doutrina , 
que chegou a peçonhentar eíles pobres 
Chriítãos lá mettidos nas mais efcondidas 
matas , e nas mais fragofas ferras do Ma- 
lavar , enfinando-ihes feus Bifpos a fua 
falfa doutrina , com que deítruiam a verda- 
de da Encarnação do Verbo Divino , e fica- 
vam particulares ofFenfores da facratiífima 
Virgem Maria fua Mãi , e Senhora noífa \ 
negando-lhe a principal honra que tinha, 
que era fer verdadeira , e natural Mãi do 
Filho de Deos , com outras herefias con- 
tra a limpeza, e pureza do parto virginal 
da mefma Senhora. Não admittiam nas 
Igrejas Imagens nenhumas mais que a Cruz. 
Affirmavam que as almas dos Santos não 
haviam de ver a Deos , fenao depois do 
juizo Univerfal. Dos Sacramentos não ti- 
nham eíles Chriítãos mais que os do Ba- 
ptifmo \ da Ordem , e da Euchariítia. E 
ainda no do Baptifmo tinham tanta con- 
fusão na forma delle 7 que cada Caífanar > 

ou 



goo ÁSIA de Diogo de Couto 

ou Clérigo baptizava como lhe parecia, e 
ufavam nelle diverfas formas com que não 
ficava verdadeiro Sacramento. Não ufavam 
de Óleos fantos , nem os conheciam ; mas 
porque ouviam fallar nelles , untavam os 
baptizados com azeite de coco , e gergi- 
lim , fem benção alguma > o que geralmen- 
te fe ufa neíte Malavar , porque os alim- 
pa , e lhe dá forças , e faude corporal. Ti- 
nham particular ódio , e aborrecimento ao 
Sacramento da Confifsão : fó em algumas 
Igrejas , que eítavam perto das noífas , fe 
confeífavam poucos , porque o viam fazer 
aos Portuguezes ; e todos os mais em lu- 
gar de confifsão de peccados , punham 
huns grandes brazeiros no meio das Igre- 
jas aos Domingos , onde lançavam muito 
incenfo , e os rodeavam , e tomavam aquel- 
le fumo , lançando-o com as mãos pêra os 
peitos , havendo que com aquelle fumo fe 
íiiam feus peccados , e frequentavam o Sa- 
cramento da Communhão fem outro appa- 
relho mais que irem em jejum. As Milhas 
que diziam , tinham muitos erros que accref- 
centou Neftorio. E antes de lhes lá ir vi- 
nho de Portugal , confagravam em vinho 
de palma deitado em palfas feccas , e as 
Hoftias eram bolos feitos com azeite , e fal 
até o tempo de Arcebifpo Mar Jofef , que 
por fe accommodar aos noífos coílumes 

con- 



Década XII. Cap. VI.' 301 

confagravam erhHoítias como as noífas, e 
vinho de Portugal. 

No Sacramento da Ordem eram muito 
dados, tanto que havia poucas cafas , onde 
não houvefle algum ordenado; porque co- 
mo nada impedia antre elles os exercidos 
feculares , muitos fe ordenavam pêra ufa- 
rem de huns , e outros , e aíiim o faziam 
de dezefete , dezoito , e vinte annos , e os 
mais delies calavam depois de Sacerdotes \ 
e muitos viúvos já com mulheres viuvas ; 
c tantas quantas vezes vi uva vão , tantas 
tornavam a cafar , fem fe conhecer antre 
elles a irregularidade da bigamia, nem te- 
rem algum apartamento das mulheres , quan- 
do haviam de celebrar. E acontecia mui- 
tas vezes haver n ? uma mefma Igreja pais, 
filhos , e netos todos Sacerdotes , e todos 
miniftravam nellas. Eftas fuás mulheres fe 
chamavam Catatiaras , ou CafTaneiras , que 
quer dizer, mulheres dos Caííanares , que 
são os Sacerdotes , e aíiim por iíío eram 
as mais honradas do povo , e traziam pêra 
ifto hum certo final, porque eram conheci- 
das. E em todos eltes Sacramentos eram 
públicos fimoniacos , porque os não da- 
vam fenao por preço certo. No do matri- 
monio tinham muitos abufos , porque baf- 
tava darem-fe por cafados pêra o ferem ~ 
e alguns o ficavam com lançarem hum fio 

do 



í02 A S T A t\E Diogo de Couto 

•cio feu peícoço ao da noiva. Quando as 
muJheres pariam, guardavam ocoíhime da 
lei velha , que fendo macho não entravam 
na Igreja, fenão aos quarenta dias ; e fe 
era fêmea , aos oitenta. A ília agua benta 
não tinha mais ceremonias , que lançarem- 
Ihe huma pequena de terra dos lugares 
por onde o Santo Apoííolo andou 9 e 
Jiuns grãos cie incenfo. Uíavam muito de 
fortes j e feitiços , porque tinham hum li- 
vro chamado Parefmão , que quer dizer 
medicina Períica , donde tiravam os dias 
fauíros 5 ou infauftos pêra fazerem fuás 
coufas. Finalmente outros cem mil abufos » 
erros 5 hereíias , e ritos gentílicos que 
deixo , porque ahiftoria nãofoifre tanto. 

Todos eftes abufos > e outros muitos 
que tinham , tirou o Arcebifpo D. Fr. 
Aleixo de Menezes \ e emendou todos 
aquelles povos , e os reduzio a huma vida 
politica chrifta , e lhes fez fazer Profifsão 
da Fé Catholica , e dar obediência ao Sum- 
mo Pontífice ; e mandou baptizar de novo 
muitos povos 5 que não eram canonicamen- 
te baptizados. E em todas eftas coufas foi 
muito ajudado deFrancifco Rodrigues Padre 
da Companhia, que hoje he Arcebifpo da- 
quella ferra , e Chriílandade 3 e de outros 
Padres da mefma Companhia , que antes, 
e então trabalharam , e roíTáram aquelles 

ma- 



Década XII. Cap. VI. 30$ 

matos bravios , e os foram difpondo , e 
habilitando pêra receberem com facilidade 
a femente do fanto Evangelho. E tendo 
já o Arcebiípo efte fruto aftazonado pêra 
acabar de cumprir de todo efta tão grande 
obra ■ celebrou Concilio Provincial no lugar 
de Diamper com a mor ceremonia , e ma- 
geftade que pode , que fe começou na ter- 
ceira Dominga depois do Pentecofte , que 
cahio a vinte de Junho deita era em que 
andamos. Acháram-fe neile o Capitão da 
Cidade de Cochim, Vereadores, e outras 

ÍiéíToas principaes \ e os .Padres Francilco 
lodrigues , e Jorge de Caílro da Companhia 
de Jelii , e o Confeílbr do Arcebiípo , que 
era Religioíb da Ordem do gloriofo Pa- 
dre Santo Agoltinho , que íe chamava Fi\ 
Braz. Neíle fe ordenaram coufas muito 
fantas , e boas ; e os Procuradores dos po- 
vos j Párocos , e Vigairos fizeram Profifsao 
da Fé Catholica. Com o que aquella Chri- 
ftandade tornou a renafcer por graça : o 
que Deos noíTo Senhor confirmou com al- 
guns milagres , que fua mifericordia quiz 
obrar pêra moftrar quanto aquella obra 
lhe agradava, e era aceeita. 

Depois de acabado o Concilio, vi fitou o 
Arcebifpo as terras dos Chriftaos , e todas 
fuás Igrejas com grande defpeza da fazen- 
da , -e rifco de fua vida 3 porque algumas 



204 A S I A de Diogo de Couto 

vezes trataram de o matar ; mas de todas 
o livrou Deos quali milagrofamente. Os 
Decretos do Synodo fe enviaram depois ao 
Summo Pontífice Romano , que os appro- 
vou, eeftimou muito aquella obra, haven- 
do-a por coufa a que o Efpirito Santo 
aífiftfra , e proveo logo aquelle Bifpado de 
Bifpo Catholico , que foi o Padre Francif- 
co Rodrigues da Companhia , em quem con- 
corriam muitas partes pêra o cargo que lhe 
davam; porque além de o merecer naquel- 
la jornada , em que fempre acompanhou ao 
Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes, fa- 
bia muito bem a lingua Maiavar , e Cal- 
dea : e agora ao prefente que efcrevemos 
iílo governa efte Arcebifpado com muita 
fatisfação , e tem aquelles Chriítãos tão 
differentes do que eram antigamente, que 
parece que foram creados de meninos com 
o leite da Santa Fé Catholica. Demos re- 
lação deitas coufas , aífím por ferem da glo- 
ria de Deos noílb Senhor , como por fuc- 
cederem nefte tempo do governo do Con- 
de Almirante, de quem efcrevemos , que 
deo três mil pardaos pêra ajuda de cufto 
ao Arcebifpo pêra efta jornada , e huma 
galé pêra irem , e tornar. 



CA- 



Década XII. Cap. VIL 30? 

CAPITULO VIL 

De como EIRey de Portugal mandou paj* 
far Carta de Irmão em Armas a EIRey 
da Gundra , que lhe o Ârcebifpo D. Fr. 
Aleixo de Menezes pajfou , conforme d 
ordem que lhe deo o Conde Almirante 
Vifo-Rey : e das obrigações que lhe poz : 
e de como renunciou feus Reynos nas mãos 
do Ârcebifpo , que lha acceitou em nome 
do Conde Vifo-Rey. 

HAvia muitos annos que EIRey da 
Gundra no fertão de Coulao andava 
cm requerimento com EIRey noííb Senhor, 
queDeos tem na gloria, acceitalio por feu 
irmão em Armas, que he a mór honra, c 
mercê que os Reys de Portugal fempre fi- 
zeram aos Reys da índia , que por obras 
lho mereceram : ao que EIRey o quiz la- 
tisfazer. E nas náos paliadas , de que veio 
por Capitão Mór D. Affonfo de Noronha, 
cm huma inftrucçao que veio ao Conde , 
lhe mandava EIRey que paíTaffe Carta de 
Irmandade com as claufulas , e condições 
acoftumadas , e áquelle Rey efereveo car- 
tas de honras , e mimos. E querendo o 
Conde cumprir a vontade de EIRey, quan- 
do o Ârcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes 
fe embarcou pêra ir vilitar os Chriílãos de 
Couto. Tom. ult. Y S« 



306 A S I A de Diogo de Couto 

S, Thomé, como já diífemos, entre mui-» 
tas coufas que lhe encommendou, foi eíla 
deíle Rey daGundra, a quem efcreveo, e 
lhe mandou a carta deElRey. E eílando o 
Arcebifpo nas terras da Rainha de Chan- 
garnate vifitando a Igreja de Talevacare, 
que he das mais antigas daquella Chriítan- 
dade, onde lhe moítráram três laminas de 
cobre de dous palmos de comprido > e 
quatro dedos de largo , em que eítavani 
abertas ao boril differentes letras , e cara- 
éteres , que continham os privilégios , doa- 
ções , e rendas que o Rey de Couiao con- 
cedeo áquella Igreja , quando alli edificaram 
os dous Babylonicos Mar Xabro , e Mar 
Podde que atrás tratámos. Eftas três la- 
minas tinham eíles Chriílaos dalli em gran- 
de veneração 5 e eftima. Aífim que eílando 
o Arcebifpo viíitando efta Igreja , mandou 
recado ao Rey daGundra, pêra que fevif- 
fem onde elle ordenaífe, porque importa- 
va aífim ao ferviço deElRey de Portugal, 
e honra fua. A elle recado mandou EIRey 
refponder que feria com elle , mandando- 
lhe nomear o lugar, que era dalli perto em 
hum campo rafo entre grandes matas de 
arvores carregadas de pimenta. E ao dia 
ailinalado partio o Arcebifpo muito bem 
acompanhado de todos os que o feguiam, 
que era gente graúda , e muito luílrofa p 



Década 111. Cap. VII. 307 

e achou aquelíe Rey efperando-o naquelle 
lugar acompanhado do Príncipe Herdeiro, 
c de íeus Regedores, e Naires Principaes, 
c da gente miúda muito grande copia ; e 
depois das palavras gera es daquella pri- 
meira vifta, que foram aílentados em cadei- 
ras de veludo , que o Arcebifpo pêra iíTo 
mandou levar , lhe diíle , que EiRey de 
Portugal lhe tinha concedido a mercê que 
havia tantos annos pertendia , que era re- 
cebello por irmão feu em armas , mercê 
que osReys de Portugal concediam a pou- 
cos , por ler a maior , e de mór eftima que 
todas as que faziam aos que lho bem me- 
reciam , como o elle fempre fez nos favo- 
res que deo ás Igrejas do feu Reyno , e 
Chriftãos delle i e a pimenta que de fuás 
terras paíTava pêra a Feitoria de Coulão , 
que tudo ifto eram merecimentos pêra lhos 
EIRey de Portugal agradecer, como o fa- 
zia naquella honra que lhe dava. E logo 
lhe entregou a Carta de EIRey , ç lhe 
paffou alli a de irmão em armas , ou a le- 
vou feita de Cochim ; e porque me não 
lembra que João de Barros efcreveíTe a 
forma delias , me pareceo bem polia aqui 
de verbo ad verbum , aflim como eftá na 
Torre do Tombo de Goa no livro das Pa- 
zes , e Contratos folha 146, 

)) EIRcy de Portugal , &c. Faço faber 
V ii » aos 



308 ÁSIA de Diogo de Couto 

> aos que efta minha Carta virem , que 
» conííderando eu a grande obrigação que 
)> tenho de trabalhar muito , porque fe di- 
» late a noíTa Santa Fé Catholica , enfina* 
» da porjefu Chrifto noílb Senhor, o que 
» com feu favor tenho feito nos Reynos > 
» e Eftados de minha Coroa , á imitação 
» dos Senhores Reys de Portugal meus 
» predeceíTores ; e tendo refpeito a que pêra 
a efte meu intento convém muito a paz , e 
)> união dos Reys das partes da índia , pêra 
» que os Miniftros do Santo Evangelho 
"'* obrigados com eíla paz a poífam melhor 
» pregar , chamando por efte caminho aos 
» infiéis ao grémio da Santa Madre Igreja 
» por meio do fanto baptifmo. E porque 
)> íbu informado de peíToas zelofas do fer- 
» viço de Deos , e meu , que EIRey da 
» Gundra Topa Muta Pandara pertende 
» ha muitos annos que eu , por lhe fazer 
» mercê o acceite por meu irmão em ar- 
)> mas a elle , e a feus fuecefíbres , a que 
» me tem obrigado com muitos ferviços; 
» e pedindo-me o meímo por fuás cartas 
» eferitas , aílim a mim , como aos meus 
» Vifo-Reys do meu Eftado da índia. Pelo 
» que eu por folgar de lhe fazer mercê , 
» rèípeitando a inítancia com que me faz 
» efte requerimento , hei por bem , c me 
i> praz de o tomar a elie> e a feus fuecef- 

$ fo- 



Década XII. Cap. VIL 309 

» fores P que forem Reys do dito Reyno > 
» por meus Irmãos em armas , e quero 
» que gozem de todos os privilégios , 
y> liberdades , franquezas , e mais mercês 
j> de que gozão femelhantes Reys meus ir- 
y> mãos em armas : pêra o que lhe faço 
y mercê de huma bandeira Real , pêra que 
» por ella feja conhecido por tal , e meus 
» Capitães o feguirem em fuás guerras , 
» em que leram ajudados com as armas 
a da índia ? e por terra com meus vaííal- 
» los todas as vezes que diífo efti verem 
» necelUtados 3 e pedirem. E mando aos 
» Capitães de Coulão que da publicação 
» delia por diante façam muitos favores 
* aos vaífallos do dito Rey da Gundra , 
» não confentindo fer-lhes feito aggravo 
} algum. Pêra que em nenhum tempo fc 
;» ponha em efquecimento a obrigação que 
» fica ao dito Rey , e feus fucceílbres pêra 
y> effeito da confervação deita paz , e ir- 
» mandade, mandei ajuntar a efta Carta as 
» coufas que prometteo , e fica obrigado 
j» a cumprir, que são as feguintes. 

» Primeiramente dará licença , pêra 
» que em fuás terras fe façam Igrejas \ e 
» fe alevantem Cruzes naquellas partes 
» que aos Miniftros que andarem na Chri- 
a ftandade, parecerem mais accommodadas 
j> pêra haver Chriítandade , não impedindo l 

2 fa- 



3 io ÁSIA de Diogo de Couto 

a fazerem Chriftã toda a forte de pefTòa ,- 
a de qualquer eftado , e condição que feja; 
3) e o que fe fizer Chriftão , não perderá 
y> por iíTo o offiçio , ou dignidade que ti- 

> Ver, nem fua fazenda, ou alguma parte 
y> delia , e por fua morte a poderáó teftar 
y> em feus herdeiros ; e não nos tendo , a 

* deixarão a quem quizerem^ conforme ao 
2 que ufam os Chriílãos , que fe contém 
)> em minhas Ordenações. E defte favor 
a gozaram também os ChriMos de S. 
» Thomé , que morarem em fuás terras, 
a fendo em tudo ajudados , e favorecidos 

> dos ditos Reys. 

» Mandará o dito Rey , que junto as 
2 ditas Igrejas fe não façam de novo Mef- 

* quitas de Mouros , nem Efnogas de Ju- 
2> deos , nem Pagodes de Gentios , nem 

> ainda confentirá habitarem nenhumas 
» das ditas gentes perto das Igrejas, pelo 
» que fe deve á veneração delias , e pêra 
y> nada fer eftorvo ao conteúdo no Capitu- 
}) lo precedente : e aílim que as ditas Igre- 
a jas fejam couto aos que fe a ellas aco- 
2 lherem, como he ccílume entre os Chri- 
» ílãos ; e os Padres que andarem no mi- 

> niílerio da Chriftandade poderão entrar 
» feguramente pelas terras do dito Rey, 
3> poíto que efteja com outro de guerra , 
» levando comfigo a companhia que lhe 

* for 



Década XII. Cap. VII. 311 

5) for neceífaria com a guarda devida , fem 
» ferem obrigados a pagarem pensões , ou 
» outro algum tributo ; e teram jurdiçao 
» nas Igrejas pêra poderem conítranger aos 
; » Chriftaos com os caftigos que lhes pare- 
» cer , a guardar as couías de fua Lei , fem 
» lhes a ifíb fer pofto impedimento algum. 

» Será o dito Rey , e feus fucceílbres 
» amigo dos amigos do Eílado da índia, 
me inimigo de feus inimigos , pelejando 
)> todas as vezes que for neceífario em 
» defensão da Fortaleza de Coulao contra 
» quem com ella tiver guerra 5 achando-fe 
» niílo com fua peífoa, e vaílallos : e da 
» mefma maneira pelejarem contra os 
í Reys , que tiverem guerra com Eílado nas 
3> partes em que puder , entregando os 
y> inimigos que fe acolherem a fuás terras 
3> pêra fe fazer delles juíliça. E ailim mais 
» fera obrigado a não dar mantimentos, 
y> nem conlentir que paífem por fuás ter- 
» ras pêra os inimigos do Eítado , ou os 
» que com elle tiverem guerra. 

» Serão obrigados a fazer que pelos 
y> portos feccos de feu Reyno não palie 
)> pimenta alguma , obrigando a feus vaf- 
» fallos que tragam a que tiverem ao pezo 
* de Coulão , onde fe lhes comprará pelo 
» preço ordinário , fendo-lhes ifto pedido 
í> pelos Portuguezes. » 

Nef- 



312 ÁSIA de Diogo de Couro 

Neíle contrato , e obrigação fe aííignou 
EIRey da Gundra com o Arcebiípo D. 
Fr. Aleixo de Menezes , e o traslado de- 
ram áquelle Rey pêra fua guarda , e fe 
publicou na Fortaleza de Coulão pêra fer 
notório a todos. 

Acabado aquelle Auto da bandeira das 
Armas de Portugal ao Rey da Gundra, 
mandou EIRey affaftar a gente toda, tira- 
do o Príncipe , e Regedores , e então deo 
ao Arcebiípo particular conta das coufas 
de feu Rey no , reprefentando-lhe a idade 
tão decrépita em que eftava , e que cada 
dia. efperava pela morte , e que depois 
delia ficava feu Reyno arrifcado a fe per- 
der , fenão tiveífe quem o defendeffe dos 
Reys vizinhos , que eram mais poderoibs 
que elle. E vendo o Arcebifpo aquelía 
porta que fe lhe abria pêra tratar do que 
mais convinha ao Eftado , refpondeo áquel- 
le Rey : » Que já que elle era irmão em 
» armas de EIRey de Portugal , não po- 
» dia deixar de lhe dizer o que lhe con- 
)> vinha.» E lhe difle mais: » Que elle ef- 
» tava informado que o Rey de Travan- 
» cor não efperava mais que falecer elle 
» pêra logo fe fenhorear do feu Reyno , 
» por dizer que pertencia á Rainha de 
a Changarnate fua fobrinha , que o tinha 
2> perfilhado : e que foubeífe que fe eíte 

» vi- 



Década XII. Cap. VII. 313 

a vizinho mettia o pé em feu Reyno , ha- 
> via de roubar , maltratar, e avexar feus 
» vaíTallos , e governallo por feus Naires. * 
Eíle difcurfo do Arccbifpo tinha o Rey 
já concebido , porque receava muito que 
fazendo-fe o Travancor Rey daquelle Rey- 
no , ficava a Fortaleza de Coulão cercada 
por todas as partes , coufa muito perjudi- 
cial ao Efcado, porque eftava certo tolher- 
Ihe os mantimento^ , e o trato da pimen- 
ta : e por iflb fez ao Rey fobre ifto aquel- 
las carrancas , que o amedrontarão tanto, 
que refpondeo ao Arcebifpo que todas as 
coufas que lhe tinha dito fabia elle mui- 
to bem. Ao que lhe o Arcebifpo replicou 
com lhe dizer , que fe quizeffe tomar feu 
confelho , que lhe daria ordem pêra com 
muita facilidade fe livrar daquelles males, 
que tanto temiam. Ao que EIRey \ e to- 
dos os do feu Confelho refpondêram , que 
de muito boa vontade o tomariam. Então 
fe declarou o Arcebifpo, e lhe dilfe, que 
renuncialfe o Reyno nas mãos de EIRey 
de Portugal feu irmão , que elle o entrega- 
ria da fua mão a Rey que o defendefTe 
com a ajuda dos Portuguezes do poder 
do Rey de Travancor , e de todos feus 
inimigos. A ifto deo o Rey da Gundra, e 
todos os do feu Confelho a orelha , e diífe 
que já elle difcuríàra em feu penfamento 

en- 



314 ÁSIA de Diogo de Couto 

entregar aquelle Reyno a EIRey de Co- 
chim, pêra que o defendeíle, por fer Rey 
poderofo , e ter íempre ajuda dos Portu- 
guezes, e que elle o não quizera acceitar, 
por eftar o feu Reyno muito defviado* 
E já que aíTim era , que elle entregaria o 
Reyno nas mãos delle Arcebifpo em nome 
de EIRey de Portugal feu irmão , pêra 
que elle o déíTe a quem odefendeífe, com 
tal condição que jurafle primeiro na Cruz , 
c livro dos Chriftãos , que o não entrega- 
ria fenão a quem elle , o Principe , e feus 
Regedores lhe pareceííe bem , e que elles 
todos jurariam de entregar o Reyno a 
quem elle com feu confentimento nomeaf- 
fe. O que o Arcebifpo logo fez fobre hum 
Mifial com hum Crucifixo poílo em íima , 
na maneira feguinte. 

» D. Fr. Aleixo de Menezes , Arcebifpo 
» Metropolitano ie Goa , Primaz da índia, 
» e partes Orientaes , do Confelho de S. 
» Mageftade 5 &c. Por efte me obrigo em 
3 nome de S. Mageftade , e do Eítado da 
> índia de entregando-me EIRey da Gun- 
» dra o Reyno de S. Mageftade pêra pôr 
7) nelle a peílba que mais conveniente for 
» ao ferviço do dito Senhor, bem do Ef- 
» tado da índia , e do mefmo Reyno da 
» Gundra, Principe do Reyno, e feus Re- 
2> gedores j e em efpecial tratarei de o 

)) en- 



Década XII. Cap. VIL 31? 

» entregar a EIRey grande de Cochim , ou 
» ao Príncipe grande do dito Reyno , ou 
» a EIRey Nambiari de Porca , qual me- 
J> lhor parecer ao Eftado , com obrigação 
)) de defenderem o dito Reyno de léus 
» inimigo^ e o manterem em paz , juftiça , 
» amizade , e fujeição dos Portuguezes , e 
» daMageftade de EIRey de Portugal noílb 
» Senhor , e mais condições que o Eftado 
» lhe puzer. O que tudo juro de cumprir, 
» e guardar quanto em mim for, aos Santos 
» Evangelhos de Jefu Chrifto noífo Se- 
» nhor , em que ponho minhas mãos , e 
a por minha confagração ; e por me o dito 
» Rey da Gundra pedir efte 5 o fiz , e aííig- 
» nei prefente o dito Rey , Principe , e 
)) mais Regedores. » Efte juramento eftá 
no Livro dos Contratos que tenho na Torre 
do Tombo a folh. 146. 

E logo o Rey , Principe , e Regedores 
fizeram juramento conforme a feu coftume, 
na maneira feguinte. » Nós EIRey de Gun- 
» dra com a Rainha Herdeira 3 Príncipes 
» Herdeiros Brama , e Ramorma , com to- 
» dos os do nóflb Confelho ? e Governo , 
» confiados na Mageftade de EIRey de 
» Portugal 5 lhe entregamos o Governo , e 
» as terras , e vaífallos , e tudo o mais por 
» meio de D. Aleixo de Menezes , Arcebif- 
2> pD Metropolitano , Primaz da índia , pêra. 

» Q 



3ió ÁSIA de Diogo de Couto 

» o governar com juftiça , e defender os 
» nolfos Reynos , e Senhorios ; e porque 
» nunca haja quebra , e defunião entre El- 
» Rey de Portugal , e nós , poderá pôr 
* huma peflba daqueílas que o Arcebifpo, 
:» e nós temos praticado, a Eíle juramen- 
to 5 e obrigação eftá no mefmo Livro dos 
Contratos a folh. 149. 

Feitos eíles juramentos , diífe o Arce- 
bifpo a EIRey , que bem fabia que os 
Reys , que no Malavar eram amigos dos 
Ponuguezes ) que tiveflem terras mais perto 
daquelle Reyno da Gundra 5 eram o de 
Cochim, Porca , e o de Cale Couíao, que 
deites três efcolheíTem hum a que aquelle 
Reyno fe entregafíe. E logo alli alTentou 
EIRey com feus Regedores que com m et- 
teflem primeiro com elle a EIRey de Co- 
chim ; e que não no querendo elle , o en- 
treeaílem ao de Porca. E defte leu confen- 
timento fe fez outro Auto aífignado pelo 
Rey da Gundra < Principe , e Regedores , 
e aííentáram que o Regedor Mor foífe 
com o Arcebifpo a Cochim a fe achar 
prelente á acceitaçao do Reyno a hum 
daquelles dous Reys nomeados. E com 
iflo fe defpedíram , dando o Arcebifpo 
peças 5 brincos curiofos aquelle Rey, Prin- 
cipe , e Regedores , porque todos eftes 
Reys do Oriente em todos negócios que. 

te- 



Década XII. Cap. VII. 317 

temos com elles , eítão com o olho no que 
cíperam daquelies com quem negoceam. 

CAPITULO VIII. 

Da Fortaleza que o Rey de Travancor foi 
alevantando com dijjimulação : e do que 
pajfou em humas vi/ias que teve com o 
Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes. 

ELRey de Travancor , cujo Eftado jaz 
de Coulão até o Cabo de Çomorim, 
que antigamente foi cabeça de todo o Ma- 
la var, e ainda da Ilha de Ceilão (como já 
em outra parte moítrei) fempre , depois que 
tivemos aquella Fortaleza em Coulão , lan- 
çou mão de pequenos bicos pêra quebrar 
a amizade com o Eílado , ' e fazer guerra 
áquella Fortaleza , como pelo difeurfo das 
minhas Décadas tenho elerito , por fer 
natureza de todos eíles Reys gentios não 
terem Lei , nem Fé ; e neíte tempo em que 
agora andamos , andava quafi alterado, e 
com elle a Rainha deChangaraate , Senho- 
ra das terras de Coulão fua vizinha, e vaf- 
lalla , e com penfamentos de maldades , 
como logo moftrou ; porque começou com 
grande diíTimulação a fazer huma arrezoa- 
da Fortaleza junto á Igreja dos Chriítaos 
de S. Tíiomé , que eftá aífaílada da Fortale- 
za 



318 AS IA de Diogo de Couto 

za diftancia de duzentos paíTos , donde lhe 
ficava em bateria ; e lançou fama que era 
hum pagode que alevantava á honra dos 
feus idolos , que era o peior , e mais máo 
de íbffrer; porque fe o fizera com nome, 
e titulo de Fortaleza , fó ficava fendo af- 
fronta do Eílado foffrer-lha ; mas com nome 
de pagode, como elle dizia , e tão perto 
do Templo dos Chriílãos , era ódio da noífa 
Religião, porque Deos, eBaal não podem 
caber em hum Altar; e alTIm por todas as 
razões era o Eftado obrigado a acudir 
logo a iílb , como o Conde Almirante per- 
tendeo fazer ; porque o anno em que acon- 
tece o o defaftre do Cunhale tinha manda- 
do a feu irmão D.Luiz da Gama, que dan- 
do-lhe Deos vitoria , paífaífe a Coulão a 
desfazer aquella Fortaleza : o que não teve 
effeito , por chegar a Chocim quebrado , e 
com muita gente morta , e ferida ; e de- 
pois que André Furtado de Mendoça aca- 
bou aquella empreza do Cunhale , lhe efcre- 
veo o Conde a Cananor , como adiante 
veremos , que com toda fua Armada paf- 
faífe a Coulão, e desfizeífe aquella Forta- 
leza , o que deixou de fazer por fer já 
tarde. 

E aífim trazia o Conde iílo na imagi- 
nação , que quando o Arcebifpo D. Fr. 
Aleixo de Menezes foi pêra Cochim , o 

que 



Década XII. Ca?. VIII. 317 

que mais lhe encommendou j e encarregou 
foi eíte negocio : e que viíTe , e notaíTe o 
fitio daqueila Fortaleza , e que avifaífe a 
feu irmão D. Luiz da Gama a Cunhale 
pêra fe lhe Deos déíle vitoria , paliar a 
concluir aquillo : e como o Arcebifpo le- 
vava iílo tão encommendado do Vifo-Rey, 
andando vifitando as Igrejas deCoulão, 
chegou áquella dos Chriilaos junto donde 
aquelle Rey tinha feito aquella Fortaleza y 
c com diífimulação a andou notando > e 
mandou medir o efpaço delia. 

Tinha neíte tempo a Fortaleza fechada 
huma grande quadra com fete Baluartes 
mui bem ordenados , e o que ficava fobre 
o mar era o maior , e mais forte de to- 
dos. Porque como logo fe temeo de noíTas 
Armadas , prevenio-fe contra ellas de maior 
defensão ; e depois de tudo muito bem 
notado , e entendido o perjuizo que fazia 
á noífa Fortaleza , avifou a do Luiz da 
Gama, eítando fobre a barra de Cunhale , 
como lhe o Conde Vifo-Rey encommendou , 
pêra que fe pudeífe acudir lá , o fizefíe. 
Mas não pode fer pela razão que já diífe 
aífima , que não foi pequena perda , por- 
que em nenhum tempo fe pudera aquillo 
fazer melhor, e a menos culto do Eítado , 
que naquelle, por andar aquelle Rey em- 
baraçado , e travado em guerras com os 

vi- 



320 ÁSIA de Diogo de Couto 

vizinhos y e na Fortaleza não havia mais 
que os officiaes , e poucos olheiros , e me- 
nos defenfores : e aííim o efcreveo ao Con- 
de Almirante , que logo tratou de refor- 
mar a noíía Fortaleza , de que a mor parte 
eftava no chão : o que o Arcebifpo D Fr. 
Aleixo de Menezes fez com muita prudên- 
cia, e diffimulaçao. 

E porque fe receava da Rainha de 
Changarnate vizinha da cafa 5 que lhe qui- 
zeííe impedir a obra , deo em muito fe- 
gredo dinheiro aos moradores , de quem fe 
fiou, pêra que compraílem pedra , ecal com 
fama de reformarem fuás cafas , como fem- 
pre faziam todos os verões : e delia ma- 
neira recolheram huma grande quantidade 
deites materiaes , com que fe começou apor 
as mãos á obra , pêra que o Conde Vifo- 
Rey lhe tinha mandado dar dinheiro em 
abaftança : e primeiro que tudo fe fez hum 
formofo baluarte na parte principal da de- 
fensão daquella Fortaleza , e correram jun- 
tamente com hum panno de muro de boa 
groífura até outro baluarte que já eftava 
feito ; e ao que fe fez de novo , puzeram 
os moradores o nome do Arcebifpo em 
íua memoria. 

E o meímo defeuido que havia com 
cfta Fortaleza (como já diíle em outras 
partes da minha hiftoria , e não deixarei 

de 



Deòada XII. Cap. Vm. 321 

de dizer até que me oução) ha em todas 
as mais da índia; porque he] muito antigo 
nella não acudirem ás eoufas , fenão quando 
não tem remédio : e ainda então o fazem > 
porque mais não podem , e defpendem em 
leu concerto dez vezes dobrado do que fe 
houvera de jgaftar , acudindo a tempo ; por* 
que os mais dos Vifo^Reys eílao com o 
intento em fe irem pêra o Reino i e dei* 
xam os trabalhos difto ao que lhe fuccede, 
que também o fez como elle ,, e allim de 
defcuido em defcuido fe viráô a perder 
as mais das Fortalezas 5 como fe perderam, 
as de Tidoro , e Amboino > que des que 
fe fizeram até gora não houve Vifo-Rey que 
de propofíto as mandaííe reformar > e re- 
novar. Mas que he de efpantar neítas que 
eftam tão apartadas da índia 3 fe as de Diu , 
e Ormuz > que são as mais importantes del- 
ia , eftam arrifcadas a fe vir ao chão ; e fe 
ainda eftas eílam apartadas , as de Onor, 
e Barcelor, eMangaíor, eCananor, eftan- 
do tanto á porta , eftam quafi derribadas por 
muitas partes 5 íem lhes acudirem > e tudo 
or pouparem a fazenda Real , que nunca 
e melhor gaitada , que na reedificação , e 
provimentos de fuás Fortalezas y e fe fe 
perder huma deílas quatro , que quali são 
curraes , corre afama pelo mundo , que to- 
maram na índia huma Fortaleza -a EIReyj 
Cento. Tom. ult* X e 



i 



322 ÁSIA DE DlOGÕ DE CoVTG 

e quando me dizem oeftado em que eftam, 
certo que cuido que as fuftenta Deos nofíb 
Senhor pelas orações que ha nos Templos , 
e Mofteiros dos Religioíbs que nellas ha. 
E tornando a noflb fio , eíle Rey de 
Travancor , depois que fez efta Fortaleza 
pêra nos ter com ella enfreados , parece 
que andava nefte tempo com imaginação 
de lhe pôr cerco no inverno ; e temendo-fe 
dos foccorros que lhe podiam vir de Co- 
chim por dentro dos rios f determinou de 
os impedir com mandar fazer outra Forta- 
leza defronte de huma boca que alli faz o 
rio, que vem de Cochim fahir ao mar huma 
légua abaixo de Coulao , e a eíla Fortaleza 
poz nome Marnuge, ou porque fe chamaf- 
íe aflim aquella parte em que a fez , ou 
porque tivefle aquelle nome alguma figni- 
ficaçao. Deita fe refentíram mais os mora- 
dores daíli , que da outra tão vizinha , por- 
que totalmente lhe tolhia a paíTagem da- 
quelle rio , que era o mor ferviço que ti- 
nham pêra Cochim. 

Tanto que o Arcebifpo foube deita 
Fortaleza 5 e lhe deram relação delia , man- 
doú-fe queixar a EIRey , que mandou ter 
com elle algumas fatisfações , e por íima 
delias determinou de fe ir ver com elle 
dentro na noífa Fortaleza , confiado que do 
Arcebifpo* podia mui bem confiar fua pe£ 

foa, 



Década XII. Ca?, VIII. 325 

fòa y c aílim partio pêra lá acompanhado 
de alguns feus Grandes; e chegando á For- 
taleza , quando fe vio da porta pêra dentro , 
parou hum pouco , e ficou muito penfativo 
íem dizer coufa alguma > e logo diíTe : Ne* 
fihum homem fe aventurará ao que meti 
hoje aventuro ; e movendo o paflb pêra 
diante, diíTe : Ora fi gamos a ventura ; e 
aífim muito inteiro > e feguro foi entrando , 
e o Arcebifpo o foi tomar hum pouco já 
de dentro , e ambos fe abraçaram com 
moftras de amizade , e fubidos aífima fe 
aílentáram : e depois das palavras geraes 
daquella vifita , lhe diífeElRey quenaquel- 
la demonftraçao que fizera emfevir metter 
naquella Fortaleza , veria quanto confiava 
delle, e dos Portuguezes , de quem fempre 
fora muito bom vizinho , e grande amigo \ 
e que iílb moílrára fempre no favor que 
dera ás Igrejas , e Chriftaos > que eftavam 
em feu Reyno , como elles diriam ; e que as 
duas Fortalezas ? de que fe lhe mandara 
queixar , elle as não fizera com tenção de 
moleílar o Eítado, fenao pêra fe defender 
de alguns inimigos : a de Mamuge pêra 
contra o Naique de Madure , e que a ou-* 
tra , que alli eftava mais perto ; pêra contra 
o Rey de Cale Coulao ; e que fe efta For- 
taleza dava algum pezadumbre ao Eftado, 
que mandaíle metter nella Toldados Portu- 
X ii gue- 



324 ÁSIA de Diogo de Coitto 

guezes , e que fe apoíTaíTem de hum dos 
baluartes pêra fua fegurança ; e que jurava 
por fua lei , que quando a fizera não tivera 
intento algum de offender a noíla Fortale- 
za y nem aos Portuguezes com quem fem- 
pre defejava de ter paz ? e amizade; e que 
não tiveíTe outra coufa pêra fi ; que elle 
eítava preíles pêra fazer todas as demonf- 
trações do que dizia , como elle quizeíle , 
Dera fegurança de fua verdade, O Arcebif- 
3o teve com elle muitos cumprimentos, e 
.ke agradeceo aquella vontade que lhe 
moftrava , e que fe iria pêra Goa confia- 
do em fua fé , e palavra , porque os Reys 
não podiam enganar ninguém : e aílim fe 
defpedíram muito fatisfeitos, e o Arcebif- 
po mandou dar preífa á obra da Fortaleza, 
que logo fe acabou. 

CAPITULO IX. 

De como o Arcebtfpo D. Fr. Aleixo de Me- 
nezes fe pafou a Cochim , e entregou o 
governo do Reyno da Gundra a EIRey 
de Porcd : e dos contratos que com elle 
fez. 

DEpois do Arcebifpo concluir com as 
coufas de Coulão , e acabar de viíitar 
fuás Igrejas , e deixar nellas ordem, e re- 
gi- 



Década XII. Cap. IX. 32? 

gimento a feus Curas pêra fe governarem 
êm politica chriílã , e bons coitumes , ti- 
rando-lhe alguns , que tinham cheios de 
abusões , Jogo fe paliou á Cidade de Co- 
chim , onde entre muitos negócios que 
alli tratou , conforme as lembranças que 
tinha do Conde Almirante , o principal 
foi na entrega do Reyno da Gundra a EI- 
Rey de Porca, porque em nenhum tempo 
foíle á mão doRey deTravancor, de quem 
fe não fiava por mais cumprimentos, e fa- 
tisfa^ões que com elle tivera : porque bem 
entendia quanto havia de trabalhar por fe 
fazer fenhor daquelle Eílado , pêra ficar fo- 
peando todos os Reys vizinhos : e aífim 
mandou primeiro ofFerecer aquelle Reyno 
a EIRey de Cochim , mandando-lhe dar ra- 
zoes pêra o haver de acceitar , de que fe elle 
por lima de todas ellas efcufou daquella 
obrigação. Pelo que o Arcebifpo com con- 
felho do Capitão , Vereadores , e Cidadãos 
principaes fez entrega daquelle Reyno a 
EIRey de Porca na Cidade de Cochim , e 
diífo lhe paiTou carta patente em nome de 
EIRey de Portugal , cujo theor he o fe- 
guinte : 

» EIRey de Portugal , &c. Faço faber a 
» quantos eíta minha Carta de entrega do 
> Reyno da Gundra virem , que tomando 
» eu por meu irmão em Afinas, a Muta 

» Pan- 



326 ÁSIA de Diogo de Couto 

)> Pandará Rey da Gundra por muitos fer~ 
» viços que me tinha feitos , e de outros 
» que delle efperava me fizeíTe : e man- 
» dando fazer as Capitulações das pazes, 
» e irmandade por D. Fr. Aleixo de Me- 
» nezes , Primaz da índia , e do meu Con- 
» felho , o dito Rey Muta Pandará com 
» feu Principe , Regedores , e PeíToas do 
» feu Confelho me entregaram o ditoRey- 
» no da Gundra , de que pafsáram Ola ao 
» dito Arcebifpo Primaz , pêra que elle em 
» meu nome entregaíTe o dito Reyno , e 
» metteíTe de poífe delle a peíToa que mais 
» conveniente fofle a meu ferviço , bem do 
» Eftado da índia , e do dito Reyno da 
» Gundra , pêra que o defendeíTe de feus 
» inimigos, e o mantiveíle em paz, e juf- 
» tiça , e bem dos vaíTallos do dito Rey- 
# no. E coníiderando eu os ferviços que 
5> me tem feitos Cheba Cherida Bearidem, 
» Rey de Porca , e aos que èfpero ao dian- 
)> te me faça ; e havendo outro íi refpeito 
)) ao ter tomado por meu irmão em Armas , 
» por lhe fazer mercê, e confiar delle que 
» cumprirá com todas eftas obrigações , e 
» fe não apartará nunca de meu ferviço , 
y> lhe entrego por efta minha Carta a poíTe 
a do dito Reyno, pêra que elle feja Rey, 
£ refervando pêra mim o fenhorio do dito 
$ Reyno* E pêra reconhecimento deita 

p vaf- 



Década XIL Cap. IX. 327 

» vaíTallagem ? fera o dito Rey obrigado 
» a me pagar de páreas oitenta bares de 
» pimenta poítos á ília cufta no meu pezo 
• » de Coulao em cada hum anno no tempo 
» que fe coftuma pezar a pimenta no dito 
» pezo. E affim mais fera obrigado acudir 
» com fua peííoa , e vaííallos á Fortaleza 
» de Coulao todas as vezes que diflb tiver 
» nece/Tidade , ou eftiver de guerra , e lhe 
» mandar todos os mantimentos neceílarios 
» pelos preços convenientes. E todas as 
» mais capitulações aífím tocantes á Chri- 
)) ftandade , como ao Eftado da índia , que 
» com o dito Rey da Gundra tinha capi- 
)> tulado , que todas elle dito Rey , e feus 
» facceífores feriam obrigados a guardar, 
» e cumprir , aílim como fe nelles contém. 
y> E mando aos meus Vifo-Reys , e Gover- 
» nadores do Eílado da índia y e aos Ca* 
)) pitaes das minhas Fortalezas de Cochim , 
» e Coulao dem todo o favor , e ajuda , pe- 
» ra que o dito Rey de Porca pacifica , e 
)) livremente poíTua o dico Reyno da Gun- 
» dra com as condições , e páreas aílima 
» declaradas. » 

E logo o dito Rey fez hum aífento de 
como tomava poffe daquelle Reyno com 
as condições declaradas na Carta patente 
alTima, em que confeífa adita vaíTallagem, 
e páreas a que fe obrigou. Eíla entrega da 

di- 



328 ÁSIA de Diogo de Couto 

dito Reyno ao dito Rey fez; o Arcebifpo 
D. Fr. Aleixo de Menezes por ordem de 
D. Francifco da Gama , Conde Almirante > 
e Vifo-Rey da índia , que lhe concedco po- 
deres pêra em todas aquellas coufas em 
feu nome affignar nellas : e juntamente no 
meímo dia , que foram aos finco de Outu- 
bro de noventa e nove , paílbu o Arcebif- 
po Carta de irmandade em nome de El- 
Rey de Portugal ao mefmo Rey de Porca 
na forma da que paílbu ao Rey daGundra 
com as obrigações , ç claufulas , que todas 
tenho em meu poder no livro dos Contra- 
tos folh. 15T. e 152, E aos Capitulos fei- 
tos com o Rey da Gundra fe accrefcentá- 
ram mais ao Rey de Porca os que fe fe- 
guem, 

» Que fera obrigado a não dar manti- 
» mentos , nem confentir que fe façam em 
)> fuás terras , nem paílem por ellas pêra 
» os inimigos do Eítado que com elle ti-* 



» verem guerra. 



» Quando houver guerra com algumas 
» das Fortalezas do Malavar , de Cananor 
» até Coulao , as ajudará, e foccorrerá ta* 
» das as vezes que for requerido pelos 
3) Capitães de EIRey de Portugal , dando 
» por terra ao menos vinte mil homens , 
3> e pelos rios cento e fincoenta embarca* 
» ções com ília artilheria, e munições. 

a Não 



Década XII. Cap. IX. 32? 

» Não confentirá nos portos do mar 
» de feu Reyno morarem Mouros , por fe- 
» rem públicos inimigos do Eftado , nem 
» fe poderáõ recolher nelle embarcações 
» algumas dos inimigos do Eftado ; e aco- 
)> lhendo-fe, os mandará entregar. 

» Eítando alguma das noflas Fortalezas 
» doMalavar de cerco, as foccorrerá com 
» os mantimentos que houver nas fuás ter- 
» ras pelo preço conveniente. 

» Não deixará paíTar por fuás terras 
)> Mouros , nem efquipaçóes pêra navios 
> pêra as terras , onde fizerem guerra ao 
» Eftado. » E porque efte auto , e contra- 
to foi feito em Outubro que vem , depois 
das náos do Reyno ferem chegadas aGoa f 
por não largar das mãos as coufas que o 
Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes fez 
em Cochim , me pareceo bem mettellas 
aqui todas juntas pelas não dividir : e não 
me arguao de contar aílim algumas coufas 
antes , e fora do tempo em que fuccedê- 
ram , porque o difcurfo da hiftoria me dá 
lugar a iífo, e fer coufa que alguns hiíkK 
riadores graves usao. 



CA- 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO X. 

Das Armadas que partiram do Reyno efte 
anno de 1^99 : dos Capitães que o Conde 
defpachou pêra fora : e de outras coufas 
em que proveo. 

PElas novas que houve em Portugal, que 
em Hollanda fe apreílavam dez náos 
pêra paflarem a eftas partes da índia , como 
fizeram , de que trataremos em feu lugar 
mais largamente , ordenou o Confelho de 
mandar efte anno a ella huma boa Arma- 
da , a qual foi de fete náos , de que elegeo 
por Capitão Mor D. Jeronymo Coutinho. 
E quando foi entrada de Fevereiro de <)<). 
deo o Capitão Mor á vela com quatro 
náos , porque fe não puderam aviar todas 
perà partirem no mefmo tempo. Na náo 
S. Roque hia embarcado o Capitão Mor: 
Diogo de Soufa , a que cá chamavam o 
Gallego , hia na náo S. Simão : Sebaftião da 
Coita na Conceição : e João Pais Freire na 
náo Paz. Com o Capitão Mor fc embarcou 
João Rodrigues de Torres , que havia de 
fervir o cargo de Veador da fazenda de 
Goa , a quem EIRey fez muitas honras , e 
mercês por iíTo. 

Depois de partida eíla Armada , logo 
lio Março feguinte de 99. fe fizeram á vela 

as 



Década XII. Cap. X; 331 

as outras três náos da companhia de D* 
Jeronymo Coutinho. Deitas três náos hia 
por Capitão Mor Simão deMendoça, hum 
Fidalgo cafado na índia , que foi embar- 
cado na náo Caftello. Nas outras duas hia 
João Soares Anriques em S. Martinho , e 
na náo S. Mattheus hia Gafpar Tenreiro , 
que hia deípachado com a Fortaleza de 
Mafcate. Eiras três náos haviam de ficar 
na índia. Ambas eftas Armadas fe ajunta- 
ram em Moçambique , e todas eílas náos 
furgíram juntas na barra de Goa, tirando 
a náo Caílcllo , que fe perdeo no parcel de 
Çofalla junto de Quilimane defronte do 
rio Licumbo feflenta léguas de Moçambi- 
que. Depois de Simão de Mendoça , que 
era o Capitão, eftar em terra com toda a 
gente , morreo elle , e outros muitos. 

Neíta Armada vieram novas ao Conde 
Vifo-Rey da morte de feu filho D. Vafco, 
que não tinha outro, que elle fentio mui- 
to. Também vieram novas do falecimen- 
to de EIRey D. Filippe o Prudente , cujas 
exéquias celebrou o Conde Almirante com 
grande oftentação , e ceremonias. 

E acabadas ellas , entrou logo o Con« 
de no aviamento das Armadas que havia 
de mandar pêra fora. E porque os folda- 
dos que vieram do Reyno , andavam defa- 
gazalhadosj lhes mandou o Conde dar três, 

ou 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

ou quatro mezas até fe embarcarem nas 
Armadas , que he hum dos mores ferviços 
que fe faz a Deos , e ao Rey ; porque mui- 
tas vezes os vi andarem pedindo efmolas 
Í>elas portas com grande efcandalo , e af- 
ronta noíTa, por chegarem apedillas pelas 
dos Mouros , e Gentios , de que a alguns 
Vifo-Reys dava bem pouco. E defpachou 
o Conde a D. Francifco de Noronha pêra 
ir entrar na Capitania de Baçaim ? e a Gar- 
cia de Mello pêra Capitão , e Veador da 
fazenda de Cochim , por fer falecido D. 
António de Noronha. E defpedio também 
no mefmo tempo o Galeão dos provimen- 
tos pêra Ceilão , de que foi por Capitão 
Manoel Rodrigues Genóes , e mandou nel- 
le duzentos homens de foccorro : e por 
Capitão mor delles D. Bernardo de Noro- 
nha , e repartida a gente por quatro Ca- 
Í)itães y que foram Simão Ferreira do Val- 
e 5 Pêro Peixoto da Silva , Luiz de Antas 
Lobo, eBalthazar Pereira de Caftel-b ranço. 
E porque D. Pedro Coutinho tinha vindo 
do Reyno defpachado com Capitania de 
Ormuz pêra logo entrar , iabendo que ef- 
tava naquella Fortaleza D. Luiz da Gama 
de ferventia ? por não poder entrar nella 
por virtude da fua Patente , por ter por 
obrigação fervi r mais , pedio licença ao 
Conde pêra o mandar citar P que lhe elle 

deo, 



Década XII. Ca?. X. 333 

deo , por não negar juftiça até contra feu 

f>roprio irmão. Alcançada ella , defpedio 
ogo D. Pedro Coutinho hum navio ligeiro 
com as provisões que pêra iflb foram ne- 
ceíTarias > que lhe o Conde deo , e mandou 
paliar. 

E porque o Conde andava com hum 
defejo mui vivo de peíToalmente ir tomar 
fatisfaçao da quebra que o anno atrás teve 
110 Cunhale , com que não quietava 5 nem 
defcançava em folicitar o modo de como 
ifto fe faria , fobre o que teve alguns con- 
Telhos ; e pêra eíte negocio convocou a 
ajuda de todas as Cidades da índia, e pe- 
dio com cartas que efcreveo a peílbas par- 
ticulares y que tinham poíTe pêra o acompa- 
nharem em navios a íuas cuftas , e come- 
çou a preparar a Armada pêra o Malavar , 
pêra o que tinha feito eleição de André 
Furtado de Mendoça , e pêra a do Norte 
de Goterre de Monroy de Beja; e primei- 
ro que tudo defpedio huma Galé , e alguns 
navios mui bem providos de tudo , pêra fe 
irem ajuntar a D. Fernando de Noronha, 
que havia de fahir de Cananor 5 onde in- 
vernára em principio de Setembro , pêra 
tomar a barra ao Cunhale , pêra que fe não 
proveífe de coufa alguma. E logo o Con- 
de começou a pagar gente , e lançar na- 
vios ao mar , aífiftíndo clle peíToalmente a 

to- 



334 AS IA de Diogo de Couto 

todas eftas couías ; e andando neíla occu* 
paçao , lhe deram novas que pêra a coita 
do Norte eram paffados dezefeis navios 
de coflairos , em que entravam algumas 
galeotas de traquete ; e como o Conde ti- 
nha hum animo affervorado pêra eftas cou- 
fas, e entendeo bem que fe tomafle aquel- 
les navios , ficaria o Cunhale tão quebrado , 
que houvefle muito pouco que fazer com 
elle, e que começaria nelles a tomar íàtif- 
facão da nofla gente que pereceo em Cu- 
nhale , foi-fe logo pôr na ribeira das Ar- 
madas , e em efpaço de vinte e quatro ho- 
ras poz no mar outros dezefeis navios dos 
melhores , que fe negoceavam pêra ambas 
as Armadas , e elegeo pêra Capitão Mor 
delles a André Furtado de Mendoça , por 
lhe pertencer aquella jornada, porfer con- 
tra Malavares , e Mouros de Cunhale, de 
cuja empreza eftava nomeado por Capitão ? 
do que fe queixou Goterre de Monroy > 
que eftava nomeado pêra o Norte , haven- 
do-fe poraggravado do Conde, eoíFendido 
de André Furtado por acceitar entrar na 
fua jurdição , o que o Conde temperou. 

Éfta Armada fahio de Goa na entrada 
de Outubro; e não nomeio os Capitães dos 
navios , porque os mais delles eram da 
Armada do Malavar , o que ao diante fe 
fará. André Furtado foi correndo a coita 

até 



Década XIL Cap. X. 335* 

até ás Ilhas das Vacas na coita de Salfetè 
de Baçaim , onde foi avifado que fós féis 
Coutacouloes do rio Canharoto eram até 
então paíTados pêra aquella coita , e que 
da outra Armada não havia novas fe havia 
tal , porque não eílava o Cunhale em eíta- 
do de tirar de íi navios , e gente em tem- 
po que elle efperava que os Portuguezes 
íbíTem tomar fatisfaçao dos damnos que 
alli receberam , porque bem fabia elle 
delles , que não diffimulavam com afFron- 
tas, E nao ha dúvida, fenão que eílas no- 
vas fe alevantáram em Goa por quebranta- 
rem o Conde , porque nunca faltao ho- 
mens que ufam deitas invenções , quando 
andam queixofos ; mas todavia he bom 
acudir , como o Conde fez a iíto , porque 
vejam os inimigos que a todo o tempo 
que houver novas delles , os hão de ir 
bufcar. E iíto de que eíles ufam por que- 
brantar os Vifo-Reys , he muito em per- 
juizo do ferviço de EIRey, porque lhe fa- 
zem défpender fua fazenda mal , e fem 
razão. 

E tornando a André Furtado ,. tanto 
que foube o que era , e que os Cotacou-* 
Iões em fabendo delle , fe recolheram , foi 
vifitar as Fortalezas , e nellas folicitou 
com os Capitães , Cidade , e moradores 
ajuda pêra aquella jornada ? fobrc o que o 

Con- 



336 ÁSIA dê Diogo de Couto 

Conde já tinha feito fuás diligencias ; e 
ajuntando os navios que haviam de ir pé* 
ra Goa , levou-os comfigo até áquella Ci- 
dade ; e quando chegou a ella> já o Con-* 
de tinha negoceado a Armada do Norte i 
€ defpedio logo Goterre de Monroy com 
doze navios > em que entravam finco San-* 
guiceis , de que 5 a fora elle , eram Capitães 
D. Álvaro da Coita , filho de D. Fernando 
da Coita , D, Francifco de Soto-Maior* 
Martim da Cunha d 3 Eça, Triítáo de Atai* 
de , Gafpar Tibao , e Francifco Homem* 
Dos Sanguiceis foram por Capitães Heitor 
de Valladares , Francifco de Chaves , Girai-* 
do Pinto de Siqueira , Maximiliano de 
Mendoça , e Pêro Fernandes de Carvalho „ 
e no mefmo tempo defpedio o Conde a 
Armada de D. Jeronymo Coutinho , pêra 
ir tomar a carga a Cochim , onde eítava 
preítes 5 e ficou dando preífâ á Armada 
do Malavar , que foi fazer á vela a três 
de Dezembro , que era de duas Galés > 
vinte e dons navios , e finco Manchuas y 
que em Goa chamam muito ligeiras , com 
arrombadas pêra entrarem pelo rio de 
Cunhale dentro , e lançarem gente em ter- 
ra. E affim levou mais oito Periches pêra 
o mefmo eíFeito , e a elle fe havia de ajun- 
tar a Armada de D. Fernando de Noro- 
nha ., que era huma Galé > e dezenove navios. 

Os 



Década XII. Càp. X. 337 

Os Capitães que acompanharam André 
Furtado , a fora elle , que liiá n 5 uma galé , 
foram D. Franciico de Souía na outra , D. 
Filippe de Souía y D. Pedro de Noronha, 
Franciico de Macedo , D. Lopo de Almei- 
da, Pêro de Góes, Nicoláo Pereira de Mi- 
randa, António Furtado de Mendoça, Pê- 
ro de Mendanha , Jeronymo Botelho, D. 
Rodrigo Pereira , D. Luiz de Menezes , 
D. Luiz Lobo , e outros que no cerco no- 
mearemos. Partida eíta Armada , ficou o 
Conde defpachando as náos do Reyno pê- 
ra irem a Cochim a tomar a carga. E por- 
que Gaípar Tenreiro , Capitão da náo S„ 
Mattheus , ficava na índia , deo o Conde a 
Capitania delia a D. Vafco da Gama , feu 
primo com irmão ; e depois deitas finco 
náos partirem pêra Cochim , ficou o Con- 
de Almeirante efcrevendo pêra o Reyno, 
e dando defpachos ás liftas ? papeis , e mais 
couias que pertenciam á informação do go- 
verno da índia. E depois de tudo feito, 
deípachou huma galé pêra Cochim, de que 
foi por Capitão D. Chriílovão de Noro- 
nha com regimento , que como entregaííe os 
iáccos das vias aos Capitães das náos , afíif- 
riria com André Furtado de Mendoça na 
guerra contra o Cunhale. 



Couto, Tom. uit~ Y CA- 



338 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XI. 

Do que aconteceo a D. Fernando de Nor§- 

nha fobre Cunhale : e de como o Arcebif- 

po fe vio com o Çamorim : e das cou- 

fas que paffáram. 

PRimeiro que continuemos com André 
Furtado de Mendoça , convém darmos 
relação de D. Fernaindo de Noronha , que 
deixámos invernando em Cananor, donde 
reformou os feus navios o melhor que po- 
de y e em Agoílo fez paga aos Toldados. 
E no primeiro dia de Setembro fe foi pôr 
fobre a barra de Cunhale ; porque teve 
avifo no inverno ,- que nos primeiros dias 
do verão efperava aquelle tyranno por foc~ 
corro de gente , e mantimentos ; e logo 
tratou com o Çamorim por via do Padre 
Francifco Rodrigues , da Companhia de Je- 
fus (que todo aquelle inverno tinha feito 
com o Çamorim todos os bons officios 3 que 
pode pelo fuftentar naquella guerra) pêra 
que o foíTe confervando naquelle propoíi- 
to que tinha ; e por apertarem o tyranno 
por todas as partes , mandou D. Fernan- 
do de Noronha a Pêro Luiz Malavar cora 
a gente do feu Periche , e de outros pêra 
aíliftirem da banda do Qriole } e defende- 
rem que fenao proveíle pela parte de ter- 
ra» 



Década XIL Cap. XL 339 

rá y com o que puzeram aquelle tyranno 
em extrema neceílidade. D; Fernando de 
Noronha ficou tendo tantas intelligencias 
na terra, que não dava nella paííò quenãò 
íbubeíTe ; e fendo aVifadò que o Cunhale 
efperava por hum paráo carregado de man- 
timentos , teve nelle tal vigia , que o to- 
mou com todo o recheio , com o que al- 
guns Mouros , que eram fora a bufcar pro- 
vimentos 1 fe recolheram a outros portos. 
Iíto poz o Cunhale em tanta defefperaçao, 
que determinou de mandar peleijar com a 
noffa Armada : pêra o que deitou ao mar 
as galeotas que tinha varadas , e outras 
embarcações , que todas proveo da melhor 
loldadefca que tinha. Deita fua determina- 
ção foi D. Fernando de Noronha avifado 
por via do Qamorim b e do Padre Fran- 
cifco Rodrigues , e daquelle íiegocio deo 
conta aos Capitães 5 pêra que efliveíTem fo- 
breavifo, e íhes pedio parecer fobre o que 
faria; a que todos refpondêram conformes, 
que fizeífe querena de commetter a entra- 
da do rio , eir dentro peleijar comosfeus 
navios -, o que D. Fernando de Noronha fez* 
Tanto que o Cunhale vio eíh determi- 
nação nos nofíbs ? tornou a recolher as ga- 
leotas K e varallas 5 porque nellas tinha to- 
do o icu remédio , como já diííe. E tão 
apertado fe vio efte Mouro dos noíTos , que 
X ii conf- 



340 AS IA dé Diogo de Couto 

conílrangido da neceffidade , mandou qux* 
nhentos Mouros dar hum alTalto nos no£ 
fos , eftando fazendo aguada no lugar de 
Coriche 5 hum quarto de legila do rio de 
Cunhale 3 do que D. Fernando não teve 
avifo peia má vigia que os Naires do C,a- 
morim tiveram. Os quinhentos Mouros , 
que o Cunhale mandou pêra darem o af- 
iai to , fe emboícáram de noite alli perto ; 
e tanto que os noíTos marinheiros foram 
fazer agua , lhes fahíram da embofcada com 
tanta preíla j que não foram viítos fenao 
pegados ás proas dos noílbs Sanguiceis y 
que eram os que tinham os efporões em 
terra: eaflim fe determinaram., que dizem 
alguns que entraram em hum periche , e 
levaram delle hum berço de metal. Vendo 
D. Fernando de Noronha a revolta , acu- 
dio a recolher alguns foldados , que anda-* 
vam em terra , e com a artiiheria , e ar-* 
cabuzaria fez nos Mouros tal emprego > que 
lhes mataram o Capitão , e cem Mouros dos 
mais atrevidos ; com o que houveram por 
feu partido recolherem-fe á Fortaleza com 
aquelle damno 5 e tão pouco noiTo 5 que fó 
houve três mortos , e alguns feridos. 

PaíTado efte negocio , deixou-fe D. Fer- 
nando de Noronha ficar fobre a barra com 
os navios eftendidos pela praia do feu def- 
triílo y pêra que nem huma almadia lhe 

pu- 



Década XII. Cap. XI. 341 

pudeíTe paflar. Com todas eftas diligencias 
não deixaram féis paráos carregados de 
mantimentos de vir commetter a terra pê- 
ra os lançarem nella , tendo já aviío do 
Cunhale que acharia gente , que em breve 
efpaço defpejaífem tudo. Mas foi tal a vi- 
gia dos noílos , que logo houveram vifta 
delles ; e indo a elles , não puderam tomar 
mais que hum, e fazer varar outro em ter- 
ra, perdendo-fe tudo o que levava ; e os 
quatro fentindo a revolta , foram-fe acolhen- 
do , o que puderam fazer por fer noite ef- 
cura : com iílo ficou o inimigo defengana- 
do de poder fer foccorrido de nenhuma 
parte. 

E porque a neceffidade o apertou mui- 
to , foi-lhe neceífario arrifcar algumas al- 
madias , pêra irem bufcar algum arroz, 
porque por pequenas podiam chegar a to- 
da a parte, e lançar em terra os fardos de, 
arroz , que trouxeíTem pêra ferem logo re- 
colhidos. Difto também foi D. Fernando 
de Noronha avifado , e armou-lhe com ou- 
tras almadias , em que metteo peífeas de 
recado : e aífim tomaram duas almadias dos 
Mouros com todo o arroz que traziam , e 
as mais. vararam em terra em parte que tu- 
do fe perdeo j com o que o Cunhale aca- 
bou de defefperar. 

Acabado iílo , houve D. Fernando de 

No- 



34^ ÁSIA de Diogo de Couto 

Noronha duas efpias , de quem foube que 
eílavam muitos Mouros , pêra fe fahirem 
da Fortaleza por pura neceflidade , e fal- 
ta de mantimentos, Pêra o que poz hum 
Capitão em terra eom íua gente , e alguns 
Naires do Qamorim, a quem peitou, por 
quem mandou feguro a todos os que fe 
quizeífem fahir da Fortaleza pêra qualquer 
parte que quizeífem. O que foi de muito 
effeito ; porque os mais dos que eílavam 
dentro fe abalaram a iífo , e fe fenao fa- 
híram , foi pela grande vigia que o Cu- 
nhale tinha nelles. 

Eílando as coufas neíle eílado , lhe che- 
gou a dous de Novembro a galé , e os na- 
vios que o Conde Almeirante lhe mandou, 
e elle fe paílbu á galé , e ficou com maior 
poífe pêra tudo o que fe lhe oíFerecefle ; 
e ficou continuando na guarda daquelle 
rio , em que confiília a vitoria , que fe ef- 
perava alcançar daquelle coífairo , e gran- 
de tyranno. Neíle tempo appareceo a galé , 
em que o Arcebifpo vinha deCochim, que 
hia de largo com determinação de paifar 
adiante. Diflo teve o Qamorim logo avi- 
fo , e com muita preífa defpedio huma 
manchua ligeira N ? em que hia o Padre Fran- 
cifco Rodrigues , e hum fobrinho do C,a- 
morim , chamado Uniaré Cheraré , e pedia-* 
|he que feviffe com elle y que importava 



Década XII. Cap. XI. 343 

affítn ao ferviço de EIRey. Era efte fobri- 
nho do C,amorim Chriftão , que o bapti- 
zou fecretamente o Padre Francifco Ro- 
drigues, depois de o ter catequizado, e af- 
íim favorecia muito a parte dos Portugue- 
zes : e na galé o crifmou o Arcebifpo na 
fua camará, e aeífe fim quiz ir com o Pa- 
dre Francifco Rodrigues. 

Com eíle recado voltou o Arcebifpo 
pêra a terra , e foi furgir na barra de Cu- 
nhale, onde D. Fernando de Noronha lhe 
fez fuás fainas , e abateo fua bandeira ; c 
alli concertaram verem-fe na praia de Co- 
riché , pêra onde o Arcebifpo foi , e def- 
cmbarcou em terra acompanhado de mui- 
ta gente da Armada; e ao pôr os pés em 
terra, defparou toda a Armada fua artilhe- 
ria , e os foldados deram fua falva de ar- 
cabuzaria. E antes de chegar a huma ten- 
da de brocado, que o C,amorim tinha no 
lugar, em que fe haviam de ver, fahio el- 
le fora , e na porta o efperou mui cheio 
de jóias riquiíTimas , e o recebeo com mui- 
ta honra , e levou pêra dentro , onde eíla- 
vam duas cadeiras de veludo , cm que fe 
aflentáram , e fez aífentar o Padre Francif- 
co Rodrigues nas alcatifas , e mandou ao 
Príncipe herdeiro que fofle fazer fua reve- 
rencia ao Arcebifpo , que elle fez ao nof- 
fo modo, porfaber mui bem a linguaPor- 

tu- 



344 ÁSIA de Diogo de Couto 

tugueza. Depois diíto o mandou o Qamo- 
rim com todos os Regedores, que foíTe vi- 
giar os Naires , e foldados Portuguezes, 
pêra que não houveíTe entre elles algumas 
deftemperas , ficando elles fós com o Pa- 
dre Francifco Rodrigues, que havia defer 
o Interprete. 

E alli depois de padados feus cumpri- 
mentos , lhe difle o C,amorim , que elle ef- 
tava apoílado , e refoluto em fer muito 
grande amigo dos Portuguezes , efquecido 
de todos os damnos que elle , e feus an- 
teceflbres tinham delles recebido. E que 
pêra lhes moftrar aquella verdade, fuftenta- 
va aquelle cerco contra aquelle alevanta- 
do com muito grandes defpezas de fua fa- 
zenda : e que não no abalava pêra o dei- 
xar de fazer terem-lhe dito algumas pef- 
foas , que depois daquella Fortaleza ga- 
nhada , fe haviam os Portuguezes de ficar 
nella , e dalli lhe fazerem toda a guerra 
que pudeííem , porque bem fabia elle que 
a verdade , e fé dos Portuguezes fe não ha- 
via de quebrar por trezentas Fortalezas. 
Poíto que o Rey de Cochim lhe tinha fo- 
bre iílb eferito algumas vezes , fazendo-lhe 
muitas carrancas , e lembranças que fenão 
íiaíle dos Portuguezes , bem entendia que 
lhe nafeia tudo aquillo de inveja de o ver 
amigo delles j e que alguma coufa o pu- 
de- 



Década XII. Cap. XL 345* 

dera mover a crer algumas daquellas cou- 
fas aquelle dia que os Portuguezes com- 
mertêram a Fortaleza , antes do final que 
lhe tinham dado ; querendo-lhe perfuadir 
muitos que pertendêram tomar aquella For- 
taleza fem lua ajuda pêra apertençao, que 
já lhe tinham dito de fe fortificarem nella. 
E que o ruim íucceíTo , que elles tiveram 
naquelle negocio , lhe diziam alguns fora 
querellos Deos caftigar por aqUelia tenção 
com que commettêram aquella Fortaleza, 
tão longe da fua verdade , e obrigação y 
mas que fempre elle eítivera firme na ver- 
dade dos Portuguezes , em que não podia 
haver engano : e que pofto que não foi 
fua a vitoria , todavia bem viram todos o 
animo com que os mais delles peleijáram, 
tomando tanta fatisfaçao dos Mouros > que 
bem moftráram o feu antigo valor , e es- 
forço. 

Efpantou-fe muito o Arcebifpo daquel- 
les termos 5 com que EIRey de Cochim 
queria divertir 5 e eítorvar aquelle negocio : 
e diíle aquelle Rey , que os Portuguezes 
coítumavam fazer guerra a feus inimigos , 
quando lho mereciam , com armas , e não 
com enganos > porque os não fabiam ufar : 
que aquellas invenções de EIRey de Co- 
chim eram muito conhecidas de todos , pe- 
lo muito que fentia verem-no amigo com 

o 



34^ ÁSIA de Diogo de Couto 

o Eítado ; e que do meímo artificio ufára 
com elle Arcebifpo , quando fallando am- 
bos neftas matérias lhe differa , que nos não 
fiafTemos do Qamorim ; porque fora avifa- 
do de peííbas do feu Confelho , que eílava 
elle Qamorim determinado de dar nos Por- 
tuguezes i como os vilTem defembarcados 
cm terra, e vingar-fe deíla maneira das in- 
jurias que delles tinha recebido ; e que 
como elle entendera aquellas meadas , e 
artifícios , diííimulára com elle por enten- 
der a caufa donde nafciam. 

Mas que porque elle Qamorim enten- 
deffe o bom animo , e lealdade dos Por- 
tuguezes , e que nunca tal (como lhe tinha 
dito) lhe entrara no penfamento , lhe jura- 
va por aquelle livro , em que eílava toda 
a Lei dos Chriftaos (pondo a mão íbbre o 
Breviário) que nunca entrara no penfamen- 
to aos Portuguezes tal coufa , como a que 
lhe tinham dito. Elle juramento fez dian- 
te do Principe, e Regedores, que pêra if- 
fo fe chamaram. E acabando o Arcebifpo 
de jurar, lhe diíTe o Qamorim, que com 
aquillo lhe tirara hum grande pezo , e nu- 
vem que trazia no coração , e que por 
amor delle hia com aquella guerra tanto a 
medo ; mas que dalli por diante , confiado 
naquelle juramento , apertaria mais o cerco, 
E então trataram do modo que fe havia 

de 



Década XII. Cap. XI. 347 

de ter nelle , e do poder que efperava de 
Goa , pêra íe concluir com aquclle nego- 
cio : e affim profeguio dalli por diante na 
guerra com dilferente calor , e animo ; e 
defpedido delle , fez o Arcebifpo vela pêra 
Goa , ficando o Qamorim muito quieto , e 
fatisfeito em feu animo ; no que o Padre 
Francifco Rodrigues , que foi o Interprete, 
foi muita parte pêra fe ordenarem aquel- 
Ias coufas , como adiante veremos ; e com 
ífto damos fim a eíle terceiro Livro, 




DE- 



34 8 

DÉCADA DUODÉCIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO IV. 

CAPITULO L 

De como André Furtado de Mendoça che- 
gou d barra de Cunhale , e fe vio com 
o Camorim : e das coufas em que 
affenldram. 

DEixámos partido de Goa André Fur- 
tado de Mendoça com a fua Arma- 
da , que chegando a Mangalor , fe 
vio com o Rey de Bangel grande amigo 
do Eftado , e jangada daquella Fortaleza , 
a quem o Capitão Mor fez grandes gaza- 
Ihados ; e depois de brevemente tratarem 
algumas coufas do ferviço de EIRey 5 e 
bem do Eftado, fe defpedio delle , dando- 
Ihe algumas peças , que pêra iífo levava. 
E a Rainha de Olaia o mandou vifitar por 
hum Embaixador , por quem lhe mandou 
dar conta de algumas differenças que ti- 
nha com o Rey de Bangel feu vizinho , dan- 
do-lhe delias fatisfaçóes , por fer amigo do 
Eftado. Ao que lhe o Capitão Mor man- 
dou 



Década XII. Ca?. I. 349 

dou rcfponder com offerecimentos , c que 
da torna-viagem os comporia ; e também 
lhe mandou peças , que he o com que fc 
negocea com todos' os Reys do Oriente; 
e dando ávéla, chegou á barra de Cunha- 
le, aonde D.Fernando de Noronha lhe fez 
hum grande recebimento , e entregou aquel- 
la Armada , e deo relação do eftado em 
que aquellas couías eftavam. 

No mefmo dia fez André Furtado de 
Mendoça huma junta dos Capitães , e tra- 
tou com elles fobre o modo que teria na~ 
quella guerra ; e entre todos fe affentou 
que até virem os foccorros , foliem conti- 
nuando na guarda daquelle rio 3 porque lhe 
não entraffem provimentos alguns, que era 
a mais crua guerra que por então fe lhe 
podia fazer, E logo repartio toda a Arma- 
da j e fez três efquadras 7 que poz ao lon- 
go daquella ribeira com que a cingio to- 
da ; e quaíi no rolo do mar furgíram as 
fuítas 5 e as galés hum pouco affaítadas ; e 
a Pêro Luiz , que eítava na banda do Ario- 
le, mandou mais Lafcarins Malavares dos 
que andavam nos periches , e elle em pef- 
íba na manchua , que levava pêra feu fer- 
viço , roldava todas as noites a Armada , 
peia ver a vigia que tinham. E aíTim em 
Cananor , onde deixou muitos feíleiros , co- 
mo nas terras doC ; amorim, mandou fazer 

mui- 



%ço ASIÀ de Diogo de Coirío 

muitos feílões fortes de bambus pêra as 
eftancias que determinava plantar em ter** 
ra ; e que fe cortaflem muitas palmeiras 
3era fe ferrarem, e fazerem efcadas ; e tam- 
pem mandou ferrar todo o taboado , que 
Jiepareceo neceífario pêra rilhas fobre que 
a artilheria havia de jogar. 

O C,amorim mandou logo viíltar o Ca- 
pitão Mór pelo Padre Francifco Rodrigues , 
da Companhia de Jefus 3 e feus Regedores ; 
em cuja companhia foi também António 
Matofo , cafado em Cananor , que o Con- 
de tinha mandado em forma de Embaixa- 
dor ao C,amorim 5 em cuja companhia an- 
dava j pêra o fazer profeguir na guerra ^ 
por fer muito feu amigo i e conhecido , e 
prático nas coufas do Malavar. A eftes Em- 
baixadores recebeo André Furtado deMen- 
doca honradamente , e refpondeo á viíita 
com palavras de muita fatisfação, e os deí- 

Èedio com lhes dar peças ricas , e curiofas. 
i nefta ^vifita trataram fobre as viftas , que 
o Capitão Mór havia de ter com o C,a- 
morim ; e ficou affentado o dia , e o lugar 
em que havia de fer. E em fua companhia 
mandou Sebaftiao Tibao (cuido que Fra- 
içiengo de nação) grande Engenheiro, pêra 
da parte do Qamorim reconhecer a difpo-* 
lição da Fortaleza , do fitio, e tranqueiras i 
com quem também foi Bernardo Soares , 

foí- 



Década XII. Cap. I. 351 

foldado defiro ? de experiência , e que fa- 
bia bem notar as couías , o que elles fize- 
ram muito de vagar , e á fua vontade , e 
de tudo deram diítinéta relação ao Capitão 
Mor 5 com o que fe houve por fatisfeito 
da que já tinha. E porque fe receou que 
pelo rio deTremapatao em algumas alma- 
dias pequenas , como já algumas vezes com- 
mettêram , íe proveííe , mandou a Belchior 
Rodrigues 5 cafado em Chaul , bom cavai* 
leiro , e de muita experiência , pêra que 
com quatro navios fetòfle pôrfobre aquel- 
la barra , pêra que por ella não fahiíTe cou- 
la alguma , o que elle fez com muito cui- 
dado ; de maneira que proveo em tudo com 
muita ordem , fem lhe ficar coufa por fa- 
zer ? e todas endereçadas , e encaminha- 
das ao fim que determinava , e pertendia 
levar naquelle cerco. 

Chegado o dia das viftas , que foi aos 
dezefeis de Dezembro , abalou-fe o Capi- 
tão Mor com toda a Armada mui fermo- 
famente embandeirada , e tocando muitos 
inftrumentos alegres , e bellicofos , foi de- 
mandar a praia de Coriché 5 aonde já ef- 
tava o Qamorim ; e chegando ao pofto 
com toda a Armada , ordenou que em quan- 
to eftiveffe em terra , ficaííe eítendida de 
longo daquella praia com as proas em ter- 
ra , e a artilheria muito leites pêra poder 

ia- 



35^ ÁSIA de Diogo de Couto 

laborar ' fe foíTe neceílario , e elle fe mét- 
teo em huma manchua , e faltou na praia 
muito galantemente veílido ao modo mili- 
tar , em corpo , com leu baítão na mão > 
rodeado de iincoenta efpingardeiros , Tol- 
dados velhos , e efcolhidos entre todos ^ 
de que tinha mor confiança , muito bem tra- 
jados , e por baixo mui bem armados de 
boas armas : e ao pôr os pés em terra b 
difparou toda a Armada fua artilheria , e 
os foldàdos todos eítendidos pelas perchas 
dos navios , deram também fua faiva de 
arcabuzaria , eítando todos poftos em armas : 
e caufou ifto hum mui grande terror , e 
efpanto não fó nos inimigos > mas ainda 
nos amigos. 

Tanto que oQamorim teve recado que 
o Capitão Mor partia da galé j abalou-fe 
donde eilava , e foi tomar o Capitão Mor 
quaíí á borda de agua 5 onde fe abraçaram 
com grandes móftras de cortesia. Era efte 
Rei homem grande de corpo $ bem difpof- 
to , de pouco mais de trinta annos , e bem 
parecia Rey entre os maisw Trazia fobre 
íi muitas riquezas , nos braços tanta copia 
de manilhas de pedraria , que lhos enchia 
defde fim a dos cotovellos até os pulfos, 
com o que lhe ficavam tão pezados , que 
era forçado virem dous pagens fuílentando 
cada hum o ieu„ Do pefcoço pendia hum 

co- . 



Década XII. Cap. I. 373 

eolar de ineílimavel valor. E nas orelhas > 
orilheiras domefmo toque de fermoíbs ru^- 
bins , e diamantes , cujo pezo lhas eftendia 
até os hombros , de maneira que trazia fo- 
bre íi huma grande riqueza. Vinha nu da 
cinta pêra íima , e derredor delia cingido 
com hum panno de ouro, e feda, que lhe 
dava algumas voltas por derredor, que che- 
gava até meia perna ; e por íima huma cin- 
ta de pedraria de largura de quatro dedos 5 
riquiílima , e de grande valor. Detrás del- 
le vinha o Principe herdeiro , moço gen- 
til-homem , e bem arraiado , que lhe leva- 
va a fua efpada alevantada com a ponta 
pêra íima ; e detrás delle todos os feus Re- 
gedores principaes , e Punicaes ; e quafi pe- 
gado a clle hia o Padre Francifco Rodri- 
gues , e António Matofo. 

Ao aflbmar do Çamorim diíparou ou* 
tra vez toda a Armada a fua artilheria, e 
os foldados a arcabuzaria, e apôs iíTo co- 
meçaram a tocar os inftramentos de alegria j 
e os Naires do Qamorim também fizeram 
fuás fainas , e deram fua falva a feu modo. 
EIRey tomou o Capitão Mor pela mão, 
e levou-o a huma tenda , que alli tinha ar- 
mada , a cuja vifta eftava toda a fua gen^ 
te eílendida em forma de Lua , que cingia 
todo aquelle campo. Alli fe aífentáram em 
cadeiras ; e depois das palavras formaes da 
Couto, Tom. vlt. Z vi- 



3?4 ÁSIA de Diogo de Couto 

viíítação , e cumprimentos de parte a par- 
te, praticaram íobre o modo que fe teria 
naquella guerra, em que o Qamorim pro- 
metteo de profeguir com dobrado animo, 
e calor. E diííe ao Capitão Mor, que tan- 
to que o Cunhale vira íobre feu rio a po- 
tencia daquella Armada , e que foube fer 
elle o Capitão Mor delia , e General tão 
conhecido , e temido dos Mouros , logo 
lhe mandara commetter que fe queria en- 
tregar , com condição que lhe defle a vi- 
da a elle , e a todos os Mouros , que tinha 
comíigo ; e que foíTe elle Qamorim á por- 
ta da Fortaleza a tomar entrega delle, pê- 
ra o fegurar dos feus Naires , o que lhe el- 
le tinha concedido com tenção de o matar 
como o colheíTe á mão ; porque com trai- 
dores efte he o primor de que fe ha de 
ufar , principalmente quando famtaes, que 
fe não pode efperar deli es deixarem de o 
fer todas as vezes que tiverem occaflão pê- 
ra o fer. E que ao tempo, em que fe ha- 
via de entregar , mandara hum leu meftre 
de efgrima com alguns Naires pêra o re- 
ceberem ; e que vendo o Cunhale que el- 
le Qamorim não hia em pefíba , tendo-o a 
máo final , mandara fahir os Mouros aos 
Naires, centre todos fe ateara huma gran- 
de briga , e travara huma afpera batalha, 
em que houve feridos de ambas as partes 7 

e 



Década XII. Cap. I. 357 

c que já fe não havia de fiar hum do ou- 
tro : pelo que era neceffario continuar na 
guerra contra aquelle tyranno , e que pêra 
ella oíFerecia todas as coufas neceíTarias, 
que houveíTe em feu Reyno : e que em pe- 
nhor deita vontade , e ília fé , daria os re- 
féns que elle Capitão Mor quizeíTe , por- 
que tudo havia de fazer a feu goíto , e von- 
tade. André Furtado de Mendoça lhe agra- 
deceo aquelles oíferecimentos , e lhe fez 
outros conforme ao tempo , e com iíto fe 
defpedíram , dizendo-lhe o C,amorim que 
elle mandaria á lua galé o Padre Francif* 
co Rodrigues , e feus Regedores pêra com 
elles fazerem as capitulações que elle mais 
quizeíTe ; e ao apartarem-fe hum do outro > 
lançou o Capitão Mor ao pefcoço do C,a- 
morim hum muito fermofo colar de ouro , 
c ao Príncipe, e Regedores deo peças, que 
pêra iíío já levava, que o Conde Vifc-Rey 
lhe mandou dar da fazenda Real em muita 
abundância, porque em nenhuma parte do 
mundo , e muito mais no Oriente , fe ne- 
gocea fem os prefentes irem diante. 

Ao outro dia que iíto paíTou fe veio 
hum Mouro, Veador da fazenda doCunha- 
le, entregar ao Capitão Mor por ordem de 
Braz Coelho, Capitão de hum Sanguicer, 
que eftava na parte do Ariole , que lhe pe- 
dio feguro pêra levar fua mulher , familia, 
Z ii e 



3?6 ÁSIA de Diogo de Couto 

e alguns amigos , que lhe elle não conce- 
deo pela pouca fé , e verdade que eítcs 
Mouros tem , antes o mandou pôr na ga- 
lé a bom recado ; affirmando-lhe que como 
feacabaíTe a guerra, elle o poria em fua li- 
berdade. Deite Mouro foube André Furta- 
do de Mendoça das coufas de Cunhale 
muito particularmente , e de como eílava 
fortificado da gente que tinha, e dos pou- 
cos provimentos que havia , o que tudo 
achou depois fer verdade. Os Mouros ven- 
do fugido eíle , que era o principal dian- 
te do Cunhale , foram-fe também fahindo 
da Fortaleza os que puderam com luas mu- 
lheres , e familias ; e fempre fe fahíram to- 
dos > f e o Cunhale não trouxera fobre elles 
tantas vigias. 

Ifto foi fabído do Qamorim , e do Ca- 
pitão Mor ; pelo que mandaram por via 
dos Arioles lançar na Fortaleza feguros 
reaes pêra os que fe quizeífem fahir, pêra 
que qualquer delles o pudeííe fazer livremen- 
te. E porque era tempo de pôr em execu- 
ção o cerco da Fortaleza : mandou o Ca- 
pitão Mor pelo engenheiro Tibao alevan- 
tar alguns caftellos de madeira levadiços 
em roda da parte do Qamorim , capazes 
de jogarem a artilheria pêra fe igualarem 
ás tranqueiras , pêra por elles as entrarem 
os noífos j que depois de feitos , não fo- 
ram 



Década XII. Cap. I. 357 

ram necefíarios , como logo diremos ; e 
dando recado ao Capitão Mor que o Cu- 
nhale efperava por huma galeota , que ti- 
nha mandado ás Ilhas de Maldiva arreca- 
dar certas páreas , que os Mouros lhe pa- 
gavam , e que apparecêra ao mar, defpe- 
dio João de Seixas com quatro navios pe^- 
ra a irem bufear ; mas fentindo ella o ne- 
gocio , logo fe fez na volta das meíinas 
Ilhas, e defappareceo. 

CAPITULO II. 

Das capitulações que o Capitão Mor fez, 
com oÇamorim: e dos reféns que lhe en- 
tregou : e dos foccorros que lhe che- 
garam de Goa. 

DEpois de paliadas as viítas que o C,a- 
morim , e Capitão Mor tiveram , dahi 
a três dias foram á galé do Capitão Mor 
o Principe de Tanor , General do exercito 
do Qamorim , e Carneves feu Regedor Mor 
com outros Príncipes , e Regedores , que 
André Furtado de Mendoça recebeo com 
muitas honras , e com elles hia também o 
Padre Francifco Rodrigues , que era o In- 
terprete , e por quem todas aquellas cou- 
fas correram , e moftráram Provisões , ou 
Ollas dos poderes que traziam pêra affen- 

ta* 



35*8 ÁSIA de Diogo de Couto 

tarem as pazes , e fazer os contratos que 
lhe pareceffem bem , pêra effeito daquella 
guerra , e pêra os reféns que de ambas as 

Í)artes fe haviam de dar pêra fegurança del- 
a. Pêra o que André Furtado de Mendo- 
ça chamou os Capitães velhos , e de expe- 
riência, eaffim todos juntos fizeram as ca- 
pitulações feguintes. 

Capitulações do que o Çamorim prometteo. 

}> /~\ Brigou-fe a dar em reféns da gente 
)> \_J que fe puzeíle com elle da fua ban- 
» da, pêra aífaltar a Fortaleza doCunhale, 
» os Principes de Tanor , e Chalé, e Car- 
» neves feu Regedor Mor , Varer, e Coi- 
)> lo , Principes , e Senhores das terras 
» além de Panane , Pudure , e Talape, 
3> Naires feus Regedores, Menas, e Mena 
)> Cherare , irmão de Uniare Cherare , am- 
» bos fobrinhos do Çamorim \ e Unire Ga- 
» fe , Ithe Araçhea , e Com Gaachem , Ite 
» Proferare, e Nambandre, todos Principes , 
» e Senhores de terras. Eíles reféns , em 
» quanto o cerco duraíie , c o noífo arraial 
)) eftivefle nas terras do Çamorim , e Ario- 
» les , eítariam na Cidade de Cochhn, 
» donde não fahiriam até de todo fe re- 
» colher o nollb arraial , e Armada. 

» Obrigou-fe mais pelos ditos reféns, 

.» que 



Década XII. Cap. II. 379 

» que fegurava toda a gente , artilheria , e 
» mais coufas que fe puzeíTem em fuás ter- 
» ras , e dos Arioles pêra o effeito daquella 
» gaerra. 

» Que daria a todo o tempo que fe 
» houveíTem mifter , mil trabalhadores pa- 
» gos á fua cufta pêra trabalharem no ier- 
» viço do campo , e cerco. 

» Que traria á fua cufta quinze elefan- 
» tes no dito ferviço , em quanto o cerco 
» duraífe. 

» Que daria á fua cufta toda a forte 
» de madeira que foíle neceífaria pêra o ef- 
» feito da guerra, pagando o Capitão Mor 
i> os carpinteiros , e ferradores. 

» Que daria todos os carpinteiros , fer- 
» radores , e ferreiros que foííem necefla- 
» rios , pagando-lhes o Capitão Mor feu 
» jornal. 

y> Que teria de aíTiftencia no noífo ar- 
» raiai , e cerco do inimigo finco mil 
» Naires de armas ; e deite número efta- 
» riam dous mil fuj eitos ao que lhes o 
» Capitão Mor mandalfe , e pêra aíTiftirem 
» na parte que lhes ordenaffe , e que obe- 
» deceriam aos Capitães a que foífem en~ 
» tregues. 

» Que daria quatro Manchuas efquipa- 
> das de marinheiros > e Lafcarins pêra 
» andarem no rio vigiando, e inquietando 

» os 



360 ÁSIA de Diogo de Couto 

3) os inimigos , ou onde parecefle melhor 
» ao Capitão Mor. E que aílim daria mais 
:» trinta jangadas de Almadias efquipadas 
» de marinheiros pêra o meímo eíFeito. 

» Que daria duzentas enxadas , e mil 
» ceílos pêra o fcrviço do cerco. 

» Que fe fenão deífe fim ao inimigo 
y> até vinte de Janeiro . que era o tempo 
» em que elle Çamorim havia de ir á lua 
» feíla da Mamanga, mandaria vir de Co- 
y> chim , Principe de Tanor , e Carneves 
» feu Regedor Mor pêra os deixar com 
» todo o poder em feu lugar, affiftindo no 
)> Governo do feu exercito; eque em lugar 
» dos fobreditos , mandaria feus fobrinhos 
» Uniare Cherare , e outro herdeiro de 
3> Talapuchem fenhor de íinco mil Naires. » 

Ao que fe obrigou André Furtado de Mendo- 
ça ao Çamorim , he o feguinte. 

)> f~\ Ue lhe daria por reféns eftes três 
» v/ Capitães , D. Pedro de Noronha , 
» • Jeronymo Botelho , e outro Capi- 
)) tão , António Matofo Embaixador , e 
y> dous Padres da Companhia de Jefus , que 
» alfiítiriam fempre com o Çamorim. 

» Que daria em Cochim apofentos aos 
» reféns d elle Çamorim, e todo o neceífa- 
» rio a feus próprios gaftos, e de feus fer* 

» vi- 



Década XII. Cap. II. 361 

7) vidores , cm quanto refídiífem naquella 
» Cidade , c que eftes feriam capazes de 
)> poderem fazer nelles fuás ceremonias, 
» que fariam diante dos guardas que lhe 
D puzeífem ; e que do dito apofento , e II- 
-» tio não fahiriam fem a mefma guarda, e 
)) que as ceremonias fe entenderia no co- 
» mer , e lavar o corpo , e outras não. 

» Que tomando-fe a Fortaleza de Cu- 
» nhale , fe derribaria logo , e não querer 
» nada daquelle fitio : e de dar ao Qamo- 
» rim ametade de todo o dinheiro, peças y 
y> fazendas , artilheria , e navios que fe 
» achaífem , e que as mais armas leriam 
» de quem as tomaífe. 

» Que havendo alguma briga , ou def- 
» concerto entre os Toldados , e Naires , 
» cada humcaítigaria os feus fubditos con- 
)) forme as culpas que tiveflem ; e que os 
» do número dos dous mil , que não obe- 
)> deceílem aos mandados do Capitão Mór , 
» e Capitães que lhe propuzeífem , feriam 
» pela mefma maneira caftigados. 

» Prometteo o Capitão Mór de fe fa- 
» zer Igreja em Calecut , e de fe aííentar 
"» alli Feitoria , e de ter com elle o Eftado 
» o commercio que tem os mais Reys ami- 
» gos ; e que inteiramente fe cumpririam 
y> os capítulos das pazes , que D. Luiz da 
t> Gama tinha feitos com elle , e que efta- 

2 vam 



362 ÁSIA de Diogo de Couto 

y> vam confirmados pelo Conde Almeiran- 
» te. » 

Eíles apontamentos juraram a (fim o C,'a- 
morim , como o Capitão Mor com os Ca- 
pitães , e Regedores que fe acharam p re- 
lentes , e todos fe aífignáram nelle : e lo- 
go fe fizeram de parte a parte a entrega 
dos reféns promettidos ; e os da noíla fe 
paílaram á parte do Qamorim , e os feus 
íe embarcaram na galé muito a feu goílo , 
e fe levaram a Cochim. E o Carnaves ao 
defpedir-fe do Capitão Mor lhe deo al- 
guns avifos , e ardis de como havia de pro- 
ieguir naquella guerra ; o que fez por co- 
brar credito com o Capitão Mor , fendo 
certo fer elie o que mais favorecia o Cu- 
nhale que todos. No recolhimento deites 
reféns ufou a Cidade de Cochim de mui- 
tos primores , e liberalidades , porque em 
pouco mais de dous mezes defpendeo > c 
gaftou com elles mil e quinhentos pardáos, 
conforme ahuma lembrança, eliíta que te- 
nho em meu poder. 

Os navios que foram acompanhando ef- 
tes reféns voltaram de Cochim com huma 
barcaça , que o Capitão Mor tinha lá man- 
dado concertar , e reformar de artilheria* 
e munições , e entregou-a a Luiz Fragofo , 
e Pêro Rodrigues Botelho , e deo-lhe fol- 
dados , e fervidores pêra feu meneio. Nef- 

ta 



Década XII. Cap. II. 363 

ta companhia mandou a Cidade de Co- 
chim finco navios de lbccorro com duzen- 
tos foldados armados , e pagos á fua cuf- 
ta ; e delles elegeo por Capitão Mor An- 
tónio de Brito Fogaça , Cidadão daquella 
Cidade , íbldado muito velho , e prático 
nas coufas da guerra : e aílim levou em fua 
companhia dous navios cheios de foldados 
Chriftaos de S. Thomé , também pagos á 
fua cuíta b que deixou ordenado o Arcebif- 
po pêra ifíb , primeiro que fe partiífe da- 
quella Cidade. 

CAPITULO III. 

Do confelho que o Conde tomou f obre ir a 

Cunhale , em que foi contrariado : e do 

foccorro que mandou , e mais cou- 

fas que pajfdram. 

DEpois que o Conde Almeirante def- 
pachou as vias pêra Cochim , defpa- 
chou Lourenço de Brito pêra ir entrar na 
Fortaleza deÇofala, por fer já livre, com 
-muita honra das culpas , que lhe puzeram 
fobre a jornada da Sunda. Paífado ifto, em 
princípio de Novembro deite anno de no- 
venta e nove , em que citamos , chamou o 
Conde Vifo-Rey a Confelho as peífoas que 
nelle coítumavam achar-fe , e lhes propoz 

que 



364 ÁSIA de Diogo de Couto 

que lembrados eftariam do fucceífo que o 
anno paíTado tiveram no aíTalto do Cu- 
nhale , e a continuação do cerco pelo C,a- 
morim , e pelos noíios Capitães ; e o mui- 
to que convinha á reputação , e quietação 
do Eftado não fe levantar mão daquellaem- 
preza fem fe concluir a deítruição daquel- 
le inimigo , em que os mais do Eftado ti- 
nham poítos os olhos , pêra o que eílava 
preftes com muito dinheiro , e as mais pre- 
venções neceíTarias ; e por não lhe ficar 
nada por fazer , eftava refoluto em ir vifí- 
tar as Fortalezas do Canará , e Malavar, 
e provelias como convinha , porque hia no 
cabo do feu governo , em que tinha obri- 
gação de vifitar todas as do Eftado. E por 
fe livrar das murmurações que padece- 
ram os Vifo-Reys , que foram ao Norte , 
determinava fazer a jornada pêra *o Sul , e 
pararia em Cananor até ver o eftado das 
coufas.* E que tinha nomeado André Fur- 
tado de Mendoca por Capitão Mór da 
cofta do Malavar , que partiria brevemen- 
te com a Armada de quatro galés , e qua- 
renta fuftas bem providas das coufas ne- 
ceíTarias. Eque o mór gofto que teria, era 
achar-fe preíente peífoalmente na guerra, 
que queria fazer áquelle coílairo , que tan- 
to trabalho tinha dado ao Eftado \ mas que 
mão queria fazer nada fem confelho, e pa- 
re- 



Década XII. Cap. III. 365: 

recer dos que eílavam naquelle Confelho, 
que livremente votaffem o que foíle mais 
lerviço de Deos , e de EIRey , e bem da 
Eftado , porque iíío era o que elle havia de 
fazer, ainda que foíTe contra feugofto. So- 
bre ifto votaram todos 9 e debateram , e 
fe deram muitas razões por huma , e ou- 
tra parte ; e praticados todos os inconve- 
nientes que fe lhes offerecêram , vieram os 
mais a concluir que não era licito , nem 
convinha ao Conde Almeirante abalar-fe > 
riem fahir-fe de Goa , aííim pela neceffida- 
de que havia de fua prefença pelas cou- 
fas que eftavam movidas no Grão Mogor 
fobre a conquifta dos Reynos do Decan 
que pertendia fazer, no que tinha nelle o 
Vifo-Rey grande inconveniente ; porque 
bem fabia que tudo o que pudeííe eftor- 
var feus defenhos , e favorecer aos Reys 
vizinhos , havia de fazer : como porque 
não era licito que a peííoa do Vifo-Rey 
femoveíTe, eabalaííe pêra haver de ir con- 
tra hum Mouro coíTairo ? que não era Rey , 
nem fenhor de terras : que bailava pera 
concluir aquelle negocio André Furtado de 
Mendoça , que eftava nomeado pera Capi- 
tão Mor do Malavar , que o proveífem de 
tudo o que o Eftado pudeíTe dar; porque 
conforme aos termos em que a guerra ef- 
tava , e o inimigo desbaratado com a per- 
da 



366 ÁSIA de Diogo de Couto 

da paliada , e com a falta de tudo , fem 
falta , nem dúvida fe acabaria tudo com bem. 
Não faltaram peflbas das que eftavam 
fora doConfelho a que pareçefíe o contra- 
rio , entendendo que a ninguém convinha 
mais achar-fe naquella guerra em peflba, 
que ao Vifo-Rey , aílim pêra remediar o 
damno paíTado , tomando delle fatisfaçao , 
como porque com fua prefença daria mais 
calor á guerra ; e teria mão no Çamorim 
que não fizeíTe de íl alguma mudança , por- 
que tudo fe podia temer deite Rey Gen- 
tio , que tantas vezes tinha faltado com fua 
fé. E que poíto que eílc tyranno não era 
Rey, dava mor trabalho, e opprefsão ao 
Eftado 5 que todos os Reys vizinhos , por- 
que todos os annos recolhia de roubos , 
que fazia nos vaífallos Portuguezes , mais 
de quatrocentos mil cruzados. E aífim ne- 
nhum Rey tinha mais affrontado aos Por- 
tuguezes que efte tyranno , porque andava 
quaíi fenhor do mar , e do commercio da 
índia com fuás Armadas , e fe intitulava 
Rey dos Motivos ; e ficava deíla maneira 
ufurpando hum dos titulos da Coroa de 
Portugal , que era fenhor' do mar , e do 
commercio da índia. E já algumas vezes 
diíTe pelo difcurfo das minhas Décadas , 
que fempre , ou as mais das vezes que os 
Vifo-Reys puzeffexn em confellio haver-fe 

de 



Década XII. Cap. III. 367 

de embarcar, havia de achar nos mais dos 
votantes contradicçao pela obrigação que 
lhes ficava de os acompanhar com rifco de 
fuás peffoas 3 e defpeza das fazendas. Não 
digo ifto , porque neíte Confelho houveíTe 
eftes refpeitos , antes cuido verdadeiramen- 
te que entenderam que não convinha ao 
Conde embarcar-fe ; mas digo , pelas ra- 
zões que apontei , que foi muito acertado 
o confelho que EIRey noífo Senhor to- 
mou do tempo de Aires de Saldanha por 
diante de mandai; , que por fima do que 
fe votaífe no Confelho da índia , fizeílem 
osVifo-Reys o que lhes pareceíle mais fer- 
vido de EIRey, e bem do Eftado. 

E deixando ifto , tornemos ao Conde, 
que femoftrou muito fentido de não poder 
effeituar o que elle tanto defejava; e a Ci- 
dade de Goa , e o Arcebifpo D. Fr. Alei- 
xo de Menezes lhe falláram neíla confor- 
midade. AíTentado ifto 3 mandou logo o Vi- 
fo~Rey ordenar hum galeão 3 em que man- 
dou embarcar muitos provimentos , muni- 
ções 3 pelouros 3 e peças de artilheria de 
bater 3 de que fez Capitão Francifco de 
Barros de Soufa ; hum cavalleiro velho já 
defpachado , que logo defpedio com mui- 
ta brevidade. E apôs elle mandou Diogo 
Moniz Barreto na galé 3 em que o Arce- 
bifpo tinha vindo de Cochim ? e onze na- 
vios 



368 AS IA de Diogo de Couto 

vios mais , em que embarcou trezentos è 
quarenta foldados. E allím mais outros vin- 
te e hum navios , em que vinham quatro- 
centos e íincoenta , que as Cidades do Nor- 
te mandavam de íbccorro , de que vinha 
por Capitão Mor António Colaço Lobo , 
Capitão velho , e antigo; e nos navios vie- 
ram muitos Fidalgos , e cavalleiros arma- 
dos á íua cufta. Efte foccorro do Norte 
chegou a Cunhale a féis de Fevereiro , e 
Diogo Moniz Barreto com fua Armada a 
doze , e aos quatorze o galeão dos provi- 
mentos , com o que aquelle mar ficou coa- 
lhado de Armadas, e o inimigo tão aflbm- 
brado , que fe houve por perdido. A eftes 
Capitães recebeo André Furtado de Men- 
doça com muita honra , e os repartio pfc- 
los lugares que logo diremos. 

Pertendia o Capitão Mor cercar aquel- 
Ja Fortaleza , e continuar naquella guerra 
por termos militares, e de prudência; por- 
que efta muitas vezes , ou as mais delias , 
vence mais de preffa que as armas. E por 
iííb dizia Annibal , que mais fe temia de 
Scipião , quando não peleijava , que de 
Marco Varro feu companheiro , quando 
o fazia ; porque as coufas acceleradas , as 
mais das vezes damnão ; e as que fe fazem 
de vagar , e com confelho maduro , fempre 
nos dam a vitoria. Foi André Furtado com- 

pon- 



Década XII. Cap. III. 3^ 

pondo as coufas , e ajuntando o que lhe 
era neceífario pêra íitiar , e bater aquella 
Fortaleza , porque defejava de a ganhar, 
c levar com pouco cuílo dos homens , por- 
que as vitorias de pouco fangue fam as 
que fazem o feu Capitão mais gloriofo. Em 
Tito Livio lemos que o Confui Marco Fá- 
bio não quiz acceitar o triunfo , que o Se- 
nado lhe oíferecia , porque naquella guer- 
ra lhe mataram feus companheiros o Con- 
fui Manlio , e Quincio Fábio. 

O Cunhale , pofto que eftava apertado y 
c defconfiado, como diíTe, não deixou de 
ufar de feus eftratagemas , e mandou hum 
daquelles feus Capitães , que fe foífe lan- 
çar em cilada com huma companhia de 
Mouros em huma ponta de arêa da ban- 
da do Ariole , pêra ver fe podia fazer al- 
gum bom feito. Depois de embofcar fua 
gente, chegou o Gapitão com outro Mou-* 
ro á borda d ? agua , e capeou a hum pe- 
riche , de que era Capitão Braz Coelho , 
pêra que chegaíTe ao rolo do mar, aonde 
cfte Mouro coítumava chegar algumas ve- 
zes a fallar com o Veador da fazenda do 
Cunhale , que eítava na galé , pêra o que 
André Furtado lhe dava licença. E deita 
vez quiz ver fe podia fazer chegar bem á 
terra o Braz Coelho > pêra ver fe o podia 
colher ás mãos , pêra que a troco delle lhe 
Couto. Tonu viT* Aa def- 



370 ÁSIA de Diogo de Couto 

defíem o Veador da fazenda do Cunhale. 
Bem entendeo o Braz Coelho o animo, e 
intenção do Mouro , e mandou armar os 
feus Toldados , e pollos encubertos com as 
arrombadas que trazia feitas ; e na proa 
poz dous muito certos efpingardeiros , e 
poz-fe a fi no meio deli es , e foi remando 
pêra a praia até fe pôr no rolo de agua , 
donde le poz ás práticas com os Mouros , 
que trabalharam bem com elle pêra que 
chegaífe mais, porque tinham coufas defe- 
gredo que praticar, e tratar. O Braz Coe- 
lho fez que fe hia chegando ; e dando fi- 
nal aos dous , que tinha a par de íi , dif- 
paráram logo fuás efpingardas , que foram 
tão bem empregadas , e encaminhadas , que 
o Capitão ficou eftirado, e o companheiro 
fe recolheo mal ferido. A iíto fe defcubrí- 
ram os da cilada , e começáíam a fervir 
os do periche com muitos tiros, que tam- 
bém lhe, refpondêram com outros , de que 
alguns fe recolheram bem efcalavrados. 

Entendendo o Capitão Mór que a vi- 
toria efíava mais fegura em lhe tirar al- 
guns Mouros da Fortaleza, lá teve manei- 
ra com que por via dos Naires do Çamo- 
rim mandava vifitar alguns mais princi- 
paes , e a voltas diíTo peças ricas, e curio- 
fas (que eítas fam as chaves meftras com 
que fe abrem todas as portas) e eltes fem- 

pre 



Década XII. Ca?. III. 371 

prc lhe refpondiam , mas não aos prefen- 
tes , e com iílo foi moderando alguns , e 
fazendo o negocio que pertendia. Andava 
o Capitão Mor acabando de ajuntar as cou- 
fas pêra o cerco , que havia de pôr á For- 
taleza. E porque defejou de ver por li o 
íitio , e difpofiçao delia á fua vontade , to- 
mou por achaque ir ver o Çamorim , e vi- 
íitallo ao feu arraial , pêra o que lhe man- 
dou pedir licença; e elle lhe mandou feus 
Regedores pêra o acompanharem , e par- 
tio com elles a par de fi , levando por der- 
redor quatrocentos efpingardeiros Portu- 
guezes efeolhidos entre todos > e eftes mui- 
to bem armados , e bem trajados, e paf- 
fou todo aquelle caminho , que era de três 
léguas , a pé em corpo com hum baftãa 
na mão , aílim á ida , como á vinda , fem 
moílrar canfaço algum. Nas viftas com o 
Çamorim houve muitos cumprimentos 5 e 
praticaram fobre as coufas daquella guer- 
ra ; e depois reconheceo o Capitão Mor 
o íitio da Fortaleza , e tranqueiras muito 
a feu gofto y com o que fe tornou muito 
fatisfeito de ter vifto o que tanto defejava, 
E fendo informado que as mais das 
noites paliavam daquella ponta da arêa al- 
gumas embarcações pequenas de Mouros 
a inquietar a noíTa Armada > mandou a Pê- 
ro Luiz com a gente dos periches , e ai* 
Aa ii guns 



37^ ÁSIA de Diogo de Couto 

guns foldados, pêra que fe foflem embre- 
nhar naquella parte , que era da do Ariò- 
le 3 pêra ver fe podia tomar ás mãos alguns 
delles. E eítando alli , chegaram da outra 
parte algumas embarcações dos Mouros, 
com o que os noííbs Lafcarins Malavares 
fe inquietaram , e houve entre elles tão 
grande reboliço , que foram fen tidos , e os 
Mouros fe recolheram , fem mais torna- 
rem alli , e as mais das noites continua- 
ram os noíTos com a mefma vigia. E por- 
que não aconteceíTe naquella parte mais al- 
guma alteração , mandou o Capitão Mór 
fazer na ponta de arêa daquella parte fo- 
bre a barra do inimigo huma tranqueira, 
que encommendou a André Rodrigues Pa- 
lhota com quatrocentos foldados, levando 
comíigo o Engenheiro mór, que a traçou, 
e acabou muito de preífa, que ficava qui- 
nhentos paífos do baluarte do inimigo, 
que ficava da outra parte j e nella fe poz 
a artilheria que pareceo neceíTaria , fican- 
do nella o mefmo André Rodrigues com 
trezentos homens ; e de huma parte , e dá 
outra fe ficaram varejando mui arrezoada- 
mente. Tanto que efta tranqueira fe aca- 
bou , mandou o Capitão Mór paífar oito 
navios ligeiros ao rio por fima da ponta 
da arêa , com o que ficou fenhor do rio; 
o que os inimigos f en tiram muito ; porque 

ate 



Década XII, Çap. III. 373 

até o peixe 5 e marifco delle , de que fe 
fuítentavam , lhes tolhiam , e entendeo que 
aquillo era o caminho de fua perdição. 

CAPITULO IV. 

J)e como o Camarim tratou de ir a huma 

fefta chamada Mamanga : e donde ef- 

ta fejla teve origem. 

ANdando o Capitão Mor preparando 
as coufas pêra pôr cerco á Fortaleza , 
ainda antes de chegarem os foccorros que 
dilíemos , chegou o tempo em que o Çar 
morim lhe era neçeíTario ir á fua feita de 
Mamanga , de que nos apontamentos atrás 
fe fez menção , a que por nenhum cafo po- 
dia faltar ; pêra o que mandou recado ao 
Capitão Mor, e a defculpar-fe de fer foiv 
çado faltar alli com fua peífoa os dias que 
duraffe; mas que alli ficava todo o feu po- 
der pêra continuar naquella guerra, como 
cftava contratado; e que em quanto duraf- 
fe a fefta, elle fe não defcuidaria de man- 
dar dar calor ao cerco; ecomifto lhe man- 
dou pedir o Príncipe de Tanor , e o feu 
Regedor Mor Carnaves , que eftavam em 
Cochim poítos em reféns , como lhe efta- 
vam promettidos nos contratos pêra os 
deixar no exercito ; e que em feu lugar da- 
ria 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

ria outras duas peíToas principaes de Feu 
Reyno. O Capitão Mor Fe lhe mandou eF- 
cuíar com palavras de muita cortezia , e 
brandura , aíFim porque o Çamorim lhe hia 
faltando, com a palavra em muitas couFas 
concedidas nas capitulações 3 como porque 
foube que o Regedor Mor era o que mais 
fuítentava as couFas de Cunhale que todos , 
por Ferem grandes amigos ; e que quanto 
mais alongado o tiveíTe , tanto lhe era me- 
lhor pêra concluir aquelíe negocio. O Ça- 
morim não ficou Fatisfeito de Fe lhe nega- 
rem aquelles homens ; mas diííimulou , co- 
rno o Capitão Mor o Fazia também ás Fuás 
couFas. E querendo ultimamente partir-Fe, 
foi-fe d ef pedir do Capitão Mor em qua- 
torze de Janeiro deíle anno de Feiscentos y 
cm que com o divino Favor entramos ; e 
entre elles não houve mais que palavras 
de cumprimentos , e cortezia ; e Fó lhe diF- 
fe o Çamorim , que em quanto eílivelTe au- 
fente lhe entregava o Feu exercito , e que 
nelle podia diFpôr , e mandar como lua 
própria peíToa , porque aílim o deixava por 
ordem a Feus Capitães , e que eFperava de 
em Fja boa fortuna achar tudo concluído, 
quando tornaífe ; e com ifto Fe defpedio. 
Ê porque nenhum EFcritor noíTo tratou deF- 
ta Feita , que he tão antiga, que paíTa de 
quinhentos annos que Fe celebra , pareceo» 

nos 



Década XII. Cap. IV, 37? 

nos'bem fazer huma breve relação de feu 
princípio , e origem pêra maior goílo da 
hííloria , e paflatempo dos que a lerem. 

Elta fefta de Mamanga , que quer di- 
zer feita de defafio , cahe no Malavar de 
doze em doze annos , e cahio neíla entra- 
da do anno de feiscentos : fua origem foi 
eíla. Morava nos confins doReyno deTa- 
nor hum Bramene , a quem alevantáram 
hum falfo tellemunho , que redundava em 
detrimento de fua honra , e defcredito de 
fua religião , de que fe houve por tão af- 
frontado , que fe partio pêra o rio Ganges , 
que elles tem por fantas fuás aguas , pêra 
nelle fe purificar, Alli jejuou, e fez outras 
afperiífimas penitencias alguns annos , en- 
commendando-fe a feus Ídolos , pêra que 
moítraífem por alguma via a pureza de fua 
innocencia. Eaffim lheappareceo hum dei-, 
les , e lhe diífe , que fe não entriíteceíTe que 
elle teria cuidado de fua honra, que fefof- 
fe pêra fua terra , e que por fim do mez 
de Fevereiro ajuntaífe todas as gentes da- 
quelles Reynos derredor do rio deTanor, 
pêra diante de todos fe moílrar fem cul- 
pa: eque pêra íinaldiífo em tal dia, quan- 
do amare vafaíle, dei taífe elle na força da 
corrente o feu livro , e o feu efcabello , e 
que logo entraria o rio Ganges por aquel- 
le rio de Tanor dentro , e contra o curfo 

da 



yjS ASIÀ de Diogo £>e Couto 

da maré faria tornar o livro, e o efcabel- 
Io por elle aílima á vifta de todos , como 
fingem que o fez , e que foi aquelle efpe- 
ílaculo viíto de todos com grande admira- 
ção , e oBramene foi julgado por fem cul- 
pa, e foi dalli por diante tido em grande 
veneração* E efte he o dia, que fe chama 
de Mamanga , e que fe fefteja de então 
pêra cá de doze em doze annos , como 
ciífemos , com o mor concurfo de gente > 
e defpezas de EIRey , que todas as mais 
que Maiavares tem , porque pêra ella fe 
ajuntam todos os Reys , Senhores , Cai- 
mais y e infinitos povos , e duram eftas fe£ 
tas vinte e oito dias, em. que o Çamorim 
tem fempre muita gente de armas comfeus 
Capitães, que de continuo andam roldando , 
pêra que não haja algum defarranjo, nem 
brigas, que he coufa ordinária em grandes 
ajuntamentos de gente , entre tão grande 
multidão de povos, tão differentes como ai- 
li fe ajuntam ; e também porque todos cf- 
tes dias çoítumam entrar alguns Amoucos 
por meio deite cardume , e matão os que 
podem alcançar. O que acontece em fatis- 
facão de hum Rey vizinho do Çamorim , 
que o que então governava (que haverá no- 
venta annos) mandou matar; pelo que to- 
dos os da obrigação daquelle Rey morto, 
e de feu pai , e avós fe oíFereçem a mor* 

xçr 



Década XII." Cap. IV. 377 

rer por tomarem aquella fatisfação > matan- 
do alguns vaílallos do Çamorim contra 
quem tem o ódio , que os obriga a ufa- 
rem deita brutalidade : e pêra atalhar a if- 
to , tem o Çamorim fempre , em quanto eíla 
feita dura y alli gente de guarnição , que aco- 
de a eíl;es Amoucos , como fazem ; e todos 
os annos , que ha eíla feíla , ficam efpeda- 
çados todos aquelles , que commettem eíla 
brutalidade ; e eíle anno y de que agora es- 
crevemos , entraram trinta Amoucos , que 
logo foram mortos. 

Três dias deites vinte e oito , que ef- 
tas feitas duram , fe põe o Çamorim em 
hum lugar alto á vifta de todo o povo com 
muitos alampadairos de ouro , e prata ac- 
cezos ao redor de íí , e todos os da fua 
Corte acodem alli veítidos o mais ricamen- 
te que podem ; e em EIRey apparecendo 
diante do povo , difparam muita artilhe- 
ria , e dão grandes falvas ? a que elles em 
fua lingua chamam Cuquiadas , e a ellas 
lá em fíma donde EIRey eítá fe proítra pe- 
lo chão diante do povo , e depois fe ale- 
vanta , e em pé faz três vezes reverencia 
ao povo , e todos elles lha fazem , e de- 
pois delle , todos os Reys que fe alli acham, 
Fazem amefma ceremonia ao povo; e aca- 
bada ella , entram os Panicaes efgrimido- 
res de EIRey y e jogão das armas com mui* 

ta 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

ta deítreza, e apôs iíto vem todos os vafc 
fallos de todas as terras do Çamorim 5 e 
de dous em dous vam paflando , e fazen- 
do fua cortezia a feu Rey , e os maiores , 
e grandes do Reyno fe debruçam todos 
diante d elle, e depois paflam os alifantes 
eníínados dos feus Cornacas , que fam os 
Naires , que tem cuidado delles , e fazem 
também reverencia a EIRey com o joelho 
no chão. Gaita o Çamorim neíla feita du- 
zentos mil fanões em dadivas , que fam 
vinte mil cruzados. 

Eis-aqui eíta brutalidade fem nenhum 
fundamento , que lhe feus Bramenes met- 
téram em cabeça , fazendo-lhes crer huma 
coufa tanto contra a natureza , como hevir 
o rio Ganges dos Reynos de Bengala mais 
de trezentas léguas de Tanor , e atraveífar 
todo aquelle Oceano Oriental , e vir en- 
trar por hum rio tanto mais pequeno que 
elle , que pode fumir-fe diante delle ; e que 
fahia do mar com a pureza de fuás aguas, 
fem lhas elle mudar , fendo certo que to- 
dos os rios do mundo perdem fua nature- 
za em chegando ao mar; e de eítas, e de 
outras abusões femelhantes eítá cheio to- 
do eíte Oriente , e aílím crê toda eíta gen- 
tilidade nellas , como fe as viram paífar, 
porque pêra iífo não ha outra nenhuma ra- 
zão , e experiência mais que dizerem-lho os 
feus Bramenes. CA- 



Década XII. Cap. V. 37^ 

CAPITULO V. 

Das coufas , em que o Capitão Mor pro- 
ve o pêra dar princípio aofitiar aquel- 
la Fortaleza. 

PArtido o Çamorim pêra a fua feita de 
Mamanga j tratou o Capitão Mor de def- 
impedir a barra, pela ter o inimigo de no- 
vo atraveflada com groflbs maílos furtos 
com cadeias de ferro, e grandes ancoras, 
c alguns pregados fobre eítacas mui graf- 
ias mettidas com vaivéns no fundo da va- 
fa , ou arêa , c nas cabeças aíTentados aquel- 
Jes maílos groflbs , e pregados com gran- 
des pregos , que tudo ficava mais de hum 
covado efcondido debaixo d' agua. Eíle 
negocio encommendou a Luiz Fragofo , e 
a Luiz de Almeida y e com elles Pêro Luiz , 
e Braz Coelho com feus Lafcarins , e ma- 
rinheiros , que levaram ferradores , e oífi- 
ciaes , que mettidos na agua ferraram os 
maílos com grande trabalho , e rifeo de 
todos pelas muitas bombardadas que fo- 
bre elles choveram , e os levaram a noífa 
tranqueira , que eílava da outra parte na 
ponta da arêa. Com iílo ficou a barra des- 
impedida , e por ella entrou ao outro dia 
de noite huma manchua ligeira , de que 
era Capitão hum João Rodrigues Fialho, 

na- 



3S0 ÁSIA DE DíOGÔ DE CoTJTfr 

natural de Cananor, que ao paíTar de lon- 
go do baluarte do inimigo , por onde era 
o canal , fallou com os Mouros delle em 
linguaMalavar, dizendo que lhe levava al- 
guns provimentos, com o que paliou fegu- 
ro fem lhe atirarem bombardadas. E por fe 
recear o Capitão Mor que peia parte do 
Çamorim lhe entraílem alguns provimen^ 
tos ao inimigo por via dos Naires , que 
por dinheiro venderam fuás mulheres , e 
filhos , mandou a Belchior Ferreira com 
cemfoldados, pêra que daquella parte, de 
que fe temia aíTiftiífe em guarda , e vigia 
bem junto ás tranqueiras do inimigo , pê- 
ra que lhe não entraffe , nem fahiífe coufa 
alguma: e juntamente mandou António de 
Brito Fogaça , Capitão Mor do foccorro 
de Cochim , com trezentos homens em fe- 
gredo , e o Engenheiro Mor foíTem pelo 
rio dentro nas manchuas a fazer huma tran- 
queira na banda do Ariole , que em bre- 
ves dias acabou mui bem traçada , que fi- 
cou a tiro de falcão fronteira á Fortaleza 
do inimigo , em que o mefmo António de 
Brito Fogaça ficou por Capitão com du- 
zentos homens , e lhe prantou algumas pe- 
ças de artilheria com que fez notável da- 
mno aos inimigos , por lhes defcubrir dalli 
as fuás praças , e bazares , e as mais das 
ruas , ç muita parte da povoação. Efta tran- 
quei 



Década XIL Cap. V. 381 

queira foi o Capitão Mór ver de longo do 
rio, e delia eíteve de novo reconhecendo 
todas as fortificações daquella parte, e ao 
voltar vifitou o Ariole de Bargare pelo ter 
propicio , o que elle eílimou muito ; por- 
oue deitas vifitas que fazia a eítes, fempre 
lhe ficavam em cala algumas peças , no em 
<jue elles fó trazem os olhos. Vindo dela, 
mandou a D. Francifco de Soufa com tre- 
zentos foldados , e ao Engenheiro Mór com 
todos os petrechos necefíarios pêra fazer 
outra tranqueira junto á de António de 
Brito Fogaça , mais á borda d^agua , pe- 
la outra eítar íbbre hum tezo , que íe fez; 
muito bem ordenada a tiro de efpingarda 
do inimigo , e nella ficou aíTiftindo por Ca- 
pitão, edalli fazia grande damno aos Mou- 
ros , porque cada dia lhe matava , e feria 
alguns. 

Vendo o Cunhaíe entrado o rio , e as 
noflas tranqueiras tão fenhoras das fuás, 
mandou fazer outra muito forte na ponta 
da arêa fobre a barra da fua parte ; por- 
que algumas almadias , que tinha defpedi- 
das a bufcar mantimentos , vindo com el- 
les , efperariam alguns noroeftes rijos com 
que os noffos navios fe aífaftaíTem da ter- 
ra , e ellas tiveíTem lugar pêra na efcuri- 
dão da noite , paíTando por meio da Arma- 
da , irem encalhar naquella parte , como 

ai- 



382 ÁSIA de Diogo de Couto 

algumas fizeram ; e como os Mouros es- 
peravam por elias , logo os mantimentos 
eram levados nos ares , e recolhidos , e as 
mefmas almadias varadas ao pé do baluar- 
te : e além difto varejavam dalli a noíTa 
tranqueira , que eftava da outra parte , e 
lhes faziam bem de damno. O que vifto 
pelo Capitão Mor , determinou de lha ga- 
nhar, e fortificar nella, e encarregou eílc 
negocio a André Rodrigues o Palhota , com 
feiscentos homens divididos em duas par- 
tes , e efquadras : huma pêra commetter a 
tranqueira ; e a outra pêra ter o foccorro 
que lhe viefle , mandando ordem a Bel- 
chior Ferreira , que aífiítia da banda do Ça- 
morim , pêra que com os feus foldados, 
e os Naires do Qamorim commetteile por 
lá as tranqueiras do inimigo , ao melmo 
tempo que por cá deíTem , que havia de 
fer a meio quarto da modorra , noite que 
era de luar muito claro, porque áquella ho- 
ra enchia a maré , e os paflbs por onde os 
inimigos haviam de acudir , e foccorrer o 
feu baluarte , eílavam cheios de agua , c 
não fe podiam vadear: e ás horas deter- 
minadas mandou o Capitão Mor fazer o 
final aos navios , que eílavam de fora , que 
remettêram com a terra, onde puzeram as 
proas , e defembarcáram todos , e nos dian- 
teiros foram D. Fernando de Noronha, e 

feu 



Década XII. Ca?. V. 3S5 

feu irmão D. Chriftovão de Noronha , e 
com furor efpantofo commettêram as gua- 
riras, e com muita facilidade as ganharam, 
fendo o primeiro que nellas entrou Luiz 
de Almeida , e com muito valor foram le- 
vando os inimigos de vencida até á tran- 
queira de madeira , onde já eftava Belchior 
Ferreira com a gente do Çamorim , e com 
a fua a que tinha pofto o fogo , e fobre 
ella peleijáram os noffos muito esforçada- 
mente. 

Ouvindo o Cunhale a revolta , fabendo 
que era de todo entrado dos noíTos , acu- 
dio em peííba , e fez voltar os Mouros , 
que hiam fugindo ; e ajuntando outros de 
outras eílancias , os fez paíTar os alagadi- 
ços , aílim em almadias , como a nado ; e 
ajuntando-fe mais de quinhentos , tornaram 
a remetter com as guaritas , onde os noíTos 
eílavam ; e com tanta determinação os com- 
mettêram, que houvera danoíTa parte gran- 
des defarranjos , fe D. Fernando , e D. Chri- 
ftovão de Noronha feu irmão com alguns 
mais não tiveram o pezo. Aqui efteve o 
negocio fufpenfo , e muitos dos noíTos mo£ 
tráram bem todos os quilates de feu valor, 
obrando grandes cavallerias. E quando os 
Mouros commettêram da primeira vez os 
noífos , que os fizeram recolher ás guari- 
tas, Luiz de Almeida featraveffou na por- 
ta 



384 ÁSIA de Diogo de Coura 

ta com huma chuça nas mãos , c teve a 
encontro aos inimigos , que commettêram 
a porra , ficando defcuberto , e por barrei- 
ra ás eípingardadas , e frechadas que os 
inimigos lhe atiravam , de que o Deos nof- 
fo Senhor guardou. Em fim , deíla feita fi- 
caram os noflbs fenhores daquellas guari- 
tas , que cuftáram a vida a João de Seixas 
Cabreira , valente Capitão , e a Pêro de 
Gois Capitães de navios , e a nove folda- 
dos , a fora quarenta , que ficaram feridos , 
e dos Mouros morreram mais de feiscen- 
tos , além dos feridos , que foram muitos , 
conforme a huma lembrança que achei de 
hum curiofo , que foi pondo em lembran- 
ça todos os fucceííbs deíle cerco. 

Neftas guaritas , ou tranqueiras , que fc 
ganharam , ficou por Capitão D. Fernando 
de Noronha com trezentos foldados. Bel- 
chior Rodrigues com a fua gente , e a do 
Çamorim commettêram (como jádiflemos) 
a tranqueira de madeira, que cortava aquel- 
la ponta de arêa da coita brava até ir em 
Uma a fechar no rio , que tinha três gua- 
ritas , em que de ordinário eftavam perto 
de trezentos Mouros , que Belchior Rodri- 
gues logo achou defpejadas , porque a gen- 
te delias acudio ao fbccorro da tranquei- 
ra, que lhe os noflbs ganharam: pelo que 
tiveram tempo depor o fogo a huma par- 
te 



Década XII. Cap. V- 385* 

te delia , a que os Mouros acudiram 5 e a 
tornaram a renovar , fobre o que tiveram 
huma grande batalha , como jádiífe, ecom 
efte feito fe recolheo o Belchior Rodrigues 
a fuás eftancias cheio de venturofos fuc- 
ceífos. Com ifto, e com a falta, que ha- 
via na Fortaleza de mantimentos, íe aba- 
laram alguns Mouros principaes a fe fahi- 
rem delia com fuás familias ; o que fize- 
ram a feu falvo da noíTa parte , pelo fe- 
guro que o Capitão Mor lhes tinha dado 
a todos os que fe quizeílem fahir delia. 

CAPITULO VI. 

Do que mais fucceâeo nas tranqueiras : c 
dos fortes que o Capitão Mor mandou 
fazer : e de como ganhou as tran- 
queiras , e povoação. 

SAbendo o Capitão Mor que o inimigo 
tornara a renovar a tranqueira de ma- 
deira , determinou de lha ganhar de todo , 
porque determinava de entrar naquelie íí- 
tio pela tranqueira grande de pedra: e ef- 
te negocio encommendou a Belchior Ro- 
drigues , e a André Rodrigues Palhota com 
todos os Lafcarins, e gente doQamorim, 
que commettéram a tranqueira com mui- 
ta determinação; mas acharam tal reíiíten- 
CovtQ. Tçm. ult, Bb cia 



386 ÁSIA de Diogo de Couto 

cia nos Mouros 3 que a não puderam en- 
trar , e foi-lhes forçado recolherem-fe. com 
alguns feridos , em que entrou André Ro- 
drigues Palhota ? de huma efpingardada pe- 
la boca , que lhe levou todo hum queixo 
com nove dentes : e nas mais das coufas , 
em que eíle cavalleiro fe achou, fempre fa- 
hio efcalavrado > porque em todas foi dos 
primeiros , e dos que mais fe arrifcáram, 
e melhor pelejaram ; e fe houvera de gaf- 
tar o tempo em feus louvores , pudera gaf- 
tar muito , porque fempre mereceo muitos. 
Deite paílb , em que Belchior Rodrigues 
eftava , o mandou o Capitão Mor paíTar 
pêra outro entre o arraial do C,amorim, e 
tranqueira dos inimigos , onde já da pri- 
meira vez eíteve ; e no paífo que deixou , 
mandou que ficaíTe António Pereira Cou- 
tinho 3 que tinha vindo do Norte de foc- 
corro elle , e feu irmão André Pereira , ca- 
da hum deli es em feu navio ás fuás cuftas. 
E porque determinava de paliar a artilhe- 
ria á parte do Ariole , pêra de lá bater a 
Fortaleza , mandou fazer duas tranqueiras : 
huma bem defronte do baluarte , que ef- 
tava em guarda da barra ; e outra no di- 
reito deita mais á borda da agua na coita 
brava pêra repairo , e abrigo dos que ha- 
viam de defembarcar a artilheria naquella 
parte , onde logo defembarcou três peças 

grof- 



Década XII. Cap. VI. 3S7 

groflas , com que em finco dias contínuos 
bateo o baluarte do inimigo, e lhe deram 
com toda a fronteria no chão , deixando 
caminho largo , e capaz de entrarem pof 
alli os nollbs ; e nefla tranqueira , e bate- 
ria aííiftio António Collaço. 

Eílando as coufas neítes termos , deram 
ao Capitão Mor cartas do Conde Almei- 
rante , em que o advertia que viffe o co- 
mo hia com aquella guerra , e que não ar? 
riícafle os homens por a fiai tos > e que fof* 
fe eftreitando o cerco até o inimigo fe lhe 
entregar, porque aífim ficaria a vitoria mais 
fermofa; e com iiTo outros avifos neceífa- 
rios, e de Capitão prudente. Com efta car-* 
ta convocou o Capitão Mor confelho , e 
lhamoítrou, e pedio lhe deííem tcdos léus 
pareceres fobre o que faria , tendo confide*» 
ração ao tempo , que fe hia acabando o 
verão, e chegando o inverno , e aoeítado, 
em que o inimigo eflava ; e que fe daquel-» 
Ia feita fe não concluiíle aquelle negocio , 
temia que ficaííe depois o Cunlule com a 
gloria de fe defender dous annos dos noí? 
fos; e que paffando dalli , quem feguraria 
que tornaííe o C,amorim a. ella , e que o 
Cunhale a poder de muito dinheiro o mo 
traílornaíle , e aíiim ficaria o íiftado tendo 
os inimigos dobrados ; e que por muito ca-* 
bedal, que depois metteíTe , fem ter de fua 
Bb ii par- 



388 ÁSIA de Diogo de Couto 

parte o Çamorim , não poderia effeituar cou- 
ia alguma. Sobre eftas propofições vota- 
ram todos; e depois de muitas altercações, 
foram os mais de parecer que convinha ao 
Eftado concluir-fe aquella guerra o mais 
deprefla que pudeíle fer , e que fe com- 
metteffe o inimigo por aíTalto , porque a 
guerra não fe fazia fem rifco ; e que me- 
nos mal era morrerem cem homens , que 
ficar aquelle tyranno em pé , que cuílaria 
depois as vidas , e as fazendas a muitos* 
Que fe commetteíTe o inimigo com todo 
o poder que alíi havia , repartido em três 
efquadróes , e por três partes , porque na 
Fortaleza não havia poder pêra acudir a 
tanto , e que aíTim facilmente fe levaria nas 
mãos, Efte aífento aífignáram todos , e fe 
mandou ao Conde Almeirante , que o não 
approvou , e mandou que fe guardaííe o 
que elle tinha mandado , e pelos Moftei- 
ros dos Religiofos que encommendaífem 
aquelle negocio muito a Deos , porque as 
coufas , que fe não regiítam primeiro com 
elle , nunca tem bom fim. 

AíTentado efte confelho, determinou o 
Capitão Mor André Furtado de Mendoça 
de o pôr em effeito, e pêra iífo foi vifitar 
todas as tranqueiras da banda do Ariole, 
e deo ordem a todos os Capitães delias 
do como fe haviam de haver no dia do af- 

fal* 



Década XII. Ca?. VL 3S9 

falto ; e affim repartio toda a gente 5 que 
feriam dous mil Portuguezes , em três ba- 
talhas : huma tomou pêra íi ; e as duas deo 
huma a D. Francifco de Soufa, e outra a 
António de Brito Fogaça ; e encommendou 
a todos que fe confeíTaíTem , e commungaf- 
fem , como o fizeram , occupando-fe na- 
quelle miniíterio os Padres Francifco Ro- 
drigues , e Manoel Gafpar, da Companhia 
de Jefus \ e outros Padres de S. Francifco , 
e S. Domingos ? que todos diíTeram Mif- 
fa , a que todos os foldados , e Capitães 
commungaram. Andando-fe o Capitão Mor 
preparando pêra dar o aUalto , chegou o 
Çamorim da fua feita de Mamanga na en- 
trada de Março , e logo o Capitão Mor o 
foi viíítar , e lhe deo conta do eftado em 

?|ue ascouías eítaram; e a voltas diííb lhe 
ez muitas queixas de feus Regedores , e 
Naires, de quem em quanto elle Çamorim 
efteve aufente não recebeo ajuda , nem fa- 
vor , nem algumas das coufas das que fc 
capitularam , e que elle Çamorim lhe dei- 
xou a todos tão encommendadas ? de que 
o Çamorim moílrou no exterior grande [en-^ 
timento , que pode fer que o não tiveíTc 
no interior 5 porque era , e fempre fora fal- 
fo , e fementido , e até então não tinha pro- 
feguido naquella guerra fenao pelo que lhe 
a elle relevava , e aflim diífe muitas cou- 

fas 



3po ÁSIA de Diogo de Couto 

fas ao Capitão Mor, que o entendia mui* 
to bem; eaílim fedefpedíram hum do ou- 
tro com muitos cumprimentos. 

Tanto que o Çamorim veio da fua fef- 
ta , logo ao outro dia o mandou o Cunha- 
le viiitar com muito dinheiro , e peças ri- 
cas , e a voltas diílb lhe mandou pedir fe- 
guro , porque fe lhe queria ir entregar; 
mas com condição que lhe havia de dar a 
vida a elle, e a todos os que com elle ef- 
tavam. E iíío trataram com elle os Mou- 
ros , que aiflb mandou de feição , que lho 
concedeo oQamorim, e lhe mandou o fe- 
guro que lhe pedio ; e com elle fe fahí- 
ram logo da Fortaleza duzentos e íincoen- 
ta Mouros , que os Naires do C,amorim , 
e Belchior Rodrigues foram receber, pelo 
mandar afilm EIRey, o que fizeram junto 
á tranqueira de madeira; e vendo Belchior 
Rodrigues tão boa occaíiao , entrou-a , e a 
queimou toda, E ainda paliaram os noílbs 
tanto adiante , que puzeram fogo a todos 
os navios , e cafás , que havia entre huma 
tranqueira , e outra ; e chegando á tranquei- 
ra de pedra , acudiram os Mouros , a cuja 
conta citava a guarda delia , e travaram 
com os nofíos huma muito afpera batalha. 

Deita revolta fe deo recado ao Capitão 
Mor, que logo com muita preífa acudio a 
recolher ps léus , porque lhe não aconte- 
ceu 



Década XII. Cap. VI. 391 

ceífe algum defaftre \ c neíta revolta foi fe- 
rido ejpi hum pé de hum eítrepe dos mui- 
tos que havia ao longo do muro pela ban- 
da de fora, O Qamorim não ficou muito 
goftofo daquelle cafo , por yer quanto os 
noíTos queriam levar acoufa pelo rigor das 
armas, defejando elle concluilio pelo mo- 
do que tinha concertado com o mefino 
Cunhale , pelo muito que lhe tinha dado , 
e pelo que ainda efperava lhe déíTe. Ven- 
do o Cunhale aquelle negocio , e a quei- 
ma da fua tranqueira , navios , e cafas , hou- 
ve que o C,amorim o enganava ., pelo que 
tratou de íe defender até perder ávida, 
e pêra iííb fe recolheo na Fortaleza com 
os Mouros, que lhe pareceo bailavam, pe- 
los poucos mantimentos que tinha. 

Aquella noite , que iílo aconteceo , en- 
traram pela barra dentro dous navios , de 
que d 5 hum delles vinha por Capitão D. 
Manoel de Lacerda, e do outro D. Pedro 
Coutinho, que fequiz achar naquella guer- 
ra , por virtude de huma Provisão , que o 
Conde Almeirante pafíbu , com parecer da 
Relação , porque perdoava até certos an- 
nos de degredo , que lhe deram por hu- 
mas brigas que teve em mancebo , por 
cuja caufa ficava inhabilitado pêra ir en- 
trar na Fortaleza de Ormuz , com que es- 
tava defpachado. Quiz-fc remir dclle com 



392 ASIÀ de Diogo de Couto 

fe achar prefente naquella guerra , pêra que 
negociou aquelle navio á ília cuíta*, com 
muitos foldados com que gaitou muito : e 
logo apôs elle começaram a entrar os na- 
vios que quizeram , como foram osdeGaf- 
par de Mello, Gonfalo Mendes de Mace- 
do , e Franciíco de Macedo , que recebe- 
ram muitas bombardadas do baluarte da 
barra , de que mataram hum foldado ao 
Gonfalo Mendes. 

O Capitão Mor nas dilações do C,a- 
morim foi entendendo que hia naquella 
guerra tão lentamente pelas muitas dadi- 
vas que lhe o Cunhale dava, aflím a elle, 
como aos feus Regedores : pelo que fe de- 
terminou de concluir aquelle negocio , por- 
que fe hia gaitando o tempo ; e deita fua 
determinação avifou a todos os Capitães , 
e lhesdiíTe, que havia decommetter o mu- 
ro de pedra pêra por elle entrar no íitio , 
e plantar fuás eítancias fobre a Fortaleza , 
e deo-lhes a ordem, que todos haviam de 
ter, e repartio fuás gentes por elta manei- 
ra. A dianteira deo a D. Francifco de Sou- 
fa com quatrocentos foldados efcolhidos , 
pêra commetter o muro pela parte do le- 
vante. André Rodrigues, o Palhota, que 
não eítava bem são, com feiscentos homens 
pêra entrar pela barra , e commetter o ba- 
luarte , que eítava fobre ella > a que cha- 
mam 



Década XII. Cap. VI. 393 

mam o Branco ; e o Capitão Mor com mil 
e duzentos homens , cm que havia a flor 
da Fidalguia, e foldadefca da Armada, pê- 
ra commetrer o muro pela parte do C,a- 
morim , e logo repartio munições , e fez' 
todas as preparações necefíarias. 

E aos fere de Março fe paliou o Capi- 
tão Mor a parte doC,amorim, com quem 
fe vio , e lhe deo conta de como eftava re- 
foluto emeommetter as tranqueiras doCu- 
nhale , e lhe pedio que elle com os feus 
Naires o feguiífem , conforme as capitula- 
ções que eftavam feitas , e elle por obri- 
gação tinha. O C,amorim vendo aquella 
determinação do Capitão Mor , refpondeo- 
Ihe com muita frieza , que deixaíTe aquel- 
le negocio pêra outro dia , que então faria 
tudo. André Furtado , fem lhe refponder 
coufa alguma , foi marchando pêra as tran- 
queiras , e chegou á de madeira , que efta- 
va queimada. Vendo o C,amorim a fua de- 
terminação , foi-o feguindo com féis mil Nai- 
res ; e chegando a elle, lhe difle ~, que elle 
eftava alli muito preftes pêra cumprir tu- 
do o que lhe tinha promettido; do que o 
Capitão Mor lhe deo os agradecimentos, 
€ defpedio a Pêro deBendanha com alguns 
foldados , e o Engenheiro Mor a reconhe- 
cer a tranqueira de pedra pela parte , por 
onde a elle queria commetter , o que elle 

fez 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

fez com muito cuidado , e lhe deo particu- 
lar relação de como eítava. 

Com ifto mandou fazer o final , que ti- 
nha dado aos mais Capitães dos outros ter- 
ços , eaelie arremettêram todos com aquel- 
ía parede, que não teria mais de oito pal- 
mos de altura , mas muito larga : puzeram- 
lhe os peitos com muita determinação ; e 
o primeiro que fubio aílima ajudado dos 
feus, foi o Capitão Mor, e com alguns fe 
poz no releixo ; porque hum pouco antes 
que o muro fubiffe , fe foi eítreitando , e 
fazendo hum parapeito com feteiras , pêra 
delias jogar a fua arcabuzaria. Tanto que 
o Capitão Mor fe vio em lima , logo o mu- 
ro fe encheo de foidados , e foram deman- 
dar os baluartes , e guaritas , que os Mou- 
ros defpejáram de preífa , e fe foram re- 
colhendo pêra a Fortaleza com tanta re- 
volta , e defattento , que ao entrar tomou 
fogo huma pouca de pólvora , que alli ti- 
nham , que abrazou hum grande número 
de Mouros. D. Francifco de Soufa , e An- 
dré Rodrigues Palhota commettêram os ba- 
luartes , que lhes foram encommendados , 
c com a mefma facilidade os entraram , e 
ganharam. Com o que os noffos foram fe- 
nhores de tudo o que havia da Fortaleza 
pêra fora , e logo deram fogo á povoação , 
e bazares ? donde já os Mouros tinham reco- 
lhido tudo o que havia. Tan- 



Década XII. Cap. VI. 395* 

Tanto que o Qamorim vio tudo ganha- 
do , deixou-fe ficar em hum dos baluartes 
do muro, e com muita prefla mandou der- 
ribar todo o muro pelo chão, o que fefez 
em breviJlimo efpaço , por ter mais de qua- ; 
renta mil Naires. E quando André Furta- 
do fe foi recolhendo do baluarte de íbbre 
a barra , achou feita aquelia ruina até os 
alicerces ; e bem entendeo que fe fizera 
por fe elle não fortificar alli , com o que 
ficaria tendo pouca neceífidade d elle, e de 
fua gente; e elle queria que fempre o Ca- 
pitão Mor dependeffe de fua ajuda , e fa- 
vor. Os noílbs foldados ordinários , e os 
Naires começaram a cavar as cafas , em 
óue acharam coufas de pouco momento; e 
íobre ellas começou a íiaver algumas def- 
ordens entre huns , e outros ; ao que man- 
dou acudir o Capitão Mor com grandes 
penas , que nenhum Portuguez cavaíTe as 
cafas, e que deixaífem aos Naires rabifcar 
cíTa pouquidade que havia- 



CA- 



396 ÁSIA de Diogo de CoirTô 

CAPITULO VIL 

De como o Capitão Mor prantou fua ar- 
ttlheria fobre a Fortaleza : e das des- 
confianças que houve da parte do 
Camorim. 

VEndo-fe o Capitão Mor fenhor da po- 
voação , tomou pêra fua eftancia o ba- 
luarte da barra; e a André Rodrigues Pa- 
lhota mandou que aíTiftiífe com quinhentos 
homens na Meíquita junto da Fortaleza, 
que o anno paíTado fe tinha queimado , on- 
de fez huma tranqueira pêra fua feguran- 
ça , e de dia , e de noite eftavam com as 
armas nas mãos ; porque foi o Capitão Mor 
avifado que os Mouros defefperados de- 
terminavam fahir da Fortaleza , e darem 
nos noííos , e morrerem como amoucos. 
Aqui nefta tranqueira houve fempre traba- 
lho y por fer muito perfeguida da artilhe- 
ria , e arcabuzaria da Fortaleza , de que lhes 
feriram alguns foldados. A D. Francifco 
de Sotifa com o feu terço encommendou , 
que fizeífe fua eftancia no baluarte , que ef- 
tava na guarda da porta da Fortaleza de 
pedra , que fó ficou em pé ; e em todos 
os mais lugares neceííarios poz prefidios , 
do que o Qamorim fe tomou muito , por- 
que lhe diíferam os Naires que fenhorear- 

fe 



I 



i Década XII. Cap. VII. 397 

fe o Capitão Mór de tudo era final que 
fe queria apoííar da Fortaleza , e não cum- 
prir o que eftava capitulado entre elles, 
E tantas coufas lhe diíferam fobre iílo , que 
foi logo ao Capitão Mór ao baluarte de 
fobre a barra, que tinha já rodeado de hum 
valo forte , por lhe ficar mais capaz : e nas 
práticas que tiveram , lhe diíle o Ç,amo- 
rim , que lhe não parecia bem ver a dili-, 
gencia com que fe fortificava em todas as 
cartes , porque dava a entender fer aquel- 
a prevenção mais a refpeito delle C,amo- 
rim, que não doCunhale, que já eílava en- 
curralado na Fortaleza, donde não podia fa- 
hir , que lhe afiirmava que não havia de 
confentir tal: elogo os Naires começaram 
a derrubar os vnlos , e quererem-no fazer 
ao mefmo baluarte. 

André Furtado ficou hum pouco fuf- 
peníò naquella matéria ; mas logo tomou 
as armas com a foldadefca que tinha , e 
acudio a aifaftar os Naires da obra em que 
eítavam , como fez : e acudindo também o 
C,amorim , lhe diífe o Capitão Mor pelo Pa- 
dre Francifco Rodrigues , que fortíficar-fe 
elle era obrigação de todo o Capitão , que 
o não fazia íenao por ter os feus folda- 
dos recolhidos em feus prefidios , aífun por- 
que os inimigos fe lhe não pudeífem fahir 
por alguma parte vafia , como por fe não 

dek 



39S ÁSIA de Diogo de Couto 

defmandaretíi , e terem algumas differenças 
com os feus Naires, que elle fentiria mui- 
to , porque fua tenção era fervillo em tu- 
do , e não enojallo. O C,amorim já mais 
bnmdo lhe diíTe , que lhe parecia bem ; mas 
que lhe déffe hum daquelles baluartes pê- 
ra fe elle fortificar nelie. Do que fe o Ca- 
pitão Mor efcufou com lhe dizer , que fem 
licença do Conde da Vidigueira Vifo-Rey 
lho não podia confentir ; porque tanto que 
ganhara aquelles fortes , já ficava obrigado 
a elles como por menagem : que fe fiaíTe 
elle Qamorim delle , que em tudo o que 
nas capitulações lhe tinha promettido, lhe 
havia de cumprir muito a feu goíto. 

O Qamorim ficou daquillo muito apai- 
xonado ; e fem replicar, voltou , e fe foi 
metter no baluarte , em que eílava D. Fran«* 
cifeo de Soufa , e diífe-lhe que queria ef- 
tar alli como feu foldado ; do que D. Fran- 
cifeo avifou o .Capitão Mor , que o man- 
dou recolher , e que deixaíTe nclle o Qa- 
morim, que mandou dizer a André Furta- 
do , que os Naires do feu Reyno tinham 
mais de quatrocentos Mouros pêra faze- 
rem outro Cunhale , e lançar de fuás ter- 
ras quem lhe pareceííe, que havia de eítar 
em alguma parte delias contra fua vonta- 
de, e goíto. Vendo o Capitão Mor aquel- 
le defpropofito deElRey, lhe mandou re- 

fpon- 



! 



Década XIL Cap. VII. 39? 

fponder, que elle em vinte e quatro horas 
conquiítára , e fenhoreára com menos gen- 
te da que então tinha > Pveynos , e Reys , 
e que depuzera huns , e alevantára outros - y 
e que lhe feria muito fácil fazer-lhe outra 
tanto a elle , pois fe queria alterar , e mo£ 
trar defarrazoado fem caufa. OPadreFran- 
cifco Rodrigues , que era o Interprete def- 
tas coufas , me diííeram os Padres da Com- 
panhia , que não quizera dizellas ao Qa- 
morim tão cruas , e feccas , como lho elle 
mandava dizer, eaífim com lua prudência 
foi temperando o Qamorim, e tendo mão 
nas coufas , porque via que fe fe defcon- 
certaílem , fe perderia aquella jornada. E 
todavia o Qamorim mandou chamar os 
Mouros , que tinha em Panane , e toda a 
mais gente , que trazia em campo contra 
EIRey deCochim, em favor doCaimal da 
Curugeira 5 a quem aquelle Rey fazia crua 
guerra, fó afim de divertir o Qamorim das 
coufas do Cunhale contra o que tinha pro- 
mettido ao Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Me- 
nezes. 

Deita tenção do Qamorim foi André 
Furtado avifado , e defpedio hum catur li- 
geiro com cartas a EIRey de Cochim , era 
que o avifava da determinação do Qamo- 
rim , pedindo-lhe que fe a gente , que lá 
trazia, íizeííe mudança deíi, lhe mandaflTe 

dar 



4oo ÁSIA de Diogo de Couto 

dar nas coílas , e os desbaratafíe, e fenho- 
reaíle a Curugcira como defejava, porque 
elle iria também dando no C,amorim, e o 
desbarataria. 

Parecia certo neíles defconcertos , que 
andava o demónio defenfreadamente inet- 
tido neltas coufas , pêra eílorvar hum ne- 
gocio de tanta importância ao Eílado da 
índia ; porque o Qamorim , que foi fabe- 
dor da carta de André Furtado , eíleve pê- 
ra romper de todo com elle ; mas o Padre 
Francifco Rodrigues o foi fempre mode- 
rando , e tendo mão em fua paixão , e di- 
vertindo-o delia, fazendo niflb todos osof- 
ficios , que lhe pareceram neceflarios , pê- 
ra que íe não levaíTe mão daquelle nego- 
cio, que eílava em muito bom eílado. 

O Capitão Mor como conhecia a varie- 
dade deite Rey , e fabia que o Cunhale ha- 
via de trabalhar por fe remir com todo 
o dinheiro que tiveíTe, não quiz ficar nas 
mãos da mudança daquelles homens, man- 
dou logo fabricar huma forte tranqueira ao 
redor daquelle baluarte , em que eílava 9 
onde não deixou entrar Naire algum, e o 
mefmo mandou fazer nas mais eílancias 9 
que tinha na mefquita pêra fegurar aquel- 
la jornada , porque mais fe ficou receando 
do C,amorim , que do Cunhale , e todos 
os mais preíidios recolheu a íi 2 dando-lhe 

or-» 



Década XII. Cap. VIL 401 

ordem que em fentindo alguma alteração, 
defíem nos Naires como em inimigos. O 
C,amorim tanto que vio recolher o Capi- 
tão Mór a fi toda a foldadefca , que efta- 
va no baluarte da tranqueira de pedra , o 
mandou logo derrubar , porque os noílòs 
fe não tornaíTem a fortificar nelle. 

Neíle mefmo dia que ifto fuccedeo , que 
foi aos dez de Março , entrou pela barra 
a barcaça , e foi furgir cento e fincoenta 
paíTos da Fortaleza , que começou a bater 
com dous bafilifcos , que lhe derribaram 
hum lanço do muro: e delle lhe refpon- 
dêram também com tiros tão certos , que 
pelos efcotilhóes lhe entraram pelouros, 
que com as rachas que fizeram na barca- 
ça , feriram o Capitão delia Luiz Fragofo, 
e matarão dous Toldados. 

E tornando ao Padre Francifco Rodri- 
gues , lá moderou o Qamorim de feição, 
que mandou dizer a André Furtado de Men- 
doça, que o queria ir ver, o que elle ef- 
timou muito ; e tendo vigia em quando fò 
abalava , fe fahio do forte com toda a fol- 
dadefca pofta em armas, em forma de Lua, 
ficando elle em pé na porta. O Qamorim 
chegou a elle com huma alegria fingida , 
e fe deram as mãos em íinal de amizade; 
e mandou-lhe dizer que fizeíTe o que qui- 
zeífe, e o que lhe melhor pareceíle, pêra 
Couto. Tom* ult. Ce fc 



402 ASIÂ de v Diogo de Couto 

fe dar fim áquella empreza , que delle fia* 
va tudo , e que cefíafTem as paixões. An- 
dré Furtado lhe refpondeo com palavras 
mui brandas , e cortèzes , que elle não ha- 
via de fazer mais que o que fua Alteza lhe 
mandaífe, e que feguiria fua ordem, por- 
que ailim lho tinha mandado o Conde Vi- 
fo-Rey. Com ifto fe defpedio o C,amorim 
mais leve , e defaífombrado ; e ao apartar- 
fe , lhe deram os noífos a mais fermofa 
falva de arcabuzaria , que alli fe vio , de 
que elle , e os Naires fe foram bem ate- 
morizados. 

Efta noite feguinte fe foi dando bate- 
ria á Fortaleza , aífim da barcaça , como das 
eítencias , que eítavam em terra com muito 
terror, e na força delia fe foram oíferecer 
ao Capitão Mor Luiz de Almeida , João 
Aranha , André Coelho , André Simões , 
Salvador Mendes , Pêro Jaques , hum foão 
Teixeira de Vafconcellos >, e outros pêra 
irem queimar huma vela de Cotonia com 
que foram tapando hum pedaço do muro , 
que lhe foi cahindo , que lhe elle deo. E 
indo-fe chegando ao muro com lanças de 
fogo , começou de íima a chover fobre el- 
les cardumes de pedradas , frechadas , e ef- 
pingardadas , a pezar do que chegaram 
eftes valerofos foldados ás velas, por quem 
o Luiz de Almeida nietteo huma lança de 



Década XII. Cap. VII. 403 

fogo , que toda fe desfez dentro , e accen- 
deo huma grande labareda , que metteo a 
todos os da Fortaleza em revolta y e com 
muitos gritos , e alaridos acudiram áquel- 
la parte, cuidando que eram entrados , fi- 
cando alguns Mouros abrazados y e os nóf- 
fos fe recolheram a feu falvo 7 tirando fo- 
mente Luiz de Almeida, que ficou queima^ 
do na mão efquerda. 

CAPITULO VIII. 

De como o Cunhale fe entregou ao Çamo* 
rim : e de outras coufas que fuccedêram. 

A Bateria fe foi continuando fem ceifar 
hum momento de modo, que não da- 
va lugar aos inimigos reformarem as mi- 
nas. E o Cunhale eftava em tal eftado , que 
por de todo lhe faltarem mantimentos , fe 
veio a valer de grande montaria de ratos 
mui grandes , que falgou em jarras , com 
que íe hia entretendo : e apertou a necef* 
fidade tanto com todos , que fe affirma que 
chegaram a eftado de comerem os mortos. 
Em fim , chegaram a tão extrema necelfi- 
dade de mantimentos , que mandaram os 
principaes pedir feguro ao Qamorim pê- 
ra fe paíTareni a elle , eme lhe mandou; e 
aprefentados diante delle , lhe diíleram da 
Ce ii par- 



404 ÁSIA de Diogo de Couto 

parte do Cunhale , que lhe pedia muito 
houveíTe delle mifericordia , que fe lhe que-* 
ria entregar , promettendo-lhe a vida a el- 
le , e aos que com elle eílavam j o que lhe 
elle concedeo , e lhe paliou pêra iílb fuás 
Ollas. Eíte negocio mandou o C,amorira 
communicar com o Capitão Mór, pedindo- 
lhe que o houveíTe aíftm por bem , que el- 
le lhe promettia de lhe entregar Cunhale 
vivo, e alguns de feus Capitães, Eelle lhe 
mandou dizer , que fizeíTe Sua Alteza o que 
quizeíTe , que elle era de tudo muito con- 
tente. Com efta refpoíla do Capitão Mor 
concedeo o Qamorim tréguas ao Cunhale 
por dous dias , pêra nelles tratar de íua en- 
trega. E temendo o Capitão Mor que nos 
dias das tregoas fe fumiífe o Cunhale , e 
feus Capitães , por ordem do Qamorim 
mandou Diogo Moniz Barreto com trezen- 
tos foldados , pêra que foíTe fazer huma 
tranqueira da banda do Norte perto da For- 
taleza , e á borda do rio , e ficaífe nella 
com grandes vigias , pêra que por aquella 
parte não fahiífe alguém da Fortaleza. Os 
dias das tréguas hiam-fe acabando , e o Cu- 
nhale não fe entregava , do que o Capitão 
Mor teve má fufpeita , porque receava que 
o Qamorim a poder de dinheiro déííe def- 
vio a todos os que eílavam na Fortaleza, 
pêra não virem a mãos do Capitão Mór. 

Pe- 



Década XII. Cap. VIII. 40? 

Pelo que mandou dizer ao Qamorim , que 
concluiíTe com aquelle negocio , que era 
já tempo , fenão que commet teria a Forta- 
leza > e aefcalaria, epaíTaria todos os que 
nella achaíTe á efpada. A iilo lhe mandou 
oQamorim refponder, que não tinha con- 
cluído aquelle negocio , porque via os feus 
foldados tão inquietos y que temia quehou- 
veííe na entrega alguma defordem com os 
feus Naires. 

Mas logo aíTentou o C,amorim com o 
Cunhale , que ao outro dia fe entregafTe, 
que eram dezefeis de Março ; e mandou 
pêra iffo recado ao Capitão Mor , que fe 
foi chegando com toda a fua foldadefca 
pêra a tranqueira , em que eftava António 
Pereira Coutinho junto da Fortaleza namef- 
quita , onde primeiro eíteve D. Francifco 
de Soufa , aonde o Çamorim também fe foi 
com todo o feu poder; e o Capitão Mór 
deitou os feus foldados mui bem ordena- 
dos da parte do Ponente , e o C,amorim 
ficou da do Levante , deixando entre hum , 
e outro exercito hum caminho largo , pê- 
ra o que fe derribou hum pedaço daquel- 
la tranqueira ; e ao tempo que o Cunhale 
havia de fahir da Fortaleza , mandou o Ca- 
pitão Mór a António Pereira Coutinho com 
quarenta foldados , e o Qamorim hum Re- 
gedor com outros tantos Naires pêra irem 

rc- 



406 ÁSIA de Diogo de Couto 

receber o Cunhale á porta da Fortaleza. 
O Qamorim eílava de todo defconfiado , 
porque temia que ao fahir o Cunhale en- 
rraííem os noííbs na Fortaleza (que era o 
em que elle tinha o olho) e a faqueaffem, 
que era o porque dilatou alguma coufa 
aquelle negocio. André Furtado de Men- 
doça , que o entendeo bem , lhe mandou 
dizer que acabaíle já com luas dilações , 
fenao que entraria a Fortaleza por força , 
e tomaria o Cunhale. Vendo o Qamorim 
cila reíbluçao , mandou-lhe dizer que fe não 
apaixonaíVe , que logo fe faria tudo. 

Dalli a pouco começaram a fahir da 
Fortaleza os Mouros , que feriam quatro- 
centos ? muitos delles feridos j e queima- 
dos y e logo as mulheres , e meninos tão 
debilitados todos , que pareciam defuntosx, 
aquém oQamorim diífe que fe foliem pe^- 
ra onde quizeílem. Por derradeiro fahio 
o Cunhale com huma touca preta , e a eC- 
pada na mão com a ponta pêra baixo. Se- 
ria a elle tempo homem de fincoenta an- 
nos , meão de corpo , refeito , e efpadau- 
do : vinha no meio de três Mouros prin- 
cipaes, Hum delles era Chinale , caíta Chi- 
na , que fora creado em Malaca , e dizem 
que cativo de humPortuguez, que em mo- 
ço foi cativo em huma fufta , e levado a 
Cunhale > que feaífeiçoou tanto a elle , que 

fe 



Década XII. Cap. VIII. 407 

fe lhe entregou todo. Foi o mor profeííor 
da feita dos Mouros , e inimigo dos Chri- 
ftãos que todos osdoMalavar; porque pê- 
ra os que cativavam no mar , que logo eram 
levados alli , inventava os mais exquiíitos 
géneros de tormentos que fe viram , com 
que os martyrizava. 

O Cunhale foi-fe direito ao Çamorim, 
e lhe entregou a efpada em íinal de ren- 
dido , e fe lhe debruçou aos pés com mui- 
ta humildade. Dizem alguns que pelo que 
lhe tinha promettido de lhe dar a vida, 
tinha mandado dizer em fegredo ao Capi- 
tão Mor, que ao tempo que o Cunhale fe 
lhe entregaífe , lançafTe mão delle , como 
que lhe fazia força pêra fua fatisfação ; o 
que o Capitão Mor fez. Porque tendo-o 
o Qamorim comíigo, fe chegou André Fur- 
tado de Mendoça , e o tomou por hum 
braço , e puxou por elle pêra fora , e a ef- 
te ferrar delle deo humfolavanco muigran* 
de por fe foitar; e como ifto era á borda 
de huma cava , efteve o Capitão Mor ar- 
rifeado a cahir nella, fe o não tivera por 
hum braço o Padre Fr. Diogo Homem , 
Religiofo da Ordem do Gloriofo Padre S. 
Francifco, que eftava junto delle de huma 
parte, e da outra Diogo Moniz Barreto, 
que foi cahindo na cava , e esfolou toda 
huma perna. A ifto fe alevantou hum re- 

bo- 



40? ÁSIA de Diogo de Couto 

boliço entre os Naires com que muitos dos 
noffos fe defordenáram , ficando o Capi- 
tão Mor com poucos , que fe puzeram dian- 
te dos Naires , e lhe tiveram o encontro. 
Mas logo o C,amorim mandou que ceíTaf- 
fe o reboliço , e não bulliíTem comfigo. E 
nefta revolta hia já o Chinale fugindo , e 
com elle Cotiale, fobrinho doCunhale, fe 
os noífos foldados os não viram , que lan- 
çaram mão deli es , e os levaram ao Capi- 
tão Mór , que eftava afiferrado no Cunha- 
le, que entregou a António Pereira Couti- 
nho, pêra com os outros os levar á fua ef- 
tancia, que era o baluarte de fobre a bar- 
ra , que o levou por hum braço , e Luiz 
de Almeida por outro , e com huma boa 
companhia de foldados de guarda. 

Feito ifto, tomou o Capitão Mór o C,a- 
morim pela mão , e entrou com elle na For- 
taleza , e lhe dilfe , que elle em nome de 
EIRey de Portugal, e do Conde Almeiran- 
teVifo-Rey lhe concedia tudo o que havia 
dalli pêra dentro, tirando aartilheria, que 
fe havia de partir pelo meio , como eftava 
aífentado : que elle o deixava de poífe de 
tudo ; e chamando os Capitães com feus 
foldados, fahio-fe pêra fóra. E no terreiro 
vio eftar hum Padre com hum Crucifixo ale- 
vantado; e em. o vendo, fe proftrou pelo 
chão diante delle com os olhos arrazados, 

e 



Década XII. Cap. VIII. 409 

e banhados em lagrimas , c lhe deo mui- 
tas graças por aquella mercê que lhe fize- 
ra , com palavras de muito bom , e catho- 
lico Chriftão , e reconhecido de tamanhos 
benefícios , como tinha recebido daquelle 
Senhor. E porque os foldados eftavam al- 
terados por lhes não darem quinhão no fa- 
ço da Fortaleza , os foi o Capitão Mor 
quietando com muitas promeífas que lhes 
fez. E deixando o Çamorim no feu faço , 
e defpojo , fe foi recolhendo pêra o baluar- 
te , onde achou o Cunhale tãotrifte, como 
homem que de efperanças de Rey o pu- 
zera a fortuna na miferia , e defaventura 
de cativo. Elle em vendo o Capitão Mór 
fe lhe humilhou , e elle o alevantou , e con- 
folou com palavras muito honradas , e lhe 
mandou alli lançar duas pontas de cadeia 
em hum pé ; e ao fobrinho , e Chinale ou- 
tras duas , e os mandou pêra a galé , man- 
dando a feus criados que o ferviííem co- 
mo a fua própria peífoa. 

Aquelle dia gaftou o Capitão Mór em 
armar muitos cavalleiros , e o C,amorim 
em defpejar aFortaleza de tudo o que nel- 
la achou , que ainda montou huma muito 
arrazoada quantidade de fazenda , poílo 
que não houve dinheiro , nem pedraria. E 
prefumio-fe que paílara feu theíburo , que 
era grande , ao rio de Tremapatao a mãos 

de 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

de parentes que alli tinha, em que todo fe 
íumio. A artilhem fe tirou da Fortaleza, 
■e fe partio pelo meio , e a que coube ao 
Eftado mandou o Capitão Mor embarcar 
nas galés. 

Vendo o C,amorim a liberalidade de 
que o Capitão Mor ufou com elle em lhe 
dar todo o recheio da Fortaleza , por fe 
lhe moftrar agradecido, mandou-lhe entre- 
gar quarenta Mouros dos mais honrados 
de Cunhale , que depois morreram todos 
em Goa no tronco por ordem do Conde 
Vifo-Rey ; e porque fe fazia tempo de fe 
partir pêra Goa , mandou o Capitão Mor 
derribar toda a Fortaleza , fem lhe ficar pe- 
dra fobre pedra; c á povoação, bazares, 
emefquitas mandou pôr fogo, deixando tu* 
do o que alli foi eicondido debaixo das 
cinzas. Tudo ifto aconteceo aos vinte e 
dous de Março. 

Certo que não fei qual foi a razão , por 
que eftando concedido no contrato das pa- 
zes , que daria o C,amorim lugar pêra fe 
fazer Fortaleza no porto de Calecut , fe 
não pedio antes neíle rio do Cunhale , e 
efta que eílava já feita, e mui bem acaba- 
da , pêra onde , fegundo o parecer de al- 
guns , fe havia de mudar a fábrica da de 
Cananor; porque não fei que fundamento 
fe teve em fe fazer , onde não ha porto , 

nem 



Década XII. Cap. VIII. 411 

nem recolhimento , mais que huma bahia 
fomente, e efta defabrigada , e fem coufa, 
onde fe pofsão recolher noíTas Armadas 
em huma tormenta , nem lugar pêra pode- 
rem invernar , varadas fem rifco de as quei- 
marem , como fizeram algumas vezes a al- 
guns navios. Enefte rio deCunhale ha tu- 
do ifto , por fer capaz de entrarem nelle 
vinte galés , e onde pode invernar toda hu- 
ma Armada do Malavar mui bem accom- 
modada ; e aqui o ficariam melhor os ca- 
lados , por terem lugar mais eftendido que 
em Cananor, pêra fazerem feus palmares, 
c fuás hortas. E o Viíb-Rey Ruy Louren- 
ço de Távora me diífe ha poucos dias , 
que EIRey mandava que fe fizefle huma 
Fortaleza no Malavar, r 
diífeífe onde feria mel 
mefmo que neíle rio; mas que fe havia de 
desfazer a de Cananor. O refpeito por que 
fe fez, foi pela carga, que fe dava ás pri- 
meiras Armadas de gengivre , e de algu- 
ma pimenta, Ifto ceifou ; porque ha já tan- 
to difto pelos portos do Canará que po- 
dem carregar nelles todas as náos que vem 
do Reyno. Mas pêra eftarem tão mal pro- 
vidas , como as do Canará , e Cananor , me- 
lhor , e mais honrado eftado fera não nas 
haver , que terem-nas a rifco de as toma- 
rem os vizinhos cada vez que quizerem, 

que 



edindo-me que lhe 
íor , lhe diífe ifto 



412 ÁSIA de Diogo de Couto 

que fera huma affronta muito grande. To- 
quei ifto aílim de paíTagem , por me cahir a 
propofito j e bem lie praticar de tudo pêra 
fe lançar mão do. que melhor parecer 3 e 
pêra íe advertir no que tanto convém, co- 
mo lie a reformação das Fortalezas da índia. 

CAPITULO IX. 

Do que mais pajfou d Capitão Mor André 

Furtado de Mendoça com o Çamorim , e 

fe partio pêra Goa : e do que lhe fuc~ 

cedeo com o Conde Almeirunte Vifo-Key. 

COncluido aquelle negocio do Cunha- 
le , os Capitães das Armadas , que al- 
Ji foram de foccorro -, pediram licença a 
André Furtado pêra fe irem , pois não ha- 
via já que fazer, e eíles eítarem faltos de 
tudo , que lhe elle deo , tendo com todos 
grandes cumprimentos , e palavras de agra- 
decimentos. E ás Cidades , e Capitães del- 
ias efcreveo cartas do mefmo , e aílim fe 
partiram huns pêra o Norte, e outros pê- 
ra o Sul. E defpedio D. Fernando de No- 
ronha com huma galé , e féis navios pêra 
ir dar guarda a tudo o que hia atéCochim, 
e ás barcaças que já não podiam ir pêra 
Goa , e de lá paliar ao Cabo do Çamorim 
a. recolher asnáos da China, Malaca, Ma- 

lu- 



Década XII. Ca?. IX. 413 

luco , e Bengala , e as cáfilas da coita de 
Choromandel ; o que tudo fez com muito 
cuidado , e diligencia de modo , que tudo 

Èoz em Cochim a feu tempo feguramente. 
\ pêra a coita do Canará defpedio por Ca- 
pitão Mor a D. Francifco de Soufa com a 
íua galé , e outros finco , 011 féis navios , pê- 
ra recolher aquellas calilas de mantimentos, 
e levallos a Goa , o que tudo fez muito 
bem. Equcrendo ultimamente partir-fe pê- 
ra Goa , foi-fe ver com o Çamorim, e a 
defpedir-fe delle , e entre ambos elles fe 
paliaram grandes cumprimentos , e oíFere- 
cimentos , e o Çamorim lhe mandou paf- 
far em huma lamina de ouro algumas cou- 
fas que lhe prometteo,que eram as feguintes. 

òbrigou-fe por fi , e feus fucceflbres > 
que em quanto o Sol , e a Lua allumiaífem 
o mundo, teriam fempre paz, e amizade 
firme com o Eítado da índia. 

Obrigou-fe mais , que por efpaço de 
vinte annos fe não tornaria a povoar aquel- 
lefitio de nação alguma; e de Mouros nun- 
ca , e que nunca mais fe tornaria a levan- 
tar Fortaleza. 

Obrigou-fe mais > que a todo o tempo 
que naquelle rio entraílem navios de coí- 
lairos , feria o Ariole obrigado aos entre- 
gar a qualquer Capitão de^ElRey de Por- 
tugal , que andaífe por aquella coita. Com 

i£ 



414 ÁSIA de Diogo de Couto 

iílo fe defpedíram , e o Çamorim mandou 
embarcar em ília companhia feus Embaixa- 
dores , com os capitulos das pazes pêra 
o Conde Viíb-Rey as jurar. E aos vinte e 
íinco de Março a hum fabbado fe fez o 
Capitão Mor á vela , e ao outro dia che- 
gou a Cananor, determinado em não paf- 
far dalli , por fer femana de Endoenças ; e 
ao defembarcar foi recebido do Capitão , 
e povo , e lhe fizeram as feitas que a For- 
taleza podia dar de íi ; e aili fe confeífou 
elle , e todos os mais da Armada. 

Aqui lhe deram cartas do Conde Al- 
meirante , em que lhe mandava os agrade- 
cimentos da vitoria > que o Conde feftejou 
muito em Goa : e também lhe pedia que 
com toda a Armada que tinha voltaíTe a 
Coulao , e desfizefte huma Fortaleza, que 
o Rey de Travancor hia fazendo vizinha 
á noífa , por fer affronta do Eftado diíli- 
inular com ella. André Furtado de Men- 
doça ajuntou os Capitães logo a confelho, 
e nelle leo a carta do Vifo-Rey , e fobre 
iflb propoz o que convinha ao fer viço de 
EIRey naquelle negocio; e votando todos, 
diíferam , quç eftavam quebrantados da guer- 
ra , e faltos de tudo , e que ao prefen- 
te não eftavam pêra novos gaftos , e traba- 
lhos. Quanto mais que o tempo era gafta- 
ào y e que não podia aquella Armada tor- 
nar 



Década XII. Cap. IX. 415* 

nar a invernar a Goa; e que fetornaífe, fe- 
ria já tao tarde , que viriam arrifcados a 
fe perderem. E vendo clle que todos ti- 
nham razão , ejuíUça, deo á vela pêra Goa> 
e de caminho foi viíitando , e provendo as 
Fortalezas do Canará , e arrecadando da- 
quelles vaífallos as páreas que deviam , e 
recoiheo as cáfilas , que alli achou carre- 
gando de arroz. E aos onze de Abril dei- 
te anno de feiscentos chegou á barra de 
Goa , donde efcreveo ao Conde Almeiran- 
te de fua chegada , e lhe mandou o aíTen- 
to do Confelho , que fe tomou fobre tornar 
a Coulão 5 como Jhe efcrevêra. Mas que por 
ílma de tudo eílava preftes pêra voltar 
áquelle negocio , provendo-lhe a Armada, 
que trazia desbaratada , e falta de tudo 5 e 
íe oíFerecia a ir invernar naquella Fortale- 
za de Coulão , e desfazer a que o Rey de 
Travancor fazia, como fez á de Cunhale, 
tudo pela boa ventura delle Vifo-Rey. A 
ifto lhe refpondeo o Conde Almeirante que 
entrafle embora, porque já não havia tem- 
po pêra nada, que lá lhe ficaria outro pê- 
ra lazer tudo , e que defcançafie em Pan- 
gim, até fe lheapparelharem as feitas , que 
tinha mandado á Cidade lhe fizeííem. 

Parecendo á Cidade que tinha obriga- 
ção fazer a efte Capitão algumas honras pe- 
las boas venturas que lhe Deos dera na 

vi- 



416 ÁSIA de Diogo de Couto 

vitoria que alcançou contra aquelle coifai- 
ro, de que refultou tanta honra, e provei- 
to ao Eítado da índia, deram de tudo if- 
to conta ao Conde Almeirante, que lhedif- 
fe que era bem fazerem-fe-lhe feitas. Com 
ifto mandaram os Vereadores vifitar a An- 
dré Furtado , e dar-lhe os parabéns de fua 
vinda , e pedir-lhe juntamente que fe deti- 
veífe em Pangim , onde eftava , três , ou qua- 
tro dias , em quanto fe preparavam as fa[- 
tas , pêra o receberem , por lhe fer tudo o 
que íe lhe pudeífe fazer muito menos do 
que merecia ; porque todos confeílavam que 
libertara o Eftado y que tão opprimido > e 
derribado o trazia aquelle cofiai ro com luas 
Armadas. André Furtado lhe agradeceo 
aquella vontade , e que por lha fazer el- 
peraria os dias que lhe pediam : e alíim 
tanto que tiveram tudo preparado , o man- 
daram avifar. 

Sabendo o Conde Vifo-Rey que hia o 
Arcebifpo D. Fr. x\l eixo de Menezes a Pan- 
gim vifitar André Furtado ; e porque íòu- 
be que determinava trazer diante de fiCu- 
nhale, encarregou ao Arcebifpo lhe diífef- 
fe que não convinha ; e que todos os Ca- 
pitães antigos que naquelle Eftado cativa- 
ram grandes Capitães , os mandaram fem- 
pre da barra antes de entrarem ; e havia 
poucos dias fizera o mefmo Thomé de Sou- 



Década XII. Cap. IX. 417 

£a Coutinho a Miralibeque , Turco de na- 
ção , de quatro galés , que lhe tomou em 
Mombaça; e André Furtado refpondeo que 
o traria até o cães, e dalli o levaflem pê- 
ra o tronco. E por iílo eílar concertado 
deita, maneira, veio a Armada entrando to- 
da embandeirada, acompanhada de outras 
muitas embarcações , que acudiram da Ci- 
dade, e de Bardes mui enramadas, com o 
que o rio ficou quali entulhado ; e por el- 
le dentro fe vieram desfazendo com bom- 
bardadas , e grandes eílrondos de inítru- 
mentos bélicos , e alegres , de tambores, 
pifaros , charamellas , e trombetas. E an- 
tes de furgirem no cães defronte dos apo- 
fentos do Vifo-Rey (donde até á Sé , on- 
de haviam de ir em procifsão dar graças 
a noífo Senhor pela mercê , que lhe fizera 
da vitoria , que alcançou do Cunhale , ti- 
nha a Cidade tudo cuberto de arvores , e 
ramos verdes , e á porta da Cidade efta- 
vam os Vereadores , e o Arcebifpo efpe- 
rando por elle) fe adiantou hum dos navios 
da Armada , em que vinha hum criado de 
André Furtado , que por íua ordem lançou 
no cães quatro , ou íiqco Mouros , que os 
rapazes logo mataram ás pedradas , fem to- 
da a juftiça que alli eftava lhe poder va- 
ler. E ficou o povo com ifto tão alterado , 
que temeo o Conde Vifo-Rey que houvef- 
Çwtç. Tem* via:, P4 fe 



41 8 ÁSIA de Diogo de Cotrrd 

fe huma grande deíbrdem ; eporiflb man- 
dou pelo Licenceado Lifuarte Caeiro da 
Gram, que fervia de Ouvidor Geral doCri- 
me, dizer a André Furtado que com adef- 
ordem que fizera o feu criado em lançar 
os Mouros na praia fe alterara tanto o po- 
vo , que temia hcuvelle alguma grande des- 
ordem com a viíta do Cunhale: pelo que 
lhe pedia houvelfe por bem deixallo na ga- 
lé entregue ao Ouvidor Geral , pêra, como 
elle paflaíle pêra a Sé , o levar ao tronco. 
Ao que André Furtado replicou. E o Ou- 
vidor Geral foi tão pouco cortezao , aue 
fem tornar ao Vifo-Rey com a refpofta , 
que lhe André Furtado deo , inílftio em 
cumprir a ordem que lhe dera, de que re- 
fultou ir-fe André Furtado pêra a Madre 
de Deos. Sabendo o Conde a occafião da 
fua ida , mandou logo chamar o Ouvidor 
Geral, e perante muitos Fidalgos velhos 9 
e graves lhe perguntou o que paífára com 
André Furtado; e contando-lhe o que fica. 
dito , o reprehendeo o Vifo-Rey mui afpe- 
ramente , porque lhe não viera com recado ; 
e pois fabia tão pouco que arrifcava hum 
homem de tantos merecimentos, eque fua 
Mageftade eftimava muito, que puzelfe a 
vara, efefoífe fufpenfo pêra fuacafa, on- 
de o teve dous mezes. E fe lhe tornou a 
vara , foi por André Furtado perfeyerar em 

feu 



Década XII. Cap. IX* 419 

feu arrufo, e não fe querer reduzir, ten- 
do o Vifo-Rey com elle muitas fatisfaçoes 
Çelo Arcebifpo , e por João Rodrigues de 
orres, Veador da Fazenda, e outras pcf- 
foas de authoridade. 

E confiderando o Conde Vifo-Rey os 
merecimentos deite Fidalgo , diífimulou a 
pouca ponderação com que commetteo a 
ida, que fez pêra a Madre de Deos, fem 
lhe fallar, nem dar conta do fuccedido na 
jornada: entendeo-fe imaginara, ainda que 
com pouca razão , que o Vifo-Rey pelo 
defgoftar não quizera que levaíTe Cunha- 
le diante de fi na procifsão com que o ef- 
tavam efperando ; mormente fazendo oVi- 
fo-Rey tantas demonltrações , como foi fuf- 
pender o Ouvidor Geral , e mandar-lhc di- 
zer por vezes , que lhe daria todas as fa- 
tisfações que deíle quizeífe. E nem efte 
feu termo foi parte pêra o Conde deixar 
deefcrever muitos louvores delle afuaMa- 
geftade , fem lhe fallar no que ufou nefte 
arrufo fem baflante fundamento. 

Eis-aqui hum efpe&aculo do mundo, 
e hum efpelho , em que fe haviam de ver 
todos os que a fortuna alevantalíe a gran- 
des honras pêra fe temerem , e recearem 
de feus revezes , e trazerem aquella fenten- 
ja da Sabedoria efcrita na alma, que diz, 
que o pezar occupa os extremos da alegria. 
Dd ii E 



420 ÁSIA de Diogo de Couto 

E aíTim vereis que nunca o inundo dá hum 
goílo , que logo junto delle não dê outro 
defgoílo, que ainda que feja pequeno , dá 
mor pena, do que dá de goílo o contenta- 
mento, por grande que feja. E porque Fi- 
lippe , pai de Alexandre , entendia iílo co- 
mo prudente que era > dàndo-lhe hum dia 
três novas boas juntas , poz os olhos no 
Ceo , e fallando com íeus deofes , diífe; 
Peço-vos , deofes , que permutais que o re- 
vés dejlas novas não feja igual a e/las , Je- 
não tão moderado , que pojfa eu com elle. 
E deixando iílo , a mim me affirmáram que 
eíliveram os foldados quaíí determinados 
a deitar o Ouvidor Geral ao mar : a eíla 
alteração dos foldados acudio André Fur- 
tado y que os entendeo , e os quietou , e 
apazigou , deixando-lhe a paixão pêra iílo 
lugar. O povo todo fentio ilto muito pelo 
grande alvoroço com que efperavam eíte 
Capitão : e o Arcebífpo, e Cidade fe re- 
colheram enfadados , e com grande defgof- 
to de defarmar em vão o goílo , com que 
o vinham efperar, e logo os rapazes des- 
fizeram tudo , e deram com os ramos pelo 
chão. O Ouvidor Geral levou o Cunhale 
ao tronco , e os mais Mouros que vinham 
com elle ; e os Embaixadores do Çamorim 
foram defembarcados , e muito bem aga- 
salhados ) e depois os ouvio o Conde , e. 

lhes 



Década XII. Cá?. IX. 421 

lhes fez muitas honras, e jurou as pazes, 
e logo os defpedio pêra fuás terras nos pe- 
riches , que mandou invernar a Cananor, 
e lhes deo muitas peças , e ao Çamorim 
ínandóu muitos agradecimentos defua per- 
feverança , e trabalho , que teve naquel- 
Ia jornada. 

CAPITULO X. 

Da procifsao que o Conde fez em fazinien- 

to de graças a Deos nojfo Senhor pela 

vitoria que alcançou do Cunhale. 

• 

TAnto que o Conde Vifo-Rey convalef- 
ceo da grande enfermidade que teve 
em todo o inverno , quando André Furta- 
do chegou a Goa , ordenou humá procif- 
sao y pêra dar graças a noífo Senhor pela 
vitoria que alcançara por feus Capitães de 
Cunhale Marca , que le fez da Sé a S. Do- 
mingos com toda a folemnidade poffivel ; 
e antes de fahir dá Sé, offereceo o Conde 
humá peça de borcado , e quinhentos Xe- 
rafins pêra os feitios , e guarnições de hum 
ornamento , que delia mandava fazer. E 
paífando a procifsao pelaMifericordía , en- 
trou dentro o Conde , e offereceo mil Xe- 
rafins em dinheiro pêra cafamento de or- 
fans , que logo fe cafáram , e em S. Domin- 
gos 



42,2, ÁSIA de Diogo de Couto 

gos offereceo duzentos Xerafins pêra hu-. 
ma peça da Sacriftia ; e todas eílas oí> 
fertas fez o Conde de fua própria fazen- 
da , imitando neilas os famofos , e valero- 
fos Capitães Affonfo de Albuquerque , e 
D.João deCaítro, que afllm o coftumáram 
fazer, quando lhesDeos noflb Senhor con- 
cedia alguma vitoria. E paíTou huma Pro- 
visão ao Cabido da Sé de Goa de cento 
e íincoenta Xerafins em cada hum anno , 
com obrigação defeítejarem comVefperas, 
cMiíTa cantada dos Anjos, de que o Con- 
de era devoto, todos os annos o dia, em 
que fe alcançou efta vitoria , e que iriam 
cm procifsão a S. Domingos. E no anno 
de 6 10. alcançou o dito Conde, fendo Pre- 
íidente do Confelho da índia, confirmação 
deita mercê deSuaMageftade. E o mefmo 
ordenou o Vifo-Rey D. João de Caftro pe- 
la vitoria que alcançou em Dio , como fi- 
ca dito em fcu lugar. E também o Vifo- 
Rey Mathias de Albuquerque ordenou ou- 
tra procifsão no dia, em que alcançou vi- 
toria no Morro de Chaul ; mas não affen- 
tou por iífo porção ao Cabido, como tem 
eíioutras. 



CA* 



Década XII. Cap. XI. 423 

CAPITULO XI. 

De como foram fentenceados por jujiiça 9 
Cunhale Marca , e Chinale. 

DEixámos o Cunhale no tronco de Goa, 
e com elle o Chinale , e os mais Mou- 
ros que diíTemos , fobre quem fe teve fem- 
pre muita vigia até fer tempo de fe fazer 
delles juítiça , que fuás culpas mereciam, 
que fe fenao fez mais apreíladamente , foi 
porque a enfermidade do Conde fe hia ag-> 
gravando mais , e não lhe dava lugar pê- 
ra entender nifto ; mas tanto que fe foi 
achando melhor, mandou aos Defembarga^ 
dores , que verbalmente fentenceaífem á 
morte Cunhale por levantado a feu Rey, 
e fenhor natural, e por pirata inimigo de 
Chriftaos. Refpondêram os Defembargado- 
res , que havia de correr ordinariamente , 
de que infirio o Conde Vifo-Rey que ti- 
nham algum intento particular, e mandou 
ao Ouvidor Geral preparaíTe os autos , e 
nelles lhe mandou, comoAíTeífor de Capi- 
tão geral , efcreveífe fentença de morte , 
que foi executada , como logo abaixo fe ve- 
rá, e o Conde aífignou conforme ao íeu re- 
gimento. Pelo que fe formaram autos cofl a 
tra elles , e o Promotor da Juítiça veio com 
feu libello ; que provou baíhntemente. E 

pe- 



424 ÁSIA de Diogo de Couto 

pelos merecimentos dos autos t> e da ver- 
dade fabida , e notória , foi fentenceado 
que morreífe degollado , e que feu corpo 
fofTe feito em quartos , e poílos pelas praias 
de Bardes , e Pangim , e que a cabeça fof- 
ie falgáda , e levada a Cananor , onde a 
arvorariam na praia fobre huma haílea pê- 
ra terror , e efpanto dos Mouros, evifTem 
em que veio parar hum tyranno , que tra- 
zia íopeados , e tyrannizados a todos. O 
dia d 5 antes , em que fe eíla fentença havia 
de executar , mandou o Conde fazer hum 
cadafalfò de madeira no terreiro do paço, 
e fobre elle foi poílo o Cunhale , que na- 
quelle aéto moílrou muito animo* Mas pri- 
meiro que chegaíTe a eíle eftado , foi . mui- 
tas vezes convidado, e amoeftado , que fe 
quizefíe metter no rebanho de Jeíu Chri- 
fto nolfo Senhor , por muitos Religiofos de 
todas as Ordens, que trabalharam bemnif- 
fo , por ganharem aquella alma, e a tra^ 
zcrem á manada do Senhor. O que elle não 
quiz acceitar; porque efta nação de Mou- 
ros Arábios dèfta cafta Naiteas , que cui- 
do eíle era , de maravilha acceitam razões 
contra afalíidade defualei, e crença. Pofto 
o Cunhale em íima do cadafalfò , eítanda 
o terreiro do paço todo cheio de gente g 
que concorreo a ver aquelle efpedlaculo 5 
levantou hum Porteiro, a toz, dando hum 

pre- 



Década XII. Cap. XI. 41^ 

pregão , em que dizia a caufa , por que mor- 
ria o Cunhale Marca , que era por traidor a 
feu Rey , e fenhor natural > e por pirata, 
e cofiai ro , e grande perfeguidor de Chri- 
ítãos , que martyrizava com exquiíitos gé- 
neros de tormentos , e outras culpas dia- 
bólicas : e logo foi poílo no cepo até on- 
de chegou com muito* acordo , e cortáram- 
Ihe a cabeça fora doshombros, como trai- 
dor* 

Depois dahi a alguns dias fe tirou Chi- 
nale pêra fe fazer delle a mefma execu- 
ção y mas a eíle coube-lhe melhor forte, 
porque como em moço fe creou entre os 
Portuguezes , foi mais fácil a fe render , e 
pedir que o baptizaffem , declarando-lhe os 
Padres que nem por fe fazer Chriílao ha- 
via de deixar de padecer ) porque as leis 
do Reyno fe haviam de executar ; mas já 
que perdia a vida do corpo , não quizeííe 
perder a da alma. Ao que refpondeo ç que 
muito bem fabia aquelle negocio : que o 
baptizaífem;, que elle fó por amor de Deos 
queria fer Chriílao , e nãó por temor da 
morte ,■ nem porque cuidaíle que lhe haviam 
por iífo de dar a vida ; e affim foi bapti- 
zado, e fe chamou Bartholoraeu , moítran^ 
do no exterior vontade , e goíto , e depois 
foi tirado a júíKçar , e levado ao pelouri- 
nho acompanhado da fanta Mifericordia r 

c 



42Í ÁSIA de Diogo de Couto 

c dos meninos orfàos , que foram rogando 
a Deos por elle , e feu corpo foi enterra- 
do em lagrado. Todas eíhs coufas deixou 
o Conde Almeirante aos Miniftros da Juf- 
tiça, pêra que foíTem executores delias. O 
fobrinno doCunhale , e os outros Mouros, 
que vieram prezos a Goa , no tronco del- 
le feconfumiram todos poucos, e poucos, 
porque os ajudaram : e paliaram de trinta 
entre Chriftaos , e Mouros os da cafta de 
Cunhale, que o Conde Viíb-Rey tirou do 
mundo , e nenhum , que houve á mão, 
lhe efeapou. 

CAPITULO XII. 

Do que fucceàeo em todo efte verão á Ar- 
mada do Norte : e das coufas em que e 
Conde Vifo-Rey provê o: e Armadas que 
foram pêra fora : e das pazes que conce- 
deo ao Rey de Travancor. 

FAlta-nos fó defte veráo continuar com 
a Armada do Norte, que andava por 
Capitão Mor Goterre deMonroy de Beja, 
que deixámos pêra efte lugar , porque as 
coufas do Cunhale nos oceupáram todo o 
tempo , e também porque não fuecedeo cou- 
fa notável. Partido efte Capitão de Goa, 
foi correndo a coita do Norte até á barra 

de 



Década XII. Cap. XII. 427 

de Surrate , onde ficou efperando pelas náos . y 
que haviam de vir de Meca ; e paliada a 
monção delias , atraveílbu á Fortaleza de 
Dio a recolher o rendimento daquella al- 
fandega, pêra o mandar pêra as neceífida- 
des do Eílado , que eram grandes , pelas 
muitas defpezas que o Conde Almeirante 
tinha feito na jornada de Cunhale , e nas 
mais Armadas. Efta jornada fez com finco 
navios , e os mais defpedio pêra outras par- 
tes embufca de alguns ladrões, de que ef- 
te verão houve poucos , por eílarem todos 
occupados na defensão , c guerra de Cunha- 
le. Eindo elle na volta domar com gran- 
des marés , e vento , como de ordinário ha 
naquelle golfo , no meio delle encontrou 
huma náo de Meca, que commetteo , e a 
rodeou com os navios , e a foi batendo com 
a artilheria por todas as partes , por não 
fer poífivel abordalla pela grofíidão dos ma- 
res , porque fe desfariam nella os navios \ 
e dous dias contínuos a foi perfeguindo , e 
a poz em tanto aperro, que lhe fez alijar 
ao mar muitas fazendas. Em fim , por fer 
o vento muito rijo , e ter grande velame , 
ehombros, fe foi acolhendo , eçafandodos 
noílbs navios com muita gente morta das 
bombardadas , e arcabuzaria. E chegando 
aDk), arrecadou o dinheiro, erecolheo os 
»avios com que voltou pêra Baçaim, onde 

lhe 



428 ÁSIA de Diogo de Cotrro 

lhe deram cartas do Conde Almeirante ^ 
em que o mandava chamar , pêra ir com 
elle na jornada que cuidava fazer a Cu- 
nhale , que foi contrariada do Confelho , co- 
mo temos dito , com o que fe partio pêra 
Goa, E chegando á barra , achou recado que 
fe tornaíTe , porque já ceifara fua perten- 
ção ; pelo que fe tornou pêra a coita do 
Norte, eporelia andou dando-lhe guarda, 
e fegurando os mercadores j pêra livremen^ 
te poderem, navegar ; e neíle exercicio an- 
dou todo o verão , e no fim delle fe reco- 
Ihèo a Goa com as cáfilas de todas aquel- 
las Fortalezas. 

Nefte tempo fe recolheo também D* 
Fernando de Noronha, que André Furta- 
do defpedio de Gunhale pêra o Cabo do 
Çamorim, e trouxe huma grande cáfila de 
náos, e navios, e nelía mandou EIRey de 
Travancor hum Embaixador, peflba prin- 
cipal de fua cafa, chamado Irimiacha Pula, 
a tratar de pazes com o Conde AlmeiranT 
te , que elle recebeo mui honradamente, 
e logo o ouvio pêra o tornar a enviar nos 
navios, que haviam de ir pêra Cochim. E 
da parte dofeuRey deo muitas fatisfaçóes 
ás Fortalezas , que tinha feitas , afirmando» 
que as não alevantára com tenção de per- 
judicar á noífa de Coulão. Que elle fe man- 
dava oíFerecer pêra fazer muitas demons- 
tra- 



Década XII. Cap. XII. 429 

trações de amigo , e eílar por todos os ca- 
pítulos , e condições de pazes que fe lhe 
puzeíTem: eque elle trazia poderes do feu 
Rey pêra acceitar tudo , e pêra as jurar 
conforme a feu coílume. A efte requeri- 
mento fatisfea o Conde ao Embaixador com 
lhe dar huns apontamentos aílignados por 
elle das couías a que aquelleRey fe havia 
de obrigar, pêra demonítraçao da amizade 
que pedia com o Eftado , que fam os fe- 
guintes : 

» Se EIRey de Travancor quer fer ir- 
» mão cm armas de EIRey de Portugal, 
» ha de fazer as coufas feguintes. 

» Primeiramente ha de dar licença pe- 
» ra fe pregar o Sagrado Evangelho em 
» fuás terras livremente a toda forte de 
» peíToa, fem aiífo haver contradicçao al- 
)) guma. E todos os que fe fizerem Chri- 
)> ftaos , não perderam os officios , honras, 
tí dignidades , ou cargos alguns , que antes 
» diífo tiveílem ; nem por iílo perderam 
» coufa alguma de fuás fazendas > que po- 
» deram deixar a quem quizerem; ou her- 
» darám feus herdeiros, fem feniíTo entre- 
)> metter EIRey em coufa alguma , nem feus 
» Regedores , e Officiaes. 

» Que fe poderám edificar as Igrejas , 
» que forem neceífarias , pêra a Chriítan- 
» dade em todas fuás terras , nos lugares 

* cjue 



433 ÁSIA de Díogo de Couto 

» que parecerem bem aos Padres que an- 
» darem na conversão : e eftas feram cou- 
» to aos que a ellas fe acolherem , como 
» fam entre os Chriftãos. E os Padres que 
» nellas eftiverem , poderám fazer juftiça dos 
» Chriftãos nas coufas tocantes a Lei dos 
» Chriftãos , fem fe lhe a iíTo pôr dúvida , 
» ou impedimento algum; e as Igrejas fe 
» faram como nas terras de EIRey de Co- 
» chim. 

» Que os Padres , que fervirem nas Igre- 
ja jas , e andarem entre os Chriftãos , pode- 
» rám livremente andar por todas fuás ter- 
> ras com a guarda que lhes parecer errt 
» tempo de guerras , e delias paliar a ou- 
y> trás terras , e difcorrer como lhes parecer 
» fem contradicçao alguma. 

» Que as Igrejas dos Chriftãos de São 
» Thomé , que eftiverem em todas fuás ter- 
)> ras, que forem fujeitas , eCaífanares que 
» nellas eftiverem, teram os mefmos .privi- 
» legios , e izenções , que as outras Igrejas 
y> mais tiverem ; e os Padres que nellas ef- 
)> tiverem nem EIRey , nem coufa fua fe 
)) entremetterám em coufa alguma dos di- 
» tos Chriftãos de S. Thomé, tocante áLei 
» dos Chriftãos. Nem lhes poram tributo , 
» ou pena alguma de novo , antes os favo- 
» recerám em tudo , guardando-lhes feus pri- 
» vil egios antigos. 

» Que 



Década XII. Cap. XII. 431 

» Que não confentirá em tempo algum 
* fer recebido entre osChriftaos deS.Tho- 
» mé , que moram nas terras fujeitas a cU 
y> le 3 Bifpo , ou Prelado algum > lenão o que 
» vier por ordem do Papa , e de EIRey 
y> de Portugal, e defteEftado; e a todo ou- 
:» tro fera obrigado prendello 3 entrando em 
» fuás terras, e entregallo na Fortaleza de 
» Coulão , ou onde os Portuguezes lhe re- 
» quererem. 

» Que os Portuguezes poderám andar 
» livremente por todas fuás terras comto- 
» das as mercadorias que quizerem , fem 
» lhes fer feito algum aggravo , nem lhes 
y> porem junções , ou outras obrigações al- 
)> gumas , e feja amigo de noífos amigos, 
» e inimigo de noífos inimigos. E fera obri- 
» gado a defender a Fortaleza de Coulão, 
» fendo neceífario 3 e mandar vir todos os 
» mantimentos neceífarios pelos preços or- 
» dinarios. 

» Que nas duas Fortalezas de Coulão 7 
» eMamuge não faram obra alguma mais, 
» do que eftá feito; e o modo de como fe 
» hão de haver com a Fortaleza de Cou- 
» Ião 3 e o que fobrc ellas fe deve fazer, 

> fe concertará EIRey com oVifo~Rey do 

> Eftado , fazendo fobre iífo particulares ca- 
» pitulos , e EIRey ficará obrigado a eílar 
» pelo que o Eftado niíTo determinar. 

• Não 



43^ ÁSIA de Diogo de Couto 

» Não confentirá , nem íbífrerá que a 
» Rainha de Changarnate faça aggravo al- 
» gum aos Portuguezes , ou a coufa daFor- 
» taleza ; nem porá novos junções , nem 
» impedirá em alguma coufa aos tones y ou 
» embarcações , que vierem ao porto do 
» Gaidaval; e fazendo a Rainha alguns def- 
y> tes aggravos, fera obrigado a fatisfazel- 
)) los. 

» Que fera obrigado a dar o Príncipe 
» grande, e hum dos Regedores por jan- 
» gadas da Fortaleza de Coulão. » 

E.o traslado deites capítulos fedeo ao 
Embaixador pêra fua guarda ; e em Se- 
tembro ficou o Conde de mandar peíToa de 
confiança aíTentar eítas pazes com EIRey* 
e vellas jurar. Eítes capitulos fe fizeram aos 
vinte e finco de Abril deite anno de feis- 
centos , e logo mandou embarcar os Em- 
baixadores muito fatisfeitos das honras 
que lhes fez o Conde Almeirante > e dadi- 
vas que lhes deo % 



CA^ 



Década XIL Ca*. XIIL 433 

CAPITULO XIIL 

Dos Capitães , e foc corvos que o Conde AU 
mirante mandou pêra fora : e do que 
juccedeo a D. Jeronymo Coutinho , e ás 
nãos dejua companhia com algumas nãos 
Hollandezas na Ilha de Santa Helena. 

NEíle mefmo tempo em que o Conde 
Almirante defpachou eftes Embaixa- 
dores do Rey de Travancor , o fez tam- 
bém a alguns Capitães pêra fora , com quem 
iremos continuando. E o primeiro feja o 
galeão com os foccorros , e provimentos 
pêra a Fortaleza de Columbo , em que foi 
' por Capitão Mór da gente de guerra D. 
Franciíco de Noronha, que levou cento e 
fincoenta foldados repartidos por eftes dous 
Capitães , Luiz Fernandes deTaíde, e Ma- 
noel de Taíde , e nefte mefmo galeão fe 
embarcou Nuno Fernandes deTaíde, pro- 
vido da Capitania daquella Fortaleza, por 
fe ter vindo delia D. Pedro Manoel , e ef- 
te galeão deo á vela a três de Maio. E no 
mefmo tempo partio também o galeão , que 
hia com os provimentos pêra as Fortale* 
zas de Amboino , e Maluco , de que hia 
por Capitão Fernão Pereira de Sande. E 
antes difto tinha mandado duasgaleotas de 
Jfoccorro a Malaca pelas novas que havia 
Couto. Tom.uLT. Ee de 



434 ASIÀ de Diogo de Cotrro 

de náos Hollandezas ; e delias foram por 
Capitães Eftevao de Albuquerque , filho na- 
tural de Fernão de Albuquerque , e Traja- 
no Rodrigues de Caftello-branco. Defpa- 
chou também o Conde Almeirante neíte 
Abril a Fernão de Albuquerque , pêra ir 
entrar na Capitania de Malaca ; que foi em 
Iiuma náo Tua ; e em fua companhia foram 
as náos de Malaca, China, e outras par- 
tes, e todos chegaram a falvamento , fe- 
nãofó o galeão de Maluco, que feperdeo, 
como adiante diremos. Mandou também 
o Conde Almeirante Vifo-Rey invernar Ca- 
pitães , e foldados a Damão , e a Dio. A 
Damão D.Fernando de Noronha, Capitão 
Mor, e Fernão de Soufa. E jurou as pa- 
zes com Uniaré Chararé , fobrinho do Ça- 
morim , que lhe mandou pêra as ver jurar, 
e que trouxe Cunhale de prefente , o que 
tudo fe fez antes de entrar o inverno. 

Parece que nos hiamos defcuidando da 
Armada de D. Jeronymo Coutinho , que 
deixámos tomando a carga pêra fe partir 
pêra o Reyno j pelo que daremos razão 
delia,, e do que lhe fuccedeo na viagem. 
R porque o Capitão Mor D. Jeronymo Cou-> 
tinho partia de Goa , e as outras finco náos 
da fua Armada partiam de Cochim , man- 
dou o Conde Vifo-Rey paliar Provisão a 
D. Vafco da Gama , que vinha por CapU 

tão 



Década XII. Cap. XIII. 43? 

tão da náo S* Mattheus , que fízeíTe o of- 
ficio de Capitão Mor das íinco náos, c os 
mais Capitães lhe obedeceííem até fe en- 
contrar com D. Jeronymo Coutinho , que 
era o Capitão Mor. Eíte Fidalgo , que fi- 
cou carregando em Goa , deo á vela dia 
de Natal pelo grande aviamento que o 
Conde lhe deo , e foi feguindo fua derro- 
ta, a que logo tornaremos. As outras finco 
náos , que carregaram em Cochim , fizeram 
vela até quinze de Janeiro do anno de feis- 
centos , em que andamos , humas primeiro 
que as outras. De maneira, que aííim como 
cada huma eítava carregada, logo fe partia 
fem efperar pela outra , e aífim hia feguin- 
do fua viagem com tão bom tempo 7 que 
aos vinte e finco de Abril foi a náo de Dio- 
go de Soufa tomar a Ilha de Santa Hele- 
na , levando em fua companhia hum cara- 
velão , que encontrou em dezefeis gráos > 
que hia do rio da Prata pêra Angola ; e 
indo bufcar o furgidouro , que he defron- 
te da Ermida, viram furtas duas náos Hol- 
landezas , que havia finco , ou féis dias que 
alli efperavam por outras duas de fua com* 
panhia." Diogo de Soufa , que era hum Fi- 
dalgo, a que chamavam oGalkgc >, porfer 
de Viana , tanto que as vio , preparou a 
fua náo , e fez leites a fua artilheria , e foi 
furgir hum pouco affaftado delias , por ir 
Ee ii mui- 



436 ÁSIA de Diogo de Couto 

muito falta d 5 agua. E porque entendia mui 
bem que fe fe fizeíTem na volta do mar, 
os haviam os coíTairos de ir feguindo 5 e 
poder-lhe-hiam dar trabalho ; e aífim pre- 
parado foi deitar ferro com muita confian- 
ça , e fua gente pofta em armas , e repar- 
tida pelos lugares mais necefíarios pêra 
tudo o que fe lhe offereceííe. 

Tanto quefurgio, chegou huma lancha, 
que fe defpedio logo das náos , e hum pou- 
co aífaítado da noíla, bradou hum homem 
pelos da náo , e diífe em Hefpanhol , que 
o Capitão Mor daquellas náos mandava di- 
zer ao Capitão , que logo fe foífe a elle no 
feu batel, e lhe entregaíle a náo-, que ufa- 
ria bem com elle , fenão que o mandaria 
bufcar. O Diogo de Soufa tanto que ouvio 
o recado , fez bornear hum falcão pêra a 
lancha , e lhe mandou bradar que chegaíTe 
mais perto, que o não entendiam; mas os 
da lancha entenderam atenção dos noífos, 
e não fe querendo pôr á fua cortezia , vol- 
taram com muita preíTa , e deram ao feu 
Capitão conta do que paliaram, e do que 
fufpei taram. 

Tanto que o Capitão Hollandez vio 
que a noífa náo fe não queria entregar, 
mandou-a bater com a fua artilheria com 
muita fúria, e lhe mataram dous homens 9 
exortaram o maílo de proa ? e quafi a de£* 



Década XII. Cap. XIIL 437 

-enfarceáram , e paííáram o maílro grande 
por huma ilharga com hum pelouro de fer- 
ro coado , de que eram todos os com que 
tiravam á nofla náo. Vendo a gente da nof- 
fa náo aquelle deftroço , que em tão pouco 
tempo era feito , ficaram os mais delles tão 
atemorizados, que fe puzeram pelo bordo, 
por onde o caravellão eílava , pêra fe lan- 
çarem a elle , e acolherem-fe por fer mui- 
to ligeiro. A ifto acudio Diogo de Soufa, 
c fellos recolher outra vez á náo , dizendo 
algumas vezes palavras affrontofas , outras 
vezes perfuadindo-os a fe defenderem co- 
mo valerofos Portuguezes , aífirmando-lhes 
que pêra contra aquellas duas náos a fua 
bailava ; e que efperava em Deos de as ren- 
der, e levar comfigo. E ailim mandou la- 
borar logo a fua artilheria, com que tam- 
bém lhe matou muita gente, e fez tal def- 
troço, que fe foram os Hollandezes alan- 
do por rageiras até ficarem atraveílados 
pela proa danoíTanáo, onde não tinha mais 
que duas peças de artilheria pêra dalli 
com menos rifco a baterem. 

OMeftre danoífa náo, que era homem 
muito efperto , e grande Oíficial , metteo 
no batel huma ancora, e a mandou lançar 
ao mar por hum dos bordos de feição, que 
ficou mettida por junto da cana do leme ; 
e pondo-a ao cabreítante, foi a náo viran- 
do, 



43$ ÁSIA de Diogo de Couto 

do, e ficando atraveflada com toda a arti* 
lheria pêra as outras náos , que foram ba-> 
tendo por efpaço de vinte horas com tão 
grande fúria , e terror , que não podendo 
os rebeldes aturar os damnos que recebiam 
da noíla artiiheria 5 largaram as ancoras por 
mão, foi taram as velas, e foram fugindo 
bem fuftigados. 

Os noflos , pofto que deílroçados , e 
desbaratados, ficaram com a vitoria, edef- 
embarcáram em terra, onde acharam as pim- 
pas dos Hollandezes , que nella tinham pê- 
ra encherem d ? agua, que lhes foram boas; 
c na Ermida acharam hum letreiro , que 
elles tinham alli, pêra outras duas náos de 
fua companhia , que ficavam no Achem car* 
regando , porque eítas vieram da Sunda , 
de que logo daremos razão ; e no letreiro 
lhes faziam afaber, que osjáos os tiveram 
féis mezes cativos até chegarem outras duas 
náos de fua companhia, que os fizeram foi- 
tar ; e a caufa de fua prizão foi eíta. Eítas 
duas náos , que os noflos aqui acharam , for- 
ram carregar a Sunda ; e todas as patacas 
que levaram eram falíificadas , e com mui- 
to pouca prata ; e tendo comprado muitas 
drogas com ellas , vieram os Jáos a conhe- 
cer a falíidade da moeda, pelo que pren- 
deram todos os que acharam em terra , e 
tiyeram-nos prezos quatro , ou finco mezes, 

até 



' Década XIL Caf. XIII. - 439 

até chegarem outras duas náos defua com- 
panhia , que fouberam o cafo , e os refga- 
táram com darem aos Jáos outra moeda 
boa , e de lei. 

Partidas as náos Hollandezas da Ilha- de 
Santa Helena , puzeram os noííbs logo as 
mãos ao concerto da náo , dos maftros , e 
a enxarceáram de novo : e aos trinta de 
Abril, finco dias depois da batalha, chegou 
áquelle porto a náo noíTa Senhora da Paz, 
e aos três de Maio a Conceição, e a deze- 
feis a náo do Capitão Mor, que com par- 
tir de Goa, emais cedo, chegou tanto de- 
pois. E de Diogo de Soufa fouberam tor 
do o fucceflb , e ajudáram-no a reformar 
do damno que os inimigos lhe tinham fei- 
to. E no mefmo dia, que o Capitão Mor 
furgio, apparecêram as outras duas náos Hol- 
landezas , que diffemos que as outras efpe- 
ravam , que vinham carregadas de drogas ; 
eindo demandar ofurgidouro, como viram 
as noílas náos , foram furgir na ponta da 
Ilha , onde lhe os noífos não podiam fazer 
nojo , por lhes ficar o vento por proa, pê- 
ra as irem demandar. D. Jeronymo Couti- 
nho deo-lhe pouco delias , e com tudo pre- 
parou-fe , pêra fe o tempo lhe déííe lugar, 
as ir comrnetter. E no mefmo dia já á bo- 
ca da noite foi a náo S. Martinho , de que 
era Capitão João Soares Henriques , deman- 
dar 



440 ÁSIA de Diogo de Couto 

dar aquella Ilha , e defcubrindo as náos 
Hollandezas, cuidando ferem as noflas , fe 
fez na volta do mar , e foi feu caminho na 
derrota doBrazil , onde fez agua, e tomou 
mantimentos na Bahia de Todos os Santos. 
O Capitão Hollandez vendo que não 
havia agua naquella parte , onde eftava, 
defpedio huma lancha com huma carta a 
D. Jeronymo Coutinho, em que lhe dizia, 
que elles eram Chriftaos , e vaífallos de 
hum Rey amigo do feu , que eram merca- 
dores , que andavam pelo mundo bufcando 
fua vida , que eftavam em neceífidade d 3 
agua , que lhe pedia lhes deffem licença 
pêra dalli com fuás lanchas a mandarem fa- 
zer ao pofto , onde ella eftava. D. Jerony- 
mo Coutinho lhes refpondeo , que pois eram 
Chriftaos, e amigos dos Portuguezes , que 
foífem furgir junto delle, eque alli fariam 
agua muito á fua vontade ; o que lhes man- 
dou dizer , por ver fe os podia tirar da- 
quella paragem, aonde os elle não podia ir 
bufcar. Os Hollandezes entendendo o lan- 
ço do Capitão Mor, não fe quizeram pôr 
a fua cortezia , e deixaram-fe alli ficar mais 
finco dias j e no cabo delles 5 que foi a vin- 
te e hum de Maio , chegou áquelia Ilha a 
•náo S. Mattheus , em que hia D. Vafco da 
Gama , que ás bombardadas fez defamar- 
rar as duas Hollandezas , e n'uma noite fe 

fi- 



Década XII. Ca?. XIII. 441 

fizeram á vela , e deviam de ir demandar 
a coíla de Guiné pêra fazerem aguada , de 

Sue eftavam faltos. E logo o Capitão Mór 
). Jeronymo Coutinho fez tomar agua a 
D. Vafco da Gama , e com todas as náos 
de fua conferva fe fez á vela 5 por ver fc 
podia alcançar as duas náos dos rebeldes ; 
mas nao nas pode alcançar, por irem mui 
<lefviadas da fua derrota, e as noíTas che- 
garam juntas aoReyno, que foi huma gran- 
de felicidade. E fempre efte Fidalgo foi tão 
venturofo , e bem aífortunado nas viagens? 
que fez , que chegou á índia , e tornou a 
Portugal com todas as fuás náos a falva- 
mento. 




DE- 



44 2 

DÉCADA DUODÉCIMA 

Da Hilloria da índia. 

LIVRO V. 



CAPITULO L 

Das coufas que ejie anno fuccedêram em 
Ceilão : e das vitorias que os nojfos al- 
cançaram , e tranqueiras que fizeram 
contra os inimigos. 

DEpois de alcançadas as vitorias , que 
diffemos do tyranno D.João na Ilha 
de Ceilão, e depois de chegar a D. 
Jeronymo de Azevedo o foccorro que dif- 
femos , que o Conde Vifo-Rey lhe mandou 
em Setembro de noventa e nove, ajuntou 
feu exercito, e paflou-fe ao lugar de Mu- 
tapali , meia légua do Reyno de Candea , 
onde alevantou hum arrazoado forte de ma- 
deira com feus entulhos , e cavas , capaz 
de recolher todo o arraial. Efte forte fez 
por fer no meio de entre as fete Corlas , 
e o Reyno de Candea, com que ficava fe- 
chando as portas ao inimigo , e deixallo 
dentro como encurralado. Diílo fe refentio 
tanto o Tyranno , que fe quiz antes arrifcar 

a 



r Década XII. Cap. I. 443 

a" fe perder , que a confentir aquelle gri- 
lhão, que lhe ficava fendo bem pezado. Pe- 
lo que ajuntou fuás gentes, e fe foi alojar 
perto daquelle lugar em humas ferras af- 
peras , e fortes com tenção de com cor- 
rerias , e aílaltos eftorvar aquella obra aos 
noffos, em que fedava muita preífa. D.Je- 
ronymo de Azevedo foi logo avifado de 
fua tenção, e pareceo-lhe neceflario traba- 
lhar pelo defalojar , e lançar delle ; por- 
que fe fe fortificaífe naquelle lugar , além 
do impedimento que feria pêra a conquif- 
ta do Reyno de Candea , ficaria o inimigo 
com reputação entre os Chingalas , e elles 
cobrando animo , vendo que adefpeito dos 
noífos tanto em braços com elles alevan- 
tavam tranqueiras , e fe fortificavam. Pelo 
que mandou logo Salvador Pereira com du- 
zentos e trinta foldados , e dous mil e qui- 
nhentos Lafcarins da terra pêra ir dar no 
inimigo n'uma madrugada , ficando o Geral 
no lugar da tranqueira, que fabricava com 
cento e lincoenta foldados , e quinhentos 
Lafcarins preíles , e mui negociados pêra 
acudir aos feus , fendo neceífario. E parti- 
dos os noífos na entrada do quarto d^alva , 
foram pelo caminho ganhando , e arrazan- 
do algumas tranqueiras até chegarem affi- 
ma , onde o inimigo eítava alojado ; ecom- 
mettendo. o arraial, o entraram, e queima- 
ram 



444 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram com grande determinação ; e depois 
em campo aberto , tornando os inimigos fo- 
bre íi , tiveram com os noílbs huma muito 
afpera batalha ; porque da parte dos ini- 
migos fe affirma haver três mil efpingar- 
das , fendo entre todos oito mil. Mas os 
noffos fe fuften taram com grande valor até 
perto das onze horas do dia , que o Capi- 
tão Geral lhes mandou que fe recolheíTem 
a elle, como fizeram , vindo os do Tyranno 
carregando fobre elles tão tezamente, que 
foi neceífario ao Geral foccorrellos com o 
poder que tinha , e com novas munições , 
com que todos cobraram tanto animo , que 
voltaram fobre os inimigos com tal ímpe- 
to , que os puzeram em desbarato , fican- 
do-lhenefta jornada mais de trezentos mor- 
tos , e entre eftes muitos Modeliares , fem 
da nofla parte haver mais perda , que dous 
Portuguezes mortos , e perto de vinte dos 
Lafcarins , a fora muitos feridos. O Geral 
com efta vitoria fe recolheo ao forte com 
que foi continuando ; e tanta preíía lhe deo ^ 
que em hum mez fe acabou de todo com 
íuas cavas , e contra-cavas , e o provêo de 
Capitão com quatro companhias de folda- 
<los , e com mantimentos ? e munições pê- 
ra muito tempo , porque fe receou que o 
inimigo o commetteífe com mór poder , por 
efperar foccorro de Badagas da outra cof- 



t*i 



Década XII. Cap. L 44? 

ta ; c com iíTo mandou reformar todos os 
fortes que tinha por aquellas parte§ , pêra 
eftarem todos providos pêra o que lhefuc- 
cedeíTe > o que fuccedeo até lhe chegar o 
foccorro , que lhe o Conde Almirante man- 
dou por D. Francifco de Noronha , e Nu- 
no Fernandes de Taíde pêra Capitão da- 
ouella Fortaleza de Columbo , de que logo 
ioi mettido de pofle , depois de reformar os 
preíidios , como diíTemos 5 e os prover de 
novo , e fazer nova paga aos foldados. E 
mandou que todos fe paflaífem ás terras 
de Catrem , Cambaia , Corla , fronteira ás 
fete Corlas , pêra acabar de apagar algu- 
mas labaredas dos alevantados , que ainda 
havia por aquellas partes ; e tuao o que 
por ellas acharam desfizeram , e desbarata- 
ram os noííbs , com o que fe mettêram os 
inimigos pelo íntimo das Corlas fem tor- 
narem a apparecer. 

AíFugentados todos , mandou o Geral 
que fe fizeíTe naquelle lugar de-Catu Cam- 
baia hum fermofo forte de madeira de 
duas faces comfeus entulhos, e cavas > co- 
mo fe feZj com o que os inimigos ficaram 
encolhidos , e os noílos poderem entrar 
mais livremente por fuás terras , e aífaltal- 
los. E porque andando nefta obra, foi o 
Geral avifado , que os inimigos fe torna- 
vam a reformar nas fete Coifas com per- 

ten- 



446 ÁSIA de Diogo de Couro 

tenção de tornarem a inquietar os noííbs $ 
mandou o Geral dar nelles duas léguas pe- 
las fuás terras dentro até o lugar, onde ef~ 
tavam , tendo os caminhos cortados, efei- 
tos nelles feus vallos , e trincheiras tão for- 
tes , que eftavam nellas com muita confian- 
ça ; e fabendo que os noííos lhes deixavam 
muitas aldeãs abrazadas , e que lhes leva- 
vam muita gente cativa , fahíram a dar nos 
noífos, indo-fe já recolhendo , ecommettê- 
ram a reta-guarda com grande fúria ; mas 
acharam tal refiítencia , que com mortes de 
muitos fe recolheram fugindo : com o que 
todas as terras daquella parte , que eftavam 
abaladas a fe rebelarem , fe aquietaram. 
E foram tantos os damnos , que receberam 
os moradores das fete Corías , que os feus 
Príncipes mandaram pedir pazes ao Geral , 
que lhe elle não concedeo; mas concedeo- 
lhes tregoas , com fufpensão das armas , e 
reílituiçao dos cativos que tinham em fuás 
terras. Neíle eftado ficaram as coufas def- 
ta Ilha neíle inverno defeiscentos^, em que 
andamos. 



CA* 



r Década XII. Cap. II. 447 

CAPITULO II. 

De hurna náo Hollandeza , que foi ter ás 

Ilhas de Japão: e da derrota que levou , 

e do que lhe fuccedeo : e de huns cof- 

f atros J apões , que foram ter ás 

Filippinas. 

NEíle anno de feiscentos , em que an- 
damos , quafi nefte mefmo tempo apor- 
tou huma náo Hollandeza ás Ilhas de Ja- 
pão , ao Porto de Xativai do Reyno de 
Bungo ; e como naquelle tempo não era 
monção de virem náos da China, nem das 
Filippinas, pareceo aos Padres da Compa- 
nhia , que alli refidem , que poderia fer al- 
guma, que hia da nova Heípanha pêra os 
Lusões , que com algum temporal iria def- 
garrada. Mandaram recado a EIRey de Bun- 
go, pêra que lhemandafle acudir, por lhe 
não acontecer algum defaftre ; ao que logo 
mandou prover. E no mefmo tempo dous 
Padres da Companhia , que reíidiam junto 
de Xativai, vendo a náo, acudiram com al- 
gumas embarcações pêra lhe foccorrer ; e 
chegando perto delia , que conheceram fer 
de -Hollandezes , tornaram a voltar. Alguns 
Portuguezes , que eftavam em Naganzaque , 
tanto que fouberam da náo , aviíáram por 
cartas- a . Tirazava , Governador Geral da- 
-- ; quel- 



448 ÁSIA de Diogo de Cotrro 

quelles Reynos da parte do Ponente , de 
como aquella náo era de Luteranos coifai- 
ros inimigos dos Portuguezes , e de todos 
os Chriftãos. Com eíte recado , e com já 
ter cartas deElRey, acudio oTirazava no 
Reyno de Bungo, e mandou metter a náo 
no porto , e lançou mão dos Hollandezes , 
e fazenda , de que fe fez inventario , e as 
que fe lhe acharam , fam as feguintes. 

Onze caixões de pannos de la groíTos, 
hum cofre com quatrocentos ramaes de co- 
raes , e outros tantos de alambres , hum 
caixão de contas de vidro decores, alguns 
efpelhos , e óculos , muitas gaitas de me- 
ninos , dous mil cruzados em reales , dezc- 
nove peças de artilheria de bronze groíTas , 
c outras miúdas , quinhentas efpingardas y 
e íinco mil pelouros de ferro coado , tre- 
zentos de cadeia, íincoenta quintaes de pól- 
vora , três caixões de faias de malha , três 
quartos de corpos , e peitos de aço, tre- 
zentas e íincoenta lanças de fogo , muita 
pregadura , muito ferro , muitos machados , 
fouces , e enxadas , e outros diverfos géne- 
ros de inftrumentos , como aquelles que pa- 
rece que vinham conquiftar , e povoar. Con- 
feífáram que os annos paífados de 98. c 
99. partiram dos Eílados de Hollanda quin- 
ze náos pêra paliarem a Sunda , e Malu- 
co , dç quç não davam razão nenhuma ; o 



( 



Década XII. Cap. IL 449 

pêra que fe íaiba delias , daremos relação 
das que íbubemos , e do que lhe aconteceo* 
O anno que diílemos partiram do Por- 
to de Roterdam eítas quinze náos , que fo- 
ram juntas até á coita de Guiné , onde fe 
apartaram em três efquadras* Hum a delias 

Í>aílbu logo o Cabo de Boa Efperança , e 
òi na derrota da Sunda ? onde fe aparta- 
ram três náos , e as duas foram tomar o 
Porto do Achem , com quem logo conti- 
nuaremos. Da outra efquadra não Íbubemos 
, o que paífou. A terceira , de que era Capi- 
tão hum Balthazar da Corda , andou pela 
coita do Brazil ás prezas algum tempo , e 
dalli fe paífou a Angola , onde fez alguns 
damnos , e depois fe tornaram a fazer na 
volta do eltreito de Magalhães queembo- 
cáram, e dentro neile fe detiveram dez me- 
zes com muitos trabalhos y e fomes , e em 
algumas fahidas , que fizeram abufcaragua, 
e mantimentos lhe mataram alguns homens; 
c tanto que tiveram tempo , paliaram o ef- 
treito á outra banda , e voltaram fobre a 
cofta do Peru , onde lhes deo huma tormen- 
ta tamanha , que as apartou , e huma fci 
correndo fua ventura em demanda das Ilhas 
de Maluco, aonde chegou, e logo adiante 
daremos relação delia ; outra parece que 
defappareceo , porque não achei novas del- 
ia ; a outra , de que era Capitão hum foão 
Ceuta. Tom. ult* Ff da 



4JT0 ÁSIA de Diogo de Couto 

da Corda, fobrinho de Balthazar da Cor- 
da , Capitão Mor , foi correndo a tormen- 
ta pela coita , e acalmando , foi tomar a For- 
taleza de Chile no Peru. E fabendo que 
eílava quaíi fem gente , deram de fupito 
nella, e a entraram com morte de alguns 
dos que eílavam dentro , e roubaram , e 
profanaram os Templos, e tudo o que ha- 
via na Fortaleza , deixando-fe ficar nella al- 
guns dias tão defeaneados , como fe eílive- 
ram em Frandes. 

Sabidas eftas novas pelos Hefpanhocs, 
que eílavam pelo fertão , ajuntáram-fe al- 
gumas companhias j e commettendo a For- 
taleza , entráram-na, por não ferem mais que 
vinte Framengos os que eílavam nella ; e 
deíles mataram quinze , e os finco que fi- 
cavam fe lançaram pelos muros abaixo , e 
a nado foram bufear a náo , e os delia lhes 
acudiram com batel, e os falváram, e en- 
tre eíles finco foi o Capitão Corda. E fa- 
zendo-fe á vela , foram na demanda de Ma- 
luco , aonde chegaram , e furgíram no lugar 
de Soli da Ilha de Tidore , meia légua de 
noífa Fortaleza , citando- já em Ternate ou- 
tra náo defta companhia ; 'a que falta he 
eíla náo , que temos em Japão, que foi cor- 
rendo com a tormenta , por onde pode , e 
teve tempos tão defvairados , que poz até 
chegar ao Trópico de Capricórnio quatro 

me- 



Década XIL Cap. IL 45T 

mezcs , onde lhe deo huma enfermidade de 
mal tão contagiofo , que em breves dias 
morreram cento efincoenta e finco peíToas , 
em que entrou o Capitão Corda , ficando 
vivos fós vinte e finco , que não bailavam 
pêra marear a náo; pelo que fe deixaram 
ir á ventura dos ventos , até elles , e as 
aguas os levarem a Japão , como diífemos , 
aonde defembarcáram todos tão debilitados, 
que pareciam homens mortos. 

Aquelle Rey tanto que mandou defpe- 
jar a náo, mandou-a aos Reynos do Can- 
to a carregar de madeira ; c os Hollande- 
zes , que citavam mais sãos , os mandou fer- 
vir de bombardeiros em huma guerra , qife 
mandava fazer a hum fenhor alevantado, 
que fe chamava Cangeatica. O Piloto def- 
tanáo eralnglez, bom Cofmografo , e corri 
algum conhecimento da Afiroíogia : confef- 
fou em Meaco aos Padres da Companhia, 
que o Principe de Oraíige fe fervíra já 
delle algumas vezes em jornadas de muita 
importância, principalmente nos annos de 
noventa e três , noventa e quatro , e noven^ 
ta e finco, que o mandou a defcubrir ca- 
minho por fima da Biarmia , e Fimmar- 
chia pêra as fuás náos paíTarem a Japão, 
China , e Maluco pêra lhe levarem as ri- 
quezas de todas aquelías Ilhas , por haver 
que por lá lhe ficava o caminho mais per- 
Ff ii to., 



4?i ÁSIA de Diogo de Couto 

to , e mais defviado da noffa Armada : e 
que da derradeira vez , que foi o anno de 
noventa e íinco , chegara a oitenta e dous 
gráos do Norte ; e que com fer a força do 
verão, e os dias quaíi contínuos, ppr não 
haver noite , fenão fe era de duas horas , 
achou os frios tão exceffivos , e tantos os 
caramellos , e neves , que fe desfaziam por 
aquelle eftreito abaixo , que dando de rof- 
to na fua náo , a fizeram voltar. E affirma- 
va , que fe fe encoftára á cofta da Tartaria , 
da parte da mão direita, e fede longo del- 
ia fora correndo a Leíle até o boqueirão 
deAnião, que entra porenti;e as terras da 
Afia , e da America , pudera fahir com o 
feu intento. E affirmou mais efte Piloto , 
que os Hollandezes não deíiílíram de feu 
intento até levarem efta empreza ao cabo, 
pelos grandes defejos que tinham de def- 
cubrir efte caminho. E já os Inglezes tra- 
taram de defcubrir efta viagem pela via do 
Ponente por entre as Ilhas de Grotlandia , 
e aterra do Lavrador; mas que pelas meí- 
mas difficuldades fe tornaram do caminho, 
como o fez aquelle grande Piloto Gavoto 
ha mais de quarenta annos. E em hum glo- 
bo , que efte Piloto trazia , de que na Chi- 
na fe tirou outro , que eu tenho em meu 
poder , fe vem claramente eftas duas par- 
tas , por onde tentaram paífar a eftas , e 

pof- 



Década XII. Cap. II. 45-3 

, poftas em graduaçjo efta Ilha Japão com 
todos os feus Reynos até fobre a terra de 
Chincungu , onde affirmam haver aquellas 
ricas minas da prata. DiíTe mais efte Pilo- 
to , que quando o Príncipe de Orange vi- 
ra que por aquellas partes não pudera fa- 
hir com feu intento , que armara eíles quin- 
ze navios, em cuja conferva elle viera, pê- 
ra irem á Sunda , e Maluco carregar de 
drogas. 

Nefte meímo tempo, que efta náo che- 
gou a Japão , íahíram daquella Ilha deze- 
íeis navios de coflairos a roubar , eíles che- 
garam até ás Ilhas Filippinas , e no cami- 
nho tomaram huma náo de Chins , que hiam 
pêra aquellas partes com fazendas , que mon- 
tavam feíTenta mil pezos : e aííim tomaram 
mais outra embarcação das Manilhas , e 
mataram , e cativaram alguns naturaes del- 
ias , e três foldados Hefpanhoes , do que 
o Governador da Manilha fe mandou quei- 
xar a Daifuxama , Rey do Canthem , que 

• logo mandou armar alguns navios contra 
eftes coflairos .; e enccntrando-fe , fe invef- 
tíram , e tomaram hum dos feus navio? , 
em que acharam alguns dos Hollandezes, 
que foram na náo. E depois por tempos 
o Daifuxama houve ás mãos muitos daquel- 
les coífairos , e a todos mandou enforcar, 
cfez lei que não pudeíTera ir ás Manilhas 

mais 



4<T4 ÁSIA de Diogo de Couto 

mais que quatro navic% cada anno, e que 
todos os mais foffem perdidos, e íeus do- 
nos crucificados. 

CAPITULO HL 

Do principio do Reyno Pegú , e dos Reys 
que teve : e dos revezes que a fortu- 
na lhe âeo. 

COmo he coftume do mundo , ou pêra 
melhor dizer eíearneo , e zombaria del- 
Ie 5 não fubir apreíTadamente humEftado a 
grande Monarquia , que com a mefma pref- 
fa o não torne a derribar , e pôr por ter- 
ra 3 porque as coufas muito grandes com 
feu próprio pezo cahem ; affim aconteceo 
a efte riquiffimo , e opulentifômo Reyno de 
Pegú. Porque fendo conquiftado por El- 
Rey de Ova, e Brama, chamado Prangino- 
co 5 os annos de mil quinhentos quaren- 
ta e quatro 7 como largamente o tenho di- 
to no Capitulo oitavo do fetimo Livro da 
minha fexta Década 5 foi fubindo com tan- 
ta preffa nelle , e em feus herdeiros , que 
de então até efte annp de noventa e nove , 
que fam quarenta e íinco annos , chegaram 
a fer Monarcas de quaíi cem Reynos , e 
das mores riquezas, e poder que o mundo 
vio. E defandando a fortuna a roda ,- em 

me- 



Década XII. Cap. III. 457 

menos de hum atino fe acabou toda eíla 
potencia, fem ficar de tudo mais que huma 
fombra , e ainda menos ; porque não ha ho- 
je daquelles Monarcas hum herdeiro , que 
poíTua huma muito pequena aldeã , digo 
neíle Reyno Pegú y onde elles alimentaram a 
cadeira de feu império. E pêra moftrarmos 
melhor cfte efcarnèo do mundo , contare- 
mos primeiro feu princípio , poder, e ri- 
queza (poílo que já na íexta Década temos 
moftrado parte diílb) e depois fua ruina, 
e deftruiçâo. 

Quanto ao princípio defte ReynoPegú, 
acha-íe em feus livros , que ha perto de 
mil annos que fe deícubrio por efta ma- 
neira. Tudo quanto ha hoje domar de Pe- 
gú até o Reyno do Brama , que fam mais 
de felfenta léguas , eftava cuberto d 5 agua , 
porque chegava o mar até o Reyno Bra- 
ma , como diflemos ; e que andando hum 
pefeador em hum barco com outros com- 
panheiros, os levara a corrente das aguas, 
que começaram a defcer com grande força , 
por onde andaram finco , ou féis dias co- 
mo perdidos , e defeoraçoados , e já fem 
alento foram aportar a huma ferra alta , que 
fe chama Diaca , onde hoje eftá a Cidade 
Pegú; e ferrando nella, fe amarraram , e 
defeançáram , que hiam como mortos: ede 
infinitas Marrecas ; que havia naquella par- 
te, 



45^ ÁSIA de Diogo de Couto 

te , fe proveram pêra a torna viagem. E 
antes que fe partiífem viram , que fe hia 
defcubrindo huma grande terra , que o mar 
deixava como alagada 3 aílim como acon- 
teceo no tempo do diluvio geral. E tor- 
nando pelo rio affima , foram a Tangu 5 on- 
de o leu Rey refidia , e lhe deram conta 
do cafo, e da grande terra que fe hia def- 
cubrindo. Admirado o Rey do cafo , tor- 
nou-o a mandar com mais embarcações , e 
alguma? peífoas de credito pêra verem o 
que pairava , e o informarem da verdade 
do cafo ; e achando fer tudo aífim que o 
barqueiro dizia, voltaram pêra o Tangu a 
dar-lhe conta do que viram. O barqueiro 
com muitos companheiros deixaram-fe fi- 
car naquella parte, que já eltava todadef- 
cuberta ; e no modo da terra viram , que 
havia de ferfertiliiíima , pelo que determi- 
naram de fazer alli feu aífento , e mandai 
ram trazer fuás mulheres , e filhos; e afa- 
ma da terra fer profpera , foi defcendo do 
fertao pêra aquella parte muita gente po^ 
bre , com que fe começou a fazer huma 
boa povoação. E porque não podiam vi- 
ver fem cabeça , fizeram ao barqueiro feu 
Capitão , e Governador, que como era ho^ 
mem prudente, e esforçado, começou kn 
go depor a todos em policia humana, re-^ 
partindo os campos ^ ordenando povoações , 

e 



Década XII. Cap. III. 457 

c dando ordem a cultivarem , e femearem 
as terras , que começaram a dar fruto abun- 
dantiífimo , e a defcubrir a riqueza de fuafs 
minas da fermofa pedraria de rubins , de 
que aquelle Reyno he o mais abundante 
de todo o mundo , e de finiílimo ouro; de 
maneira que em poucos annos fe deícu- 
brio, e povoou aquelle Reyno, que tinha 
cento efeílenta léguas por coita de Norte 
a Sul j e pêra o iertao cento e vinte , e 
cento e trinta léguas em partes 3 e a toda 
efta terra poz o barqueiro nome Poigou , 
que em fua lingua quer dizer , eu o achei 
primeiro , e feus naturaes fe chamaram 
Poigous ; e corrompendo-fe o vocábulo y to- 
maram o que hoje tem de Pegús. 
k Vendo-fe o pefcador tão profpero , e 
obedecido , tomou o titulo de Banha , que 
quer dizer Governador , eaffim em fuás ef- 
crituras começaram eftes Pegús nefte bar- 
queiro o catalogo dos feus Reys , com quem 
logo continuaremos. E como todos eftes 
Gentios coftumam a dar honrofos principios 
a feus Reys , dizem elles em fuás hiftorias , 
que efte pefcador nafcêra dehumaflor, que 
elles lá chamam Chaoes Chaoeftu , que fam 
os ramos de humas certas cardeiras , que 
quando efpigão deitam huma maçaroca , co- 
mo a do Milho Zaburro , que vem fahin- 
do dentre algumas folhas finas , e amarei- 

las, 



458 ÁSIA de Diogo de Couto 

Ias , e a femente de dentro he miúda , e 
almeicegada , e tem algum cheiro , por que 
as Gentias da índia as eftimam muito , c 
as mettem entre os cabellos pêra lhes chei- 
rarem , e deitas ha muitas nefta Ilha de Goa, 
a que os Canarins chamam Chedaga. E por- 
que efte barqueiro fó não leve efta honra , 
dizem também que fua mulher nafceo de 
huma Combalenga , que he hum pomo mui 
ordinário na índia, de que fazem algumas 
feições de conferva tão fria , que fe dá em 
lugar de aífucar rofado , e fam do tama- 
nho, e feição dos melões grandes; e ha al- 
gumas tamanhas, que afsás fará hum moço 
em alevantar huma fó. A efte pomo cha- 
mam os Pegús Sapua. 

Ora pofto efte barqueiro já em eftado 
de Rey , pondo fua cadeira na Cidade de 
Pegú , que elle começou a edificar , quiz 
também alevantar alguns Templos a feus Ído- 
los , a que elles chamam Varellas , e affim 
começou a abrir osalicerfes, pêra hum que 
determinava fazer de grande fumptuofida- 
de , e em baixo no fundamento acharam 
hum íino de metal da feição dos noflbs de 
fete braças em roda, e a borda de palmo 
e meio de groflura, e três braças de altu- 
ra , e á roda por baixo tinha hum letreiro 
de letras de relevo mui bem feitas , cujos 
caraéleres não fam conhecidos 3 nem fe en^ 

ten- 



Década XII. Cap. III. 45-9 

tendem de todos aquelles Gentios. Eíle fi- 
no mandou pôr febre eftaVarclla, que foi 
huma das grandes obras do mundo, e foi 
fempre tido de todos os Gentios em gran- 
de veneração. 

E fazendo nós fobre iílo nolías conje- 
cturas , me parece que eíle fino foi obra 
do Apoftolo S. Thomé , que andou por al- 
li pregando a Lei da Graça , fendo aquel- 
la terra então povoada de Chins 5 porque 
elles tem em fuás eferituras , que já foram 
fenhores de rodos aquelles Reynos , e af- 
fim tem muitas coufas ainda fuás , porque 
a obra de feus Templos , que fam Varei- 
las , fem dúvida foi dos Chins , e efte mo- 
do de finos não nos ufáram nunca neíle 
Oriente, fenão entre os Chriílaos, que o 
Santo Apoílolo mandaria fundir pelos Chins, 
que fam os mores officiaes que o mundo 
tem de todas as obras. E prova mais eíla 
minha opinião dos Chins ferem fenhores 
deites Reynos iílo ^ que abrindo efte pri- 
meiro Rey os alicerfes pêra fabricar feus 
paífos , acharam em baixo huma ancora de 
ferro coado , que fó na China o fazem , 
cem quatro unhas , como os das noífas ga- 
lés , tão grande que em noífos tempos an- 
dou em huma náo de hum mercador Por- 
tuguez chamada a Lagra , morador na po- 
voação de S. Thomé. Eíla ancora fe tor- 
nou 



460 ÁSIA de Diogo de Couto 

nou a perder ha pouos annos no mefmo 
mar de Pegú , onde fe perdeo a náo em 
que andava : ou poderemos também cuidar 
que efta ancora folie de alguma das náos , 
que Salamao mandou áquellas partes buí- 
car coufas pêra o Templo de Jerufalem. 
Por onde parece que já o mar chegou até 
áquella Cidade de Pegú , e que alli íurgiam 
as náos , que lie a diftancia que diíTemos , 
o que tudo cubrio aquelle diluvio, que di- 
zem que houve ha mais de mil annos , que 
alagou , e cubrio mais de cem léguas de 
terra; efegundo minha prefumpção era tu- 
do então povoado de Chins. 

Agora continuemos com o catalogo def- 
tes Reys Pegús , começando deíle barquei- 
ro , que foi o primeiro Banha. Succedeo- 
lhe feu filho chamado D. Chetim , que vi- 
veo oitenta annos , e a elle feu filho Ba- 
nha Tam , e a efte Banha Cael , e logo Ba- 
nha Uca Malanco. A efte fuecedeo Banha 
Talanha , e a elle Banha Indá, e affim fuc- 
ceíTivamente fuecedêram outros fete Banhas 
defte nome Indá , e ao derradeiro fuecedeo 
Banha Darar , e a efte Banha Mampla , e 
logo outro Banha Indá, e affim tornaram 
a íueceder outros fete Banhas do mefmo 
nome, e ao ultimo fuecedeo Banha Xemi- 
dó, que foi o derradeiro Rey cafta Pegú, 
c todos eítes reinaram conforme áfuacom- 

pu- 



Década XIL Cap. III. 461 

putaçao £40. annos , porque eítes acaba- 
ram perto dosarmos de 1 540. em que hum 
Rey do Brama chamado Pranginoco , ou 
Prao Mandara (como lhe eu chamo na mi- 
nha fexta Década) defceo dos Reynos do 
Sertão com poder groííiíTimo , e conquií- 
tou, e ganhou aquelieReyno , e outros vi- 
zinhos , e por fim veio a morrer a mãos 
de hum pobre carreteiro Pegii , a quem o 
mefmo Rey Brama tinha feito Grande, e 
dado o titulo de Xemim , que correfpon- 
de ao de Duque; eaííim lhe chamavam Xe- 
mim de Saião , por fer fenhor deita Cida- 
de , como dizermos o Duque de Bragan- 
ça : e o cafo deita morte fe verá no quin- 
to , e fexto Capitulo do fegundo livro da 
minha fetiraa Década. E por morte deite 
fe levantou por Rey o Xemim de Satao , 
que o matou , que não durou hum anno no 
Reyno , que eítes fam os efcarneos do mun- 
do ; porque fe alevantou contra elle hum 
Talapoi , que era feu Religiofo , chamado 
Xemindoo , e o matou, e fe intitulou Rey ; 
caíTim eíteve naquella potencia três annos, 
porque veio fobre elle Talanha Ginoco , 
genro do Rey Pranginoco aíTima. E vindo 
ambos á batalha, encontráram-fe osperten- 
fores cada hum em feu elefante : o de Ta- 
lanha Ginoco , genro do Rey Pranginoco , 
levou no dente o elefante do outro , e o 

der- 



j{6i ÁSIA de Diogo de Couto 

derribou ; c o intitulado Rey Fumíram-no 
os Pegús , e o Ginoco fe appellidou logo 
Rey , oufez appellidar hum filho Feu, que 
era neto do Brama Pranginoco , ou Práo 
Mandará ; porque eíle Brama , que venceo 
o Xemindoo , íendo de caíla mediana , ca- 
fou a furto com a filha daqueíie Rey pe- 
lo modo 5 e maneira , que Fe verá. na mi- 
nha Fetima Década aííima citada ; e depois 
de vencer a batalha , mandou lançar mui- 
tos pregoes , e prometter grandes dadivas 
a quem lhe trouxeíle o Xemindoo , e poz 
niífo tantas diligencias , que lho trouxeram 
prezo. E o dia que lho haviam de apre- 
Tentar o eFperou em hum theatro, e íhro- 
no alto muito ricamente ornado , cercada 
de muitos Príncipes , e Senhores ; e polia 
diante delle em pé , nunca lhe quiz fazer 
cortezia como a Rey, nem moílrar abati- 
mento de Ília pefíoa. Difto Foi tamanha a 
paixão 7 que o novo Rey tomou , que o 
mandou lançar a hum eleFante bravo , que 
fora do meímo prezo, e em que ellè cof- 
tumava a cavalgar ; e poílo no terreiro,- 
donde todos eftavam vendo aquelle eFpe- 
étaculo , querendo-o arremeffar a elle o Cor- 
naca , que o governava , nunca o pode Fa- 
zer ir por diante, porque o conheceo , an- 
tes tornou a recuar atrás com grandes ur- 
ros de fentimento de o ver naquelle eíta- 

do, 



Década XII. Cap.III. 463 

do, cafo femelhante ao de Androdo, que 
fendo em Roma levado pêra o lançarem 
a hum leão faminto , elle fe lhe foi prof- 
trar a feus pés, e lhos beijou, e aífagou; 
c fabido o cafo , foi por aquelle beneficio 
que lhe tinha feito de lhe tirar de hum pé 
hum eftrepe que lho tinha encravado , pe- 
lo que em quanto viveo o fervio , e acom- 
panhou , gratidão que não fei fe fe achará 
cm muitas peífoas. 

Eílando o pobre paciente no campo ef- 
perando que o elefante o efpedaçaífe , fe 
defceo do throno , em que EIRey eftava, 
hum Capitão Pegu , a quem aquelle , que foi 
Rey, tinha feito muitas mercês; e chegan- 
do-fe a elle naquelle trifte , e miferavel ef- 
tado em que o via, felhe proftrou aos pés 
com muitas lagrimas , e confolou-o o me- 
lhor que pode. Eis-aqui dous efpedlaculos 
em hum mefmo cafo , que podiam confun- 
dir o mundo. O Rey, que eftava em feu 
throno vendo aquillo, mandou chamar aquel- 
le Capitão Pegu , e perguntou-lhe fe era 
aquelle o Talapoi , que foi Rey? ao que 
elle com muita liberdade refpondeo , que 
aquelle era o que fora já leu Rey , e Se- 
nhor , e o fizera grande , e o puzera na- 
quelle eftado , e lugar em que eítava , fen- 
do d'antes hum pobre , e humilde Pegu ; e 
que pois não tinha com que lhe pagar tan- 
tas 



464 ÁSIA de Diogo de Couto 

rs mercês , nem valer-lhe em outra coufa i 
fazia com fe compadecer de fua miferia , 
e defàventura; e que fe era poíTivel fazer- 
lhe mercê da vida a troco da fua , que fe- 
ria a mór honra que podia receber na vi- 
da , nem mercê de mor eílima. Vendo Ei- 
Rey tamanha fidelidade , confolou-o com 
palavras muito honradas , e lhe dilfe , que 
por amor delíe dava a vida áquelle ho- 
mem , e que o recolheflem em hum caftel- 
lo, onde efteye alguns annos, e alli mor- 
reo ajudado ; e não parando aqui , fez ao 
Pegu Banha de huma Cidade , e lhe deo 
muitas rendas. 

CAPITULO IV. 

Da grande riqueza , e potencia dejle Rey~ 

no y e dejle Rey Brama Talanba Ginoco y 

que conquijiou ejle Reyno Pegu. 

FAzendo-fe eíle bárbaro Talanha Gino- 
co fenhor dos Reynos de Pegu, pelo 
modo que diflemos , como era homem tão- 
valerofo , que fe podia metter no número 
dos bárbaros da fama , determinou de fu- 
bir a toda a Monarquia de aquelles Rey- 
nos vizinhos , que eram muitos , pêra o que 
ajuntou dous milhões de homens , e huma 
innumeravel fábrica y como convinha a hum 

tão 



Década XII. Cap. IV. 46? 

ião grande exercito. E paíTou a conquiftar 
o grande , e famofo Reyno Sião pelo mo- 
do que temos contado na noífa fexta Dé- 
cada , donde tirou grandes thefouros , e poz 
de fua mão Regedor 5 que governaffeaquel- 
le Reyno ; e depois conquiftou os dos Jáos 3 
Camboja, Champa, e os mais até Cochin- 
china , e todos os que eftavam ao fertão 
deites , em que gaitou três annos. E aílim 
chegou a tanta grandeza por feu braço , e 
valor , que veio a fer Emperador de per- 
to de cem Reynos ; cada qual delles de tan- 
to poder, e riqueza, que pudera por íi fa- 
zer hum grande império. E vendo-fe Mo- 
narca de tudo o que havia de mais de duas 
mil léguas em roda (e não fei fe fatisfeito, 
porque a cubica humana de nada fe fatis- 
faz) tornou a voltar pêra Pegú com o mor 
triunfo , que fe pode imaginar. Porque en- 
trou em hum carro triunfante muito alto, 
e grande , todo forrado de ouro de martel- 
]o j e guarnecido de ineftimayel pedraria , 
com coroa imperial na cabeça de muitas 
pedras de grande preço , e riquiffimas pé- 
rolas, E as Rainhas, ePrincezas, que cati- 
vou em todos aquelles Reynos , que eram 
muitas , e mui fermofas , aííentadas no mef- 
mo carro abaixo dos feus pés , por elle ir 
em huma cadeira mui alevantada , e todas 
xicamente veílidas a feu modo; e ainda qye 
Couto. Tom. ult. Gg o 



4^6 ÁSIA dê Diogo de Cout© 

o não foíTem, de telas fobre telas , nem 
das outras louçainhas das damas da Euro- 
pa , hiam porém cubertas de ouro , diaman- 
tes , rubins, e pérolas , que nao tinham ef-^ 
timacao. 

Por eíte carro , que era huma máquina 
muito grande , puchavam muitos Príncipes \ 
Reys , Banhas , e Senhores principaes , aífim 
cativos j como os feus próprios natura es* 
Diante deite foberbo carro hiam outros 
muitos de efpantofa grandeza , e invenção , 
cheios todos de defpoj os , e riquezas de ou- 
ro , pedraria , eftatuas de ouro , prata , c 
metaes , coufa que caufava muito grande 
efpanto , e admiração ver aquclla máquina. 
E diante de tudo illo hiam quaíi dous mil 
elefantes , que ganhou naquelles Reynos, 
mui ajaezados, ecubertos depannos defe- 
ri^, e ouro. Na reta-guarda hiam aquelles 
innumeraveis exércitos em ponto de guerra, 
que era a mais fermofa coufa , que fe podia 
ver. E com eíte apparatofo , e foberbo triun- 
fo entrou na Cidade Pegú , onde foi rece- 
bido com efpantofas feitas , e apparatos , não 
perdoando aos gaítos , porque fe fizeram 
excellívos. 

Vendo-fe eíte bárbaro na mór alteza 
que podia imaginar , determinou de fazer 
hum Templo , ou Varela em agradecimen- 
to das mercês que feus ídolos lhe fizeram, 

pe- 



* Década XII. Ca?. IV. 467 

|>era nelle ordenar muitos íuffragios 5 e tam- 
bém pêra fe enterrar nelle. E pêra eíta obra 
convocou á fua Corte todos os Reys , Prín- 
cipes , e Senhores feus vaííallos, que eram 
muitos , tendo-lhes mandado declarar ope- 
ra que os chamava 3 pêra que vieíTem ap- 
percebidos, pêra offerecerem naquelle Tem- 
plo feus dons. E como os teve juntos , foi- 
fe com toda a fua mageítade ao lugar de 
Mahicon j que era fora da Cidade Pegú, 
como Belém de Lisboa , e alli armou nu- 
ma rica tenda branca , e ao redor as de to- 
dos aquelles Reys , e o dia ordenado man- 
dou abrir os alicerfes, pêra o que eftavam 
juntas grandes máquinas de inítrumentos, 
e muitos officiaes , no que fe gaitaram al- 
guns dias , porque o alicerfe era profundif- 
íimo , e muito largo. O dia em que fe ha- 
via de lançar a primeira pedra nos funda- 
mentos, foi EIRey o primeiro que lançou 
fua figura, e a de fua mulher, e filhos, to- 
das de ouro, e muitas baixellas domefmo 
Í)era fe fervirem lá na outra vida ; e aífim 
ançou mais hum Templo , ou Varela to- 
do de ouro com feus coruchéos , e hum la- 
garto de ouro, e huma panella grande do 
mefmo com huma guedelha dos cabellos 
de EIRey; c todas eílas peças de boa gran- 
deza com muita , e muito rica pedraria 
por todas ellas ; e apôs elle foram os mais 
Gg ii Reys 



468 ÁSIA de Diogo de Cowrto 

Reys conforme a fuás preferencias lançan- 
do nos mefmos fundamentos outras peças 
riejuiflimas de ouro , e pedraria. E foram 
as coufas que lançaram taes , e tantas , que 
affirmam osTalapões antigos daquelleRey- 
no, que fe lançaram naquelles alicerfes feis- 
centos candis de ouro , que pela noífa con- 
ta fam duzentos moios de ouro , porque 
cada candil tem vinte alqueires , a fora a 
pedraria , que affirmavam valer maior quan- 
tia pela riqueza 5 e fineza delia. A obra da 
Varela, depois que fe acabou , foi huma 
das grandezas, que fepóde contar por hu- 
ma das maravilhas do mundo ; e os Ído- 
los que fe puzeram dentro , he coufa mui- 
to pêra efpantar a riqueza delles. 

Os paços que eíle Rey fez na Cidade 
nova de Pegú eram tamanhos , que elles fó 
por íi podiam fazer huma fermofa villa das 
grandes do noífoReyno, de obra excellen- 
te, e verdadeiramente imperial. Todos por 
fóra, e por dentro eram dourados, e pin- 
tados de varias , e diverfas tintas de óleo. 
As camarás , varandas , corredores , falas a 
c o mais interior do ferviço da Rainha , e 
de fuás damas era tudo forrado , e cozi- 
do em ouro. A cafa , em que EIRey fem- 
pre eílava , tinha todo o pavimento de ou- 
ro de martello ; e do meimo era hum cor- 
redor ; e huma varanda , em que fe EIRey 

cof- 



Década,. XII. Ca?. IV. 46% 

coitumava a aífomar a ouvir partes. Na en- 
trada dos paços j e em toda a roda delles 
tem grandes } e fermofas varandas , e cor- 
redores , como clauftros de Mofteiros , com 
feus alpendres todos dourados , e maravi- 
lhofamente lavrados. Huns ferviam pêra 
Julgadores , Efcrivães , Tabelliães y e todos 
os mais officios a feu modo ; outros de ou- 
tros Officiaes , e de Capitães , gente de guar- 
da, de Veadores da fazenda, Contadores. 
Em fim , não fe pode dizer , nem efcrever 
as grandezas , e maravilhas deites paífos. 

A' entrada delles á mão efquerda efta- 
va huma cafa do thefouro , onde fe não re- 
colhia ouro amoedado , fenão eílatuas de 
homens , e mulheres de efpantofa grandeza , 
todas de ouro. E tem mais huma fermofa 
cafa mui dourada , e ricamente guarnecida , 
em que eítam por ordem as figuras dos 
Reys que reinaram , todas de ouro , e pe- 
draria do tamanho que eram. E cada an- 
no mette nefta cafa o Rey que reina , hu- 
ma eftatua fua ; e por ellas fe fabe os an- 
nos que cada hum reinou , porque tantas 
eílatuas tem. E pêra a mefma parte havia 
humas fermofas terecenas, em que eílavam 
féis elefantes , huns ruivos , e outros mais 
claros , a que chamavam elefantes brancos , 
debaixo de ricos dóceis : eítes comiam , e 
bebiam em fermofiíTimas bacias de ouro-, 

em 



4/0 ÁSIA de Diogo de Couto 

em' que também lhe lavavam os pés : a fo-> 
ra dez , ou doze mil elefantes , que efte 
Rey tinha repartidos por differentes partes. 
A' entrada dos paços á mão direita ef- 
tava huma fermoía torre de madeira , on- 
de eftava hum íino grande da feição dos. 
da China, que era de metal redondo com 
hum efcudo 5 e tinha mais de vinte palmos 
de roda, e cfelle eftava dependurado hum 
maço grande forrado de couro , e o pateo 
cm que o íino eftava , tinham-no de conti- 
nuo aberto, chamava-fe o íino da juftiça; 
porque quando alguma peíToa fefentia ag- 
gravada de alguém, chegava-fe ao fino, e 
dava com o maço huma grande pancada , 
que logo fe ouvia de todas as partes dos 
paífos o eftrondo que fazia, eElRêy man- 
dava logo faber , que peíToa era aggrava- 
da , e de quem , porque á mefma hora alli 
era defaggravada , de que já fallei nas ou- 
tras minhas Décadas ; e fe agora o trago 
aqui , he pêra contar hum cafo , que ha pou- 
cos annos aconteceo. Eftava alli hum Ca- 
pitão fazendo aquelias viagens, de que era 
provido : tinha efte Fidalgo hum fermofo 
cafre, que o Príncipe cubicou; e defejan- 
do-o muito , mandou commetter ao Senhor 
com muito dinheiro , que lhe elle não quiz 
dar pelo Príncipe fer Gentio. Chegando-fe 
p tempo da embarcação, mandou-lho o Prin- 

ci- 



<• Década XII. Cap. IV. ' 471 

cipc tomar ; e dando-lhe rebate deita for- 
ça que lhe faziam , foi-fe ao Paço , e deo 
po Í1110 huma , ou duas pancadas , e logo 
fe mctteo em huma embarcação, que tinha 
muito ligeira , e foi-fe pelo rio abaixo em- 
barcar na lua náo , que eftava dalli a algu- 
mas léguas no porto de Coímim. EIRey 
tanto que ouvio o fino , mandou logo fa- 
ber quem era o queixolb ; e como os feus 
lhe não podiam mentir fobpena de morte, 
contáram-lhe tudo o que paíTava. Pelo que 
mandou com muita prefla os Miniítros a 
tomar o Cafre a cafa do Príncipe , e que 
logo com muita brevidade fe entregaíle a 
feu dono; e fabendo fer já embarcado , to- 
maram huma manchua muito ligeira , e fo- 
ram feguindo o Capitão até á náo , e en- 
tregáram-lhe o feu Cafre ; e da parte de 
ElRey lhe pediram grandes perdões; e in- 
do o Príncipe ao Paço , o reprendeo o pai 
com muita cólera , e lhe diffe , que apren- 
delTe a fer Rey ; porque fe elle fazia for- 
ças , que efperava fizeíTem os feus ? Pala- 
vras eram eftas não de Príncipe Gentio, e 
fem lume de fé, fenão de hum grande Ca- 
tholico, e temente a Deos. Oh quem vira 
nos pateos das cafas dos Reys Chriílãos 
outros finos como eftes , porque então fe- 
riam elles fabedores das forças , aggravos , 
injuítiças, e tyrannias. que fe fazem a feu» 

va£ 



472 ÁSIA de Diogo de Couto 

vaflallos , de que fe não queixam fenão a 
Deos ! E bem certo he , que fe fouberam 
muitas coufas deitas , que as emendaram, 
c calligáram até nos Príncipes feus filhos. 
Tinha EIRey em feus Paços huma fer- 
moíiílima varanda toda cozida em ouro com 
riquillimas grades toda em roda, a que fe 
aílomava duas vezes no dia, e aífentava-fe 
em hum foberbiífimo throno ; e em baixo 
citava outra varanda mui grande defcuber- 
ta a elle , onde citavam os feus Officiaes 
da Juítiça , e Fazenda , e Capitães , e Go- 
vernadores de Províncias , e dalli lhe da- 
vam relação de fuás coufas , e elle lhes da- 
va feus defpachos : e todas as vezes que 
EIRey fe aílomava a cita varanda , fe tan- 
giam fete trombetas de prata. E quando 
eíte Rey queria ir fora, hia em huma cha- 
rola forrada de ouro, com muita pedraria, 
c era levada aos hombros de trinta e féis 
homens principaes , diante de quem fe hiam 
tangendo as fete trombetas de prata, e ou- 
tras que o nao eram , e ao redor da cha- 
rola hiam fete fombreiros de tomar o Sol , 
forrados de ouro : e pelas ruas , por oríde 
hia , todas as peífoas que por ellas anda- 
vam fe recolhiam ás cafas ; eaífentados no 
chão, em quanto paífava , eítavam com as 
mãos alevantadas. Eis-aqui parte da poten- 
cia j e riqueza deite bárbaro > e muitai ou- 
tras 



Década XII. Cap. IV. 473 

trás coufas fe acharam na minha fexta Dé- 
cada y onde fe podem ver. 

CAPITULO V. 

Do cruel , e miferavel jim que teve efte Rey- 

no de Pegú no anno de mil e feisten- 

tos y em que andamos. 

TEmos moftrado o poder , e grandeza 
deite império ; agora moílraremos quão 
depreífa , e miferavelmente tudo ifto aca- 
bou y que parecera que foi hum fonho o 
que remos dito , e hum raio que paífou , fem 
deixar rafto de coufa 3lguma. O cafo foi 
como direi. Succedco virem a efte Monar- 
ca y de que temos fallado , noras que o Rey- 
no de Sião fe lhe tinha rebellado ; pelo que 
mandou com muita brevidade ajuntar feus 
exércitos , e defpedio com elles feu filho 
Mampa Raja, que chegando áquelle Rey- 
no lhe começou a fazer guerra , em que 
aconteceram cafos muito notáveis , e hou- 
ve grandes feitos em armas , que fc verão 
na noífa onzena Década , e por fim foi mor- 
to o Príncipe Mampa Raja, e feu exerci- 
to desbaratado , e as reliquias delle chega- 
ram ao Reyno de Pegú. E fabendo aquel- 
le Rey o cafo , foi tanta a fua dor , e pai- 
xão y que fez extremos exorbitantes pela 

mor- 



474 ÁSIA de Diogo de Couto 

morte do filho. E hum delles foi mandai* 
lançar pregões por todo o Reyno de Pe-> 
gú , com penas de morte contra toda a pef- 
iba , de qualquer qualidade que foíTe , que 
fe não moítraííe triíte , e não puzeífe dó 
por feu filho , e que dentro em tanto temi 
po não houveíTe feitas , nem fe fizeíTem ca- 
lamentos , nem outra coufa que tiveífe fe- 
melhança de alegria, aílim no exterior, co- 
mo no interior. 

Eítando as coufas neíle triíte , e mife- 
ravel eítado , fuccedeo fazer hum Pegú hum 
caí amento de huma lua filha em muito fe- 
gredo , e efcondido ; e como em todos os 
eílados da vida não. faltem malfms , foi if- 
to logo dito a EIRey , que fentio tanto 
aquelle negocio, como a própria morte do 
filho , por cuidar que os Pegús fplgáram 
com ella , e que era aquillo modo de ale- 
vantamento , pois começavam de defobe- 
decer a feus mandados : e imaginou tanto 
mito, que veio a dar em outros extremos 
fora de toda a razão ; e o primeiro a6Eo 
que fez delles foi mandar lançar pregões,- 
que todo o feu vaííallo caíta Pegú foííe á 
Corte efcrever-fe , e ailignalar-fe por cati- 
vos deEiRey; e o ferrete que lhes punham 
pêra ferem conhecidos por eíTes , era huns 
ferros quentes nos braços com os nom.es 
de todos,, e. diziam mais : Cativos de El- 

Re 7 , 



Década XII. Cap. V. i 47$ 

Rey , como nós vimos cm Goa hum Por- 
tugucz bem honrado y que foi cativo deite 
Rey , quando tomou a Cidade de Sião , que 
fe chamava António Toícano, que em ou- 
tra Década já referi. Logo que iíto fucce- 
deo , que foi em Março , e aos quatro do 
Maio feguinte , padeceo a Lua hum eclipíe 
eítando cheia , que fe encub riram as três 
partes , ficando de cor parda íobre efçuro 
muito malenconizada. E ainda que iíto acon- 
teceo o anno de 94. que cabia no tempo 
de Mathias de Alboquerque , foi neceíla- 
rio guardallo pêra aqui, pêra contarmos os 
males deite Reyno todos juntos y enao por 
pedaços. 

Eíte negocio de fe aílignalarem os Pe- 
gús por cativos tomaram todos muito mal ; 
e logo começou a haver por todas as Ci- 
dades do Reyno grandes alevantamentos 
contra os homens que governavam; eajun- 
tando-fe todos com poderofos exércitos , fo- 
ram á Cidade de Pegú em bufca do Rey , 
e lhe deram muitas vezes batalhas cruas , 
em que os Pegus foram de todas desbara- 
tados pêra fuás Cidades. 

Vendo aquelle Rey o alevantamento dos 
Pegús 5 tratou de os extinguir , e acabar de 
todo ; e não achou outro meio melhor que 
defender-lhes os mantimentos. E ppra ifío 
mandou lançar muitos pregões com pena 

de 



47 6 ÁSIA de Diogo de Couto 

de morte , e das mulheres , e filhos , que fé 
não femeafiem os campos , nem fe trouxef- 
fem mantimentos de róra , o que fe cnm- 
prio á rifca por tempo de dous annos con- 
tínuos , com o que chegaram os Pegús ao 
ultimo da defefperaçao , porque chegou a 
valer o candil de arroz , que iam vinte al- 
queires , quinhentos , feiscentos , e ainda 
mil pardaos ; e como os pobres nao tinham 
com que o comprar , morriam de fome mi- 
lhares delles pelos campos , e pelas villas , 
e aldeãs ; e foi a coufa de feição, que mui- 
tas ficaram defertas , e deshabitadas ; e quan- 
do mandou lançar eíles pregoes , defpedio 
também grandes, e poderoíos exércitos de 
Bramas , que entraíTem por todas as Cida- 
des populofas , e mataíTem homens , mulhe- 
res 5 meninos , cães , gatos , e tudo mais 
que tiveíTe vida puzeífem a fogo , e a fer- 
ro, fem perdoarem a nada ; e affim o fize- 
ram. E ufou-fe nifto de tanta deshumani- 
dade, e crueldade com os grandes, e pef- 
foas principaes , que tomando-os ás mãos 
dous e três mil com as mãos atadas , pê- 
ra fe nao poderem ajudar huns a outros , 
os mettiam nuns curraes de madeira com 
muita palha dentro , e punhão-lhes fogo , em 
que todos fe abrazavam , e confumiam : e 
até os Talapoes , que fam os feus Religio- 
iòs, lhe não efcapáram; porque dos Tem- 
plos ? 



Década XII. Cap. V. 477 

f)Ios , donde cftavam abraçados comosido- 
os , os tiravam pêra aquelle incêndio; de 
feição que parecia que mandara Deos noí- 
fo Senhor dos Ceos huma inquifição gerai 
pêra caítigar fuás idolatrias ; e a muitos ata- 
dos de pés , emaos de cento cm cento de- 
ram fundo no mar , onde eram comidos 
dos peixes , que parece que quiz Deos que 
deites nem as cinzas ficaíTem. E porque náo 
ha pennas , nem mãos que poliam eferc- 
ver , nem linguas contar as grandes crue- 
zas que nefte Reyno fe ufárain , baila di- 
zer que foi tão grande o número dos mor- 
tos peias ruas , e peios rios , que eram gran- 
difíimos , que todas as fuás aguas eram vi- 
vo fangue de ribeiros , que corriam pêra 
elíes , fomente dos que morreram á efpa- 
da , não fendo eftes a decima parte, por- 
que os mais morreram de pura fome. Paf- 
íòu o Divino caftigo a tanto 5 que alguns 
viros que havia chegaram a comer os cor- 
pos dos mortos 5 e ainda de outros i que ain- 
da eftavam palpitando. E aconteceo muitas 
Tezes eítar hum deitado no chão morren- 
do , e outros mais esforçados , que tam- 
bém andavam ás voltas com a morte , cor- 
tarem-lhe as polpas das pernas, e alli mal 
aliadas , comerem-nas logo ; e o que hc 
mais pêra admirar, he, que o roefmo, a quem 
as cortavam , comer tombem de fua propri* 



478 ÁSIA de Diogo de Couto 

carne ; que he coufa que nunca já mai$ 
aconreceo 9 nem na deftruiçao de Jerufa- 
lem , nem em outra alguma Cidade ganha- 
da , e entrada de alguns bárbaros. 

E he certo que havia pelas Cidades 
açougues públicos , em que fe vendia car- 
ne humana, E fe fe conta que houve hu- 
ma mulher em Jerufalem , que comeo o fi- 
lho , aqui houve mais de mil 5 que os c£* 
pedaçáram , e comeram : e ainda houve mu- 
lheres , que nao efcapáram aos maridos, 
nem elles a ellas. E muitas vezes aconte- 
ceo viverem muitas peííoas em huma cafa , 
e o primeiro que de noite adormecia fer 
logo efquartejado , e repartido pelos outros , 
e affim poucos , e poucos fe foram comen- 
do huns a outros. Alguns andavam como 
lobos famintos pelas ruas abufcar eíla car- 
niíía , e cortarem as cabeças aos que efta- 
vam acabando , e fenderem-Ihas , e chupa- 
rem-lhes os miolos aílim crus. E porque cf- 
ta terra de Pegú he muito falta de lenha, 
e pedra , faziam das caveiras , três e qua- 
tro juntas , fogões , e com os oífos dos mor- 
tos coziam a mefma carne , que tiravam 
delles. E chegou a ira de Deos a tanto con- 
tra eftes idólatras 5 que he certo que todos 
os que comiam defta carne logo fe lhes 
encarniçaram os olhos , e ficaram como abra- 
zados . e com iífo duravam pouco. 

A 



fv; Década XIL Cap. V. 479 

^ A efta carniífa acudiram as feras dos 
matos , e entraram pelas Cidades cheias de 
corpos mortos , e nelles fe encarnitTavam 
cruelmente ; e as gralhas , milhanos , cor- 
vos., e outras aves andavam pelas ruas com 
os ínteftinos dos corpos nos bicos corren- 
do por ellas. Que mais fe pôde contar, 
nem quem ouvio outro tal eaífigo como ef- 
te ? porque cuido que foi maior que o di^ 
luvio geral 5 que aquelle aífogou logo to- 
dos os viventes , que fe fumíram debaixo 
da agua , e nao poder cada hum mais que 
ter tento em fi , e duraria feu trabalho hu- 
ma , ou duas horas que nellas fe confumio 
tudo ; mas iílo he outra ira de Deõs , que 
fó de a ouvir tremem as carnes. Os rios , 
fontes , e tanques tudo era íangue , e nao 
havia onde poderem beber ; e a mim me 
diíferam alguns Portuguezes , que fe acha- 
ram na Cidade dePegú, que o rio quepaf- 
fava de longo delia era fangue , e que ef- 
tiveram arrifeados a morrerem de fede ; 
mas a neceílidade os obrigou a beberem 
antes do rio , que era corrente , que nao 
das fontes, porque tomavam a agua , ecoa-^ 
vam-na em jarras , e aílim a bebiam por 
não . poderem mais. E nao parando nifto 
a ira do Ceo , fuecedêram todos os dias , 
que eílas cruezas duraram, que foram mui- 
tos 3 grandes terremotos , relâmpagos, et 

co- 



480 ÁSIA de Diogo de Couto 

coriícos efpantofos; elogo apôs iílo íobre* 
veio peite neftes Reynos tão cruel , que 
acabou dearrazar tudo, de maneira que fe 
affirma paííarem os que morreram de três 
milhões de homens. Os vaíTallos Bramas 
deite Rey vendo tantos , e tão grandes ma- 
les • fugiram pêra os Reynos do fertão. E 
chegou eíte bárbaro a eítado , que fe vio 
defamparado de todos ; e vendo-fe fem re- 
médio , mandou chamar o Rey de Tangu , 
que era feu primo , cunhado , e vaíTallo , e 
lhe entregou o Reyno , e foi-fe com elle 
pêra o outro quaíi como cativo com fua 
mulher , filhos , e parentes da Cafa Real , 
que todos aquelloutro tyranno matou com 
peçonha, e mandou levar os thefouros de 
regií pêra feu Reyno. E affirmam os Por- 
tuguezes , que alli fe acharam que efeapá- 
ram , que foi o ouro , a pedraria , a prata , 
e as riquezas tantas , que fe gaitaram três 
mezes em fe acarretarem com mais de du- 
zentos elefantes , deixando outras coufas , 
que puderam fazer muitos Reynos ricos ; 
porque fó a artilheria que ficou naquelía 
Cidade em armazéns fermoiíifimos , roram 
quinze mil peças todas de bronze, e dous 
armazéns mui grandes cheios defalitre, en- 
xofre, pólvora, pelouros, e thefouros en- 
tulhados de veludos , roupas, beijoim, c 
marfim 7 e outras coufas, de que depois o 

Rey 



Década XII. Cap. V. 481 

Rey de Arracão fe aproveitou , como em 
feu lugar diremos , e affim ficou todo efte 
Rey no de Pegú deferto fem quem o po- 
voaífe ; o que fuccedeo eíle verão paliado 
de noventa e nove , coufa que pode fazer 
tremer as carnes aosEmperadores do mun- 
do verem homem a potencia , que contei 
defte Rey Brama , e os carros tão poten- 
tes , em que entrou triunfando , quando veio 
de Sião ; e hoje deixar feu Reyno > e en- 
tregar-fe a hum feu vaílallo como cativo y 
que logo o mandou matar 5 e a toda fua 
geração , fem delle ficar memoria alguma , 
pêra fe virem a temer deites efcarneos 
do mundo 5 que affim lhes podemos cha- 
mar. 

Tem eíles Pegús em feus livros huma 
profecia , que affirmava que naquelle tem- 
po fe acabaria a Monarquia dos Bramas > 
como acabou } e que viriam gentes eftran- 
geiras Galas , e Franquis fenhorear aquel- 
le Reyno. E que ornar pariria pelos rios, 
c coftas do mar mulheres brancas , e fer- 
mofas , e que haviam de fer filhas do ven- 
to: e que hum Rey que os havia de fenho- 
rear teria eftas feições , homem de gran- 
des olhos , orelhas grandes , braços com- 
pridos , cabeça ornada de muitas pedras 
preciofas , os peitos , e hombros cheios de 
rubins, e diamantes , os pés de cágado, c 
Cauto. Tom. ult. Hh na 



482 ÁSIA de Diogo de Couto 

na boca da parte direita fobre o dente da 
preza outro cavalgado, 

Iíto interpretam alguns deita maneira. 
Galas , e Franquis ferem os Portuguezes, 
porque em toda a índia nos chamam Fran- 
quis , que quer dizer Chriíiaos , porque em 
todas as Províncias da Chriftandade cha- 
mam Franquia , ou Franquiftan. As mulhe- 
res alvas , e fermofas , filhas do mar , e do 
vento , fam as Armadas Portuguesas , que 
ham de aportar áquelías partes, O Rey 
grande entende-fe na Monarquia , e poder. 
Pelos olhos grandes, vigilante , que veja tu- 
do , e que tenha muitos do feu confelho, 
pêra que com elle o ajudem a ver, e go- 
vernar feus Reynos. Orelhas grandes , que 
ouvirá bem , e fará juftiça. Cabeça ornada 
de pedras preciofas , que fera íenhor de 
muitas Coroas, e Reynos. Peitos, e hom- 
bros cheios de rubins , e diamantes , que 
fera ornado de muitas virtudes, e prudên- 
cia. Braços compridos , que lerá grande 
Conquiftador , e que por feus Capitães con- 
quiltarám longe muitos Reynos. Pés de cá- 
gado , que fera grande fenhor no mar, e 
na terra. O dente da preza cavalgado ou- 
tro fobre elle , que ajuntaria outro império 
ao feu. Tudo iíto podemos interpretar dos 
Rcys de Portugal. E já neíle tempo come- 
çaram a apparecer por aquellas partes aquel- 

las 



Década XII. Cap. V. 48? 

las filhas brancas , e fermofas do mar , c 
do vento ? que fam Aias Armadas , que por 
aquellas partes tem alcançado vitorias , e 
com a Fortaleza de Syriao > que tem na- 
quelle Reyno , parece que já tomou pofle 
delle. E quererá Deos noíto Senhor que 
o poílua ainda todo 5 e que traga tantos 
povos idólatras á manada dos feus Fieis. 

CAPITULO VI. 

De quem era o Príncipe de Abada xam , que 

efie anno de féis centos fe fez Chrifião y 

e veio ter a efta Cidade de Goa. 

POrque não he pequeno negocio 5 nem 
de pouca importância em tempo deite 
Conde Vi Íb-Rey fazer-fe Chriftão humPrin- 
cipe , quarto neto do Grão Tamorlão y fi- 
lho de EIRey de Badaxam, não quizemos 
pairar por ifto pêra darmos graças a Deos 
nofib Senhor de vermos hum Principe, fi- 
lho deRey, nafeido, e creadolá nos efcon- 
didos montes da Scytia Afiatica vir de tão 
longe , e por tantos rodeios, como logo di- 
remos , bufear a agua do fanto baptiAriO , 
movido fó do toque de Deos noflb Senhor, 
que o tinha efeolhido , e predeftinado pê- 
ra efte tamanho , e tão foberano bem. E 
pêra darmos a conhecer efte Príncipe , e o 
Hh U tron- 



484 ÁSIA de Diogo de Couto 

tronco de que procede , he neceflario to- 
marmos iíto defde feu princípio pêra me- 
lhor entendimento de tudo. 

No primeiro , e fegundo Capitulo do 
decimo Livro da nofla quarta Década dê- 
mos já relação daquelle grande Chinguif- 
caii fenhor do Catayo , e como íahio de 
feu império a conquiítar as Provindas da 
índia maior, e toda a Sogdiana , eBaítria- 
na , Bale , Bochata , Camarcan , Períia , e 
outros muitos Reynos , que repartio com 
feus lillios por eíta maneira. A Provincia 
Turqueftan , que jaz abaixo dos montes 
Imaos , deo a feu filho Turch , de quem 
ella tomou o nome; e de Eítan, que quer 
dizer Provincia , fe veio a chamar a Pro- 
víncia deTurcheíían, como lhe os Geógra- 
fos chamam , principalmente os Parfeos. 
E aflim affirmam alguns Efcritores , que da- 
qui fahíram os Turcos a conquiílar a Per- 
íia. E a Natholia chamando-fe aflim da Pro- 
vincia donde fahíram , e não pelo que af- 
firmam alguns Efcritores da Europa , como 
temos já bem moftrado. 

Ao outro filho chamado Chachatá deo 
a Provincia Camarcant com tudo o que jaz 
entre os famofos rios Oxo 5 e Lazartes , de 
quem ella também tomou o nome 5 chaman- 
dc-íe Chachata > e não Zagatai , como os 
Geógrafos modernos lhe chamam. 



Década XII. Cap. VI. 48; 

* A outro filho chamado Balolo deo o 
Reyno do Coraçone , e Períia. A outro fi- 
lho chamado Husbeque deo aqueila Pro- 
vinda , que jaz lbbre os montes Imaos , 
em que entram os Pveynos deCandux, Cax* 
car, e eíte de Badaxam , de que havemos 
de tratar, e outros, que tomaram delle o 
nome, e todas fe chamaram Usbequia , que 
depois conquiílou a Provincia de Camar- 
cant da mão de feu irmão Chachata. 

Todas eílas Provincias deixaram o no- 
me de Chachatai , e hoje fe chamam Hus- 
bequia , por ferem todas de hum fenhor , 
e por tempo fe dividiram todas em os ne- 
tos , bifnetos , e trefnetos deíle Chachata. 
Efempre aquelles Pveynos tiveram eíte no- 
me, que ainda hojeconfervam , até vir tu- 
do ao poder do Grão Tamorlão , que os 
conquiílou , e por fua morte fe repartiram 
eíles Reynos por feus filhos , e netos. 

E deixando eíles , de que já dêmos re- 
lação nas outras Décadas , tratemos do fi- 
lho Mirzaholoc Baxa , que herdou o Rey- 
no de Badaxan , e por fua morte ficou a 
feu filho Ocenxa , e a elle luecedeo feu fn 
lho Mutula Xa. E a elle feu filho Solei- 
mamxa, que reinou mais defeílenta annos > 
e fendo já de noventa muito decrépito , en- 
tregaram os Grandes o Reyno a feu filho 
Abraemo Xa > que teve grandes guerras com 

Phir 



486 ÁSIA de Diogo de Couto 

Phir Mahamede Matacan 3 Rey de Baha-** 
le, e Camarcan , e nellas foi eíle Abrahe- 
mo morto , e fuccedeo-lhe no Reyno feu 
filho Xaroc Xa. E havendo fete annos que 
reinava , fe moftrou mui desliumano 5 e deo 
em fazer grandes cruezas nos vaílallos , e 
em matar os Grandes. Peio que chamaram 
em feu favor aAbdulacan, Rey de Camar- 
can ? que naqueile tempo reíidia na Cida- 
de de Balche 5 que veio com hum groíTo 
exercito , e achou o Rey Xaroc Xa muito 
fortificado dentro na Cidade de Badachan, 
de que todo o Reyno tinha o nome > e 
pofto que alguns dos feus fe paliaram ao 
Abdulaxan , os mais acudiram a defender 
fua pátria. E todavia apertou elle tanto 
com aquella guerra 5 que poz aquelle em 
eílado de defefperação , e àífiiri deixou o 
Reyno nas mãos do inimigo , eeíle fe aco- 
lheo pêra a Corte do Grão Mogor, onde 
então reinava Hecbar Paxá , que era tão pa- 
rente , que cahiam ambos em quintos ne* 
tcs do Grão Tamorlão ^ que o agazalhou 
com o mandar prender. E antes que elle 
deixafle o feu Reyno 3 mandou fua mulher, 
e hum filho mais moço , que he eíle de que 
falíamos , pêra huma Fortaleza inexpugná- 
vel chamada Culabo , aonde Abdulacan os 
foi cercar ; e depois de os combater fete 
mezes , nao podendo os de dentro foífrer 

os 



Década XII. Cap. VI. 487 

>os trabalhos do cerco , abriram as portas 
ao inimigo , que fe apoderou de tudo, e 
houve ás mãos a Rainha , e o Infante feu 
filho , e os levou comíigo á Cidade de Bo- 
chará, e os entregou a humCaífis, que era 
entre ellcs como Bifpo , chamado Cojagi- 
lan 5 onde eítiveram dous annos e meio , paf- 
fando-fe o Abdulacan pêra a Cidade de 
Camarcant , que era oito dias de caminho 
da de Bochara ao Norte. E depois de ef- 
tar lá > mandou hum Capitão com cartas 
ao Caílis , pêra que lhe entregafle o Infan- 
te , que tinha prezo ; e deo-lhe por regi- 
mento , que como o houveííe ás mãos o ma- 
taíle , e a cem peífoas mais que com elle 
eftavam prezas. E fabendo o CaíTis o que 
o Abdulacan mandava , entregou-lhe as pef- 
foas que pedia , e ao Principe efcondeo , 
e em feu lugar deo hum moço , que fe pa- 
recia muito com elle, porque fo^a eíteCaf- 
íis de feu pai , e lhe eftava mui aífeiçoado. 
Depois diíto mandou o Abdulacan a feu 
filho AbedulMonenchan aconquiftar as ter- 
ras do Coraçone , que eram do império 
Períio , e nellas eítava por Governador feu 
filho Xaabas, que hoje reina nelle, que lhe 
ganhou as Cidades de Heri Maxet , e ou- 
tras. E profeguindo-fe eíla guerra, mandou 
o Turco Amu rates hum Embaixador ao 
Abdulacan a tratar de pazes > e amizades 

en- 



488 ÁSIA de Diogo de Couto 

entre elle , e o Perfa. E os refpeitos ,'por 
que fe quiz metter de peimeio, dizem al- 
guns que foi temer-fe que o Abdulacan con- 
quiftaítc os Reynos da Períia , e fe fizefle 
com iíTo tamanho fenhor 3 que tentaífe con- 
quiilar-lhe feus eílados , porque eíla nação 
dos Husbeques era mui receada entre Tur- 
cos por ferem grandes cavalieiros , e mui- 
to cruéis, e não lhe vinha bem telios por 
vizinhos. E alguma compoílção fez efte 
Embaixador entre efi.es Reys, íicando-llie as 
Cidades , que o Husbeque tinha ganhadas 
ria Província Coraçone , como eu conto tu- 
do iílo na minha onzena Década muito lar- 
gamente no tempo do Governador Manoel 
de Soufa Coutinho , e Mathias de Albu- 
querque. E ao partir-fe eíle Embaixador 
pêra Conftantinopla lhe entregou o Caílis em 
grande fegredò o Infante de Badaxan pê- 
ra o deixar paliar á cala de Meca , o que 
elle fez; e depois de feita a romaria , fe tor- 
nou pêra Badaxan disfarçado 5 pêra ver fua 
mai , que achou em huma aldeã junto da 
Cidade Culab , que o Abdulacan lhe tinha 
dado pêra fua vivenda, e defpeza. Tanto 
que ella vio o filho já homemzinho , e que 
moftrava grande animo , negociou-lhe qui- 
nhentos homens de cavallo , com que foi 
aífaltar a Cidade Culab , e a entrou , e to- 
mou > e nella fe fortificou com fua mãi, e 

lo- 



Década XII. Cap. VI. 489 

' logo lhe acudio gente daquellc Reyno , com 
que em poucos dias poz em campo doze 
mil de cavallo, com que foi íitiar a Cida- 
de Calais Gafar , que logo fe lhe entregou , 
e o mefmo fez a Cidade Queixume; e af- 
fim foi engroííando mais feu campo , e vol- 
tou fobre a Província Talacan , que gover- 
nava hum Usbeque vaflallo , e parente de 
Abdulachan , chamado Mahamed SoltanDi- 
van , e ganhou eíía Província , e ao que a 
governava mandou cortar a cabeça. 

As novas deitas couías chegaram a Ab- 
dulachan ; e fabendo o que paliava , e co- 
mo o Infante filho de EIRey Xaroch, que 
elle mandara matar 3 que eílava em poder 
do Caílis j a quem o elle tinha entregue , era 
o que lhe fazia toda a guerra, mandou le- 
var diante de fi o Caílis , e perguntou-lhe 
porque não entregara aquelle Infante, pê- 
ra o matarem como elle mandava ? Ao que 
o Caílis lhe refpondeo com muita liberda- 
de, que elle fora de feu pai, e lhe come- 
ra o feu pão , e que não era licito , nem 
lhe feria bem contado ufar de tamanha in- 
gratidão com o filho doRey que o creára, 
e de quem tinha recebido tantas mercês ; 
e que fe lhe parecia que errara em feu fer- 
viço, que alli eftava a fua cabeça , que lha 
mandaíle cortar em lugar da do Infante. 
O que viíto pelo Abdulachan com fer bar- 
ba- 



4po ÁSIA de Diogo de Couto 

baro, lhe perdoou; e por feu refpeito paf- 
fou áquelle Infante hum Alvará de perdão , 
em que lhe concedia também a Cidade Ta- 
lachan pêra viver nella com fua mai. 

O que feu filho Abedul Monencham 
não quiz confentir, nem guardar o feguro 
que feu pai dava aeíle Príncipe, antes for- 
mou hum poderofo exercito com que foi 
contra efte Infante, e o cercou na Cidade 
Culab , onde o poz em tanto aperto de fo- 
me , que lhe foi forçado fahir-fe efcondi- 
do com fua mai , mulher , e filhos , e trin- 
ta peílbas , com que fe paliou a hum feu 
cunhado, irmão de fua mulher, fenhor de 
huma Cidade que lhe o Abidulachan tinha 
dado ; e como lhe entregou tudo aquillo , 
paífou-fe á Cidade Cabul , que era do Grão 
Mogor, em tempo que entre feus morado- 
res havia grandes guerras ; e temendo-fe 
que o matafíem , fe acolheo outra vez pê- 
ra a Períia. E eftando na Cidade Casbirn , 
encontrou com huns homens , que fe creá- 
ram em caía de EIRey feu pai , que fer- 
viam ao Rey da Períia , a quem fizeram a 
faber delle; e mandando-o EIRey bufcar , 
fez-lhe muitas honras, e deo-lhe peças mui 
ricas, e mandou dar cafas , e ferviços. E 
defejando elle de ir á Corte do mogor, 
onde feu pai eílava, o fez a faber áquelle 
Rey , e partio-ie pêra Ormuz pêra daili 

paf- 



Década XII. Cap. VI. 49 1 

paliar ao Cinde, e daiú a Laor, onde fcu 
pai eftava. 

E andando na Ilha de Ormuz defconhe- 
cido , eíperando tempo pêra le partir por 
mar pêra o Cinde , vifirava algumas vezes 
a Igreja dos Padres da Ordem do glorio- 
fo Padre Santo Agoftinho ; e vendo aquel- 
le Templo , a limpeza , e ornamento de 
feus Altares , ficou muito edificado. E em 
algumas práticas que teve . com aquelles 
Religioíbs , veio a entender a verdade , e 
pureza de nofla Lei , e a mentira , e falíí- 
dade da de Mafamede ; e tocando-o Deos 
interiormente , pedio com muita inftancia 
o fanto baptiímo , que lhe deram na en- 
trada deile anno , em que andamos , e dal- 
li foi trazido pelos Religioíbs de Santo 
Agoftinho a efta Cidade de Goa com boa 
companhia de criados , e o agazalháram na 
feu Moíteiro , onde o eu fui vifitar muitas 
vezes, e me deo de fua vida, e peregrina- 
ção huma larga relação , e depois caiou 
nefta Cidade com huma mulher nobre : e 
eíte anno quereria Deos chegaíTe a falva- 
mento ao Reyno , porque fe embarcou pê- 
ra lá na Armada de Luiz Mendes de Vaf- 
concellos. 



CA- 



492^ ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIÍ. 

Qjtc trata da parte a que jaz efie Reyno 
Abadaxam : e da defcripção de (ia Provin- 
da de Laor até efta Cidade , e delia até 
o Cathayo : e de como ejia Provinda não 
he a China ; como alguns cuidaram , e a 
que parte jaz. 

JA que acabámos agora de fallar nefte 
Reyno Abadaxam , cujo Príncipe fe fez 
Chriítao , pareceo-nos bem moftrar a que 
parte de Afia jaz, e fazermos huma defcri- 
pção defdeLaor, Corte doMogor, até el- 
íe , e dahi até o Cathayo , pofto que na 
noífa quarta Década temos dado boa rela- 
ção deita Província , e moftrado a que par- 
te jaz ; agora o faremos de novo muito 
particular , e diftinéiarnente a modo de ro- 
teiro , fem moftrar graduação das Províncias , 
e Cidades principaes , porque até agora não 
houve quem tomafíe por aquellas partes a 
elevação do polo Anítico ; e ifto fervirá 
pêra os viftos na Geografia , que lhes não 
fera de pouco goílo ; porque fobre efta Pro- 
víncia Cathayo houve entre os antigos mui- 
tas opiniões , e andaram ás apalpadelas co- 
mo cegos bufcando efte império, fem aca- 
bar de dar com elle , pêra o fituarem em 
feus mappas ? e globos na verdadeira altu* 

ra 



Década XII. Cap. VIL 493 

ra cm que eftá. E ainda os modernos não 
acabaram de atinar nefte negocio, em que 
íeguirei alguns roteiros, que tenho de pef- 
loas, que penetraram todas eflas terras até 
enfacarem toda a Afia. E começaremos ef- 
tá defcripçlo, como diífemos , de Laor até 
á Cidade Cambai ec , pondo as Cidades , e 
lugares por diítancias de jornadas de cáfi- 
las , que andam por dia quatro , ou íinco 
léguas , e muitas vezes menos. 

Partindo de Laor ,' que eftá em trinta 
edous gráos e meio, vam caminhando por 
aldeãs fertes até á Cidade Taec, e por jun- 
to delia pada hum fermoío rio. Dalli vam 
ter á Província Pafaver : nefte caminho pe- 
lo vagar das cáfilas fe poe hum mez, e ás 
vezes ha dia que não fazem jornada. E em 
outro mez vam ter á Cidade Guidali , e 
delia em quinze dias á fermofa Cidade Ca- 
bul, que lie do Mogor, e eftá em trinta e 
nove gráos ; e os que caminham por aqui , 
affirmam que fam de Laor até efta Cida- 
de Cabul quatrocentas léguas , o que cui- 
do não pode ler, fenao fe caminharem por 
rodeios mui grandes , e fempre até aqui ca- 
minham ao Norte; e defta Cidade ao mef- 
mo Reyno , carregando fobre o Nordeftc, 
vam em quinze dias ter á Cidade Caracar 
grande, e mui bem murada; e delia a dez 
dias até á Villa Paravan , que he a derra- 

dei- 



494 ÁSIA de Diogo de Couto 

deira dos Reynos do Mogor pêra a par- 
te do Norte. Daqui poríima de huns mon- 
tes 5 que fam parte dos Caucafos , em vinte 
dias chegaram a huma Villa chamada An- 
garam. E em outros tantos á Cidade Cal- 
cha , onde todos os feus naturaes fam al- 
vos , e framengados , e tem eíta Cidade 
muitas aldeãs ao redor muito profperas. 
Deitas em dez dias vam á Cidade Jalala- 
bao ; e dalli em quinze a outra chamada 
Talhan ; e dalli vam a Icxim terra do Ab- 
dulacan fenhor de Camarcant. E dalli em 
oito dias vam ter á Cidade Abadaxan , que 
he a de que tratámos neíte Capitulo atrás , 
que quanto a mim eftá em perto de qua- 
renta e dous gráos. E por aqui fe verá de 
quão apartadas terras 5 e por que rodeios tao 
compridos veio eííe cervo ferido defte In- 
fante de Abadaxan a bufcar as aguas da 
fonte viva do fanto baptifmo , pêra nellas 
fe lavar da torpe > e fedorenta lepra de 
feus peccados. 

Já temos moftrado o fitio , em que ef- 
ta Cidade eftá , moftremos agora o cami- 
nho delia até o Cathayo , e a que parte jaz 
eíle império , e onde o íituam os Geógra- 
fos antigos , e modernos. E a verdade do 
que difto podemos alcançar , feguindo o ro- 
teiro do Padre Bento de Góes , da Com- 
panhia dejefus, que foi por mandado dos 

Pre- 



Década XII. Cap. VIL 495- 

Prelados da dita Companhia de Goa defcu- 
brir efta Provinda da Cidade Àbadaxan* 
Foi eíle Padre caminhando ao nafcente, e 
ao primeiro dia de caminho chegou a Char- 
•chunar, edalli a dez dias aSaipanel, don- 
de fubíram huns altiíTimos montes chama- 
dos Setrimat ; e em vinte dias foram ás 
terras de Sarcol , e outras grandes ferras 
chamadas Chechale, onde havia muita ne- 
ve , e por ellas andaram féis dias até che- 
garem á Cidade de Tangetar , tudo terras 
do Reyno Caxcar , e a derradeira delias he 
a Cidade Síarcan grande , e muito rica. 
Neftas terras ha huma pedra alva, efermo- 
fa muito eftimada dos Chins pela terem 
por preciofa , e entre elles vai muito i e 
chamam-lhe Luxe ; e he tão forte, que abai- 
xo do diamante não ha outra que fe lhe 
iguale na dureza , porque pêra a quebrarem, 
he neceílario amolentarem-nanofogo, pef- 
ca-fe nos rios como aljofre, e tiram delia 
grandes pedaços 5 que pezam dous , e três 
arráteis , fazem delia jóias aflím pêra ho- 
mens 5 como pêra mulheres , e fam mui lou- 
çans , e refplandecentes , e as mais finas 
iam- as que tiram em hum monte chamado 
Canfanguicax , que quer dizer monte de pe- 
dras , que deve de fer o Mons lapideus 
dos antigos Cofmografos. Daqui foram ca- 
minhando por eftes lugares , que todos fará. 

de 



496 ÁSIA de Diogo de Couto 

deHiarcan; e não diz o roteiro quanto lia 
de hum a outro , nem quantos dias gaita- 
ram neíte caminho* Jolchim , Hencalix, 
Alacguir, Bagadec , Gruir, Mofelilec, Ta- 
lec , Hermam , Joanthac , Mungidá , Capi- 
tacol , Chilan , Sare, Quebedal, Combaxi, 
Aconterub , Chaco r , Aefu , Outogrel , Ga- 
fo , Caxen , Dilavai , Singabedal , Ugancu- 
cha. Tudoiíto fam Cidades , eVillas gran- 
des. De Cucha a vinte e íinco dias de ca- 
minho eítá a Cidade Chalis , forte , e mu- 
rada , e delia á de Aramat puzeram quin- 
ze dias. E dalli á Cidade Camul , fem dize- 
rem quantos dias de caminho. E deita Ci- 
dade em nove dias chegaram áquelles ad- 
miráveis muros da China , e vam as cáfilas 
parar a huma Cidade que fica fora , cha- 
mada Kyaicum , que he de Mouros , onde 
o Padre Bento de Góes faleceo de puro 
trabalho do caminho , porque gaitou nelle 
três annos , por fe deter em muitas partes 
muitos mezes ; e de huma vez hum anno 
inteiro efperando monção. 

Eíte caminho , que diflemos , por onde 
o Padre Bento de Góes foi por quarenta 
e féis ? e quarenta e fete grãos , he o de 
cáfilas, por onde coítumam a ir, por fe af- 
faítarem dos defeitos de Lopi , que lhe fi- 
cam abaixo em quarenta e hum , ou qua- 
renta e dous gráos y por onde antigamente 

era 



Década XII. Ca?. VIL 497 

era o caminho ordinário. Efte deferto du- 
ra o caminho por elle quaíi hum mez , e 
todo elJe he areaes , e fem agua , fenao a 
que tem de alguns charcos , em que fe re- 
colhem das invernadas. E por iífo foram 
eftas cáfilas , em que efte Padre hia fubin- 
do tanto ao Norte , a bufcar os montes de 
Abedaxan , e Caxcar , por onde ha fempre 
neves i e muitos rios , e fontes , pofto que 
efte caminho he muito mais comprido ; e 
quem quer atalhar , e ir efcoteiro , vai de 
Laor ao Nordefte a bufcar o Reyno Qui- 
ximir , que eftá em quaíi trinta e quatro 
gráos, em que gaftam fete, ou oito dias, 
porque delle vai a fruta a Laor ainda fref- 
ca 5 por ter abundantemente todas as de 
Europa. E de Quiximir fe paífa por mui- 
tas Cidades , e Viilas a Tibet de Mouros y 
c a outro Tibet de Chriftãos , em que ha 
mais de trezentas léguas de caminho; e da- 
qui vam á Cidade de Lop , onde fe refor- 
mam, e provêm, e entram poraquelles de- 
fertos , que duram hum mez , até darem nos 
campos da Província Cathayo , por onde 
vam paflando por muitos lugares até á Ci- 
dade Cotan, que he já do Cathayo, e fica 
fora dos muros da China em altura de qua- 
renta e fete grãos , e daíli hiam á Cidade 
Cambaíu , porque naquelle tempo nao havia 
os Mouros que hoje ha náquella Província. 
Couto, Tom, ult. li E 



498 ÁSIA de Diogo de Couto 

E tornando ao roteiro do Padre Bento 
de Góes , nelle não achámos que nos déf- 
fe noticia defte Império , nem a que parte 
jazia 5 náo indo elle a outra coufa mais que 
a faber daquella Chriftandade. E o Padre 
Mattheus Reíio, da Companhia, que nef- 
te tempo reíidia na Cidade Pachim , Corte 
do Rey da China , na carta que efcreveo 
aos Padres de Goa , diz , que o Cathayo 
verdadeiramente era na China , e que fora 
delia não havia outro Cathayo ; e que a 
Cidade Cambalu era a meíma de Pachim , 
em que elle eftava , no que parece que fe 
confunde em parte , como logo veremos. 
Todos os Cofmografos , e ainda os Chins 
repartem, todo o Império da China em duas 
partes , como já difíe em outra Década, 
Cim , e Mancim , e os Geógrafos corrupta- 
mente lhe chamam China , e Mangi. Chi- 
na Auílrai , e China Meridional , como Ale- 
manha fe reparte em outras duas partes, 
Alemanha alta, e Alemanha baixa, E affim 
neíla parte da China chamada Mangi po- 
demos afFirmar que he toda efta Província 
de Pachim. Quifai , e aquellas que mais ca- 
hem pêra a parte do Norte , e que efta par- 
te foíTe o Cathayo , ou parte deíle, tam- 
bém a não tenho por dúvida , o que po- 
dia fer por huma deitas duas razões ; ou 
que foííe a própria Província Cathayo , ou 

que 



Década XII. Cap. VIL 499 

que foífe conquiílada daquelle Emperador 
Cathayo ; porque temos em Marco Polo , 
Livro II. folhas quarenta e huma , que ef- 
tando elle com feu pai os annos de 1269. 
no Cathayo, fora Cublaican , quinto Empe- 
rador delle , a conquiftar a Província da Chi- 
na ; pois logo onde era efte Cathayo, don- 
de elle fahio, e onde eíla China que con- 
quiftou ? lenao , fe quizermos dizer que fa- 
hio daquella parte de quarenta e fete até 
fincoenta gráos , e foi conquiftar a Provín- 
cia Mangi , e que puzeífe fua cadeira na 
Cidade Quifai , que por fer fermofiííima y 
c frefquiífima lhe teriam os Chins pofto 
aquelle nome de Quifai , que em lingua 
China quer dizer Cidade do Ceo , a quem 
o Cathayo mudava o nome, e lhe daria o 
de Cambalu , que he o meímo na fua lin- 
gua. Mas he contra efta opinião o que ef- 
tá tão fabido , e o que tantos efcrevenij 
que na Cidade Cambalu houve fempre gran- 
de Chriftandade, e fermofiílimos Templos , 
c hoje no Pachim não ha difto relíquia al- 
guma. Somente diz o Padre Bento de Góes, 
que eftando na Cidade Chincheo , Metro- 
poli da Província Xenfi , foubera que já al- 
li houvera muitos Chriftaos ; e hum irmão 
chamado João Fernandes , que o Padre Re- 
íio mandou em bufca do Padre Bento de 
Góes , por faber fer entrado naquella Pro- 
Ii ii via- 



5^00 ÁSIA de Diogo de Couto 

vinda, diz , que eílando na Província Ho- 
nao 5 foubera que nas Cidades de Sancheu, 
e Sochcheu havia perto de fincoenta annos 
naquelle tempo 5 que foi em feiscentos e 
três , eram povoadas de Chriftãos Cathayos, 
que por temor dos Chins deixaram a Lei 
de Chriíto. O que fe pode ter por certeza 
he 5 que os Chins tornaram aconquiftar tu- 
do o que os Cathayos tinham ganhado na- 
quella Provinda , e ainda muita parte de 
feus Eftados , até os lançarem fora daquel- 
les admiráveis montes , que elles em algu- 
mas quebradas que havia taparam comfor- 
tiílimos muros pêra lhe não tornarem a en- 
trar delles pêra dentro , por onde o Ca- 
thayo ficou delles pêra fora; porque todos 
os Cofmografos lançam em feus mappas 
eíles muros em fincoenta e fete gráos, eiP- 
tando elles na verdade em quarenta e féis, 
ou quarenta e fete , vieram a íituar o Ca- 
thayo em fincoenta e nove gráos. E quan- 
do fe entende a fituaçao do Cathayo , he 
da Cidade Cambalu fua Metropoli ; qke fe 
he certo fer o Paquim 5 que eftá em qte- 
renta gráos , eíles muros da China come- 
çam de fobre o mar na Provinda Quiníí, 
que eftá em altura de quarenta e finco , ou 
quarenta e féis gráos , e vam fenecer na 
Provinda Saníi em quarenta e hum , qua- 
renta e dous gráos. Fazem todos eíles mu- 
ros 



Década XII. Cap. VII. foi 

ros de quatrocentas léguas de roda, c to- 
dos continentes, como os fez agora nova- 
mente hum Henrique Alangerem em hum 
leu mappa , fem fazer diíferença dos altos 
montes , que Iam os verdadeiros muros da- 
quella Província. 

Ora ainda não eftou fatisfeito delias 
duas opiniões ; porque muitas peffoas gra- 
ves , e doutas nos dizem que ahi ha Ca- 
thayo, eChriítandadenaquelle Império. Ai- 
ton , Arménio , que foi Frade do Moíleiro 
da Epifcopia , da Ordem Premoftratenfe , 
que fendo fecular eíleve no Cathayo em 
tempo de Marco Polo , que depois de Fra- 
de foi mandado pelo Papa Clemente nos 
annos de 1305'. vinte féis annos depois que 
lá eíleve , ao Emperador do Cathayo , co- 
mo o refere João Eaptiíla Ramnuíio no 
leu livro de varias viagens , que então era 
Tamarchan 6. do número, a lhe pedir foc- 
corro pêra tornar a cobrar a Terra Santa, 
que era perdida os annos atrás de 129 1. 
por fer aquelle Rey Chriftao , e Senhor de 
toda a Alia , que mandou áquella empreza 
feu irmão Halationo , ou Halachu, que fez 
grandes guerras ao Soldão. Pelo que fe vê 
muito claramente que eíleve no Cathayo, 
e que efte foccorro foi de Cathainos , e não 
fahio da China , nem o foccorro foi de 
Chins , que nunca foram Chriftãos , nem fa« 



5m ÁSIA de Diogo de Couto 

híram de fuás terras com feus exércitos- 
Daquelle Grão Chinguifchan , primeiro Em- 
perador do Cathayo , dizem todas as Es- 
crituras Perlas , e Tártaras , que fahio de 
Cambalu , e fora conquiftar toda a Alia, a 
Baélriana, Sugdiana, Períia, e todas as mais 
Províncias , que repartio com feus filhos 
Husbeque , Chaquitai , e outros. E neítes 
Reynos reinaram elle > e feus defcendentes 
até o Grão Tamorlão , de quem defcende 
o Grão Mogor, que hoje he. E poíto que 
o Tamorlão não íuccedeo por linha direi- 
ta , por não vir de linha Real , era Chata- 
tai defcendente daquelles Chathatais , que 
vieram com o Chinguifchan. Donde fe vê 
claramente que efte bárbaro Emperador fa- 
hio do Cathayo , e não da China , e que 
as gentes que trouxe eram Cathaynos , e 
íião Chins. 

Primeiro que efte Aiton , Arménio , Fra- 
de da Epifcopia, foffe ao Cathayo, tinha 
já lá ido os annos de 1255* outro Aiton 3 
Rey da Arménia, a pedir áquelle Empera- 
dor, que era o Cothachan , filho do gran- 
de Chinguifchan , que não mandaífe con- 
quiftar feus Reynos , e que o deixaífe ficar 
nelles , por faber que mandava groífos ex- 
ércitos a conquiftar todos os que havia por 
aquellas partes; e chegando áquella Corte 
de Cambalu , já achou aquelle Emperador 

mor- 



Década XII. Cap. VIL ^03 

morto, eemfeu lugar feu filho Guinachan, 
que lhe fez muitas honras , e teve-o com- 
íigo alguns tempos , e concedeo-lhe tudo 
o que lhe pedio até fazer-fe Chriltão. Ef- 
te foi o fegundo Rey Chriíláo , porque o 
primeiro foi Chinguifchan , que fefezChri- 
ftão , por cafar com huma filha do Hun- 
chão, ouPreíleJoão, que então era Senhor 
de todas aquellas Provindas , como tenha 
moftrado na minha quarta Década , e o Ca- 
tachan feu filho não fó não quiz fer Chri- 
ftão , mas foi grande perfeguidor de Chri- 
ftãos. Eis-aqui não temos coufa que pare- 
ça China , nem que fahiífe delia , contra a 
opinião do Padre Reíio , que affirma que 
fora da China não havia Cathayo. 

Aiton , Arménio Frade , de que affima 
falíamos , fez hum Compendio de todos os 
Reys do Cathayo, em que põe por primei- 
ro o Chinguifchan , que diílemos fer ò pri- 
meiro Chriílão. O fegundo feu filho o Co- 
tacham, que o não foi. O terceiro feu filho 
Ginochan. O quarto hum parente chama- 
do Tamarchan , todos Chriftãos , e eltes fó 
alcançou, eporiíTo efcreveo delles , e não 
falia em Rey da China, nem nella. 

E pêra concluirmos com efta matéria , 
c provar noífa opinião , trarei aqui algu- 
mas práticas , que o Padre Jeronymo Xa- 
yier , da Companhia de Jefus , fobrinho do 

San- 



^04 ÁSIA de Diogo de Couto 

Santo Padre Francifco Xavier , da mefma 
Companhia , que ha muitos annos reíidio 
emLahor, teve o anno paílado de 98. com 
hum Mouro , que era aili chegado de Me- 
ca j que paliaram aííim , que ainda iílo fuc- 
cedeo em tempo do Conde da Vidigueira , 
indo eíle anno paflado ter a Lahor hum 
mercador , que vinha da cafa de Meca tão 
rico , que fe affirmava deixar naquella ca- 
fa mais de cem mil cruzados de offertas , 
que tinha reíidido no Xethai , ou Chathai 
doze, ou treze annos, com quem fe vio o 
Padre Xavier pêra inquirir daquella Pro- 
vinda do Cathayo , e lhe affirmou que ef- 
tivera naqueíle império os annos atrás o 
tempo que diíle , e que a gente delia era 
todaChriíta, e fe chamam por nome com- 
mum Jefuitas ; e que o Rey era Chriítao , 
e que havia em todo aquelíe Império mui- 
tas Igrejas, eque os Sacerdotes traziam lo- 
bas , mantéos , e barretes como os noífos , 
e que havia Mofceiros.de homens , e mu- 
lheres , e que era eíle Império tamanho > 
que tinha 1500. Cidades , e muitas mui bem 
povoadas , e que também havia muitos Ju- 
deos , a que chamavam Mufavis. Tudo if- 
to efcreveo o Padre Xavier de Agará eíle 
Agofto de 99. em que andamos. Por onde 
feverá minha opinião, enao fer o Cathayo 
a China , corao affirma o Padre Refio , fe- 

não 



Década XII. Cap. VIL fo? 

não tudo o que fica dos muros da China 
ao Norte 3 onde ainda hoje fe conferva 
aquella grande Chriftandade naquellas Pro- 
víncias chamadas Georxa , Bagu , Sucur, 
Campion ? e outras , e onde os governa no 
cfpintual aquelleEmperador, a que chama- 
mos Prcíle João ; mas o Emperador do Ca- 
thayo he o Senhor de tudo. 

CAPITULO VIII. 

Da Armada que o Conde Almeirante man- 
dou a Malaca , e foccorro a Ceilão : e 
das ndes do Reyno , que chegaram a Goa 
da companhia de Ayres de Saldanha 9 que 
era partido por Vifo-Rey da índia : e de 
como D. Pedro Manoel foi por Capitão 
Mor ao Malavar , e do que lhe fuccedeo. 

EM Abril paflado teve o Conde Almi- 
rante recado das partes de Malaca de 
como eram paliadas á coita da Jaoa aquel- 
las náos de Hollanda, de que atrás dêmos 
relação no fegundo Capitulo j e temendo- 
fe dos darnnos que poderiam fazer , aííim 
ao commercio da índia , e trato de Portu- 
gal , fe carregai! em de drogas , como nas 
prezas das náos que poraquellas partes na- 
vegaífem dos noíífos mercadores , e fobre 
tudo na alteração que poderia haver nos 

Reys 



$o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Reys vizinhos á nofla Fortaleza de Mala" 
ca ; porque como iam Mouros noffos ini- 
migos , e cada vez que o mereceram lhes 
quebraram os Portuguezes os focinhos , ef- 
tava certo tentarem novidade ; eosHollan- 
dezeSj como rebeldes , folicitarem iíío , por 
ferem eíles os primeiros que áquellas par- 
tes pairaram. Pelo que affentou de mandar 
huma Armada de dous galeões , e três ga- 
leotas pêra lá fe lhe ajuntarem as duas 5 que 
tinha mandado em Maio pafFado , e no- 
meou por Capitão Mor deite. Armada Go- 
terre de Monroy de Beja; e com eíta Ar- 
mada mandou o Conde correr com muita 
preíTa, porque lhe era neceíTario fazella á 
vela em Setembro. E andando occupado 
nefta obra , e nas Armadas do Malavar , e 
Norte , lhe chegaram cartas de Cananor em 
Agoílo , em que o avifavam que nos rios 
de Cota Coulao ; e Canharoto fe faziam 
preítes muitos paraos pêra fahirem a rou- 
bar , e que o Çamorim movia alterações, 
e tratava de fazer huma nova guerra ao 
Eílado contra o contrato das pazes , que 
havia pouco tinha mandado jurar com o 
mefmo Conde por feus Embaixadores , c 
elle jurara em peíToa; eque pertendiam os 
Mouros tornar a alevantar nova Fortaleza 
fobre as mefmas ruinas da que fe lhe ar- 
rafou no fitio deCunhale, coufa muito or- 

di- 



Década XII. Cap. VIIL 5-07 

dinaria no Çaiiiorim , porque fua vontade 
he lua lei , e feu appetite feu prelado , que 
o abfolve logo de quebrar rodos os jura- 
mentos que tiver feitos. E bem he queje- 
ja aílim ; porque que obrigação lhe pode 
pôr hum juramento feito fobre hum can- 
dieiro de azeite muito fujo , e fedorento 
pêra o não quebrar todas as vezes que fe 
lhe offerecer qualquer pequena occafião de 
intereífe. E já fobre efea matéria diífe mui- 
tas vezes algumas coufas fem aproveitarem ; 
porque não fei que fundamento tem os Vi- 
fo-Reys em lhe concederem pazes, pois fa- 
bem , e o tem por coufa infallivel quebra- 
rem-nas logo , e não guardar fé , nem pa- 
lavra por obrigação de fua gentilidade. Por- 
que fe me diílerem que poupavam* niifo 
muito , ainda me calara ; mas nada fe ata- 
lha em fe gaílar a fazenda Real. Prova dif- 
to feja que tanta Armada , e tantos gaílos 
fe fazem nos annos da paz , como nos da 
guerra. Pois fe iílo aífim he , parece que o 
bom fora enfacar eíles inimigos , e não fe 
fiarem delles , nem fe deixarem enganar, 
antes fazer-lhes huma guerra tão contínua, 
que os ponha em extrema neceíTidade , o 
que fefará com fe lhes defenderem os man- 
timentos 5 e Anfião 5 e a navegação de fuás 
náos ; porque então depois de muito can- 
fados , quebrantados 5 e desbaratados , o» 

Nai- 



5*08 ÁSIA de Diogo de Couto 

Naires íe levantaram contra os Mouros, 
que fempre fam a occafião deita guerra, e 
a compram ao Çamorim a dinheiro pelos 
muitos proveitos que tem em fuás nave- 
gações; ou elles fe fujeitáram de maneira, 
que nunca mais pudeíem alevantar cabeça. 

E ainda eítá mui entendido que fe lhe 
fouberem guardar as coitas do Norte , e 
Sul 5 de maneira que não façam roubos, e 
prezas , em quatro annos não teram com 
que armar hum navio , porque a terra na- 
da lhes dá , e as Armadas que deitam fora 
fe fazem das muitas prezas que tomam ; mas 
todos os annos pazes novas , e primeiro 
que fe acabem , logo fe quebram , e outra 
vez guerra, parece jogo de meninos, E el- 
les fazem muito bem de fazerem feu nego- 
cio , quando lhes relevar, pois fabem que 
na fua mão eftá a paz , e a guerra : ora dei- 
xemos iíto , e tornemos a noífo fio. 

Tanto que o Conde Almirante Vifo- 
Rey teve eítas cartas , quiz atalhar os ma- 
les que fe ordenavam , primeiro que os 
Mouros fahiííem com feu intento : e fem 
embargo de efperar por fucceílbr , não fe 
quiz forrar deite trabalho, e defpezas, co- 
mo alguns Vifo-Reys fazem , porque que- 
rem eftar com o dinheiro em punho pêra 
fe pagarem de algumas dividas, ainda que 
fejaoi velhas, e compradas três partes me- 
nos, 



Década XII. Cap. VIII. JOf 

nos , porque efte dinheiro de EIRey não 
fei que tem que tão mão he de arrancar 
das mãos , e tanto o tem por próprio , quan- 
do lhe vai a ellas , que antes querem ler 
fangrados nos braços , que nas bolfas. Em 
fim , o Conde como delejava de fazer o 
ferviço de EIRey, e não lhe poupar lua fa- 
zenda em calo dctanta neceiíidade , pagou 
logo gente pêra o Maiavar, e defpedioD. 
Pedro Manoel com doze navios ligeiros, 
que achou mais preltes 3 com que fe fez á 
vela a quatro de Setembro , tempo ainda ver- 
de, e chuvofo, e foi correndo a coita Ca- 
nara com tormentas , e muito rifco , e re- 
colhendo por âquellas Fortalezas finco na- 
vios , que o Conde tinha mandado inver- 
nar cem companhia de foldados terá lua 
fegu rança ; e com todos juntes fe foi por 
fobre os rios de Cotocoulão , e Canharo- 
to , onde os paraos fe armaram pêra lhe 
impedir a fahida pêra fora. E fobre eíles 
rios eíleve com tanta vigia no mar , e na 
terra , que fe não atreveram os ladrões ar- 
rifear, e aili fe deixou eilar até lhe darem 
recado , que era chegado a Cochim Avres 
de Saldanha , que vinha por Vilb-Rey , co- 
mo logo diremos. 

O Conde ficou dando preíla á mais Ar- 
mada, que havia de mandar ao Malavar; 
e á do Norte , e Malaca , e nos provimen- 
tos . 



5*10 ÁSIA de Diogo de Couto 

tos , e foccorros pêra Ceilão , que pêra tu* 
do ifto havia mifter mais de duzentos mil 
pardáos , que lhe não faltaram , nem tomou 
aos vaíTallos ; porque teve duas coufas e£* 
te Viib-Rey , que já na minha quinta Dé- 
cada louvei ao Governador Martim Affon- 
fo de Sou ia na fua hiftoria , que eram fa- 
ber bemdefpender a fazenda Real , efabel- 
la muito bem poupar , no que fó confííte 
todo o governo deite Eftado ; e quem iílo 
faz , não na toma pêra li ; e como houver 
ifto, fempre fobeja tudo. E tendo eílas Ar- 
madas preftes , quando foram aos três dias 
de Outubro furgio na barra de Goa a náo 
S. Francifco , da companhia de Ayres de 
Saldanha , que tinha partido de Portugal 
por Vifo-Rey a quatro de Abril com qua- 
tro náos , como logo diremos. E alguns dias 
antes da chegada defta náo tinha dito hum 
P^eligiofo da Ordem de S. Domingos , ho- 
mem de muita virtude, e religião, a D. Bri- 
tes , mulher de Cofmo de Lafetá , que na 
primeira náo que chegaffe á barra de Goa 
viria feu marido. E affim foi , porque nef- 
ta veio por Capitão , porque nella tinha 
partido do Reyno Fernão Rodrigues de 
Sá , filho de Francifco de Sá , o dos Ócu- 
los por Capitão Mor das náos da carreira, 
que faleceo no mar, em cujo lugar foi elei- 
to Cofmo de Lafetá , que vinha defpacha-* 

do 



Década XII. Cap. VIII. 5-11 

do com a Fortaleza de Çofala > e huma Com-' 
menda , e viagem da China, e outras mer- 
cês , que por feus ferviços merecia bem, 
não fez no Conde abalo , que fe lhe enxer- 
gaffe vir-lhe fucceífor ; antes com muito fer- 
vor fez a Armada de Malaca á vela dia 
de S. Jeronymo , que he o derradeiro de 
Setembro , que era de dous galeões , hum 
em que hia o Capitão Mór , e no outro 
D. Álvaro da Coita , filho de D. Francis- 
co da Coita , e três galeotas , de que eram 
Capitães Pêro Fernandes de Carvalho , Fi- 
lippe de Oliveira, e Maximiliano de Men- 
doça ; e no mefmo dia fe fez á vela o ga- 
leão dos provimentos de Ceilão , de que 
foi por Capitão Manoel Rodrigues , Geno- 
vez i que era provido na viagem , e nelle 
foram cento e fincoenta foldados ; e por 
Capitão Mór delles Pêro de Mendanha, e 
Martim Cota Falcão hia por Capitão de 
huma companhia de foldados , e Biogo de 
Soufa de Menezes de outra. E mandou o 
Conde muito dinheiro , munições , e outros 
provimentos, porque fempre em princípio, 
e cabo dos verões foi cevando aquella con- 
quifta o melhor que pode. Logo a 27. de 
Outubro furgio o galeão S. João, da com- 
panhia de Ayres de Saldanha , de que vi- 
nha por Capitão Gonfalo Rodrigues Cal- 
deira , que tomou o caminho por fora da 

Ilha 



5^2 ÁSIA de Diogo de Couto 

Ilha de S. Lourenço , e por achar nelle 
bons tempos veio ferrar Goa. Os fucceíTos 
deitas Armadas 5 que o Conde defpachou 
pêra fora , ficam pêra o tempo de Ayres 
de Saldanha , em que fuccedêram. Mas pri- 
meiro que acabemos com o Conde Almei- 
rante , daremos conta do que fqccedeo aos 
três galeões , que em feu tempo mandou 
pêra Maluco , porque ainda he jornada fua. 

CAPITULO IX. 

Do que fuccedeo na viagem ao galeão de 
Ltiiz Boto Machado : e de como os Em- 
baixadores do Achem foram pêra fua ter- 
ra : e de como aquelle Rey mandou ma- 
tar os Hollandezes , que andavam em ter- 
ra , de duas nãos que alli efiavam : e d$ 
que fuccedeo a efias náos. 

i 

JA que deixámos Luiz Boto Machado 
partido pêra Amboino , he neceíTario con- 
tinuarmos com fua viagem , pois cabe ain- 
da no tempo, e governo do Conde Almei- 
rante , como aííima diíTemos. Eíle galeão 
foi com bom tempo tomar a Fortaleza de 
Malaca , onde foram defembarcados os Em- 
baixadores do Achem , e muito feítejados 
pelo bom aviamento , que lhe o Conde deo , 
porque ficava tudo redundando em paz, e 

quie* 



Década XII. Cap. IX. 5:13 

quietação daquella Fortaleza com aquelle 
vizinho , que foi fempre o de que fe mais 
receou que todos. Porque o Capitão , que 
então era Fernão de Albuquerque, os man- 
dou logo embarcar em huma galeota mui- 
to fermofa , e entregou os Embaixadores 
a Affonfo Vicente caiado de Malaca, que 
elegeo por Embaixador pêra mandar aquel- 
le Rey a lhe fazer entrega dos feus , e tra- 
tar negócios de importância : era efte Af- 
fonfo Vicente conhecido daquelle Rey , e 
com elle foi Fr. Amaro, Religiofo da Or- 
dem do Padre Santo Agoítinho , por fer 
prático na lingua , e de boas partes , e fuf- 
ficiencia pêra tratar negócios de tanta im- 
portância. Eíta galeota achou fobre a bar- 
ra de Achem duas náos Holiandezas da 
companhia das que jádiíTemos, que pelei- 
járam com as náos de D. Jeronymo Cou- 
tinho na Ilha de Santa Helena , que eíta^ 
vam alli tomando carga , que fe lhe dava 
com muito gofto pela liberalidade com que 
compravam tudo. A galeota foi entrar a 
barra , e o noíTo Embaixador defembarcou 
com os Embaixadores do Achem pelas mãos, 
e acompanhado dos Portuguezes , e de mui- 
ta gente, que EIRey mandou aòs receber, 
e trataram com elle , que agazalhou os nof- 
fos hofpedes com muitas honras , e aos 
feus conforme a leu coílume. E dando-lhe 
Couto. Tom. ult. Kk os 



514 A ST A de Diogo de Couto 

os feus Embaixadores relação de fua em- 
baixada 5 e do bom aviamento que o Con- 
de Vi Íb-Rey lhe dera , e das honras que 
lhe fizera , e o prefente que lhe mandava, 
ficou tão obrigado , que não fabia que hon- 
ras , e gazalhados fizelíe aos noífos. Onof- 
fo Embaixador , que era homem efperto, 
vendo as obrigações que aquelle Rey mof- 
trava aos Portuguezes , e fentindo nelle lí- 
tio , e inclinação pêra lhe conceder tudo 
o que lhe pedifíe, eílando hum dia fó com 
EIRey, ecomolingua, lhe diíle , que pois 
moftrava ter tantas obrigações aos Portu- 
guezes, e fabia muito bem quanto ellesde- 
fejavam de confervar fua amizade, quefem- 
pre lhe havia de fer de mais proveito , co- 
mo vizinhos , que não a dos eílranhos, que 
era tempo de o moílrar por obras. Que 
lhe fazia afaberque aqueiles coíTairos , que 
eitavam na barra , que eram piratas , e trai- 
dores alevantados contra o feu próprio Rey, 
e Senhor : que pois fe dava por tamanho 
fervidor, e amigo de EiPvey de Portugal, 
que nas mãos tinha hurna occafiao , em que 
ç> poderia bem moílrar. Eíta era, que poi$ 
aqueiles homens corriam tão* familiarmen- 
te com elle , e em fua terra , que folie com 
elJes com o mefmo termo ; e que convi- 
daífe hum dia o Capitão Mor das náos com 
ps prinçipaes delias, e que no banquete os 



Década XII. Cap. IX. 5-15* 

mataíTem. E que mandaífe ter preftes ai\r- 
mada , que determinava de mandar contra 
o Rey de Jor 5 que era de mais de cem 
embarcações , e que commetteíTe ao meímo 
tempo as náos , e as tomaílem com todo 
o recheio, e cabedal que tivefíem, que era 
muito. E tantas coufas lhe diííe efteAlfon- 
íb Vicente a EIRey 5 e tanto lhe facilitou 
o negocio , que o rendeo , e veio a conce- 
der o que quiz. 

Epera iito mandou logo negociar a Ar- 
mada com a mor diííimulaçao que pode, 
com lançar fama de a mandar contra o Rey 
de Jor , pêra contra quem os mefmos Hol- 
landezes fe lhe tinham offerecido pela car- 
ga de huma náo de pimenta , que promet- 
tèra por iíío. E corno teve tudo preftes , 
convidou o Capitão Mor Hollandez pêra 
o dia aprazado , do que fe elle efcufou por 
indifpoíto ; mas mandou hum fobrinho feu 
com os mais honrados da lua náo. E es- 
tando embebidos no banquete , deram os 
Achens nelles , e matáram-nos ; e no mef- 
mo tempo fahio a Armada toda , e cora- 
metteo as náos com grande fúria. Vendo 
os Hollandezes aqueile fobrefalto , não ti- 
veram outro nenhum remédio melhor , que 
largar as velas ? e irem fugindo , e a Arma- 
da apôs eíles ate lhe defapparecerem , dei-» 
xando a fazenda que tinham em terra , e 

dous 



^ió ÁSIA de Diogo de Couto 

dous pataxos que eftavam em differentes 
portos , que logo EIRey mandou tomar. 
Os Hollandezes foram fua derrota até o 
rio de Queda , onde íe recolheram , e re- 
formaram. E porque lhes ficava pouca gen- 
te nas náos , porque perderam em terra 
mais de íincoenta peiToas , foi-lhes necefla- 
rio defpejar a náo mais pequena , e palia- 
rem tudo a outra , em que fe foram na 
derrota de Maçulepatao , e foram-fe per- 
der no macareo de Tanaçarim. E affim def- 
tas duas náos não efcapou coufa alguma. 



Fim da Década Ultima. 



PLEASE DO NOT REMOVE 
CARDS OR SLIPS FROM THIS POCKET 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 



DS Barros, João de 

4J-1 Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 

B275 
1778 
v.12 



i 

O.IS 





o 
ó 



02 
o 

00 



3 
o 
o 



o 
lai 

Q 



BB 

d 
M 
li 



O 
- 



CM 



r-4 

d 






UNIVERSITY OF TORONTO 
LIBRÂRY 




Acme Library Card Pocket 

Under Pat. " Ref. Index File." 
Made by LIBRARY BUREAU 



IfiiisijíÉl 
PHWHHÍB 



íwMSbSESSR 



SÈ 



Wsgà 

WÈÊm 



«B 



iHh